I work with death and related
24 The Fox and the Wolf
Eu deveria saber que aquele dia não seria normal. Mas como eu fui tão ingênua. Não existiam dias normais no Limbo. Aquele sonho, ele me dizia que algo iria acontecer. Senão, qual o motivo de eu sonhá-lo.
A parede branca de mármore deslizava sob meus dedos. Como eu adorava aquela fortaleza, eu havia crescido ali. Brincado ali, tive meu primeiro beijo ali prensada contra sua onipotente presença, até mesmo desferi meu primeiro soco na face de alguém dentro daquelas paredes. Não existia tempo melhor do que o fim da tarde. Alguns fachos de luz ainda iluminavam a parte de dentro, e por fora o branco assumia um tom bege. Me sentei e me escorei contra a parede. Passei os dedos novamente pela parede, descendo, até chegar na grama. Fresca e úmida, como se ainda fosse de manhã. Me perguntava se aquilo fosse mais uma das minhas viagens não voluntarias para o passado de Devan, pois não reconhecia alguns pontos em especial da fortaleza.
Olhei para a esquerda, somente a vastidão sem fim. Preguiçosamente me virei para a direita. Meus olhos paralisaram na hora. Senti meu corpo ficar rijo, e engoli em seco. Devan, com sua costumeira camisa preta, cabelos bagunçados, com olhos um pouco perdidos, estava sentado bem do meu lado. Dava para ouvir sua respiração ressonar, e por baixo da camisa, ver alguns músculos se retesando e relaxando.
— Sabe, de vez em quando só queria ser deixado em paz – ele desabafou olhando diretamente em meus olhos.
Meu sangue gelou na hora. Como ele sabia que eu estava ali? Isso era impossível!
Senti uma segunda respiração em minha nuca, fazendo meus cabelos se eriçarem.
— Se de vez em quando você parasse pra pensar no que faz, talvez ele te deixassem em paz. – Era a voz de Nylla. Soltei um suspiro de alivio. Eu ainda não existia para eles.
Me virei e fitei Nylla. Continuava tão bonita quanto eu me lembrava. Um rápido flash passou pela minha cabeça. Ela trajava uma armadura toda suja de respingos de sangue. Seus cabelos soltos estavam imundos de terra e lama. E seu rosto sujo de fuligem e pequenos cortes encarava Devan com amargura. Ele brandia sua foice negra com certo orgulho, mas seu olhar não ostentava nada disso. Somente um misto de tristeza e arrependimento. De súbito voltei ao sonho.
— Eu sei o que eu quero. O trono é meu por direito. Eu sou o mais velho! – Devan jogou os braços para o alto, quase pulando sentado.
— Por 12 segundos. Isso não conta em nada na sucessão. – Nylla abraçou os joelhos. – E você é muito imaturo e instável pro cargo.
— Precisa repetir o que o meu pai falou? – ele a olhou com um rosto condescendente.
Sentia-me um pouco espremida entre os dois, então engatinhei para frente e me sentei de frente para os dois. Era uma visão de certa forma bonita. Os dois formavam um par até que interessante. Imaginei se era aquilo que as pessoas veriam quando Jon e eu começássemos a andar juntos em publico. Um arrepio subiu a minha espinha e uma fagulha de saudade faiscou dentro do meu peito. Pense em outra coisa Rachel, pense em outra coisa. Se pensar nele, vai ficar parecendo uma menininha carente.
— Você não quer o trono. Você não quer ser mais um Aspecto – Nylla falou baixinho, se resguardando.
— Pseudo-Aspecto – ele retrucou.
— Dá no mesmo – ela desvencilhou as pernas dos braços e se arrastou para perto de Devan, se aconchegando no peito dele. – Mas mesmo assim, você não pode fazer essa escolha?
— Não. Apenas Aspectos completos podem fazer isso. E pra isso meu irmão teria de dar sua metade para mim. É ai que vem o impasse – Devan se acocorou na parede branca e passou os dedos por entre os cabelos da garota. – Ele não vai querer abdicar do trono, e nem meu pai me concederá seu demiurgo. Então, a única forma de eu virar um Aspecto completo, seria...
— Nem pense nisso! – num reflexo Nylla se levantara apoiando-se nos joelhos de Devan, encarando os olhos vermelhos dele. – Nunca mais cogite fazer isso. Vamos encontrar outro jeito.
— Ninguém quer ser a Morte. Ninguém irá querer. Ver todos os dias aqueles que tiveram uma vida mais plena ou mais miserável que a sua! Escutar todos aqueles gritos, que nunca alguém poderá contar! Ou, se preferir, ser tão “instável”, palavra que você gosta tanto de usar para me descrever, que ao mínimo de perturbação da sua sanidade, você vira um maníaco homicida, caçando e digamos, adiantando, a hora da morte!
O som da mão de Nylla estapear o rosto de Devan ressoou em meus ouvidos. Ainda me era estranho ser apenas uma espectadora nessas visitas ao passado. Esfreguei a minha perna e me ajeitei na grama. Discussões e tapas. Isso sempre ganha as atenções.
A mão que desferira o tapa não havia se retirado da bochecha de Devan. Nylla levantou a outra mão e foi de encontro a outra bochecha, mas dessa vez apenas para acariciá-la. Ela puxou o rosto dele de encontro ao dela e colou seus lábios nos dele. Ela passou os braços sobre o pescoço dele e o abraçou. Devan envolveu o tórax da garota com seus braços fortes, levantando-a um pouco. Era assim que Jon e eu ficávamos quando... você sabe! Eu não preciso entrar em detalhes, você também já fez e sabe dos detalhes sórdidos. Eles se soltaram e respiraram fundo. Os dedos dela faziam rolinhos com os cabelos de Devan.
— A gente vai achar um jeito. Não pense que vamos morrer e ai finalmente você ficará livre de mim. Promete que vamos achar um jeito? Me promete?
— Eu prometo – Devan a apertou contra seu peito e descansou a cabeça no ombro dela.
Curtindo nosso pequeno drama? Uma voz seca ecoou entre meus pensamentos.
O ar esfriou, quase como quando Jon por pouco perdeu o controle. Ouvi passos atrás de mim, e me virei quase imediatamente. Eu não acreditei. Outro Devan, mais velho, maior e mais forte caminhava em minha direção. Ele olhou diretamente para mim. Ele sabia que eu estava ali. Ele parou, ficando a dois metros de distancia de mim, puxou um pouco mais da camisa social preta nos cotovelos e pôs as mãos nos bolsos da calça. Olhei de volta para o outro lado. O jovem Devan e Nylla ainda estavam lá, parados, como se congelados no tempo.
— Hum, como eu era ingênuo naquela época. Achando que só nós dois poderíamos mudar as regras do Criador. Como éramos crianças. – seu olhar se desviou de sua versão mais nova e se voltou para mim. – Sabe, eu não gosto muito dos outros bisbilhotando o meu passado. Ainda mais, essa parte
— Como você está aqui? Como tá falando comigo?! – indaguei – Você não poderia me ver!
— Mesmo morto, ainda tenho certa influencia nesse reino. Presentinho do meu amigo Rellus, Aspecto do tempo e do destino. Bacana ele, dar esse presentinho para os futuros portadores do demiurgo da morte. Mas você – ele apontou para mim – não é um Aspecto, nem mesmo um pseudo-Aspecto. Não vou dizer abominação porque também já tive o desprazer de receber esse apelido, entre os outros Aspectos.
— Por quê? – firmei meus pés e fechei os punhos. Mesmo diante da Primeira Morte, não poderia parecer fraca.
— Eles não aceitaram muito bem de eu e meu irmão termos divido o demiurgo do meu pai em dois. Achavam que éramos muito perigosos separados. Bem, pelo visto estavam certos. Todo esse poder – suas mãos se incendiaram em chamas negras com contornos vermelhos – concentrado, sem nada para balancear é muito “instável” – ele soltou uma risadinha fraca.
— Eu não tô nem ai pra como te chamavam. Eu quero saber o por que dessa guerra.
Seus olhos rubros faiscaram. Minhas unhas começavam a entrar na carne da minha mão. Ele tinha uma presença intensa, era impossível negar, quase sedutora e de se causar medo ao mesmo tempo. Por um segundo pensei que ele fosse avançar contra mim, num acesso de fúria. Mas ele apenas ficou ali, parado, como se me estudasse. Sua cabeça se inclinava um pouco para os lados, e seus olhos cerravam um pouco. Ele estava curioso. Era estranho ele ter curiosidade por mim, o tipo de pessoas que ele via todos os dias, vivas e mortas.
— Isso minha pequena raposa, você terá que descobrir. Já que você é tão boa atriz. – o canto da boca dele se encrespou num meio sorriso.
— Do que você está falando?
— Você tinha de fingir ser amiga do seu querido Jon, não é? – ele se aproximou rapidamente. Daquela distancia, ele era apenas uma cabeça maior que eu.
— Está falando besteira. Eu nunca menti para Jon – respondi. Juntei o máximo de coragem possível e encarei Devan. Eu não podia hesitar, não podia fraquejar.
— Ah, mas você sabe sim. Ta tudo aqui, – ele encostou o dedo indicador na minha testa – Você vê meu passado, e eu vejo o seu. Você nunca mentiu para ele, pois nunca teve a chance. E agora, você é compelida a não mentir, não dá mais. Sua ligação com ele é muito forte.
— Isso foi antes! – percebi que um pouco de raiva emanava da minha voz. Fiquei preocupada em perder o controle e deixar as minhas emoções responderem, não a calma e a lógica. – Eu nem conhecia ele!
— Mantenha seus amigos perto, seus inimigos mais perto ainda. Essa era a sua missão. Observar, aprender. Matá-lo se preciso algum dia. E essa missão continua em vigor.
— Cala a boca! – gritei a plenos pulmões – Ele não é como você!
— Ah, pequena raposa. Ele é exatamente como eu. Ele é um lobo. Ele é a Morte, o caçador perfeito. Não importa o quanto você corra ou fuja, a morte sempre te acha. Mas você continua a acreditar que ele é uma ovelha inocente, ignorante aos perigos do mundo além da Arce Invictum. Algo que você tem com grande apreço. – Devan se inclinou um pouco, até seus olhos ficarem frente a frente com os meus – Vou te contar uma coisa. Você não pode correr com as outras raposas e ainda caçar com o lobo. E você sabe como é ser um lobo, melhor do alguém que não é um Arkanian jamais saberá.
Recuei dois passos, ainda encarando Devan. Sentia meu coração acelerar, a respiração ficar pesada. Garras gélidas invisíveis se apertavam em volta do meu pescoço. Eu sentia ódio dele. Era um ódio destilado que eu sentia faiscar em meus olhos. Senti meu sangue deslizar pela palma da minha mão e meus dedos empapados. Só o que eu queria naquele momento era arrancar a jugular dele com as minhas próprias mãos. Eu não entendia muito bem de onde vinha aquela raiva, minha mente se tornara uma bagunça. Tudo o que eu pensava era que Devan deveria sofrer por falar aquelas coisas de Jon.
— Eu vou fazer você engolir sua língua, se não calar a boca!
— Aqui estão eles! Os olhos do lobo! – ele falou entusiasmado. – Deixe-me te mostrar o porque da minha curiosidade – ele segurou firmemente pelos ombros e me virou.
Um espelho de corpo inteiro se materializou na minha frente. O medo assumiu o lugar da raiva. Me olhei no espelho, e tudo que pude olhar foi a mim mesma. Meu rosto havia se contorcido numa carranca raivosa, e meus olhos... meus olhos tinham perdido sua cor verde, o vermelho rubro de sangue havia tomado conta. Eles brilhavam com um brilho assassino. Similar aos que Devan exibia em batalha.
— Esses olhos, minha pequena “loba” – ele disse em tom de ironia. – Eles são o motivo da minha curiosidade. Nunca alguém que tivesse um Laço de Almas com um Aspecto, havia demonstrado poder exercer controle sobre um demiurgo. – Devan deu uma pequena volta em torno de mim. – Eu quero saber o que a torna tão especial.
Então o mundo se dissolveu na escuridão.
Abri meus olhos e levantei-me de uma vez só. Meu corpo estava ensopado de suor, e eu arfava, lutando por ar. Olhei para os lados, eu estava novamente em casa, com Jon dormindo tranquilamente no colchão ao lado, no chão. Senti uma vontade imensa de acordá-lo e abraçá-lo. Mas em vez disso, levantei-me do sofá e fui correndo para o banheiro, procurando o espelho. Ao chegar lá, dei uma guinada brusca e encarei o reflexo. Fitei meus próprios olhos e eles estavam verdes. Mas ainda não estava aliviada. Me aproximei mais, fazendo o meu nariz dobrar na superfície. Percebi pequenas linhas vermelhas recuando timidamente até a pupila do meu olho. Me afastei do espelho e suspirei, sentindo meu corpo tremer. Bati com as costas na parede com um leve baque, e fui deslizando até o chão. Abracei meus joelhos, e comecei a arfar novamente, só que dessa vez por puro pânico. Eu estava ficando como Devan. Me tornando um lobo. E a pior parte disso, era que um ínfimo pedaço de mim queria e gostava disso.
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