I work with death and related
23 Explaining to the dead
Notas iniciais
Estava sendo difícil manter o nosso segredo.
Desde que Rachel e eu nos beijamos (só havia acontecido isso, eu juro), era complicado me controlar perto dela. Parecia que, desde que descobrimos o sentimento que era a base do nosso Laço de Almas, tudo em nosso relacionamento se intensificou e se multiplicou. Tanto o sentimento quanto o nosso desejo um pelo outro. E aquele conselho de guerra só estava piorando as coisas.
Dois dias depois do ataque a Arce Invictum, a rainha decidiu que era hora de se mover. Com um mapa estendido sobre a mesa, generais, Mary, Holly, Rachel, meu tio e eu, tentávamos chegar a um consenso de qual era a melhor estratégia.
— Se montarmos uma base avançada aqui, Hayt com certeza ira esmagá-la! Perderemos homens e provisões à toa. – William esbravejava, apontando para um ponto do mapa.
— Então onde recomenda que posicionem nossas tropas? – indagou a rainha.
— Perto das principais estradas, para que controlemos essas vias.
— A lógica dele é inegável, Mary. Talvez devamos escutá-lo – Rachel de um passo a frente.
Ao vê-la, meu coração ribombou. Ela tentava não olhar para mim, para tentar controlar seus desejos. Era tão complicado para ela quanto para mim.
— Puta merda, Jon! – ela exclamou em seus pensamentos – Para de olhar pra mim. Temos que nos concentrar.
— Tá, desculpa. É que é meio complicado fazer isso. – pensei olhando para o mapa.
E o resto da reunião transcorreu assim. Os adultos bolando estratégias, e nós dois parecendo duas crianças brigando consigo mesmas para não perder o controle.
Eu não ouvi os pensamentos de Rachel, mas provavelmente ela teve a mesma idéia que eu tive. Ela saiu disparada para fora, sem nem se despedir de ninguém. Aquela sala era pequena, e tudo o que não precisávamos naquele momento era ficar respirando os feromônios do outro. Eu saí da sala, mas não a vi em canto algum. Provavelmente, eu iria me arrepender daquilo, mais eu precisava de um dos expressos da cafeteria do Martin. Onde aquele moleque se meteu?, me perguntei. Tinha um pressentimento que ele estaria atrás do castelo, talvez tentando espiar alguma garota que andasse por lá.
Eu estava chegando numa curva fechada atrás do castelo quando senti duas mãos me agarrando rudemente. A pessoa me puxou contra ela, e me tascou um beijo na boca. Tinha que confiar menos nos meus instintos. Não era Martin (cruz credo!), nem Lisbeth que estava lá. Mas sim Rachel. Eu não precisei olhá-la de corpo inteiro para saber quem era. Se antes nosso desejo era enorme, naquele momento ele estava fora de controle. Puxei sua cintura contra a minha e ela levou suas mãos ao meu rosto. Apenas um minuto depois conseguimos parar de nos beijar como dois adolescentes indo para o baile de formatura.
Eu fitei os olhos esmeralda de Rachel, e arfei um pouco. Se Devan e Nylla haviam chegado naquele ponto da ligação, como eles poderiam se controlar sendo que um não poderia desgrudar do outro, bem como Rachel e eu estávamos sendo obrigados a fazer?! (ordens da rainha).
— Como eu vou me segurar se você não para de pensar em mim? – Rachel disse com palavras, não pensamentos. Seus dedos deslizaram para trás das minhas orelhas.
— Não tem como eu parar. – respondi.
— Tua tia ainda não voltou do mundo humano?
Eu meneei com a cabeça.
— Já vi que essa noite vai ser difícil – ela disse com sorriso meio comprimido.
— Assim como as duas últimas – meus olhos correram seu rosto e mais abaixo.
— Nem. Pense. Nisso – ela avisou. Era meio difícil me controlar com ela estando tão perto. Ela usava uma camisa de flanela vermelha e preta com as mangas puxadas até o cotovelo, uma camiseta do Nirvana, e uma calça preta legging rasgada nos joelhos. Nos meus termos, ela estava linda. A nossa primeira noite fora a mais difícil. Como Rachel não tinha mais a sua cama, ela estava dormindo no sofá e eu num colchão no chão frio. A proximidade deixava-nos loucos. Como explicar isso duma maneira delicada? Nós dois tínhamos vontade de acasalar, como dois coelhos-humanos. Bom, eu não sou humano, mas você entendeu o ponto que eu quero chegar.
— Acho que já beijei você mais do que beijei Lisbeth em dois meses de namoro.
— Sério?! Você me fala da sua namorada, quando estamos a beira de arrancar a roupa um do outro. – ela revirou os olhos
— Foi mal, saiu da boca pra fora. Agora a boca dessa Morte aqui é um túmulo a partir de agora.
Ela riu. Lisbeth nunca rira das minhas piadas. Rachel me deu um selinho e levou seus cabelos para trás da orelha com alguns dedos.
— Pelo menos é um tumulo que não fede. – eu comecei a rir, e coloquei a mão na frente pra abafar o som escandaloso.
Lisbeth não conseguia me fazia rir assim, nem em seus melhores dias.
— Devíamos contar a Lisbeth. – as mãos dela apertaram meus ombros. – O que estamos fazendo não é certo... – seu olhar ficou mais distante. – Nós temos que ir. Isso. Vamos agora. – ela falava com confiança, mas ela não sentia nem um pingo disso.
— Não. Eu vou. Se você estiver lá, Lisbeth te esgana.
— Mas... – Rachel protestou.
— Sem “mas”. Também você tem que cuidar de umas coisas, não é?
— Você tem que parar de ficar fuçando na minha cabeça. – ela disse em seus pensamentos.
— Não é culpa minha você ficar tão obcecada com um assunto. E você ainda reclama de eu ficar pensando em você.
Rachel torceu o nariz e o canto direito da boca se encrespou num meio sorriso.
— Pelo menos tenho mais controle que você. – Suas cordas vocais voltaram a trabalhar.
— Falou a pessoa que tem que extravasar logo depois que tomou pressão.
— Isso é culpa sua. – os braços dela enlaçaram o meu pescoço, enquanto ela ficava na ponta dos pés, ficando da minha altura
— Culpado. – E a beijei como se a minha vida dependesse daquilo.
Demorou cinco minutos para que largássemos um do outro.
Nós outro cinco minutos indo para o quarto de Lisbeth, eu me torturava por fazer aquilo com a filha da Vida.
Eu deveria ter segurado Rachel quando ela havia dado as costas para mim, na festa de aniversário. Assim não estaríamos naquela situação. Eu não queria mentir para Lisbeth. Eu gostava muito dela, porém... eu não a amava. Eu sei, é brutal quando alguém te diz isso, mas é melhor dizer do que continuar mentindo para a pessoa e para si mesmo. Eu já havia pensado muito naquilo, e conclui que o que sentia por Lisbeth era apenas atração, não amor. Amor não se ganha numa bandeja de prata, para ter amor, é necessário merecê-lo. E eu não merecia o amor de Lisbeth, eu não havia feito nada para isso. E não estava disposto a querer merecê-lo, apenas queria merecer sua amizade. Só isso já bastava para mim. E como saber que o que eu tinha com Rachel era amor, e não apenas atração por causa da ligação? Porque amor era o sentimento base do nosso Laço de Almas. Nós sabíamos disso, e queríamos fazer esse sentimento valer a pena. Queríamos vivê-lo.
Eu ergui o punho para bater a porta de Lisbeth, mas parei no meio do caminho. Pensei em como Lisbeth ficaria ao saber que eu havia desistido de nós.
— Se você pensar nisso, só vai piorar. – ouvi os pensamentos de Rachel em minha mente – Eu vou estar aqui com você.
Mesmo com ela falando isso, não me sentia mais confiante.
Eu bati três vezes na porta. Ninguém atendeu. Eu bati outra vez, e nada. Chamei o nome de Lisbeth e encostei a orelha na porta. O silêncio era absoluto. Mexi na maçaneta. A porta estava destrancada. Decidi abrir. Eu olhei o chão e tinha roupas e cacos de vidros nele. Olhei em volta, e estava tudo revirado, como se duas pessoas tivessem lutado ali. Olhei a maior janela do quarto, quase vomitei o meu café da manhã. Encarando ali, a pura e horrorosa precisão, chamei Rachel em meus pensamentos.
— O quê? – ela perguntou.
— Acho que é melhor você vir aqui. Aproveita e trás a rainha.
— Por quê?
— Não pergunta. Só vai logo!
Não dava para explicar por pensamentos. Eu tombei de joelhos e senti as lágrimas subindo aos olhos. A profecia estava começando a se cumprir. Um perderá aquilo que mais amou, o outro perderá aquilo que é seu oposto. Eu havia perdido aquilo que era meu oposto. Eu sabia quem havia feito aquilo. Meu pai. A raiva veio junto com as lágrimas. Eu não posso perder o controle, eu não vou perder o controle, eu pensava. Dava pra sentir o ar ao meu redor quase congelar e tudo ficar mais escuro.
Lisbeth estava de braços abertos, presa na parede pelos pulsos, com um grande buraco onde estaria o coração.
Lisbeth não conseguia me fazer rir, nem em seus melhores dias. Nem nunca mais ela poderia.
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