I work with death and related
14 I would fight for them
Eu havia visto ele apenas uma vez (tecnicamente eu nunca tinha visto o sujeito), mais velho e com mais cabelos brancos na cabeça, mas lá estava meu tio. Quando eu o vi no passado, ele era mais musculoso, com uma cabeleira negra como carvão e irradiava uma aura de força e imponência. Mas com o passar do tempo ele fora perdendo pouco a pouco essas coisas. Acho que ele não agüentaria colocar o peso de sua velha armadura negra, acho que não agüentaria nem o peso de uma lança de aço.
Ele caminhou pesadamente em minha direção, parando a 1 metro de mim. Ele me observou lentamente, com as sobrancelhas arqueadas. Ele olhou para a rainha e abriu um sorriso.
– Ele é igualzinho ao meu irmão! – ele disse. A rainha assentiu.
– Eu falei. – ela lembrou Willian.
A voz de Willian reverberava nas paredes e voltavam como um eco suave. Eu não entendia como ele podia estar ali, nos domínios da Vida. Geralmente qualquer coisa que viesse dos domínios de Hayt, para o outro lado, ou era pulverizada ou liquidada, dava na mesma.
Atrás de Willian, havia uma garotinha pequena. Ela me olhava com curiosidade e inocência. Meu tio parecia não ter visto a menina, até que ela puxasse sua calça.
– Tio Will, quem é esse menino? – ela perguntou apontando para mim. Ele deu um pulo de susto.
– Ah! Avery é você. Não me assuste desse jeito – ele afagou os cabelos da menininha. – Avery, esse é Jon Fuller. Ele é filho de um... conhecido meu – ele disse sem muita confiança. – Vá cumprimentá-lo.
Avery tinha os cabelos encaracolados dourados, e olhos verde-mar. Sua pele era um pouco bronzeada, mas nada muito excessivo. As curvas de seu rosto eram suaves e havia alguns arranhões leves nas bochechas. Seus lábios eram rosados e com pouca carne. Ela usava um vestido azul claro, com uma fita preta envolta na cintura pequena da menina. Ela veio até mim saltitando na ponta dos pés, ela parou na minha frente e disse com ternura na voz:
– Prazer moço. Sou Avery Grey, tenho 7 anos e você? – ela estendeu sua mãozinha.
– Prazer Avery. Sou Jon Fuller, tenho 16 – respondi apertando sua mão.
Por um momento, seus olhos verdes se arregalaram numa expressão vazia, mas logo depois seu rosto voltou ao normal. Ela deu um sorrisinho alegre. Ela voltou para trás de Willian, e novamente puxou sua calça.
– Tio Will, Jon está gostando de uma menina – Avery contou ao meu tio. Ele gargalhou.
– É mesmo, Avery? Bom saber, bom saber.
– Como ela... – fiquei assustado.
– Avery pode descobrir os segredos das pessoas, apenas tocando elas – Will explicou.
Eu, Willian e Avery caminhamos até o pátio superior que era conjunto com um jardim. Eu ainda tentava entender como meu tio veio para o lado da rainha, e me perguntava de onde veio Avery, e por que ela chamava Will de tio Will. Quando chegamos à entrada do pátio, Will agachou e olhou para Avery.
– Você pode ir buscar um escudo para mim Avery? – Will perguntou. A garotinha assentiu e correu para buscar o escudo dentro do castelo.
– De onde ela veio, tio? – perguntei fitando seus olhos cansados.
– Eu a achei vagueando numa pradaria sem rumo há uns 3 anos. Ela não se lembra de onde veio ou quem são seus pais – ele disse pegando uma espada de aço, que estava encostada no muro. – ela só lembra o nome dela e só. Vamos começar?
– Começar o que?
– Seu treinamento! – ele falou como se fosse a coisa mais normal do mundo – Ou você acha que vai derrotar Hayt só com o que você sabe?
– Eu tava torcendo pra não chegar nesse ponto, sabe tio – brinquei.
Logo após, Avery voltou com um escudo de ferro nas costas como uma mochila. Will pegou o escudo e agradeceu Avery.
– Agora se sente ali no banco, tudo bem? – Will perguntou.
– Tá bom, tio Will! – ela sorriu e correu para o banco.
Will suspirou e colocou o escudo no braço.
– Vamos Jon, chame a sua espada.
Agora era mais fácil chamar a Devoradora, sem ter que se lembrar de momentos que eu era um completo inútil. Era só lembrar-se do nome dela, que por sua vez a espada aparecia em minha mão. A espada negra irradia uma aura sombria, quando Avery a fitou, soltou um guincho de medo, mas se segurou. Will a olhou com satisfação.
– Vejo que Rillian já começou a te ajudar – ele disse.
– Como você sabe que... deixa pra lá – eu já tinha ficado cansado de tentar entender as coisas.
– Em posição, Jon! – Will gritou, antes de mandar uma estocada na altura dos olhos. Por sorte havia desviado no ultimo segundo.
– Calma Willian – eu disse antes da espada de aço passar zunido ao lado do meu ouvido.
– Seu pai não vai ter piedade, nem clemência. Se tiver a chance, ele te mata na hora.
Era incrível como Willian era rápido. Sua aparecia era apenas uma máscara que servia para esconder sua verdadeira forma. Ele ainda tinha velocidade e vigor debaixo daquela carcaça velha. Eu não podia ficar só desviando dos golpes de Willian a vida toda. Decidi experimentar o ataque. Uma frase: A pior decisão que tomei na minha vida. Sacudi a Devoradora por cima da cabeça do Will, cortando alguns fios de cabelo. Ele apenas deslizou para a direita, pois a perna atrás do meu tornozelo e bateu com o escudo de ferro no meu nariz com força. Juro que tinha ouvido um som de crack vindo dali.
– Desculpe-me, Jon – ele disse estendendo a mão para me ajudar a levantar.
– Tudo bem – levantei com a mão no nariz e vendo se ele não sangrava. – Só me avisa quando você for tentar me matar.
– Tudo bem – ele suspirou. – Atitude. Isso é uma coisa boa. Quando você passou sua espada por cima da minha cabeça, você tomou uma decisão. Uma decisão estúpida, mas ainda sim uma decisão.
– Só estava querendo sair da defensiva – eu disse.
– Mas você tem aprender uma coisa. Quando for para a batalha, cada decisão que você toma, irá decidir se você vive ou você morre – ele tirou o escudo lentamente, como se pesasse e atrapalhasse a se movimentar. – E se você for atacar, ataque pra matar, pois seu inimigo fará o mesmo.
Engoli em seco. Daquele momento em diante, seria pra valer. Não haveria mais brincadeira quando se tratava dessa guerra maldita, era como uma frase clichê que você vê em um filme, era matar ou morrer. Se bem que eu queria acabar com isso simplesmente entregando uma pizza pros cabra, mas fazer o que, né?
No decorrer da tarde, Will me ensinara o básico, de como atacar e defender corretamente. Tinha me sentido um verdadeiro cavaleiro lá. Eu imaginava por quantas batalhas Will havia passado, pois a cada golpe feito, eu percebia experiência por trás deles. Acho que uma batalha ganha, não é uma coisa para se orgulhar. São vidas que se perdem, famílias destituídas de seus irmãos, primos, tios. Uma mãe nunca mais iria ver o rosto sorridente de seu filho amado. E tudo por causa de desejos mesquinhos de um único homem. O que leva um a ter as crenças de outro? Sinceramente, eu não sei.
Quando terminamos o treinamento do dia, estávamos esgotados, eu e Will nos sentamos encostados no muro. Avery nos trouxera duas garrafas d’água e se sentou na minha frente. Ela tamborilava com os dedos no chão e olhava as estrelas.
– Gosta de estrelas, Jon? – Avery perguntou.
– Sim, claro – respondi tomando mais um gole de água.
– Eu ouvi dizer que quando perdemos as pessoas que gostamos, ela vão descansar junto com as estrelas como uma nova estrela. Você acredita nisso? – ela me olhou curiosa.
– Eu acredito que vamos para algum lugar melhor, disso eu sei – mesmo sendo filho da Morte, eu não sabia para onde iria uma pessoa depois de morta. Quando eu penso nisso, começo a achar que eu seria uma péssima Morte.
– Também gosto desse pensamento – ela sorriu e seus olhos brilharam divertidamente.
– Acho que você deveria ir para casa, Jon – Will disse pegando o escudo e a espada. – Quero você aqui as 13:00 horas, tudo bem?
– Tá. Então até amanhã. Tchau Avery! – me despedi bagunçando os cabelos da menina.
Quando caminhava na rua de comércios, fiquei pensando no que tinha feito até aquele momento. Havia conhecido Lisbeth, uma garota que era mais que eu podia esperar, e sua suposta mãe era uma mulher psicótica que gostava de troféus (preferidamente as cabeças de seus oponentes), a pessoa que eu achava que era minha mãe, que na verdade era a minha tia, eu havia conhecido verdadeiramente ela, incluindo meu melhor amigo, que não mudara nada vindo aqui, ele era o mesmo palerma de sempre. Havia conhecido Rachel, irmã de Martin, uma garota que estava constantemente ameaçando a vida do irmão, mas uma pessoa que sempre perseguiria seus sonhos, e sempre gostaria dela por isso. Mary, uma rainha pé no chão, que sabia o que queria. Rillian, um morto que eu não me importaria em dançar em cima do túmulo, mas sempre me ajudava nos momentos críticos. Violet, minha mãe, havia conversado pouco com ela, mas já tinha começado a amar ela. Mesmo naquele curto período. E recentemente, Willian, meu tio que eu julgava morto, e uma menininha chamada Avery Grey.
Era como um sonho que eu não gostaria de acordar.
Quando eu cheguei à frente do casarão dos Stormgard, todas as luzes estavam apagadas, mas se ouvia vozes cochichando lá dentro. Girei a maçaneta e abri a porta devagar, tateando a parede em busca de um interruptor. Quando achei, liguei as luzes e estiquei o pescoço para tentar ver dentro do casarão, tentando saber se tinha ladrões ou coisa do tipo.
Quando entrei, uma pessoa me empurrou para dentro da casa, dizendo:
– Você demorou Fuller!
Com o empurrão, tropecei numa cômoda que estava encostada na parede, e acabei caindo em cima de alguém. Quando olhei em quem eu tinha acabado de derrubar, lá estava Rachel, com o rosto vermelho de vergonha, e com o punho fechado pronto para um soco.
– Isso não será necessário, Rachel Harper – eu disse segurando seu punho. Nossos rostos estavam a poucos centímetros, dava pra sentir a respiração dela, e senti sua mão se abrindo devagar. Levantei-me e ajudei Rachel a se levantar puxando ela. Quando olhei em volta, Sacha e Lisbeth estavam com um sorriso desconcertado, sem saber o que dizer. Martin estava com a boca cheia de comida (novidade), ainda tentando acreditar na cena que acabara de ver. E Holly com um sorriso no canto da boca, sussurrando um desculpa.
Eles estavam ali por um motivo que eu tinha esquecido. Era meu aniversario. Naquele dia mais cedo eu havia me perguntado: Por que eu estava aqui, no Limbo? Por que eu defenderia pessoas que eu nem conheço? Eles eram a razão de eu estar aqui, e seriam eles que eu defenderia. Por eles eu lutaria.
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