I work with death and related
6 Soul Eater
Estávamos na estrada durante umas duas horas, e nesse tempo, ninguém disse uma palavra. Não sei se é por cansaço, ou para evitar conversas desnecessárias. Estava curioso para saber quem é o sujeito que Holly mencionou, mas Sacha censurou essa conversa.
As estrelas já estavam sob nossas cabeças, quando Sacha disse para nós acamparmos no pé de uma colina, perguntei por que não no alto, ela simplesmente respondeu que chamaria a atenção dos caçadores, pois, nesse meio tempo que caminhamos, já saberiam que viemos para o Limbo.
Quando conseguimos montar uma fogueira improvisada, Lisbeth acordou dizendo apenas uma palavra: “Fome”. Reprimi uma risada, mas em questão de cinco segundos meu estomago estava roncando. Eu já tinha comido em casa, mas parece que a viagem ao Limbo esvaziou minha barriga. Sacha percebeu e disse:
– Tem comida na minha mochila Jon. Mas não coma tudo.
Caminhei até a mochila dela e achei alguns hambúrgueres, salgadinhos e um pote de paçocas. Sempre gostei de paçocas, quando comi uma pela primeira vez, achei que estava no céu, depois de uns dois minutos o pote estava vazio e ainda pedia mais. Daquele dia em diante sempre tinha pelo menos, uns dez potes no armário. Guardei aquele pote para outra hora, peguei um hambúrguer e me sentei perto do fogo. Estava com um gosto bom, considerando que estava frio.
Lisbeth veio com a mão na cabeça e se sentou do meu lado, sempre me sinto desconfortável com essa proximidade entre mim e ela, mas não conseguia ficar longe dela muito tempo. A marca em meu braço começou a arder, como se correspondesse ao que estava sentindo. – Controle-se Fuller – pensei.
– Hum. Controle é tudo o que você não tem garoto. – declarou o Primero.
– Não pedi opinião. Mas parando para analisar você tá certo – admiti.
– E sua marca não está ardendo por causa do que você esta sentindo pela garota, é por que a lamina está faminta.
– Como assim, a lamina está faminta? – perguntei com indiferença.
– A espada, que você não tem o mínimo controle, se alimenta Jon.
– Tipo de batatas, salgadinhos e pizza?
– Não! – exclamou – Porque você acha que ela se chama Devoratrix animarum?
– Devora o quê?
– Ah, caramba garoto! Devoradora de Almas!
Nesse momento fiquei atordoado. Levou um momento para eu assimilar a frase que ouvira. Devoradora de almas: esse era o nome da espada que Sacha me dera.
– Então... Quer dizer que vou... – engoli em seco – sabe... Matar alguém para que ela se alimente? – perguntei.
– Não. – ele disse em tom calmo – Ela se alimenta de qualquer tipo de alma, seja de plantas, humana, animais. Ou seja, tudo o que é vivo, tudo o que possuir uma alma, ela devora. – explicou.
– E como você sabe de tudo isso, Primeiro?
– Ela era minha, na época que eu governava. – disse com certo tom de orgulho na voz. – Agora preciso descansar. Só o simples ato de uma conexão entre mim e você já me esgota. Boa noite, garoto.
– Boa noite, Primeiro – me despedi.
As novas informações que me foram dadas martelavam a minha cabeça, durante uns 10 minutos uma única pergunta não me deixava em paz. Tomei coragem e perguntei a Sacha:
– Sacha, por que você me deu a Devoradora de Almas?
Ela virou o rosto em minha direção, seus olhos castanhos estavam arregalados com a pergunta. Mas quase imediatamente, ela voltou à mesma expressão calma, jogou o cabelo ruivo para trás e perguntou:
– Quem te contou o nome dela?
– Um amigo – ainda não era hora de contar sobre o Primeiro. Também, quem iria acreditar?
– Um amigo é? Bom, eu lhe dei ela pela necessidade de proteção. Se eu não conseguisse te proteger, ela conseguiria.
– Ei! – exclamou Holly com um tom de ofendida – Eu estou aqui, sabia Stormgard?
– E que coisa é essa de Stormgard? – eu tinha me esquecido desse detalhe, que ela supostamente iria me explicar.
– Stormgard é meu sobrenome verdadeiro. – disse controladamente, como se tivesse treinado para esse momento – Eu não sou sua mãe, Fuller. – ela nunca me chamou de Fuller – Fui designada para te proteger do seu pai.
– Quem é meu pai? – perguntei com veemência – E por que quer me proteger dele?
– Seu pai é a Morte, literalmente a morte – ao dizer isso, ela estremeceu – e é ele que está mandando esses caçadores atrás de você.
Parecia que tivessem batido na minha cabeça com um taco de baseball, o que seria melhor do que ouvir que, meu pai, meu próprio pai estava me caçando com um animal. Depois de me recuperar da noticia dada falei:
– E quem te designou a me proteger, e Holly proteger Lisbeth são a mesma pessoa que comanda a Arce Invictum, é a Vida?
Sacha e Holly se olharam como se dissessem “descobriram nosso segredinho”. Eu não estava errado.
– Como você sabe disso, garoto? – perguntou Holly num tom exasperado.
– Já disse, um amigo me contou – respondi com veemência.
– E quem seria esse seu amigo, Jon? – perguntou Sacha.
Dei de ombros, não iria contar a ela. Ainda não.
– Tudo bem. Você tem todo o direito de não me falar. Eu escondi tantas coisas de você. – Holly, que parecia pouco interessada na conversa, começou a se levantar, mas Sacha a impediu dizendo – Você também tem coisas a falar com Lisbeth, espertinha.
Holly jogou as mãos para o alto num ato de rendição e disse:
– Mas você é chata hein, Stormgard! Tudo bem. Lisbeth, querida, pode perguntar tudo o que você quiser.
Lisbeth se empertigou no lugar dela e disse:
– Você também não é minha mãe não é?
– Sim – disse Holly.
– Me deixa adivinhar. A Vida é minha mãe, correto?
– Sim.
– Eu e Jon vamos ter que ficar aqui durante muito tempo?
– Se quiserem ficar vivos? Sim.
– Onde está a mãe de Jon?
Sacha e Holly se entreolharam como se ponderassem a melhor resposta. Mas essa pergunta nunca tinha me passado a mente. Se Sacha não é minha mãe, quem é? Onde ela está? Essas perguntas viriam a martelar em minha cabeça por muito tempo.
Depois de alguns momentos constrangedores de silêncio, Holly se pronunciou:
– Ela está com o pai dele, pelo que sabemos.
– Por que ela ficaria com ele, mesmo sabendo que ele está caçando o próprio filho! Ela é maluca? – eu disse exaltado.
– PORQUE ELA MORREU! – gritou Sacha, ela estava prestes a chorar.
– Sacha... – murmurou Holly, dando tapinha no ombro dela. – Fuller... Sua mãe era irmã da Sacha.
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