I want you...hungry.
31 Us.
Notas iniciais
Um silêncio tomou conta do corredor iluminado pelo sol de uma tarde que se iniciava. As partículas bailarinas típicas dessa iluminação e estação dançavam pelo ambiente, por entre seus rostos, seus corpos, seus pensamentos, que eram tão palpáveis quanto elas.
Se o organismo da morena já respondia agitado e a fala travava em meias frases de um convite do qual tinha total certeza, agora ficava ainda mais desafiador.
Sentiu todo o seu ser parar por longos segundos. O que Marina havia acabado de dizer mexia profundamente com seus sentidos. Não era assustador, não era ruim, era novo, e óbvio, completamente diferente. Tudo era diferente quando se tratava do que a fotógrafa trazia para sua vida.
Os olhos rasgados apaixonados sentiram o baque causado pelas ondas de suas últimas palavras. Achou que soltá-las sem tê-las medido pudesse não ter sido a melhor escolha, mas a grande verdade era que não havia tido tempo de se quer prever.
Pensou em consertar, mas consertar não seria o certo, aquele era, mesmo que precoce, seu maior de todos os desejos. Achou melhor deixar como estava. As palavras a que não se segue nenhuma consequência são ditas para nada, pensou.
Clara era vulnerável aos seus sentimentos mais profundos, aos seus olhares, ao seu amor e exatamente por isso escolhera cuidar da alma tão entregue para si. Nesse momento julgou melhor seguir em frente.
–Claro que eu aceito – Repetiu abraçando com mãos delicadas o tronco estático.
–Eu... –A morena sussurrou com uma rouquidão desestabilizadora – Vai ser lindo, tenho certeza – Terminou sem saber se realmente deveria tocar no assunto a pouco lançado, não sabia até onde aquilo era um desejo factual da mulher que amava. Tudo tão fresco, tão recente. Teve medo de dar uma de suas bolas fora e assim resolveu deixar
–Sim, vamos fazer ser – Marina sorriu de volta sincera e protetora, entendia inconscientemente todos os conflitos de Clara –
Almoço? Agora quem esta FAMINTA sou eu – Arregalou os olhos com uma expressão extremamente doce e infantil, feições que pouquíssimas pessoas conheciam nela.
Seguiram com as mãos atadas e almas pensativas, sensíveis.
Almoçaram entre sorrisos, as peles iluminadas, o ar leve. Foram acompanhadas por Flavinha, sempre agradável e inteligente, não era a mais faladeira das pessoas, exatamente o contrário de Vanessa, mas quando falava era substancial.
O domingo passou rápido, como tudo o que é bom, logo a noite imperou no céu aberto e limpo.
–Meu amor, preciso ir, o Cadu vai deixar o Ivan em casa e você sabe, amanhã é dia de rotina – Sorriu enquanto assistiam agarradas um seriado novo que Marina havia descoberto.
–Tá bem, Clarinha. Amanhã às 10h aqui, ta? – Beijou suavemente os lábios que adoravam recebê-la.
–Sim senhora – Brincou devolvendo o carinho.
Clara chegou em casa com uma saudade gostosa do menino, tinha o visto de manhã, mas aquele pedacinho dela era um dos seus maiores prazeres nessa vida.
Logo a campainha tocou e foi animada receber o garoto, tão animada que nem havia se preparado para enfrentar a figura de Cadu pessoalmente.
–Filho! – Exclamou abraçando o menino em sua altura – Tudo bem meu amor?
–Tudo mãe – Beijou com carinho o rosto dourado – Só to apertadão, vou no banheiro – Sorriu enquanto se afastava cruzando as pernas.
–Oi Cadu – Disse enquanto se levantava – Tudo bem? – Esticou o braço pra pegar a mochila do menino que ele oferecia.
–Tudo – Respondeu um pouco seco – É... Na verdade queria falar com você rapidinho – Não era agressivo, nem cordial.
–Claro, entra... – Mas o convite não foi aceito
–Não, eu já estou indo, é rápido mesmo. – Começou sorrindo por educação – O Ivan me falou que você o levou pra conhecer a Marina...
Um silêncio se instalou, esperava uma resposta da morena? Clara não entendeu o porquê da brecha deixada pelo ex, será que queria alguma explicação?
–Sim, o que tem? – Tentou fazê-lo prosseguir.
–Não acha que é muito cedo? – Parecia um pouco chateado – Ele ainda é pequeno, pode não entender.
–Olha Cadu, eu concordo que tudo aconteceu rápido. Muito rápido – Começou com paciência na voz – Fui pega de surpresa tanto quanto todos. Mas não acho que foi rápido demais, sabe por quê? Por que acredito no tempo certo das coisas. Era pra ser assim.
–Ta certa, Clara – Ele já não tinha tanta paciência quanto ela – Mas acontece que não estou falando do seu amor repentino, estou falando do envolvimento do nosso filho nisso.
–E eu entendi perfeitamente – Continuava paciente – E to querendo chegar ao ponto que não acho cedo demais o Ivan saber o que se passa com a mãe dele. Ela é minha namorada, vai fazer parte da minha vida e uma hora isso vai ter que acontecer. Por que eu enrolaria? Ele é esperto, entendido, sensível, Cadu. Não vou transferir para o nosso filho os dogmas e preconceitos que inundam o mundo adulto. Quero que encare tudo com a naturalidade dele, com os conflitos dele, sem espelhar nossos problemas em alguém ainda tão puro – Terminou sorrindo.
–Namorando? – Sorriu falso – Não perderam tempo mesmo, hein?
–Por quê perderíamos? – Levantou a sobrancelha com certa superioridade em relação o comentário infantil do homem – A vida é agora – Terminou.
–Mãe! – O menino chamou lá da cozinha – Faz leite? – Pediu carinhoso – Por favoooor – Incluiu na frase sabendo que a educação seria cobrada pela morena.
–Mais alguma coisa? – Agora não sentia mais vontade de esticar a conversa
–Não, por enquanto – Também não queria discutir – Boa noite – Falou baixo – Boa noite filhão – Esticou o pescoço estendendo as palavras ao menino
–Boa noite, Pai – Devolveu animado
–Muito bem bichinho – Começou indo até a cozinha – Já te ensinei a fazer o seu leite, né? – Sorriu fazendo cócegas no garoto.
–Mas é que o seu é muuuuito mais gostoso – Fechou os olhos expressivos fazendo gosto do que falava.
Riram juntos enquanto Clara preparava com carinho o mimo que o filho havia pedido
–Mãe, eu tirei um monte de fotos hoje. Acabou o filme – Fez cara de sapeca – Será... – Começou inseguro de continuar – Será que eu posso ganhar mais alguns – A voz era rouca.
–Eu não sei qual filme se usa nessa máquina meu amor
–Mas mãe, é só perguntar pra Marina né... – Era um garoto esperto e ouvir o filho falar no nome da mulher que tanto amava fazia o coração esquentar.
–Claro, verdade, vou mandar uma mensagem pra ela perguntando e amanhã antes de trabalhar eu compro pra você – Entregou a caneca para o menino que esperava animado.
Dormiram logo, ambos tiveram o dia cheio e estavam cansados. A segunda amanheceu bonita e iluminada, o verão no Rio de Janeiro estava insuperável esse ano, até o calor vinha mais brando e agradável.
–Bom dia pentelhinho – Brincou com o menino que apareceu ainda sonolento e sozinho no corredor – Acordando sem precisar de despertador?
–É que eu tava sonhando muitão e acordei do nada – Esfregou os olhos
–Era coisa boa?
–Era, tava divertido – Mordeu um pedaço de pão – Tava eu, você e a Marina comendo churrasco na casa dela – Sorriu
–Hummm, olha só que delícia! Fiquei até com vontade – Fez uma carinha alegre, o coração vibrava, jurou que podia ser ouvido – Agora come pra poder tomar banho, ontem o senhor dormiu de roupa e tudo, escapou do chuveiro.
–Vamos mandar uma foto pra Marina, mãe? Pra ela acordar dando risada. De careta – Gargalhou infantil.
–Vamos – Concordou com a ideia na hora – Deixa eu ajeitar seu cabelo – Penteou o filho com os dedos enquanto ele debruçava no balcão da cozinha.
Fizeram suas melhores caretas, estavam animados já àquela hora da manhã. Clara a enviou com o rosto sereno desenhado por um sorriso radiante nos lábios.
Ideia do seu maior admirador. Bom dia meu amor.

–Agora banho!
Tudo estava pronto e saiam de casa mais uma vez para levar o menino para escola, as mãos dadas até o carro demonstrava a sintonia e o amor que tinham um pelo outro. Era uma relação linda de mãe e filho.
–Como foi com o seu pai? – Começou uma conversa despretensiosa
–Foi muito legal, ele ta morando com a tia Verônica, lá do galpão – Sorriu – Eles são amigos, mas eu acho que ela gosta dele – Era muito atento.
–Acha, filho? Por quê? – Clara sorriu com curiosidade
–Ah, porque ela tem vontade de cuidar dele, igual a Marina cuida de você.
–Ela cuida, né? – Viu atrás de seus olhos a imagem da mulher maravilhosa que tinha — E eu cuido dela.
–Mas vocês podem namorar? – A pergunta veio sincera, sem preconceito, mas cheia de curiosidade. Sem nenhuma influência externa.
–Claro – A mãe sorriu afagando seus cabelos – Por que não poderíamos? – Queria saber a opinião do garoto.
–Ah, não sei, vocês são duas meninas. Vai ver não podia... – Deu de ombros sendo fofo.
–Mas isso não é um problema, pra duas pessoas namorarem basta que elas se amem e cuidem uma da outra, que nem eu e a Marina.
–Entendi – Estava pensativo
–Mas existe quem diga que isso é errado, tem gente que não entende o que é o amor.
–Vai ver não conhecem o amor, né mãe? – Entendia o que a morena queria dizer.
–Sim, e acabam passando pra frente ensinamentos errados sobre ele.
–Isso é ruim?
–Muito ruim, não conhecer o amor ou aprender errado sobre ele por gerar o ódio, a insegurança, intolerância – Pausou – Mas ó, depois falamos disso. Vai pra não se atrasar – Apontava para a entrada da escola – Te amo filho
–Te amo assim, mãe – Abriu os braços com força indicando um tamanho, o maior que ele conseguia fazer. Ele amava grande, muito grande para uma criança de sua idade – Tchau
Voltou rápido para o prédio onde a família Fernandes morava, queria falar com a mãe antes de seguir para Santa Teresa. Parou o carro na rua e subiu correndo pelas as escadas, estava agitada, ansiosa, não conseguiria esperar pelo elevador. Foi atendida por uma Rosa sorridente, cheia de paparicos e carinho.
–Oi Rosa, minha mãe ta ai? – Perguntou ofegante fazendo a ajudante de casa sorrir ainda mais
–Ela ta no quarto, Clarinha – Rosa indicou – O seu Ricardo ta viajando, ela está sozinha. Mas que menina afoita – Terminou
–Brigada Rosinha – Correu em direção ao quarto da mãe.
–Posso entrar? – Perguntou dando batidas na porta
–Pode filha, entra – Ouviu a mãe responder com a voz abafada pelas paredes
–Oi mãezinha – Beijou a matriarca que terminava de se arrumar – Que saudade.
–Pois é – Sorriu — Filha desnaturada, sumida!
–Ai mãe, esses últimos dias foram tão intensos, tão loucos que não vou negar, ando sumida mesmo — Abaixou os olhos – É exatamente sobre isso que vim conversar.
Chica sentou na cama e bateu delicadamente no colchão chamando a filha para fazer o mesmo.
–Pode falar minha filha, você sabe que mãe serve pra isso, pra escutar.
–Ai mãe – Suspirou com a voz rouca – Eu to amando – Os olhos se encheram iluminados por lágrimas que queriam cair – Mais do que nunca.
As duas se olharam e Chica viu a gota rolar pelo rosto dourado da filha que a enxugava com a mão apressada.
–Por tudo o que eu vi e ouvi, você ta falando da Marina, prima do Ricardo, não?
–Sim – Suspirou – Eu to falando dela sim
–Depois de tudo o que aconteceu, da conversa que tive com o ele, eu já desconfiava disso – A voz da mãe estava calma, suspirada – Olha pra mim – Pausou – Eu sou sua mãe... Mas eu não sou mais aquela sua mãezinha de quando você era criança. Você agora é uma pessoa adulta, e somos duas mulheres, eu e você. E acho que somos amigas, por isso somos amigas – Clara concordava com o olhar baixo assentindo com a cabeça – Eu nunca proibi você de falar assunto nenhum comigo
–Eu sei – A morena respondeu rápida
–Quando você conheceu o Cadu, se apaixonou por ele, casou, engravidou... E achei que ali tava implícita sua preferência sexual –
Viu a filha fechar os olhos quando ouviu a última parte
–E tava – Suspirou para a mãe sorrindo – Estava! – Fixou.
–Eu sei o que você vai me dizer. Que isso é uma coisa que pode acontecer em qualquer altura da vida, em qualquer idade, por qualquer circunstância – Clara concordava levemente com a cabeça, os olhos respondiam que sim. Mas mesmo assim resolveu perguntar confirmando – Foi isso que aconteceu com você, Clara? Você deixou de ser hétero pra ser homossexual?
–Mãe, para com isso – Sacudia a cabeça apertando os olhos – Eu não preciso me definir nem uma coisa, nem outra. Essa necessidade de rotular tudo que é invisível aos olhos segrega o mundo. Eu prefiro pensar que encontrei alguém que me completa e me faz a pessoa mais feliz do mundo, ela ser uma mulher acaba sendo um detalhe. Com o qual eu me acostumei muito bem – Não pôde deixar de pensar em como o corpo com formas femininas de Marina viravam seu mundo de cabeça para baixo, mas a mãe não percebeu a parte final da afirmação.
–Então é isso que você sente? – Chica era compreensiva.
–Sim – Sorriu – Amor, afeto, desejo.
–Sabe Clara – A voz estava mansa e sussurrada – Eu já desconfiava que isso fosse sério, depois daquela cena, do que o Ricardo me falou, a Helena. Ninguém me confirmou nada, eu só sabia pelo o que você havia dito no dia do almoço, pela postura dela. Mas eu também não queria ter tido essa certeza da boca de qualquer um que não fosse você. Tudo aquilo poderia ter sido uma cena, algo passageiro, não sei. Mas eu sentia no meu coração que havia algo forte estabelecido entre vocês. Até pela sua força naquele momento, pela sua postura. Por ela te defender sem medo, enfim... – Pausou para respirar.
–Eu pensei muito no que te falaria no momento que viesse confirmar esse amor, amor que você não teve medo de esconder e clamou na frente de todos – Os olhos estavam se enchendo de água – Não posso mentir que me veio o discurso do preconceito, mas esse eu não queria, não aceitaria — A voz tremulou.
–Eu queria ser livre de qualquer preconceito, isso me envergonha filha – Agora as lágrimas caiam – Mas eu o tenho – Falava como se confessasse a pior das mazelas.
Clara segurou suas mãos com força como quem desse para a mãe um pouco de sua coragem. Os olhos eram complacentes. A mãe era uma mulher vivida, de uma cidade que querendo ou não tinha uma cultura machista enraizada, não exigiria que seu interior mudasse como em um passe de mágica. Mas ajudaria no que fosse possível para livrar do coração da matriarca sentimentos e ideias erradas sobre esse tipo de assunto.
–Quem sabe eu... Eu consigo ficar livre mais rápido né? Mais fácil desse preconceito – Chica terminou com os olhos transbordando, estava realmente disposta a ver a filha feliz o que fazia Clara derreter assim como ela em um choro emocionado.
–Dá... Dá um abraço – A mãe pediu aninhando a filha com um carinho maternal característico e reconfortante.
–Eu não sou mais aquela sua mãezinha de quando você era criança – Repetiu se afastando procurando os olhos da filha – Mas eu sou a sua mãezona, que te ama – A voz voltou a embargar – Que vai estar sempre do seu lado e com quem você pode contar sempre, pra vida toda – O choro desabou mais uma vez e voltaram a se abraçar, agora ainda mais forte.
Chica viu a filha deitar no seu colo em busca do carinho especial da mãe, que prontamente afundou os dedos nos cabelos de sua caçula.
–Quando vamos conhecê-la de forma adequada agora? – Riu tentando fazer graça do almoço que não havia dado certo – A sua escolhida...
–Então – Clara levantou contente – Quero oferecer um jantar pra ela, com todos. Ricardo e a filha dele também. Afinal, agora somos todos uma grande família – Estava verdadeiramente animada pensando no assunto – Já parou pra pensar nisso?
–E não é que é verdade, uma família adoravelmente não convencional – A mãe concordou – E vem cá, Clara. O Ivan? Já conversou com ele?
–Mãe, de todos nós, esse garoto é o progressivo – Suspirou pensando nas palavras do filho – Ele só enxerga o de melhor nas coisas. Fora que ele amou a Marina – Fingiu ciúmes – Virou fã número um.
–Que bom, filha. Quem bom – Beijou a testa da tão amada mais nova – Vou organizar o jantar – Pode ser quinta?
–Pode mãe, quinta! Combinado... Você é maravilhosa, obrigada.
–E você e seus irmãos são a razão da minha vida – Voltou a se emocionar.
–E essa conversa é a razão do meu primeiro atraso já no meu primeiro dia de trabalho, preciso correr.
–Vai, e depois me conta tudo, quero saber dessas novidades... Trabalho! – Ficou feliz pela sua menina.
Chegou ao estúdio um pouco atrasada, mas logo contou para a namorada o motivo e principalmente, a conversa que teve com a mãe e com o filho. Viu Marina iluminar-se com as novidades e com a transparência e receptividade de Dona Chica e do pequeno Ivan.
Passou o resto da manhã ensinando Clara sobre o trabalho e ouvindo cutucadas da assistente ruiva. Não se importavam, estavam tão felizes que nada poderia abalar tal estado de espírito.
–Foi tão gostoso acordar com a foto de vocês – Conversavam no almoço – Ele é tão amável Clarinha – Fechou os olhos pensando no menino carinhoso que parecia em muito com a mãe.
–Ele é sim – Repetiu o gesto da amada – Ele aceitou da melhor maneira o que temos, e eu nem precisei falar nada, ele deduziu sozinho. Sentiu nossa cumplicidade, nosso amor.
–Até ouvir a primeira piadinha no colégio – Vanessa que estava na mesa acrescentou.
–Pois é – Ouviu uma Clara sem muita paciência concordar – Infelizmente existem crianças que são criadas por pais intolerantes, infelizes e amargos – Os olhos voltaram-se para a ruiva – Mas ele vai ter os argumentos certos pra se proteger, quem sabe até não ensina para um ser humaninho como o amor pode ser muito maior que mesquinharias – Sorriu vendo Vanessa perder todos os seus argumentos, a morena estava ficando boa nisso.
A semana passou diligente, os preparativos para a viagem de NY tomavam conta do estúdio e das meninas, estavam animadas, todas. Embarcariam em uma semana. O jantar de hoje a noite também causava arrepios na espinha de Marina, sabia que tudo estava de certa forma bem, mas não podia deixar de sentir tamanho nervosismo. Clara já havia deixado o estúdio para se arrumar e deixar Ivan pronto.
Quando a campainha tocou já estavam quase todos no apartamento da matriarca da família Fernandes. Helena abriu a porta e viu a figura de Ricardo muito bem apessoado entrar reapresentando a filha e então, a prima.
A fotógrafa surgiu esplendorosa atrás dos dois. Usava um vestido vinho que contrastava com a pele branca. Os lábios pintados de vermelho traziam à tona todo o seu poder e sensualidade.
–Oi – Ele sorriu para todos sem demonstrar nervosismo, pelo contrário, se fazia parecer firme.
–Oi Marina, nossa que linda você esta – Helena a abraçou cumprimentando logo em seguida Gisele.
–Obrigada, Helena. – Sorriu elegante
Chica se aproximou da figura deslumbrante da nora com um olhar doce, Marina tinha no rosto um semblante de quem dominava com facilidade o mundo, mas definitivamente não era proposital.
–Marina – Falou com os braços abertos – Seja bem vinda a minha casa, a nossa família – Abraçou com calma o corpo esguio e elegante.
–Muito obrigada Chica. Cllara sempre me fala da mãe maravilhosa que ela tem – Retribuiu a gentileza sorrindo – É uma mulher sortuda por te ter como mãe.
–Sortuda sou eu por ser mãe de uma pessoa tão doce e forte ao mesmo tempo. Clara que é maravilhosa – Derreteu se
A morena saiu do interior do apartamento acompanhada do filho que assim que viu a figura de Marina em pé na entrada da casa correu imediatamente até ela chamando por seu nome.
A fotógrafa se abaixou pra retribuir o abraço apertado e sincero de Ivan, estava verdadeiramente animado em vê-la
–Olha só – Disse o menino retirando um rolo de filme do bolso – É pra você – Entregou animado suas fotos aos cuidados dela.
–Uau, muito bem. Não vejo a hora de revelar e ver o que o senhor andou fotografando com tanta dedicação -Afagou os cabelos dos meninos.
–Vem, vamos entrar – Chica levou todo mundo à sala de jantar – Rosa, por favor, sirva alguma coisa para os convidados beberem – Era gentil no tom.
Fizeram um brinde ao redor da mesa quando a morena resolveu falar. A voz estava ainda mais rouca do que o usual, tentou focar no fato de estar cercada por sua família, que a amava incondicionalmente. Isso a tranquilizou.
–Eu só quero agradecer pelo amor pleno que recebo de todos vocês, sem exceção – Olhou para a namorada – Fico feliz de ter pessoas tão especiais aqui reunidas pra brindar comigo esse momento novo e completo da minha vida. A Marina surgiu pra me fazer enxergar todo o potencial que tenho dentro de mim, tanto na luta quanto no amor. E dividir meus momentos e minha vida com ela se tornou algo imprescindível. Nada mais justo então do que dividir isso com vocês e trazer pra dentro de casa alguém que só me traz o melhor – Voltou a erguer a taça e todos repetiram o gesto – Um brinde.
–Olha, eu admito que estou nervosa de encarar todos vocês e admito que admitir isso acabou de me deixar menos nervosa – Todos riram com a insegurança que docemente não combinava com ela
–Mas eu quero agradecer pela receptividade, quero agradecer ao esforço – Olhou para Chica e sorriu com carinho – Sei que para muitos pode não ser fácil aceitar o amor em suas mais variadas formas, mas só o fato de querer fazê-lo já os tornam pessoas tolerantes. Obrigada pelo apoio que depositam na Clara, sem dúvida a felicidade dela reflete em mim, só tenho o que agradecer – Todos sorriam sorrisos largos, os olhos estavam emocionados, Felipe mal conseguia disfarçar a emoção. Virou a taça em uma só golada pra se livrar do choro que insistia em cair.
Sentaram para jantar, não poderia ser diferente, a conversa fluía com alegria e o volume era alto. Por vezes todos queriam falar ao mesmo tempo e até Virgílio que costumava ser o mais brando de todos se animava depois de algumas doses de uísque.
Estavam satisfeitos sentados no sofá, Clara que havia retocado o também batom vermelho estava escandalosamente linda dentro de uma blusa preta trabalhada de pé observando todos conversarem animados
–Ela é realmente linda, hein Clarinha? – Helena exclamou – Sabe, no meio de tanta confusão não havia nem sobrado tempo pra perceber o quanto essa mulher é poderosa – Fazia carinho nos cabelos dourados do sobrinho que já estava capotado em seu colo.
–Ela tem um ar poderoso – Felipe falou um tanto bêbado já – Parece uma rainha – Gargalhou sendo fofo.
–Educada, polida – Virgílio acrescentou.
–Marina sempre foi assim – Ricardo constatou – Sempre foi uma menina de personalidade, de talento e muita sensibilidade. Estudou muito tempo em Paris, morou em diversos países – Contou com um sorriso no rosto – Claro, já teve uma fase um tanto quanto malandra, já andou aprontando muitas por ai – Riu com todos.
–Eu to te ouvindo, primo – Ela disse vindo da cozinha acompanhada de Juliana.
–Depois eu vou querer saber mais dessas histórias, viu Ricardo? – Clara falou de pé tentando segurar o riso – Quero saber o que essa Marina já andou aprontando por ai – Viu a fotógrafa a abraçar delicadamente por trás.
–Isso foi antes de conhecer você, meu amor – Acrescentou enquanto Clara virava a cabeça pra olhá-la.
–Levando em consideração que nunca vi essa cara de apaixonada estampada em Marina, acho que pode confiar, viu Clara? – Gisele defendeu a prima com vigor fazendo todos rirem.
–Forma um casal lindo, né? – Chica sussurrou ao pé do ouvido de Helena, estava definitivamente rendida aos encantos da nora.
–Lindas e felizes, da até gosto de ver – A filha mais velha respondeu com os olhos tenros
–Bom, eu gostaria de aproveitar que estão todos reunidos pra convidar a família Fernandes pra um churrasco na minha casa nesse final de semana. Alguém andou sonhando com isso – Apontou para o menino que dormia pesado esticado sobre os tios no sofá – Então resolvi realizar – Terminou o convite de maneira elegante.
–Sim, e como vamos viajar no final de semana seguinte à trabalho para NY – Clara disse animada lembrando o que haviam contado no jantar – Queremos reunir todos vocês.
–Por toda a família – Chica animou-se – Convite aceito. Estaremos lá, Marina. Obrigada pela gentileza.
–Então vamos? – Clara virou-se para ela olhando o relógio – O Ivan ta todo torto tadinho, quero colocar o bichinho na cama.
–Vamos, eu acompanho você – A fotógrafa respondeu indo se despedir de todos em seguida agradecendo mais uma vez tamanha receptividade.
Clara pegou o filho no colo e seguiram para a casa em silêncio. Depois de colocar o pequeno na cama foi ao encontro da amada que a esperava na sala.
–Bom meu amor, vou mandar uma mensagem pro Seu Pedro vir me buscar. Tava tão entretida que acabei esquecendo de avisá-lo.
–Vai tirar o Seu Pedro do conforto dele? Tadinho... – Fez uma cara de sapeca quando tentou reproduzir um beicinho.
–Isso... – Marina começou mais foi interrompida
–É um convite – Clara declarou – Dorme comigo aqui?
–Mas tudo bem pra você, Clarinha – Tentou entender de verdade – Esse apartamento...
–São só coisas meu amor, coisas com lembranças de uma vida que foi boa enquanto durou mas que não me pertence mais. Minha vida é isso que estou vivendo agora e você esta inserida de todas as formas nela. Nada mais justo passar uma noite comigo, na minha casa.
–Nada mais gostoso também – A fotógrafa a abraçou – Vou precisar de uma roupa – A cara era animada.
–Vem – Clara a puxou pelos braços.
O sábado típico de verão carioca chegou com um calor elevado. A casa de Santa Teresa amanheceu animada, o samba que ecoava pelo jardim tornava o lugar ainda mais bucólico. O som combinava com um dos bairros mais boêmios da cidade e a alma artística refletia também na mansão de Marina Meirelles que tinha espalhadas pelo jardim fotografias do pequeno bichinho da família.
O menino puxava todos que chegavam pelas mãos sem se caber dentro de si tamanho era o orgulho, queria mostrar para cada um deles suas obras. E obviamente deixava todos os membros da família profundamente encantados. Marina o apoiava, mais que isso, confiava na sensibilidade dele.
O clima era tão gostoso que até a amargura usual de Vanessa não apareceu, todos eram agradáveis e inteligentes, cada um com uma história interessante para contar. Estava distraída, principalmente com Felipe com quem dividia copos de caipirinhas.
Flavinha que tinha na câmera fotográfica um vício empunhava uma registrando as risadas, os momentos, os goles, a vida que a cercava.
As amantes já estavam dentro da piscina com o pequeno que tinha a energia de dez, nadava enlouquecidamente de um lado para o outro brincando com as duas que tentavam acompanhar o ritmo.
Depois de incansável uma hora Ivan saiu da água atrás de alguma coisa para comer. O resto da família estava na cozinha ou no ponto mais alto do jardim, Virgílio acompanhava Vanessa ao estúdio com Felipe apreciando as obras aclamadas da fotógrafa.
–Maravilhosa – Clara sussurrou audível para a figura de Marina sentada na borda virada para ela, de dentro da água.
–É você – Ouviu a mulher responder com sinceridade.
Os olhos da morena tomaram outros ares, percorreu as pernas que tinham uma parte submersa, subindo lentamente pela pele branca ligeiramente queimada pelo sol. Alcançou a parte de baixo do biquíni e como se fosse um animal selvagem sentiu seu corpo responder.
Não seria possível mensurar em palavras o desejo que Marina despertava nela. Subiu lentamente pela barriga plana e pintada alcançando os seios perfeitos cobertos por uma parte de cima preta.
O pescoço inclinado para o lado chamou sua atenção e quando alcançou a boca que se mordia como sinal de desejo o coração acelerou ainda mais – Deliciosa – Acrescentou.
Viu a mão alva percorrer o próprio pescoço descendo com cuidado pelos seios, arranhando a própria barriga e entrando discretamente pela borda da calcinha do biquíni. Os olhos rasgados fecharam em um suspiro quando alcançou o próprio sexo. O seu coração também estava acelerado, a casa estava cheia, mas precisava mostrar o que Clara fazia com ela.
Tirou rapidamente exibindo para a morena os dedos lambuzados pelo próprio prazer.
Um frio na barriga quase mortal tomou conta de Clara que soltou um gemido delicioso quando viu a amada levar até a boca, em silencio, o próprio líquido para ser chupado.
–É isso que você faz comigo – Disse Marina carregada de desejo
Os olhos atentos de Clara vasculhavam o jardim por detrás da morena para garantir que não havia ninguém por perto, a figura de Marina sentada de costas para a grande casa da beira da piscina também não despertava grandes interesses.
–Quero ver mais – Disse ainda olhando a totalidade atrás da amada – Mostra.
–Aqui? – Sorriu surpresa
–E agora – Completou ofegante, sentiam-se duas meninas descobrindo a sexualidade, com a família por perto, o frio na espinha, o coração acelerado, o gosto do proibido. O cheiro da água, do calor, do churrasco, do jardim ajudava ainda mais nesse transporte de tempo – Só um pouquinho – Pediu com jeito – Coloca a calcinha pro lado, me mostra um pouquinho vai... – Agora a voz carregava de desejo, não aguentava mais esperar.
–Assim? – A fotógrafa atendeu o delicioso clamor da namorada afastando delicadamente a parte de baixo para o lado.
–Marina – Ouviu a morena gemer – Você é tão gostosa – Completou sentindo o sexo pulsar quando viu o dedo médio da amada movimentar-se sozinho fazendo um carinho no pequeno ponto exposto.
–Eu quero te chupar – Levou as duas mãos ao rosto molhando um pouco a superfície tentando controlar o desespero bom que tomava conta dela.
Ouviu o barulho da água e sentiu em seguida os braços brancos a envolverem. As pernas da fotógrafa enlaçaram sua cintura, estava leve como uma pena devido a água. Se abraçaram apertado e sentiram na pele da outra o cheiro de cloro misturado ao o odor natural que tanto conheciam. Era uma mistura boa, sem que soubessem guardavam lembranças em seus inconscientes.
–Consegue esperar, até o final do dia? – Marina sussurrou no ouvido exposto de Clara – Eu prometo que vou fazer valer a espera – Pausou – E quando digo em fazer valer, eu falo muito sério .
Pronto, foi o bastante para tirar de si imaginando e da amada que mal podia esperar o resto das forças dos corpos que agora pareciam mais quentes que o sol.
Ela definitivamente faria valer...
Fale com o autor