I work with death and related
22 Was even more and much more besides
Notas iniciais
A mulher não parava de sorrir enquanto observava a sua filha e a mim.
Sem olhar, Rachel pôs a mão sobre a minha e apertou-a. Era difícil segurar as emoções de Rachel. O que ela sentia, eu sentia. Eu estava sendo a âncora dela naquele momento, se eu cedesse, ela se afogaria em suas próprias lágrimas. Estava sendo complicado lidar com essa conexão de mão dupla. E aquela porcaria só estava começando.
Talvez chamar a mãe de Rachel tivesse sido um erro. Alguns de seus amigos tinham morrido, e eu chamo outro morto pra ajudar a lidar com situação? Eu sou uma anta mesmo. Mas já estava feito. Eu só podia assistir o resto se desenrolar.
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Eu daria um soco em Jon de tanta emoção que eu estava sentindo. Eu o sentia segurando as minhas emoções. Por favor, não ceda agora, eu pensei. Seria muito patético se eu me desmanchasse em lágrimas. Ele foi meio estúpido de chamar a minha mãe aqui, chamar um morto pra lidar com o luto, grande idéia seu idiota. Mas... eu meio que precisava daquilo. Ela estar ali mais uma vez, me fez gostar ainda mais de Jon. Mas eu não gostava dele daquela maneira, eu tinha certeza disso.
Minha mãe semicerrou os olhos e deu um sorrio taciturno. Senti meu rosto ficar quente e vermelho, e olhei para baixo. Eu segurava a mão de Jon com firmeza. Tentei soltar, mas eu não conseguia, não queria.
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Eu não estava gostando nada daquele sorriso.
– Rachel... ele é seu... – a mãe dela abriu ainda mais o sorriso.
– Não! Ele é meu amigo – Rachel disse com ênfase como se tivesse que confirmar para a mãe.
– Se é assim então, posso dispensar a baboseira. – De repente, ela enrijeceu as costas e seu rosto assumiu uma expressão simpática – Oi amigo da Rachel. Sou Helena, e você é? – ela levantou uma sobrancelha.
– Jon Fuller – eu respondi.
– Arkanian – Rachel falou em tom de correção. – Seu sobrenome é Arkanian. Teu tio não te contou?
Eu meneei com a cabeça.
– A-Arkanian?! – Helena gaguejou. – Você não seria... – agora sua expressão era de pânico.
– Sim, Helena Harper – Rachel suspirou – Ele é a próxima Morte. Foi ele que te chamou aqui. Não que eu concorde com isso.
– Se ele é a próxima Morte... e você pode ver e falar comigo... então vocês dois... – o dedo esticado de Helena alternava entre mim e Rachel.
– Sofrendo de um caso grave de Laço de Almas. Não que a gente goste disso – Rachel e eu dissemos em uníssono. Nos olhamos embaraçados.
– Para de falar, Jon. Isso só ta complicando a nossa situação – Rachel reclamou.
– Situação?! Que situação? Só estamos conversando com a sua mãe – retruquei.
Fitei novamente Helena, que olhava-nos como se estivesse se divertindo com um misto de satisfação. Foi a minha vez de sentir-me embaraçado.
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– Eu falei – a expressão na cara de Jon me divertia. – Minha mãe torcia pra eu começar a namorar logo.
– Eu ainda torço – minha mãe torceu o nariz. – Não que eu ache que ele seja um bom candidato.
Se eu pudesse tocar a minha mãe, eu a socaria naquele momento. Quem em sã consciência acharia que a Morte encarnada seria um bom candidato a namorar (não que eu ache Lisbeth maluca). Existia um pouco mais meio milhão de moleques da minha idade no Limbo, então não estava muito preocupada em procurar um desses babaquinhas. Se eles quisessem, ele que viessem até mim. Tinha minhas próprias preocupações. Bom, é lógico em comparação com os meninos, tínhamos 20% a mais que eles em população, sendo assim, eu não podia dar bobeira caso aparecesse um no meu jardim de relacionamentos com o sexo oposto, que mais parecia um deserto. Mas com toda a certeza, Jon “Fuller” Arkanian não estava entre esse meio milhão de garotos que eu poderia namorar. Ele estava entre o meio milhão de garotos que poderiam ser meus melhores amigos.
– Ele já ta namorando a próxima Vida. – falei sem muito entusiasmo – Então pode tirar o seu cavalinho fantasma da chuva, Helena.
– Mesmo que em parte isso seja bom, eu ainda queria que a minha filhinha namorasse alguém logo. – o corpo fantasmagórico da minha mãe se sentou com um pequeno estrondo – Você é tão anti-social.
Ouvi Jon segurar uma risada, e lancei meu melhor olhar de penitencia sobre ele. Não pareceu adiantar. Do nada, senti vontade de rir também. Aquela droga de conexão estava me irritando.
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A irritação de Rachel era quase palpável.
Os temperamentos das duas conselheiras eram quase irmãos.
Subitamente, a expressão de Helena se tornou sombria, e seus olhos iam de um lado para o outro alertas. Eu já estava achando que ela era mais um camaleão do que uma pessoa.
– Pessoal, vocês sabem que Hayt não vai parar, não é? – Helena perguntou. Assentimos pesarosamente. – Agora, vocês vão ter que cuidar um do outro. Seu Laço de Almas vai ser umas das coisas que decidirão essa nossa pequena guerra civil.
Nos olhamos por um segundo. A idéia de não me separar de Rachel era incômoda e inconcebível, tudo ao mesmo tempo. Seus olhos e sentimentos me diziam a mesma coisa. Nós não gostávamos um do outro daquela maneira, nem fudendo.
Fitamos Helena novamente, que desta vez não estava sorrindo, mas com uma cara de quem não tinha entendido nada.
– Há quanto tempo vocês dois tem essa ligação? – ela perguntou.
– Acho que uns dois meses? – perguntei para Rachel.
– Acho que sim – ela respondeu com uma pontada de nervosismo.
Helena levou dois dedos aos cabelos castanhos escuros, e levou um punhado para trás da orelha. Seu rosto transparecia preocupação.
– O Laço já está tão forte assim... – seus olhos verdes eram pensativos – Vou ter que perguntar pra uns mortos o que fazer – ela falou com toda a naturalidade do mundo.
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Eu não queria que ela já estivesse indo embora.
– Mãe... – minha voz afinou um pouco – Já está indo embora? – perguntei.
– Tenho que ir – ela se levantou e estralou as costas. – mesmo morta tenho trabalho a fazer.
Eu suspirei. Era difícil dizer adeus para a minha mãe novamente. Como se ela lesse meus pensamentos, Helena se aproximou de mim. Disse palavras que nunca mais ouviria novamente, e desapareceu junto ao vento.
Me senti desorientada, depressiva. Eu sentia o calor do corpo de Jon ao meu lado, e afundei o rosto em seu peito em meio a lágrimas. Ele cedeu um pouco. Ele afagava meus cabelos carinhosamente, sentia suas lágrimas baterem contra meu couro cabeludo. Aquilo não me incomodava.
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Ela não se incomodava de eu estar chorando sobre ela.
Eu só sabia o que ela me deixava saber, e ela sabia tudo o que eu não queria deixar ela saber. A partir daquele momento, nossos sonhos seriam os mesmos. Era estranho e ao mesmo tempo ser tão natural eu e ela ter essa ligação: sentimentos; e logo mais pensamentos e estado físico. Sentíamos como se pudéssemos ficar ali embaixo daquela árvore para sempre.
De repente, Rachel começou a rir.
– Você acha que daríamos bons namorados? – ela perguntou com a voz meio abafada.
– Err... não sei. – ele me respondeu enquanto suas bochechas coravam.
– Por quê? – eu levantei a minha cabeça e encarei aqueles olhos negros.
– Não sei – ele olhou para o lado por um momento mas voltou a olhar para mim. – Porquê nunca tentamos – eu ouvi sua voz, mas sua boca não havia se mexido. Mas que mer... pensei.
Eu estava ouvindo os pensamentos dela, e ela os meus. Por alguma razão isso não nos assustou, não recuamos. Nos aproximamos mais, nossos narizes estavam a poucos milímetros de se tocar.
– Você gosta de mim... daquele jeito? – ela perguntou.
– Você... gosta? – ele perguntou também.
– Eu... eu – olhei nos olhos dele, e me entreguei.
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Nós dois nos entregamos um ao outro. Nos beijamos com uma intensidade que nunca imaginávamos existir antes. Quando soubemos do Laço de Almas, não sabíamos que tipo de sentimento tinha começado aquilo. Mas ali, naquele momento, sabíamos exatamente qual era o sentimento. Nada mais existia ao nosso redor. Tanto quanto nossas preocupações passadas e preocupações futuras já não existiam mais. Nenhum de nós dois queria deixar o outro ir.
Eu (Jon) e eu (Rachel), não gostamos um do outro daquela maneira.
Não, era ainda mais e ainda mais além.
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