I want you...hungry.
3 Lost, but now i am found
Notas iniciais
Clara estava em um transe absoluto, jurava que podia sentir seus olhos marejarem, sentia o corpo todo responder, sentia muita sede.
Marina despertou com uma melodia sensual que surgiu de fundo, tocando ‘baixo’ nos speakers, pelo menos em relação a todas aquelas vozes e risadas mundanas. -O que o vinho não fazia?- Pensou alto.
Levantou sem pressa, pegou o controle e despercebida por todos aumentou o volume, era Lana — Born To die que tocava.
Despercebida por todos, menos por Clara que agora se sentia completamente embriagada por aquela mulher, não importa o que ela exteriorizasse ou o que mostrasse, ela sabia perfeitamente o que estava sentindo e como seu coração acelerava com a aproximação.
– Eu adoro essa música, Clarinha – Disse encostando seu rosto na lateral do rosto da morena, olhando fixamente para frente — Dança comigo? – Uma mão repousava levemente no ombro de Clara e a outra segurava a bebida.
Ela tentou responder, mas a voz falhou. Sentia um calor gelado, se isso era possível, percorrer toda sua espinha. A nuca arrepiou como se fosse uma gata se defendendo do perigo, era inútil, ela não queria se defender, não naquele momento.
–Marina – balbuciou –Eu... Eu não sei dançar, nunca fui boa nisso – Tentou em uma última tentativa de se salvar daquilo que já sabia estar condenada, não era possível sentir tanto com a presença de alguém, era uma loucura, uma loucura insuportavelmente boa.
A fotógrafa ignorou a resposta, desceu uma das mãos pela lateral do braço da dona de casa, avançou mais, encontrando a mão de Clara que estava visivelmente desconfortável pousada sobre a perna direita. Segurou e como se já dançasse com ela a puxou para fora da cadeira, levando a morena que não teve tempo de pegar sua taça de vinho, elas tinham praticamente a mesma altura e seus passos se acertaram rapidamente, Marina a guiou pelo centro da sala, chegando a um canto isolado perto da lareira apagada, estava quente no Rio de Janeiro, principalmente ali.
O braço livre envolveu a cintura de Clara, elas começaram a se mexer lentamente, no ritmo da voz hipnotizante da cantora. Olharam-se e ambas, claramente, sentiam aquilo. Era como se fossem consumidas uma pela outra, elas se desejavam, conscientemente e em silêncio. Perdidas, mas se encontrando.
Marina afundou o nariz nos cabelos soltos que estavam à sua frente, respirou fundo, avançou buscando sentir mais aquele cheiro, chegando à lateral do pescoço de Clara, enquanto a dona de casa segurava nos ombros da fotógrafa, de uma forma simples, mas que despertava um desejo lascivo, sentia a pele dela sob suas mãos.
–Marina, a música já vai acabar – Disse tentando se livrar do abraço – Deixei minha bebida na mesa, vou buscar – Nenhum dos apelos surtiram efeito – A fotógrafa subiu o rosto lentamente, tirando-o daquele canto quente e inebriante do pescoço da morena, repleto do seu cheiro.
–Logo começa outra, Clarinha – respondeu ainda a segurando sedutoramente pela cintura com uma das mãos, levantou a outra com a taça e continuou – Eu tenho bebida aqui, você quer?
Clara ficou perturbada, era como se ela lesse seus pensamentos mais libidinosos, pela primeira vez naquela noite o marido apareceu em sua mente, sentiu vontade de chorar por não se sentir uma mulher livre, por não ser a única afetada pelos seus atos. Ela queria tanto que doía e o desejo a rasgava por dentro, sua respiração acelerou de uma forma abrupta, ficou visível.
Marina afrouxou o braço e olhava diretamente nos olhos dela ainda segurando sua cintura, elas eram a perdição uma da outra, já sentiam isso.
–Você não me conhece, Marina, mal sabe a vida que levo, sabe que sou casada, mas eu cuido de casa, do meu marido, do meu filho – Disse de uma forma rápida e sem folga – Eu tenho uma história de mais de dez anos, eu nunca senti algo assim na vida, ainda mais por uma mulher, cara. Eu to me sentindo atordoada, que loucura, isso é uma loucura – Disparou sem dar chance de resposta, mas mantinha a voz baixa, falava quase que em um sussurro.
Marina a envolveu ainda mais e continuou se movimentando com ela no ritmo da música que acabava, como em um acalento, logo Lana voltou, agora era West Coast que começava a tocar.
–Clara, eu vou ter todo o tempo do mundo pra te conhecer melhor, pra saber de você, do seu filho, pra entender porquê apesar de casada com um homem você me invade descontroladamente com os seus olhos – Respondeu sincera, curiosa e o tom ficou safado no final da frase, a boca abriu levemente e ela parou por uns segundos como se tivesse sido hipnotizada, fitava os lábios da morena que também paralisou.
Subiu novamente a taça na altura do rosto de Clara, soltou a outra mão da cintura dela, deu uma mordida espontânea no lábio inferior e voltou a perguntar, com um olhar que literalmente a devorava – Você quer?
Clara instintivamente também mordeu os lábios, os segurou assim, os olhos tinham um pesar, parecia doer dentro dela, mas ao mesmo tempo brilhavam. Transmitiam o desejo e responderam antes mesmo que falasse algo, em seguida fez que sim com a cabeça de uma forma desnorteada e pausada.
Ela ia levantando a mão direita em direção à taça da fotógrafa, que estava a menos de meio passo de distância dela. Foi em vão, Marina já estava levando a bebida à boca, tomou um gole grande, também sentia sede e com os olhos cerrados por cima do copo fitava os castanhos curiosos e assustados que estavam na sua frente.
Deu mais um gole e esse não desceu. Clara abriu ligeiramente a boca em forma de O, seu sexo pulsou e como que de uma forma inconformada com tanto desejo soltou um som que mais pareceu um suspiro, ela sabia o que aquela mulher maravilhosa iria fazer e já tinha cedido antes mesmo de pensar em correr dali, mais que isso, havia pedido por aquilo.
Marina deslizou a mão pelos cabelos de Clara, pousou sobre a nuca e a puxou para perto, encostou seus lábios nos dela e de uma forma indiscutivelmente sensual e sedutora despejou a bebida na boca que esperava ofegante e ansiosa.
Afastou-se um pouco no ritmo lento e compassado da música que ainda tocava, olhou fixamente pra mulher que estava roubando o seu mundo, então era isso? Era com isso que as grandes paixões se pareciam, essa era a sensação absurda e até então utópica do amor à primeira vista? Sorriu com os olhos para a morena, ela iria mostrar como poderia ser bom, mas do que isso, ela queria e MUITO.
Clara sentiu, mas seu corpo não respondeu, ela já estava embriagada por Marina, o vinho já não surtia mais efeito. Os olhos encheram de lágrimas, quis correr, se sentiu ligeiramente angustiada, não pelo ato, mas pelo o que sentia por ele. Colocou a mão na testa que parecia febril, o rosto queimava, mas não estava doente, isso tinha outro nome.
Marina olhou preocupada. O que havia feito para aquela coisinha linda, encantadora, da qual ela estranhamente sentia vontade de cuidar? Não queria que ela sofresse, não queria causar nenhum tipo de mal e sem ter tempo de continuar com suas aflições legítimas, sentiu as duas mãos de Clara a puxarem pelos quadris, perfeitamente encaixadas acima de sua bunda, como se aquela mulher já conhecesse detalhadamente todos os seus contornos.
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