I work with death and related
15 So I let her go
Notas iniciais
Sabe quando você se depara com uma situação constrangedora? Eu havia vivido um desses momentos naquele dia.
Depois da cena envolvendo a Srtª Harper (vingança pessoal), Lisbeth havia se isolado na sala de estar, enquanto todos os outros estavam na sala de jantar. Ela usava uma blusa preta e uma camisa branca por baixo, e para completar uma calça jeans com um tênis de corrida. Ela estava sentada no sofá vintage de couro marrom, com um copo de plástico na mão direita, encarando a lareira como se tentasse acende-la com o pensamento (mas com tudo o que já tinha visto, não seria surpresa). Ela se cansou de olhar a pilha de madeira, tomou um gole de sei-lá-do-que como se fosse vodca, e passou a contemplar o teto.
– Chateada com alguma coisa? – perguntei pulando por cima do sofá e me sentando.
– Mas que diabos... – ela praguejou dando um salto do assento. – Ah! É você, Jon – ela sorriu sem animo. – Não me assuste desse jeito.
Ela se sentou de novo, olhando o chão para ver se não derramou nada nele.
– Desculpe-me – eu disse. – Mas, e aí? No que você estava pensando?
– Nada de importante – ela sacudiu a cabeça. – Apenas pensando em algumas coisas idiotas.
Uma coisa que eu sabia de Lisbeth, ela era uma péssima mentirosa. Tinha alguma coisa naqueles olhos azuis que ela escondia. Pus meus pés em cima sofá, e os cruzei como uma criança senta no chão. Eu segurei sua mão e seu rosto enrubesceu e deu um sorrisinho.
– Então divida esses pensamentos com o idiota aqui.
Aí começou a confraternização das futuras Vida/Morte no casarão dos Stormgard.
Lisbeth afundou no sofá e suspirou.
– Só tava pensando em como vai ser as nossas vidas daqui pra frente.
Eu nunca havia pensado realmente em como seria a minha vida, desde que eu cheguei ao Limbo com Lisbeth. Nunca havia pensado em nada alem do objetivo que colocaram na minha frente: matar o meu pai. Era uma idéia simples, mas decisiva. Mas eu teria a coragem necessária para isso, teria eu culhão para realizar tal ato? Eu não sabia.
– O que você acha que vai acontecer conosco? – Lisbeth perguntou, apertando a minha mão.
– Acho que vamos ter que sobreviver a essa guerra para descobrir – respondi dando um sorriso despreocupado.
– E como vamos fazer isso? Como eu vou fazer isso?! – ela exclamou – Nossa! Você tem um corte bem feio aí – ela disse apontando para um corte na minha bochecha do tamanho de um dedo indicador de um adulto.
– O quê? – eu protestei antes de tocar o ferimento, que ardeu como se estivesse em brasa. – Eu não tinha visto isso. Vou pegar uma coisa pra fechar isso.
– Espera! – ela segurou a minha testa com a mão direita. – Posso te ajudar com isso.
Então ela estendeu a mão esquerda em direção ao ferimento. Sua mão irradia um brilho azul hipnotizante. Quando olhei para aquele brilho, me senti como quando eu empunhava a Devoradora. Confiante, altruísta, seguro. É, Lisbeth tinha esse efeito sobre mim. Eu a culpava por tudo, eu agradecia a ela por tudo. Ela sempre vinha a minha mente.
Ela tocou o corte com os dedos, o que causou apenas cócegas. Eu percebi que o ferimento se fechava lentamente.
– É a única coisa que eu sei fazer direito. Cuidar da vida dos outros – Lisbeth disse. O ferimento já havia se fechado, mas ela continuou com a mão em meu rosto. – Cara, isso é muita ironia pro meu gosto.
– Pelo menos é uma ironia boa. Se é que existe tal coisa.
– Queria poder ajudar mais. Gostaria de ser mais do que uma curandeira – ela reprimiu uma risada, e logo depois seu olhar ficou melancólico.
Eu a abracei.
– Você já é mais do que uma amiga pra mim – sussurrei em seu ouvido. – Mesmo tendo convivido tão pouco com você, essa é a verdade. Você é a minha realidade.
Eu a ouvi soluçar, e ela me apertou com força. Naquele momento eu soube que era com ela que eu queria ficar, não importava. Não importava quanto tempo viveríamos, não importava se era apenas atração por causa da nossa condição. Apenas não importava.
Em meio aos seus soluços, Lisbeth começou a rir.
– Você é a minha realidade? Sério? – ela me apertou mais, e ao mesmo tempo tentando controlar os risos.
– É o melhor que consegui no momento, se quiser uma melhor espera mais um pouco – sussurrei em seu ouvido.
– Cala boca que eu já fico muito feliz!
– Por quê?
– Porque estou aqui com você.
– Parece que ela é do tipo que gosta de um filho de defunto – uma voz familiar ecoou em meus pensamentos.
– Rillian, você pode fazer o favor de calar essa porra de boca por um minuto! – gritei.
– E quem disse que era o rei?! – senti uma mão pegar no meu ombro.
Soltei-me de Lisbeth, e me assustei quando eu vi a pessoa ao meu lado.
Estava lá parada, minha mãe, Violet. Ao vivo e em cores. Como ela estava lá? Eu não sabia dizer. Tecnicamente era impossível (e tecnicamente eu não sabia de nada, mas fazer o que) ela estar ali. Geralmente um morto ta debaixo da terra, ou coisa parecida. Minha mãe olhou para os lados, procurando por alguém.
– Onde está sua tia? Faz tempo que eu quero ver ela! – ela disse com entusiasmo, sem nem mesmo se preocupar com o estado mental do filho.
Lisbeth sacudiu meu ombro.
– O que foi Jon? – ela me olhou inocentemente.
– Você não esta vendo ela? – apontei para a minha mãe.
– Quem? – ela olhou para os lados – Não tem ninguém aqui.
Violet deu uma gargalhada alta.
– Só você pode me ver filho – dei de ombros, já havia me cansado desse tipo de surpresa. – Mas enfim onde está Sacha? – Violet mudou o peso de um pé para o outro.
Apontei em direção à cozinha. Minha mãe sorriu e saiu saltitando.
Lisbeth, que não vira nada, ficou com cara de desentendida, mas eu quase não percebera isso. Estava absorto em meus pensamentos, tentando entender em como aquilo era possível, como ela poderia estar ali. Geralmente, quando eu falava com os mortos (coisa estranha de se contar), eles nunca se materializaram no mundo real, apenas em meus sonhos. Eles se comunicavam também através dos meus pensamentos (parece coisa de ficção cientifica), e apenas por eles. Nunca antes, seja Rillian ou minha mãe, tinha aparecido no mundo real espontaneamente, ou eu querendo fazer isso.
Do corredor que separava a cozinha e a sala de estar, Rachel saiu correndo, com os olhos esbugalhados e o cabelo desarrumado.
– Por favor, digam que vocês viram a mulher de vestido branco passando por aqui – Rachel disse arfando.
– Mas que mulher? – perguntou Lisbeth.
– Eu sei – levantei a mão.
– Quem é? – Rachel me sacudiu pelos ombros com um tom exasperado – O pessoal acha que eu to ficando louca!
– É minha mãe, Violet – disse sombriamente. – E como você também pode vê-la?! Lisbeth não conseguiu.
– Eu não sei como eu vi.
Novamente ouvi passos saindo do corredor de onde Rachel saiu. Achei que eu estava ficando louco. Vi um garoto que era idêntico a mim, exceto pelos olhos dourados. Ele usava uma camisa branca, uma calça jeans surrada e seus pés estavam descalços. Eu achava que era uma brincadeira de mau gosto do Rillian ficar igual a mim, mas seu rosto estava sério. Rachel soltou um guincho de medo ao olhar Rillian.
– Per Quae – Rachel gemeu.
– Okay, vocês dois estão me assustando. Quem é agora? – perguntou Lisbeth com a respiração acelerada.
– Um amigo – respondi.
Rillian me lançou um olhar agradecido. Sempre achei que Rillian me via apenas com o garoto que não sabe o que quer fazer da vida, mas aquele olhar me dizia que ele me considerava um amigo e agradecia por eu considerá-lo como um amigo também.
– Então qual a desculpa esfarrapada que você vai dar para nós? – cruzei os braços.
– Primeiro de tudo, também quero falar com Lisbeth. Pegue a mão dela. – ele ordenou.
– Para...
– Para ela poder me ver também, ora bolas – ele explicou como se fosse a coisa mais normal do mundo.
Olhei para Lisbeth, sussurrando um por favor, com os lábios comprimidos e esticando a mão. No fim ela cedeu e apertou a minha mão entrelaçando seus dedos com os meus. O toque fez os pelos da minha nuca arrepiarem. Rillian gargalhou.
Quando Lisbeth vislumbrou o rei, cambaleou para trás. Ela ficou alternando o olhar entre mim e Rillian, gaguejando coisas incompreensíveis, Rachel revirou os olhos e ficou batendo pé inquietamente. Rillian pigarreou.
– Podemos começar? – ele estendeu os braços num gesto de permissão, mas logo ele os recolheu.
– Como você é igual a Jon? – Lisbeth perguntou com o braço levantado. O rei suspirou.
– Somos apenas parecidos – respondeu, mas havia uma ponta de insegurança em sua voz. Havia mais do que isso.
– Pensei que só Jon pudesse falar com os mortos – Rachel olhou para um canto. – Eu sei que aquela vez comigo foi uma exceção, mas como isso é possível?
– É que esse garoto – ele apontou para mim – não sabe como controlar essa merda de poder de falar com os mortos.
– Como assim exceção? – Lisbeth se virou para Rachel – Você já falou com ele? E por que só você pode ver os fantasmas que Jon vê? – todos olharam para Rillian em busca duma resposta.
Ele suspirou mais uma vez, caminhou até ficar de frente com a lareira apagada, encarando a pilha de madeiras secas. Seu olhar era pesaroso, como se avaliasse o fosse dizer. Seus olhos dourados se acenderam numa idéia. Ele sorriu e se virou para nós como se fazia numa dança.
– É um resquício do poder de Jon, que se agarrou a Rachel, que permite a ela nos ver – ele explicou descontraidamente.
– E como esse “resquício” – eu fiz sinal de aspas com os dedos (não Jon. Você fez com os pés, ô animal) – foi parar em Rachel? – era de se esperar que fosse Lisbeth a fazer essa pergunta, mas a minha curiosidade falou mais alto.
Ele me lançou um olhar de aviso, como se dissesse: “cala a boca antes que você se complique garoto!”. E logo após olhei para Rachel, que também me olhava da mesma maneira, só que com mais alarde. Abaixei a cabeça num gesto que dizia (possivelmente, não tinha certeza) entendi.
Lisbeth começou a sacudir a cabeça, confusa.
– Essa conversa está me dando dor de cabeça.
– É normal, se quiser podemos conversar depois – Rillian disse. A cada 5 segundos ele dava uma espiada em Rachel, como se ela fosse uma velha amiga que não via a muito tempo.
– Tudo bem. Boa noite Jon – Lisbeth beijou-me na bochecha. Esperava não estar tão vermelho quanto achava estar.
Quando Lisbeth atravessou o corredor, o rei olhava para mim, e abriu um sorriso de orelha a orelha. Dei de ombros. Não estava com paciência para as piadinhas de Rillian. Rachel se sentou no sofá, respirou fundo, mas logo sua compostura desabou.
– Rillian explica pra ele com foi que eu te conheci – ela ordenou girando a mão, como se estivesse machucada, que logo se seguiu num sorriso irônico.
E Rillian me contou a breve conversa que teve com Rachel. Não fora o conto do século, mas explicava algumas coisas. Durante isso, um pensamento, que não era meu, ia e vinha a minha mente: “Você parece tanto com ele”. Perguntava-me de quem era esse pensamento, parecia tão familiar para mim, que eu poderia achar que era meu. Ele vinha acompanhado por uma forte emoção, uma união que parecia ter sido forjada há muito tempo. Uma coisa que nem mesmo a natureza pode quebrar, era uma coisa que era para ser. E ao mesmo tempo, outro pensamento, só que compartilhado por mim, explodiu como uma bomba.
Só que esse pensamento, era uma coisa que eu não poderia explicar. Era uma coisa que eu sentia, e sempre sentiria. E me era tão natural falar, como se cada palavra fizesse parte do meu ser. E era tão parecido com o pensamento que tinha passado há pouco tempo: ”Você parece tanto com ela”. Palavras tão simples, mas que carregavam um peso incalculável para mim.
– O que você disse?! – Rachel estava parada na minha frente. Suas mãos seguravam meu rosto delicadamente, seus olhos verdes brilhavam inocentemente, mas confusos.
Rillian não estava mais lá conosco.
– O que eu disse?
– “Você parece tanto com ela” – ela repetiu, como se cada palavra trouxesse uma lembrança aleatória.
– Disse? – meu sangue rugia nos meus ouvidos – Desculpa, não havia percebido.
– Tudo bem – ela pareceu decepcionada. Ela se virou para ir embora.
– O que foi? O que aconteceu? – peguei em seu ombro.
– É que... – ela parou – o que você disse, foi a mesma coisa que Rillian havia dito para mim no final da nossa conversa.
Então a deixei ir.
Conversar com mortos, pra mim tudo bem. Mas compartilhar pensamentos? Era demais para mim. Não achava que isso era possível. E era estranho pensar nisso. Jon Fuller, o garoto que compartilhava pensamentos com mortos. Eu poderia até rir agora, mas naquele momento, estava cansado demais para isso. Troquei de roupa e me joguei na cama. Estava quase pegando no sono, quando ouvi alguma coisa batendo na janela do quarto. Abri meus olhos lentamente, e vi uma Lisbeth sorridente batendo na janela.
Arrastei-me pra fora da cama, coçando o olho esquerdo. Abri vagarosamente a janela e me agachei.
– Que horas são? – perguntei.
– Ah, não muito tarde. Entorno das 2 da manhã – ela respondeu ainda com um sorriso despreocupado.
– Entra, está frio ai fora.
– Com licença – ela pediu passando a perna pela janela.
Ela se sentou na cama com entusiasmo, o que achei bem estranho. Sentei-me do lado dela, que por sua vez começou a ficar acanhada e nervosa.
– Bom o que te trás na minha nem tão humilde residência? – (bom, em comparação com a de Lisbeth, parecia um barraco).
– Isso – e ela me beijou.
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