I work with death and related

13 Cleaning and finding things


Notas iniciais
Esse capitulo demorou um pouco. M tá ai :)

Lista de afazeres antes de bater as botas:

– Lavar a louça; Feito, a pesar de muito esforço;

– Conseguir me enturmar com pessoas ou seres vivos; Em andamento;

– Esmurrar a rainha até não poder mais; Muita vontade no momento.

Era difícil acreditar no que eu ouvira sair da boca de Lisbeth naquela noite.

Como uma mãe (coisa que eu duvidava que a rainha fosse), fala para a filha que seu amigo, poderá ter ferimentos sérios e possivelmente uma morte dolorosa nas mãos de seu pai, e achar que tudo iria ficar bem?

Porque você fez isso? – me perguntei, deitado em minha cama.

Sacha havia me deixado ficar com seu quarto, enquanto ela ficaria no quarto de seus pais. Aquele teto cinza-chumbo me era nostálgico, era a mesma cor do meu quarto. Meu verdadeiro quarto, na minha verdadeira casa. Queria voltar à Nova Iorque. Eu sentia que não pertencia ao Limbo, mesmo tendo nascido aqui, era uma simples questão de naturalismo: o lugar define o homem. Eu nunca tinha ouvido falar do Limbo, e esperavam que eu defendesse esse lugar, e pessoas que nunca tinha visto na vida? Mesmo que meu pai me caçando só causa de uma porcaria de profecia, como eu iria... Matar ele para inicio de conversa? Eram perguntas que me atormentariam toda noite.

Quando amanheceu, o céu estava tão nublado quanto o meu humor. Sentei-me na cama e olhei para a janela. Havia apenas uma pradaria e ao longe, as montanhas se erguiam imponentes. Arrastei-me pra fora da cama como o preguiçoso que eu era, e pus a primeira roupa que eu vi. Ao chegar à cozinha, Sacha estava preparando o café da manhã.

– Bom dia, Jon! – ela me saudou sem nem mesmo se virar para olhar se era eu.

– Bom dia. – falei com sono.

Sentei-me na cadeira que ficava de frente com o balcão, e me debrucei nele.

– É bom você comer tudo – Sacha disse pondo o prato com ovos mexidos e bacon na minha frente – nós vamos ter que limpar essa casa hoje. – ela se apoiou no balcão – E você vai me ajudar.

– E o que me impede de sair por aquela porta? – tentei chantageá-la.

– Isso! – ela levantou um pote de paçocas e deu um sorriso vitorioso.

– Quando começamos? – me levantei com vigor.

Queria que aquelas 3 horas da minha vida fosse como um filme, com uma musica de fundo e só mostrando as partes mais importantes (se é que teve alguma). Começamos com o básico: limpar a casa. Eu não sabia que um lustre de cristal poderia abrigar tantas teias de aranhas. E Sacha descobriu da pior maneira a colônia de ratos, infiltrada no sótão, possivelmente tramando para tomar o controle do casarão. Segundo passo: se livrar das coisas imprestáveis. Na casa, ainda havia uma porção de roupas velhas de Sacha, da minha avó, e as coisas do meu avô. Somente as coisas da minha mãe que Sacha não quis se livrar. De certa forma, as coisas dela eram a única coisa que lembrava ela.

Quando terminamos, estávamos esgotados.

– Ainda quero as minhas paçocas. – disse sem fôlego.

– Você ainda quer aquilo? – ela suspirou – Pode ficar com elas.

– Como vocês limpavam essa casa? – perguntei.

– Tínhamos empregados para isso. Éramos do tipo que não conseguia amarrar os sapatos sozinhos. – ela disse batendo as mãos nas calças para tirar o pó acumulado.

Começava a me levantar, quando alguém bateu na porta. Sacha abriu a porta e lá estava Rachel, usando uma camisa de flanela e short jeans. Ela murmurou qualquer coisa para Sacha, que por sua vez me chamou.

– A rainha está te chamando – disse Sacha.

– Vai ficar tudo bem? – perguntei – Vai conseguir terminar de arrumar as coisas por aqui?

– Sim, sim – ela disse sem paciência – vai logo.

Então fui porta afora com Rachel logo atrás. Mesmo caminhando com Rachel (coisa que eu apreciava bastante), só conseguia pensar no que a rainha queria comigo. Nos meus primeiros dias no Limbo, a rainha não me dera motivos para gostar dela. Se ela quisesse me fazer gostar dela, ela teria que ser mais agradável. Rachel me estudava com olhos inquietos, e os dedos tamborilavam no antebraço.

– Pode me responder uma pergunta, Jon? – ela disse.

– O que?

– Como você começou a conversar com o grande rei?

– Quem? – não sabia de quem ela estava falando, mas todo mundo falava do grande rei.

– Rillian, aquele que governou primeiro – ela disse firmemente. Eu parei no meio da calçada. Virei-me lentamente, não acreditando no que ouvi de Rachel.

– Não sei de quem está falando – falei dando um sorriso forçado. Virei-me e continuei andando, com o passo acelerado.

– Pode me contar! – ela exclamou puxando o meu braço com força – Eu... – Rachel coçou o tornozelo esquerdo com o pé direito – Eu também falei com ele.

– Anda comigo – sussurrei.

O Primeiro (ou Rillian, tanto faz) me devia explicações. Como ele falou com Rachel e por que.

– Como você conversou com ele? – perguntei para ela.

– Foi quando eu dormi... – e ela me contou o sonho com Rillian, e como eu tive influencia para que isso acontecesse.

Ao final do relato, não abrimos mais a boca para falar.

Quando chegamos à sala do trono, a luz do sol não penetrava nas janelas, e encontramos a rainha recostada numa janela, olhando o nada. Ela parecia absorta em seus pensamentos, talvez planejando uma maneira engenhosa de se livrar de mim. Seus dedos se entrelaçavam e se desvencilhavam repetidamente. Ela não havia percebido que chegamos então Rachel pigarreou.

– Minha rainha, aqui esta o rapaz Fuller, como a senhora pediu.

– Rapaz Fuller? – gargalhei – E você é... é... droga. Não sei seu sobrenome – dei um sorriso torto.

Rachel me lançou um olhar de penitencia. A Rainha nos olhou.

– Muito obrigado, Rachel. Já pode ir – disse a rainha.

– Tudo bem! – a morena se curvou. Ela pegou no meu ombro e sussurrou – É Harper, Rapaz Fuller – ela deu um sorriso triunfante.

A rainha caminhou pesadamente até seu trono e se assentou nele. Ela parecia cansada, quase arfando. Ela me olhou e deu um sorriso de canto de boca.

– Fazendo novos amigos, Fuller?

– Vamos direto ao assunto? – perguntei impaciente.

– É. Não tenho duvidas – ela gargalhou. – Você é mesmo filho do seu pai.

Eu assenti.

– Se eu não fosse não estaria aqui – gargalhamos juntos, o que para mim era estranho. A vida e a morte rindo juntos. É até estranho falar isso.

– Tudo bem, tudo bem – ela parou de rir aos poucos. Ela se ajeitou no trono branco – Você já ouviu a profecia sobre o filho da morte, Jon?

A graça subitamente se esvaiu do lugar. Eu assenti seriamente. Metade do rosto da rainha ficou nas sombras, e a parte iluminada ficou com uma expressão de angustia.

– Infelizmente. E eu ouvi da boca da sua filha – apontei para a rainha com o dedo sujo de poeira.

– Infelizmente mesmo – ela assentiu pesarosamente. – Mas não tive escolha. Per Quae.

– Por quê? – perguntei cerrando os punhos.

– Porque Lisbeth está gostando de você.

Aquilo me acertou em cheio. Estava atordoado e ao mesmo tempo aliviado. A verdade era que eu também gostava dela. E secretamente esperava que ela gostasse de mim também. Desde aquele dia na escola, sabia que ela era especial. Desde que olhei naqueles olhos azuis, queria ficar com ela.

– Mas ela não pode ficar com você – a rainha soltou um chiado lamuriento.

– Por quê? – berrei.

– Originalmente, Rillian, o grande rei, representava a vida e a morte, ambas juntas, ambas cooperando mutuamente – ela suspirou. – Mas desde que seus filhos Devan, a Morte, e Hillen, a Vida, começaram essa porcaria de guerra, essas duas esferas de controle se separaram. E agora elas tentam se unir de novo.

– Como assim? – perguntei desconsertado.

– Você e Lisbeth representam as futuras Morte e Vida. Vocês são como dois imãs que se atraem – ela explicou gesticulando. – A mesma coisa acontece comigo e seu pai. Se convivêssemos juntos por um tempo... – ela parou por um momento ainda tentando assimilar a idéia – Também acabaríamos gostando um do outro.

– E o que tem de ruim nisso? Se for para ser assim, que seja. Eu quero isso! – eu disse. A rainha gargalhou – O que foi? A idéia de eu ficar com a sua filha te faz rir?

– É que você está esquecendo-se de um trecho da profecia. Um deverá perder aquilo que mais amou e o outro perderá aquilo que é seu oposto.

– E o que tem isso? – perguntei.

– Você ou seu pai irá perder aquilo que mais amou, e de novo você ou seu pai irá perder seu oposto. Agora tente se lembrar: o que é aquilo que você mais amou, e o que é aquilo que é seu oposto? Tente pensar nisso por um instante.

Eu parei e pensei um pouco, então a resposta veio até mim como um relâmpago. A vida era cruel. Verdadeiramente cruel. Seu rosto não demonstrava remorso. Seu rosto era como uma rocha que não mostrava nenhuma emoção. Fria, imutável e imparcial.

– Entendi – disse eu sombriamente. – Então eu vou... – disse me virando para ir embora.

– Espere por um momento – a rainha disse pondo a mão sobre o meu ombro. – Ainda tenho que falar uma coisa com você.

– O que? – perguntei.

– Você não quer ficar com ela? Verdadeiramente ficar com ela.

– Sim.

– Então eu vou te ajudar – ela apertou meu ombro. – Entre, por favor.

Um homem de meia idade adentrou no salão. Ele tinha cabelos grisalhos curtos, olhos negros cansados e uma pele curtida pelo Sol. Ele tinha um porte de um cavaleiro e caminhava orgulhosamente. Ele usava uma camisa branca e uma calça presa por suspensórios.

– Jon, este é Willian, seu...

– Tio – completei.