Notas iniciais
Esse foi rapidinho, hein? Vai sabe por que...

Quando ela me puxou para um beijo, milhares de pensamentos e sensações apostavam corrida dentro de mim. No final, apenas um sentimento ficou. Mas não era aquele que eu esperava. Era de solidão.

Quando Mary, a rainha me contou que Lisbeth e eu só éramos atraídos um pelo outro, somente por causa de nossa condição de futuras Morte/Vida, eu havia ignorado ela. Mas naquele momento eu senti. Estávamos lá, Morte e Vida, juntos, sem nada atrapalhando. Na tese, estávamos completos, mas eu me sentia incompleto. A sensação de estar ali com Lisbeth me agradava, me sentia bem com isso, mas não era o bastante, sempre faltava alguma coisa. Pode me chamar de idiota-babaca-sem-noção, mas essa era a verdade. O sentimento de solidão era massacrante. Estávamos juntos, mas eu me sentia sozinho.

Quando ela me soltou, ela respirou fundo, me encarou com a testa colada a minha, abriu um sorriso contente. Então aquele sentimento de solidão foi embora. Ela me abraçou e deitamos na cama. Ela se aconchegou no meu peito.

– Você é quente, eu gosto – ela confessou, me apertando mais.

Eu ri.

– Se eu estivesse frio, estaria morto...

– Sem trocadilhos, por favor – ela me interrompeu.

– Tudo bem – eu beijei sua testa.

E dormimos assim, abraçados. E mais uma vez, tive um sonho muito estranho.

Olhei para o céu, o sol resplandecia orgulhoso no meio das nuvens. O vento estava quente e rápido. Eu estava descalço, então sentia a terra fofa por entre os meus dedos. Olhei para os lados, soldados corriam para forjarias, pegando espadas e escudos, vestidos com uma armadura negra com entalhes em vermelho vivo. Cavalos relinchavam alarmados. Um rapaz tentou acalmá-los, mas levou uma patada no peito, que o fez cair sem fôlego no chão, encolhido de dor. Um berrante de guerra soou por sobre o acampamento. Soldados formaram uma fileira de cada lado, fincando a ponta da espada no chão, em honra a seu comandante.

Um cavalo negro vinha trotando lentamente, com olhos completamente vermelhos. E em seu dorso, o comandante daquele exército analisava seus soldados com cuidado. Ele trajava uma armadura de aço negro com entalhes em prata, seu elmo cobria seu rosto, seu visor tinha o formato de cunha e atrás dele, quase não se dava para ver seus olhos. Em suas costas, estava uma enorme foice negra de 3 metros que também tinha entalhes em prata, só que mais elaborados. A foice tinha uma áurea de poder familiar em volta dela, os soldados a miravam e seu olhar era de medo misturado com respeito.

Do outro lado da pradaria, um exército igualmente grande, já estava pronto para a batalha. Estandartes com os mesmos símbolos ondulavam ao vento. Mais uma vez, o berrante soou através do acampamento. O cavalo do comandante do exército negro descreveu um circulo no topo da colina. Outra vez o berrante soou, e todos ficaram em silencio, esperando o comandante se pronunciar.

O comandante se remexeu no cavalo, pegou com as duas mãos o elmo preto e o retirou. Eu hesitei. Eu via uma versão mais velha minha só que ao invés de ser Rillian e seus olhos dourados, via um eu mais velho, mais pálido com olhos vermelhos sangue. Seu olhar era descontraído e seu sorriso sarcástico.

– Bem melhor sem esse elmo – ele jogou o mesmo para trás. – Bom... o que dizer numa hora dessa? Sim, apenas uma coisa. Acabem com a raça deles.

Os soldados batiam suas espadas nos escudos, gritando um nome triunfantemente: Devan! Devan! Devan! Devan!

E em resposta, o exército do outro lado batia suas lanças no chão em desafio. E eles gritavam outro nome no mesmo tom: Hillen! Hillen! Hillen! Hillen!

Esses nomes não me eram estranhos, foi então que me lembrei. A rainha me contara sobre Devan, a primeira Morte. E Hillen, a primeira vida. E que foram eles que começaram a guerra.

Quando dei por mim, os dois exércitos já se atracavam violentamente. Eu estava no topo da colina, onde Devan fez seu discurso motivador. Observei o mesmo e me assustei com o que vi. O olhar descontraído de Devan dera lugar a um olhar de um homem psicótico e sádico, mas seu sorriso sarcástico não deixara seu rosto. Ele abandonara seu cavalo, para partir para um massacre. Ele manejava sua foice com destreza, a cada dois movimentos, alguém era fatiado ao meio. A lâmina negra cortava o aço como se fosse manteiga. Devan gritava:

– Irmãozinho, onde está você?! Seus soldados não iram te proteger para sempre! – ele ergueu a foice, um rapaz franzino que usava uma armadura que não era do seu tamanho, hesitou de medo em frente à foice. Devan sorriu – Morto – e baixou a foice sobre o garoto.

Procurei por Hillen e o achei. Ele usava uma armadura branca como neve, empunha uma espada e escudo. Ele lutava graciosamente, com movimentos suaves, mas com convicção. Ele tinha os cabelos escuros como a meia-noite, um rosto duro, mas o que se destacava nele era os olhos incrivelmente azuis. Ele assistiu o irmão promover uma chacina, tendo como última vitima o rapaz franzino. Hillen urrou de raiva.

Ele abriu caminho empunhando sua espada, com ferocidade no olhar. Corri até uma trincheira, para ver melhor o que aconteceria. Ao chegar, Devan e Hillen já se encaravam, com olhos atentos em cada movimento que o irmão fazia. O ar estava pesado, a terra parecia tremer, as nuvens cobriam o sol, as lâminas retiniam com um brilho assassino, esperando ansiosamente para dilacerar ao comando de seu mestre. Subitamente Devan e Hillen pararam. Puseram-se em posição de ataque, com os punhos cerrados em suas armas. Irmãos se encaravam. Hillen suava frio, ele não queria fazer, mas tinha que fazer. Devan, que não parava de sorrir sarcasticamente, parecia ansioso, qualquer movimento dele poderia ser o último suspirar de Hillen.

Então avançaram, e a espada encontrara-se com a foice. O primeiro golpe fez o campo de batalha tremer. O segundo fez a espada de Hillen ser empurrada contra o peito de um soldado negro. Devan gargalhou.

– Monstro – Hillen rosnou ao retirar a espada do peito do cadáver.

– Monstro não. Seu irmão! – Devan disse ironicamente antes de a foice ser parada pela espada de um soldado, mas não antes da lâmina arranhar a garganta de Hillen.

– Como ousa atacar o legítimo rei? Eu mesma vou arrancar a sua cabeça – ameaçou a soldado.

– Não! Nylla... – Hillen tentou dar um passo, mas uma ferida no tornozelo o impediu de avançar.

– E como você – Devan arqueou a sobrancelha – pretende fazer isso? – ele baixou a foice – Vou dar algumas dicas de como fazer isso. – ele começou a contornar a área de alcance da espada de Nylla, que pôs o escudo junto ao corpo.

O corpo dela estava tenso, dava para ver o suor escorrer por seu rosto debaixo do capacete. Ela apontou a espada para o pescoço de Devan, que deu uma risada.

– Primeiro, você não pode apontar essa coisa afiada – ele tocou a ponta da espada despreocupadamente. Nylla deu um passo para trás – para o pescoço da Morte encarnada. Ou seja, eu – ele sorriu.

– Cale a boca, cão – ela ordenou. Logo após, ela descreveu um arco com a espada por cima dos ombros. Devan desviou com facilidade, deixando a espada passar a dez centímetros do rosto.

– Segundo, você tem que querer me matar – ele semicerrou os olhos – pra me acertar – a espada passou raspando os cabelos de Devan. – Agora você está me ouvindo.

Ela retirou o capacete. Nylla tinha olhos castanhos claros, os cabelos tinham uma cor caramelo. Seu rosto estava arranhado e com fuligem. Mas numa coisa eu não acreditava. Ela estava chorando. As lágrimas que escorriam, se misturavam com a fuligem, ficavam negras e caiam na terra acidentada. Nayla abaixou a espada, e largou o escudo no chão. Ela desabou sobre os joelhos.

– P-por quê? – ela gaguejou – Por que você fez isso?

– Por que você se importa? – Devan rebateu. Nylla hesitou.

– PORQUE EU TE AMO, DROGA – Devan parou de sorrir.

Hillen, que assistia impotente, se levantara com o rosto retorcido de dor. A foice de Devan tremulou e sumiu em meio a uma fumaça negra. Nylla retirou a manopla de ferro e limpou as lágrimas com as costas da mão. Ela pegou o escudo e se levantou, tentando salvar o restante de dignidade que ainda lhe restava. Devan ficou de costas para Nylla.

– Vou deixar você viver hoje – a voz de Devan era fraca. – Mas não espere mais clemência vinda de mim. Se eu te encontrar de novo no campo de batalha, eu mesmo te mato garota. Não importa o sentimento que isso trará – ele voltou a sorrir.

E Devan sumiu na própria sombra. Nylla se virou e encontro um Hillen ensangüentado se apoiando na própria espada. Ela correu até seu soberano para ampará-lo. Ela passou o braço de Hillen por cima do seu ombro e abraçou a cintura dele. Então a cena mudou.

Estava de volta a Arce Invictum. Era de tarde, pássaros piavam alegremente, guardas conversavam despreocupadamente. Entrei no castelo e vi Hillen conversando com alguém.

Ele usava uma túnica branca simples, uma calça de lã com cordões para segura-la e botas de couro. A pessoa ao seu lado era Nylla. Ela trajava um gibão, e por mais incrível que pareça, uma calça jeans velha e um All-Star? Era estranho de se ver aquilo naquela época.

– Pela milésima vez, você não vai comigo pra batalha outra vez! Você já quase morreu, não irei permitir que uma outra vez ocorra – disse Hillen decididamente.

– Não vai acontecer uma outra vez, meu soberano. Eu juro como sua conselheira!

– Você não vê? Devan poderia ter te matado quando quisesse.

– E essa é a fraqueza dele. Ele acha que pode tudo! Vamos usar isso contra ele!

– Ele conhece seus próprios limites, Nylla. E conheceu o limite dele para matar naquela batalha também.

– O que você quer dizer Hillen? – ela o pegou pelos ombros.

– Ele te deixou viver... – ele olhou para o lado – porque você significa alguma coisa pra ele – Nylla o largou. Virou-se e saiu em disparada.

Hillen não podia fazer nada.

De trás duma pilastra, das sombras saiu um sujeito atarracado, com uma barba malfeita, com o cabelo cortado no estilo militar. Ele deu tapa forte nos ombros de Hillen.

– Vai ficar tudo bem garoto. Ela só precisa de um tempo pra pensar, só isso – o gordo disse.

– Não sei. Aqueles dois sempre foram muito unidos – Hillen falava como se cada palavra pesasse.

– Isso também vai passar – o homem sorriu satisfeito consigo mesmo.

– Temo que não. O que Devan disse era verdade. Ela não queria matá-lo – Hillen ficou de costas para o gordo. – Sabe disso muito bem Kane, afinal, ela é sua filha. Ela não quis matá-lo naquela hora, e não vai querer fazer isso depois.

– Então que assim seja – Kane assentiu.

Então o mundo desapareceu na escuridão.

Quando acordei, me sentia esgotado. Como se a visita ao passado tivesse sugado minhas forças.

Abri meus olhos lentamente, e vi que Lisbeth ainda dormia. Fiquei observando-a dormir, pensando em Nylla e Devan. Um único pensamento pairou sobre a minha mente: “Então você sente isso também?”. Fiquei pensando se esse fora o pensamento de Devan, quando Nylla se declarou.

Aquele sorriso fora sincero, ou apenas um modo de se esconder? Quando Lisbeth abriu os acordou, ela esfregou a mão nos olhos e bocejou. Piscou algumas vezes e puxou ar. Ela me olhou nos olhos e deu um sorriso.

– Você parece preocupado com alguma coisa – ela pôs a mão em meu rosto. – O que é?

– Nada. Apenas um sonho – respondi olhando a janela.

– E o com o que você sonhou? – ela puxou o meu rosto, e minha testa ficou colada com a dela.

– Se eu bem me lembro, – eu me ajeitei na cama – acho que sonhei com você – dei um sorriso.

– Mas já? – ela perguntou antes de eu beijá-la.

E aquela sensação de solidão não voltou.