I want you...hungry.

2 I’m giving you a nightcall, to tell you how I feel


Notas iniciais
Escutem a música, quando chegar o momento, com ela.

Marina acordou cedo como se estivesse saindo de um sonho maluco, tinha alguma coisa dentro dela que não correspondia mais a tudo que ela sempre acreditou e viveu, ela precisava identificar o que exatamente era isso, mas já sabia quem o causava, Clara.

Foi a primeira imagem que viu dentro de seus olhos que mesmo abertos estavam cobertos por essa camada. Ela sempre foi uma mulher independente, de muitos romances, aventuras e não lembrava agora de uma única vez que seu coração bateu descompassado por alguém. Aquele sentimento, aquela boca seca, a cabeça nublando, não deixava de ser assustador. Clara era casada, tinha uma vida, obviamente nem bissexual era – Onde está com a cabeça, Marina? – Disse para si, querendo alcançar aquela pessoa que ela conhecia e sabia lidar.

E em um dos maiores golpes que ela poderia aplicar contra si, chamou por Vanessa e pediu firmemente para que a ruiva conseguisse qualquer contato possível daquela mulher.


Clara abriu os olhos e demorou um pouco para entender o que a havia despertado quando percebeu que seu celular tocava insistentemente. Cadu se mexeu preguiçoso na cama, em um salto ela agarrou o celular e foi atender no banheiro, um pouco preocupada, era cedo demais.


– Alô, alô?

– Oi – Respondeu em um tom muito sensual, era da natureza dela ser assim – Desculpa ter acordado você tão cedo – Foi logo se explicando e imediatamente foi interrompida por Clara.– Ei, não precisa se desculpar – Respondeu com o coração acelerado, ela estava escancaradamente, para si, feliz com a ligação – Como... É... Onde conseguiu meu telefone? Está tudo bem, Marina?

– Sim, sim, tudo bem – Respondeu ansiosa ignorando a última pergunta – Eu to ligando para te fazer um convite. Hoje a noite vamos tomar um vinho na minha casa, virão uns fotógrafos amigos, as meninas do estúdio estarão e eu adoraria que você também viesse. Ah, pode convidar o seu marido, claro. Só não aceito um não como resposta – Disse incisiva.

Clara sentiu o corpo pesar por um momento, não sabia por que a fotógrafa exercia esse poder sobre ela. Mesmo pensando besteiras na noite anterior, sabia que aquilo não fazia o menor sentido, havia visto aquela mulher uma única vez. Ao mesmo tempo era tudo muito novo, ela se sentia alegre, descompassada e ansiosa, como uma menina e a última coisa que faria naquela manhã seria recusar o convite.

– Nossa, Marina! Vai ser um prazer conhecer sua casa, seu estúdio, eu amo fotografia, fiquei encantada com seu trabalho. Poxa cara, estarei lá. Me passa o endereço por mensagem quando desligar.

– Que bom – Exclamou Marina sinceramente feliz – Te espero.

Clara deitou na cama, mas seria humanamente impossível voltar a dormir, então aproveitou o dia lindo que já se mostrava lá fora, se vestiu e foi dar um mergulho no mar.

O dia estava passando insuportavelmente arrastado para as duas, Clara tentou estender, com sinceridade, o convite à Cadu, mas ele já tinha um plano, ia encontrar seus amigos do animado e beberrão grupo de culinária. Clara achava graça deles, não desgostava das reuniões empolgadas, mas mesmo assim se sentia ligeiramente deslocada.

Nunca havia dado muita importância para isso, quando encarou aquele sentimento por uma nova perspectiva. Fazia tempo que ela não se sentia verdadeiramente animada para um programa, alguma coisa que tivesse a ver com ela, que ela se identificasse e ansiasse, até hoje.


Marina cuidava dos últimos detalhes e pediu para que Vanessa preparasse seu banho. Já com tudo pronto ela se dirigiu ao banheiro, escolheu uma música que parecia tão enevoada quanto ela naquele momento, London Grammar – Nightcall, a letra deslizava como se ela cantasse para um alter ego, seu e que até então desconhecia.

Sentia-se pela primeira vez sozinha, aprendendo a lidar com algo que ela nem sabia o que era. Despiu-se em frente ao espelho e gostou do que viu. Era uma mulher extremamente sensual, tinha um olhar baixo e cerrado, quase felino. As pernas eram compridas, era esguia, mas ao mesmo tempo tinha curvas bem definidas, apesar de delicada Marina era uma mulher alta.

A pele branca e ligeiramente pintada submergiu na banheira, o cheiro do banho tomava conta de todo o ambiente. A música estava alta, ela ia navegando pensativa no som que ecoava e se pegou sorrindo, excitada, acelerada. Ela estava assustada sim, mas definitivamente feliz.

Clara estava ainda mais dourada depois do sol da manhã, o banho de mar a tinha feito muito bem. Foi até o quarto do filho que jogava videogame e disse que Rosa, a querida empregada da família, ia cuidar dele e que ela e o pai voltariam tarde. Não pediu para o filho se comportar por que já sabia que era um tipo de recomendação vã se tratando de Ivan, o menino era doce e educado, apesar da eletricidade comum em qualquer criança ele não dava grandes trabalhos.
Dirigiu-se para o banho que foi quente e demorado, pensou em como o filho já estava grandinho e no bom trabalho que ela e o Cadu tinham feito na educação dele. Sentiu-se orgulhosa, quase como se tivesse cumprido uma primeira etapa da sua vida de adulta, de mulher e mãe. Por um momento ansiou por mais.

Marina desceu para a grande sala de sua mansão em Santa Teresa exalando todo seu charme, seu poder que fascinava todos que estivessem por perto. Ela era uma mulher muito educada, uma ótima anfitriã e adorava saborear uma boa bebida.
Seu tio Ricardo sempre brincava dizendo que Marina tinha uma força com o álcool que ia além das definições de homem e mulher, era como se seu organismo a entorpecesse sempre no nível certo para que ela liberasse na medida seus segredos, em doses homeopáticas –Ela riu ao lembrar-se da frase, pensando que não era bem assim, se recordava vividamente de alguns grandes porres que já havia tomado.

Clara chegou de táxi na porta daquela casa imponente, estava ligeiramente trêmula, mas mesmo assim se dirigiu até a entrada. Deu seu nome para o segurança, que depois de verificar em suas anotações a guiou apontando o caminho para a sala.

Ela está ainda mais linda, pensou Marina quando fitou Clara na porta de entrada. Ela se dirigiu apressada em sua direção para que a morena não se sentisse perdida.

–Clara, que bom que você veio. Nossa! Você está ainda mais linda – Repetiu em voz alta — sabia que estava fazendo a coisa certa ao te desejar... – Parou por um segundo, o que fez com que Clara perdesse o chão – ao te desejar aqui. Vem, vamos te servir uma taça.

A noite ia passando agradavelmente, os poucos convidados estavam sentados ao redor de uma grande e linda mesa de madeira rústica que ficava no centro da sala de estar, todos conversavam animadamente e tomavam vinhos deliciosos.

Clara ria de um comentário engraçado feito por um dos fotógrafos, falava sobre as aventuras de sua namorada modelo que morava em NY, quando pousou o olhar em Marina.

A conversa ecoava na sala, as risadas eram altas e um pouco entorpecidas, mas tudo que Marina via era Clara, aquele sorriso aberto, sincero. Ela parecia muito à vontade ali, lhe pareceu uma mulher extremamente feliz e doce. Clara pousou os olhos em Marina, que não conseguiu desviar.

As duas ficaram se fitando, beberam quase em conjunto um gole de vinho, Clara olhou para os lábios de Marina que estavam levemente coloridos com a bebida, Marina sorriu e ela focou ainda mais o olhar. Estava bêbada? Estava louca? Estava morrendo de vontade de tomar um pouco mais de vinho, só que dali, da boca daquela mulher que fazia ela desejar ser alguém que ela nunca foi.