I want you...hungry.
1 Thinkin 'bout you
Notas iniciais
Marina descia as escadas, estava nervosa, tinha acordado com os pensamentos embolados naquela manhã de estreia, o que absolutamente não era recorrente para ela, sempre tão segura de tudo que fazia. De qualquer forma aquela manhã já havia sido pintada de uma forma diferente, o dia seria diferente, a noite seria diferente e ela nem imaginava o quanto. Ouviu as palmas e então acompanhada de suas assistentes e amigas, continuou.
Já no pé da escada tirou seu casaco de paetês prateado posando para os fotógrafos que cobriam sua mais nova exposição, InTimidade, distribuiu sorrisos e olhares sedutores como só ela sabia fazer.
Marina sentia seu corpo quente e estava inquieta, precisava andar pelo local e respirar um pouco quando se virou, paralisando. Sua respiração, que já estava pesada falhou, o peito subia e descia com mais dificuldade, acabara de ver a imagem de uma mulher doce, intrigante e curiosa com o mundo que passava diante de seus olhos, ela estava acompanhada de um homem extremamente charmoso e ao mesmo tempo desajeitado.
Até para Marina que não era uma mulher de superstições, naquele dia e naquele momento sentiu que tudo estava fazendo sentindo. Sabia que a partir daquela visão sua vida jamais seria a mesma. Sem saber pela primeira vez como agir sozinha, chamou sua sócia e amiga Vanessa perguntando:
–Quem são aqueles dois, Vanessinha?
–Não sei, não conheço – Respondeu Vanessa um pouco indiferente.
–Mas eu quero conhecer – Disse Marina com a voz embriagada
–Me leva lá?
Vanessa então tomou a frente e se direcionou para o casal, a mulher de pele dourada e cabelos visivelmente compridos amarrados em um coque frouxo que desenhavam seu rosto com uma franja quase infantil percebeu a presença da fotógrafa, que caminhava lascivamente em sua direção, naquele momento sentiu seu coração bater fora do peito, nunca havia visto um olhar tão faminto em sua vida.
Elas então pararam de frente uma para a outra com a distância de apenas um passo, sem falarem nada, se olharam e sorriram.
–Quem é você? – Perguntou Marina de uma forma sincera e doce.
–Como quem sou eu? Como? – Disse a bela mulher com um sorriso sem graça.
–É a primeira vez que estou vendo você assim de perto, mas eu já te vi em alguma revista? Programa de TV? Jornal?
–Não, não, você deve estar me confundindo com alguém porque, assim, eu nunca fui fotografada. A não ser nas festas de família, em casa. – Respondeu de forma rápida e ofegante.
Sem pensar muito Marina se virou para Vanessa e fez menção de pedir alguma coisa, a amiga que parecia conhecer mais Marina do que a ela mesma entregou na mesma hora uma pequena câmera branca Polaroid, que estava pendurada em seu ombro por uma alcinha comprida e estilizada.
–Não seja por isso – Exclamou Marina empolgada se posicionando pra tirar uma selfie com aquela mulher de sorriso largo – Essa vai ser então nossa primeira foto.
Pegou a fotografia que saiu imediatamente da câmera e entregou nas mãos vacilantes dela dizendo– Guarda pra você – E continuou:
–Bom, de qualquer forma fico feliz que esteja aqui prestigiando meu trabalho... É... Qual é mesmo seu nome?
Clara, esse era o seu nome, Marina havia acabado de descobrir mais uma coisa sobre ela, mas ainda sim sentia uma fome imensa quando a olhava, queria desvendar tudo, tinha a sensação de que aquela mulher a hipnotizava e por um momento desejou que as duas estivessem ali sozinhas.
Seu devaneio foi brevemente interrompido pelo sorriso bobo do belo homem que a acompanhava
–Boa noite – Disse rapidamente direcionando o olhar a Marina, voltando logo a fixá-lo na direção da acompanhante, continuou – Me desculpe Clara, eram os rapazes do meu clube de gastronomia no telefone. Estamos combinando um jantar, para testar aquelas novas receitas das quais falei.
Clara escutava tudo de forma aérea e inquieta, estava achando a atitude do marido, sim marido, um tanto quanto deselegante. Afinal, estavam com a responsável por aquela bela exposição bem ali, na sua frente.
–Desculpa meu marido, ele às vezes é um pouco avoado, por mais que seja um cara incrível. – Disse se desculpando e ao mesmo tempo repreendendo o rapaz que ficou com cara de bobo sem entender muita coisa.
–Não se preocupe Clara – Respondeu Marina em uma leve risada – Preciso dar uma volta pela galeria, cumprimentar os convidados, quer me acompanhar?
Clara aceitou o convite de forma imediata, mas envergonhada, encaixou o braço no braço que a esperava no ar em uma posição convidativa. Cadu ia se juntar a dupla quando seu telefone voltou a tocar, tirando-o da redoma que se formou ao redor daquelas duas mulheres. De alguma forma elas se atraiam como ímãs de polaridades opostas.
Passearam por toda a extensão da galeria, Marina acenava e falava com as pessoas que encontrava pelo caminho, conversavam sobre as fotos, sobre sua volta para o Brasil, sobre seu pai. Clara acompanhava tudo calada e sempre sorrindo, um sorriso sincero, sorria porque de certa forma o contato daquele braço com o seu lhe causava uma sensação de excitação, era como se ela fosse explodir de tanta vida que tinha dentro do peito.
–Vamos embora, amor? – Disse Cadu com cara de cansado e pidão, tirando a esposa de um leve transe.
–Ah, tudo bem, vamos – Clara respondeu se voltando para Marina – Foi um prazer te conhecer, Marina. Tive uma noite muito diferente e extremamente agradável. Mais uma vez, parabéns pelo seu trabalho.
–O prazer foi todo meu, que pena que precisam ir, mas tenho certeza que nos veremos muito em breve – Respondeu desejando com todas as forças que aquelas palavras se concretizassem.
Despediram-se com beijos no rosto, as duas em suas particularidades aproveitaram para guardar em si o cheiro da outra.
Quando chegaram ao apartamento Cadu foi direto para o banho e Clara se se encostou à cama, sem querer tirar dela aquele perfume amadeirado e ao mesmo tempo sensual que a fotógrafa havia deixado em sua pele.
Pegou o computador e buscou na internet mais informações sobre ela, encontrou o site de Marina Meirelles e na parte de Making of assistiu ao vídeo ‘Como surgiu a série InTimidade’ onde a mesma contava sobre a exposição que ela acabara de conhecer, foi como se tivesse respirado pela última vez antes de apertar o play.
Quando acabou, Clara se sentiu embriagada. Um frio subia pelo seu estômago, por sua espinha. Era como se estivesse tendo uma crise de ansiedade, era como se sentisse completamente. – Ah, não. Meu Deus – Clara murmurou só para ela ouvir. Como se sentisse completamente apaixonada.
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