Notas iniciais
Vou admitir, tinha abandonado essa história. Na época, não conseguia continuar de um jeito que me fosse confortável. Agora que achei um jeito, vou postar os capítulos ocasionalmente

Aquilo era um pesadelo. Só podia ser um pesadelo.

Um dia que começara tão promissor, acabara na ponta de uma lança. Os guardas da entrada da Arce Invictum, meus amigos, mortos. Quando assumiram o cargo, eles sabiam os riscos, como talvez perecessem. Mas aquilo... Eles não mereciam aquilo. Onde estão eles? Pensei. Já fazia cinco minutos que eu tinha chamado Lisbeth. Eu não queria que eles vissem aquilo, mas era preciso. Principalmente Jon. Era necessário. Para que ele visse a obra de seu pai, o que acontecia quando ele estendia a mão.

Mary chegou acompanhada de uma escolta de soldados. Ela não desviava o olhar nem por um segundo da cena que estava presa nos muros de sua fortaleza, e seu rosto transparecia ódio. Eu me sentia da mesma forma, só que não podia demonstrar, poderia deixar uma impressão que nenhuma de nós poderia governar, pois um governador cheio de ódio é um governador cego. Mary não dominava esse talento de esconder as emoções. Esse era o problema de Aspectos e pseudos-Aspectos: Suas emoções eram muito mais intensas do que o de uma pessoa normal. Meu medo naquele momento era de que se Mary reagiu daquela maneira, como o filho da Morte reagiria?

Jon e Lisbeth chegaram logo em seguida de mãos dadas. Por algum motivo meu estomago se revirou um pouco ao ver isso. Eu não gostava de Jon daquela maneira. Eu tinha certeza. Assim que eles viram os corpos, eles se soltaram. Lisbeth levou as mãos à boca, enquanto Jon tinha uma expressão vaga como se não estivesse ali. Ele não esboçou uma reação, e o ar ao redor dele ficou mais frio. Os pelos da minha nuca se arrepiaram.

– Rachel! — ouvi gritar em meus pensamentos. — Pare ele!

Era a voz de Rillian. Eu não hesitei.

No instante seguinte, eu estava abraçando Jon. Eu não sabia como eu havia feito isso. Eu não me lembrava de correr em sua direção e abraçá-lo. Foi como um reflexo, como se eu soubesse o que fazer, sem saber que eu estava fazendo. O ar gélido foi se dissipando, e a pele pálida do garoto começou a recuperar sua temperatura costumeira. Meu rosto estava encostado em suas costas um pouco largas, dava pra ouvir sua respiração rápida que acompanhava os batimentos do seu coração. Lentamente sentamos no chão, ainda abraçando o filho da Morte. Seu coração foi desacelerando, até que alcançou um ritmo regular. Seus ombros abaixaram-se, e ele tocou a minha mão direita que estava sobre seu tórax.

– Obrigado Rachel — ele sussurrou perto do meu ouvido.

Involuntariamente, meus braços apertaram mais ele, trazendo-o mais para perto.

Levantei o rosto, percebi o que estava acontecendo. Senti minhas bochechas esquentarem e minha pele ficar vermelha como um tomate. Soltei o garoto rapidamente, e me levantei. Ele se tocou dois segundos depois, e fez o mesmo. Olhei em volta, e todos nos olhavam. Lisbeth estava vermelha de raiva e um pouco de confusão em seu olhar. Fitei Jon, que coçava a cabeça e suplicava perdão a namorada.

– Então é você que vai manter meu sobrinho na linha é? – Disse uma voz rouca e arrastada.

William, irmão de Hayt apareceu por de trás de um soldado. Ele me fitou com curiosidade.

– Desculpa Lisbeth! Eu não sei o que aconteceu — tentei explicar a ela. O olhar em seu rosto não era nada amigável.

– Rachel! – a rainha me chamou – De agora em diante, você vai ficar responsável por Jon Fuller, visto que só você pode lidar com ele.

– O QUÊ?! – Jon, Lisbeth e eu reclamamos juntos.

A rainha lançou um daqueles olhares fulminantes, que quando você encara, é melhor ficar quieto. E foi o que fizemos. Menos eu.

– Minha rainha, essa é uma idéia ruim. – argumentei. Jon confirmou com a cabeça – Da última vez que um conselheiro cuidou da Morte, deu inicio a essa guerra.

– E como você sabe disso? – indagou William – Você a levou para o passado com você Jon?

Jon e eu nos entreolhamos nervosos. Dava para ver a fúria no rosto de Lisbeth.

– Err... mais ou menos – Nós dois dissemos ao mesmo tempo.

Mary e William se encararam por um segundo num debate silencioso. Por fim, eles assentiram.

– Então está decidido – Mary falou em tom firme – Você vai ficar responsável por ele. Jon vá com seu tio, vocês tem que conversar. Rachel, comigo. – Sem escolha assentimos desanimados – Tranquem tudo! – ela gritou para os guardas – Ninguém entra ou sai. Redobrem a patrulha nas fronteiras.

Eu não estava gostando de nada daquilo. Nada mesmo.

Se Mary sabia o que aconteceu com Devan e Nylla, por quê ela faria a mesma coisa conosco? Estava cansada de todos os segredos que ela mantinha.

– Vou assumir que você já saiba o que aconteceu com aqueles dois – Mary disse enquanto dava passos rápidos. – Não, não estou tentando fazer você e Jon ficarem juntos, se é o que pensa – aquilo me acalmou um pouquinho.

Mary se esparramou no trono, apertava as têmporas como se sua cabeça fosse explodir. Se aquele não era o objetivo dela, qual era? A única coisa que eu conseguia pensar era que depois da cena que tinha acontecido há poucos minutos, ela queria que eu ficasse de olho no filho da Morte.

– Quer que eu fique vigiando o Fuller? – perguntei mesmo já sabendo a resposta.

– Arkanian. O sobrenome da nossa família é Arkanian. Pode chamá-lo assim se quiser. Ele já mais um pseudo-Aspecto do que um garoto normal. – ela sacudiu a mão. – Sim, quero que fique de olho nele. Mas não é só isso. A segunda razão é porque vocês dois não podem ficar mais separados. Eu não esperava que isso fosse acontecer com vocês.

– Isso o quê?

– Você está conseguindo ver, escutar e falar com os mortos, não é?

Eu não tive reação. Como ela sabia?!

– Vou presumir que sim. – ela se recostou – A sua alma e a de Jon estão se sincronizando. Isso se chama Laço de Almas. Só aconteceu mais quatro vezes desde a Era de Sangue. Você e Jon são a quinta. Não vai demorar muito para os seus corpos fazerem a sincronia.

Eu iria matar aquele fantasma mentiroso! Resquício de poder porra nenhuma! Como Rillian poderia esconder uma coisa dessas?! Mas isso teria que ficar pra mais tarde. Essa historia ainda não explicava o que tinha acontecido. Nunca tinha ouvido falar desse Laço de Almas. Parece conto de fadas (aquelas bruacas eram tão mentirosas quanto Rillian). A parte de nossos corpos se sincronizarem me assustava um pouco. O quê viria? Se eu ficar careca, ele também vai?

– Que porcaria é essa, Mary?

– Isso só acontece quando as duas pessoas têm algum sentimento recíproco, qualquer sentimento, seja ódio, seja amor. Mas suas almas têm que estar em plena compatibilidade, elas tem que ser iguais, em todos os aspectos. Senão, é apenas mais um relacionamento qualquer. Quando a conexão é feita, nada pode quebrar. No começo, vocês vão começar a dividir emoções e sensações. Isso é muito de mau gosto em minha opinião se quer saber. – Ela comentou. Só falei pra ela continuar – No caso de vocês, como Jon é o filho da Morte, você terá o bônus de compartilhar os poderes dele. A segunda parte do Laço de Almas é um pouco mais brusca. Com o tempo, vocês vão trocar pensamentos.

Aquilo não poderia ficar pior. Eu até curto conversar com Jon, mas ter ele ouvindo os meus pensamentos é demais pra mim.

– A terceira parte é a mais drástica – Ótimo, pensei, quando achei que isso não poderia ficar melhor – Vocês vão estar em tal nível de conexão, que seus corpos vão começar a se corresponder.

– O quê? Vai crescer um pinto em mim?

Ela deu um sorrisinho que eu não gostei nada.

– Se você se arranhar, a pele dele vai ter um arranhão no mesmo lugar, se você dormir, ele vai dormir, se uma lança te atravessar, vai aparecer um buraco no peito dele, e vice-versa. Entendeu? Basicamente, vocês vão ser como dois espelhos, um imitando o outro. Então faça o favor de não morrer, senão... – ela gesticulou com a cabeça um etc.

– E algum casal que teve isso sobreviveu à experiência?

– Somente dois. – ela acariciou seus cabelos negros – Devan e Nylla foram um deles.

Mesmo achando isso a maior fofoca de todos os tempos, eu não estava surpresa. Com tudo o que eu tinha visto sobre eles, eu já previa que eles formariam um casal. Eu só não entendia o por quê da ruptura. Para alguns seria loucura ter qualquer tipo de relacionamento com a Morte, mas se a linhagem chegou até aqui com Jon no final dela, tínhamos como provar que a Morte poderia amar. Isso fazia minha pele se arrepiar desde a base da espinha até o último fio de cabelo.

– Mas ainda não vejo como isso se aplica ao que acabou de acontecer – argumentei. – Digamos que Rillian falou pra mim parar Jon. O que esse Laço de Almas tem com tudo isso?

Seus olhos se tornaram mais ávidos do que de costume.

– Você sentiu o que Jon sentiu não é? Por algum motivo você sabia o que fazer para impedi-lo. Se o sentimento envolve afeição, você vai protegê-lo de tudo, até dele mesmo.

Troquei o peso de um pé para outro, e cocei a nuca. Era informação demais pra mim.

– Parece estúpido o bastante pra ser verdade.

Mary fechou os olhos e fez aquela cara de eu tô te falando.

Sem me despedir, caminhei até o pátio. Esperava encontrar os corpos no mesmo lugar, mas eles já haviam sido retirados. Em seu lugar, só havia manchas enormes de sangue, que ainda escorria lentamente pela parede branca. Me apoiei no corrimão de pedra da escada, e pensei em cada rosto que nunca veria mais. Sem mais nem menos, lágrimas brotaram e banharam meu rosto. A cada soluço, meu peito doía. Eu deveria ter previsto isso. Tudo estava muito quieto, quieto demais. Se a Morte tinha se movido, deviríamos saber que ele não pararia por ai. Quando recebi a noticia do ataque a filha da rainha e o filho da Morte dois meses antes, devia ter mobilizado tudo o que tínhamos. Mas agora era tarde. Naquela manhã quando Jon e eu entramos na fortaleza, quando vimos os guardas, eu havia sentido um frio na espinha. Agora tenho certeza que essa sensação tinha vindo de Jon. Imagino se essa é a sensação que ele sente quando alguém por perto vai morrer. Ah, merda. Eu já mal consigo lidar direito com as minhas emoções, e naquele momento em diante teria que lidar com os de outra pessoa

– Sabe, você ficar se culpando pelo o que aconteceu não vai adiantar nada – ouvi a voz de Jon atrás de mim.

Ele ficou do meu lado e se apoiou no corrimão.

– Agora tenho que ficar atenta, porque seu pai não vai parar por aí – eu falei.

– Ele quer a mim. E falo isso só como uma previsão – ele dizia uma coisa, ele sentia outra. Era complicado explicar.

– Agora é você que está se culpando.

– Vou ter que me acostumar a ter você sentindo o que eu estou. Isso vai afetar a nossa amizade?

Eu meneei com a cabeça.

– Você já sabe de todos os estágios? – perguntei.

Ele confirmou com a cabeça. Seus ombros encolheram.

– Acho que ter você na minha cabeça vai ser interessante. A mãe de Lisbeth disse pra você ficar me vigiando, não é?

– Infelizmente sim. Acho que essa conexão vai me ajudar nisso.

Senti ele tocar no meu ombro direito e o fitei, ele acenou com a cabeça pra mim segui-lo. Eu não contestei, porque sabia exatamente onde ele queria ir. Aquela árvore meio que se tornou um ponto familiar para nós dois. Nos sentíamos seguros lá, e só tínhamos ido lá somente duas vezes. Rachel e Jon debaixo duma árvore. Nome ruim para um livro ruim.

Caminhamos juntos sem dizer uma única palavra durante todo o trajeto. Com o tempo, vocês vão trocar pensamentos, Mary disse. Imaginava que tipo de coisa passava na cabeça de Jon naquele momento, talvez ele estivesse pensando em um modo de se explicar com a namorada, pois dava pra sentir seu nervosismo. Fitei seus olhos negros, e uma imagem apareceu. Devan caminhava despreocupadamente com Nylla, do mesmo jeito que nós estávamos fazendo naquela hora. Eu ainda não entendia o por quê deu eu ver somente cenas desses dois, e não de outras pessoas.

– Qual é a confusão? – Jon indagou.

– O quê? – senti meu rosto esquentar – Nada, nada!

– Já vi que vai ser difícil lidar com essa conexão – ele suspirou enquanto seu rosto ficava vermelho.

Nos olhamos e começamos a rir. Essa conexão tinha seu lado cômico. Era incrível como Jon podia mudar o curso do meu dia horrível para uma coisa mais amena.

Durante cinco minutos, ninguém falou nada enquanto estávamos sentados na árvore, estávamos somente sentindo o que o outro sentia. Confusão, nervosismo, era uma dessas coisas. É complicado falar todas as coisas que sentíamos. Mas uma coisa era certa, nenhum de nós dois gostava um do outro daquela maneira. Subitamente, o nervosismo subiu as alturas.

– Eu... eu quero... ah, é difícil falar isso – Jon coçou a nuca – Eu quero chamar alguém aqui! – ele me olhou timidamente – Eu posso?

Quem ele queria chamar? Ele quer dividir esse lugar com Lisbeth? Pensei. Inclinei um pouco a cabeça para o lado, deixando meus curtos cabelos irem para o lado. Comprimi a boca, e olhei seus olhos. Eu assenti preocupada.

– Para de se sentir preocupada! Não vou chamar Lisbeth!

– Tá, vai logo chamar essa pessoa, eu espero aqui.

– Na verdade, eu acabei de chamar.

Uma fina névoa branca se formou sob o solo. Ela subiu e foi tomando forma. Jon chamara um morto. Eu senti um arrepio subir a espinha, fazendo meus pelos na nuca arrepiarem. Parte da nevoa formou um vestido branco, outra parte formou cabelos castanhos escuros e logo abaixo olhos verdes.

Eu prendi a respiração. Senti as lagrimas subindo aos olhos, e a minha garganta fechou. Naquele momento, eu tive certeza, que o que eu estava sentindo não vinha de Jon, mas de mim mesma. O fantasma esboçou um sorriso. Um sorriso que eu jamais esqueci.

– Oi Preguiçosa – ela falou.

– Oi mãe.