Eu não a via durante dias, Rachel eu digo. E se eu a via ela dava um jeito de desaparecer.

E os dias se tornaram semanas, e essas semanas se tornaram meses. 2 para ser exato.

– Ela só está tentando dar um jeito nos problemas dela, cara. Apenas isso – disse Martin tirando a lata de refrigerante da boca.

Estávamos numa cafeteria no lado leste de Manhattan, por que estávamos lá? Porque Martin dissera que lá tinha o melhor expresso que ele já vira. Opinião errada, meu amigo. Estávamos sentados numa mesa de frente para uma janela, Martin estava de costas para ela e eu forçado a ficar observando o tráfego de taxis e velhinhas de andador. Martin bicava de 2 em 2 minutos a Coca-Cola, e sempre que uma acabava, ele pedia mais uma. Eu apenas pedi um expresso, para ver que gosto a menininha dos olhos de Martin tinha.

Veio uma garçonete de fones de ouvido nos atender, e destampou a caneta.

– O que vão querer garotos? – ela perguntou olhando uma velhinha do outro lado da rua, que batia com a bengala num rapaz, que sem querer esbarrou na velhota.

Martin pôs os braços em cima da mesa.

– Vou querer outra Coca-Cola e um croissant. E você, meu amigo? – ele se virou para mim ansioso.

– Vou querer um croissant também e... – eu ia pedir um cappuccino, mas Martin me lançara um olhar que parecia dizer: Peça um expresso ou vou ter que te estripar aqui mesmo – e um expresso – Martin pareceu se acalmar.

– Já trago para vocês – ela tampou a caneta. – Tira o pé do estofado, Martin sua besta! – ela lhe deu um tapa na cabeça – Já é a quinta vez que eu te falo!

Martin já havia criado seu status na cafeteria. Não era de se admirar. Ele sempre fora o abestalhado e pamonha da escola. Não seria diferente em outro lugar.

Quando a garçonete trouxe o pedido, Martin fazia uma conexão de canudos, com a uma velocidade de montagem de dez canudos por minuto.

– Aqui – a garçonete pôs o pedido em cima da mesa – Me chamem quando quiserem mais alguma coisa.

– Tudo bem – disse Martin, que já abria o refrigerante. – Obrigado Jane – ele escancarou a boca numa tentativa de sorriso.

Jane revirou os olhos. Olhei para ela e sussurrei um desculpe com os lábios meio comprimidos. Ela sorriu.

– Saio às sete e meia – ela deslizou um pedaço de papel por cima da mesa, deixando-o perto das minhas mãos. Ela se virou e foi embora.

Martin gaguejava: “Como... Você... Como assim”. Por fim desabou em cima da mesa, com as mãos apertando o crânio. Peguei o croissant e dei uma mordida. O queijo derretido estava um pouco quente, mas nada que causaria queimaduras de terceiro grau. Martin pegou o refrigerante e bebericou. Olhei o papel que Jane me deixara, ele tinha o número dela, mas não iria ligar, eu já tinha uma namorada (isso havia sido oficializado a algumas semanas antes). Tomei um gole do expresso e ele desceu queimando a garganta. Achava que já era hora de retomar a conversa sobre Você-Sabe-Quem (desculpa, não consegui resistir à tentação).

– Então... – arranquei outro pedaço do croissant – voltando ao assunto...

– Já disse. Não sei o que ela está fazendo – ele tomou outro gole. – Se ela não quer te ver, ela deve ter seus motivos.

Afundei no sofá. Por que Rachel não queria me ver? Eu havia feito alguma coisa que machucou ela? Eu não sabia qual pensamento era mais absurdo ou mais sensato. Olhei para a rua e vi um casal de mãos dadas sorrindo. Tentei tirar meus pensamentos de Rachel, e tentei focalizar eles em Lisbeth. Sem sucesso. Era estranho. Sempre que eu tentava afastar os pensamentos de Rachel e tentava pensar em Lisbeth, eles retornavam em dobro.

– Quando ela quiser te ver, ela vai te ver, simplesmente assim – explicou Martin que pousava o croissant na mesa depois de engolir um pedaço. – mas acho que vai demorar... – ele fala baixinho.

– Por que pessoas fazem isso comigo? – perguntei-me segurando a cabeça com os cotovelos apoiados na mesa.

– Já se olhou no espelho, Jon? – ele perguntou com uma sobrancelha levantada – Você pode estar mais alto, com o cabelo mais comprido, e mais musculoso. — ele meneou com a cabeça como se estivesse reclamando consigo mesmo – Mas sempre teve uma aura assustadora. Não é a toa que as pessoas evitam contato com você.

– Quem evita falar comigo?

– Ah, tem um montão de gente que te acha assustador. Tem o Tom, o padeiro, – Martin começou a contar nos dedos – a Rebecca, filha do dono do armazém... – e contou outros trilhões de nomes das pessoas que tinham medo de mim.

Nunca pensei realmente no que as pessoas pensavam de mim. Afinal de contas, elas não sabiam de quem eu era filho. Eles apenas sabiam que eu era o garoto que namorava a filha de sua soberana. Talvez pensassem que eu fosse um rapaz rico que conseguiu conquistar com Lisbeth com jóias, presentes, entre outras coisas. Se parar para pensar, eu não havia feito nada que fosse digno de nota. Eu apenas existia. E droga, era tão difícil existir sem ninguém falar que você tem deveres para com todos. Sacudi a cabeça, tentando parar de pensar nessas coisas. Sempre que eu pensava nisso, tinha uma dor de cabeça.

–... tem o Jake, da marcenaria, – Martin ainda estava falando das pessoas que tinham medo de mim – e tem a Tiffany. Acho que é só isso. – ele deu um sorriso satisfeito.

– Então me responda: Se eu sou tão assustador quanto você diz, por que eu tenho uma namorada e você não? – terminei encarando Martin com um sorriso triunfante.

– Esse meu amigo, é mais um dos mistérios da vida – ele levantou a lata num gesto de brinde.

– Concordo – dei uma risada e brindei com a minha lata.

E ficamos conversando como dois garotos normais, numa cafeteria, sobre garotas e como elas iriam nos deixar malucos. E como não poderíamos viver sem elas, afinal de contas seria chato um mundo onde não existissem garotas. E Martin, provavelmente enlouqueceria se não tivesse alguém para perseguir.

Terminávamos de gargalhar, quando Jane veio novamente a nossa mesa.

– Mais alguma coisa? – ela me olhou esperançosa.

– Não. Apenas a conta, por favor. – pedi sem olhar para Jane.

– T-tudo bem, então. – ela saiu desconcertada.

Martin deu uma risada.

– O que foi? – perguntei me ajeitando no sofá.

– Será que... sei lá, poderia me emprestar o número de telefone da Jane? – ele juntou as mãos como se estivesse rezando e deu um sorriso inocente.

– Todo seu – disse antes de jogar o pedaço de papel.

Martin e eu passamos o resto do dia, jogando conversa a fora nas ruas de Manhattan, tentado imaginar qual edifício seria o mais apropriado para praticar bungee jump sem o equipamento (outros nos chamariam de pilotos kamikaze).

Quando o sol já se escondia atrás dos prédios, Martin falou:

– Vamos voltar. Meu pai já deve estar preocupado comigo.

– Tudo bem. Sua mãe já deve ter feito o jantar – Martin olhou pesaroso para o chão.

Então entendi.

– Ah, desculpe-me cara – disse pondo a mão em seu ombro.

– Não, tudo bem – ele deu um sorriso tímido. – Vamos andando.

Voltamos para o Limbo em completo silencio, sem nem mesmo tentar puxar conversa. Decidi deixar essa conversa no esquecimento, e fiz uma nota mental: “Nunca, jamais, tocar no assunto sobre a mãe de Martin”.

Voltei pra casa e Sacha estava cantarolando “One” do Metallica, enquanto esfregava o balcão da cozinha com um pano. Uma coisa que eu admirava na minha tia, era que ela sempre terminava o que começava, sem reclamar e o fazia implacavelmente. Quando ela me viu, sorriu.

– Oi, pode me ajudar aqui? – ela perguntou jogando um pano na minha mão.

Então comecei a esfregar também. Ela continuou a cantarolar com um sorriso alegre.

Quando terminamos, ela respirou fundo, estralou as costas e berrou. Foi impossível segurar o riso. Lembrei-me de Rachel, e de como ela ficou emburrada na festa da rainha. E de como eu me sentia de fato, feliz por estar ali com meus amigos. Sentia falta daquele sentimento.

– Tia – falei – por que Rachel não quer me ver? – ela me olhou como se eu tivesse 6 anos.

– Ela deve ter seus motivos – ela respondeu olhando em volta para ver se tinha mais alguma coisa pra fazer.

– Tudo bem. Mas não a vejo há dois meses – Sacha juntou as sobrancelhas.

– Senta aí. – ela mandou apontando para um banco.

Sacha se sentou com os cotovelos em cima do balcão. Suspirou e me lançou um olhar severo.

– O que você fez pra essa garota? Só pode ter sido muito horrível pra ela te evitar durante dois meses.

Olhei para o teto em busca de respostas. Tentando entender o que fez Rachel agir assim. No final, dei de ombros para Sacha. Ela revirou os olhos.

– É você é um caso perdido mesmo. Não entendo como Lisbeth consegue lidar com você.

– Simplesmente não consigo entender o que fez ela se afastar.

Ela confirmou com a cabeça como se falasse: Eu entendo. Você é um idiota.

– Eu devo ser um idiota. – ela confirmou mais ativamente.

– Um de primeira, eu digo. Mas... Você também é carinhoso. Do seu jeito, mas você é carinhoso. E você se importa com os outros.

As palavras de Sacha são como uma doce canção pra mim, me fazendo acreditar que as coisas iriam melhorar. E continuamos a conversa durante uns trinta minutos. Ela disse que as pessoas, mesmo sem querer, conseguem encontrar um lugar onde se sintam seguras. Esperava encontrar o meu algum dia.

Depois de terminar a conversa, tomei um banho e troquei de roupa. Deitei na cama e fiquei repassando o que falei com a minha tia. Todos têm o seu porto seguro. Fiquei imaginando qual seria o lugar seguro de Rachel. Então uma idéia maluca passou pela minha cabeça. Seria possível?

Sai do meu quarto correndo, e quando passei por Sacha, gritei:

– Volto depois!

Sentia-me um corredor numa olimpíada. O mundo passando por mim era apenas um borrão. Ultrapassava as pessoas sem esbarra nelas. Era como se eu estivesse deslizando no gelo.

Quando cheguei à zona rural, fiquei procurando aquele lugar. Corri mais um pouco, e parei. Procurei de novo. Nada. Corri acho que uns 2 quilômetros. Quando parei, não precisei procurar mais.

Notas finais
Pesquisem sobre os pilotos Kamikaze e entenderão a referencia