I told you not to love me.
5 O Poeta e o "Incrível"
Já passava das 21h. Sam despertou, e ao seu lado o jovem Miguel ainda estava. Ela parecia estar melhor, recobrara totalmente a memória, tudo o que vivera em seu dia começou a passar como em um filme em sua mente.
Ela até tentou arrumar forças para ir embora, mas ao levantar, sua cabeça doeu um pouco, e ela gemeu.
– Ouunt...!
Com o barulho, Miguel despertou.
– Onde pensa que está indo, senhorita?
– Eu acho que posso ir aonde eu quiser, não? [Ela se ajeitava sentando na cama]
Miguel apenas riu levemente.
– Não está em cativeiro algum. Mas será melhor que passe a noite aqui, confortavelmente. Pela manhã estará livre para seguir seu destino.
– Você fala como se fosse o meu médico. Quem é você, afinal?
Então, ele não a respondeu. Apenas levantou e foi até ela, fazendo com que esta recostasse sobre o travesseiro.
– “Sou eu, eu mesmo, tal qual resultei de tudo,
Espécie de acessório ou sobressalente próprio,
Arredores irregulares da minha emoção sincera,
Sou eu aqui em mim, sou eu.
Quanto fui, quanto não fui, tudo isso sou.
Quanto quis, quanto não quis, tudo isso me forma.
Quanto amei ou deixei de amar é a mesma saudade em mim.
E, ao mesmo tempo, a impressão, um pouco inconsequente,
Como de um sonho formado sobre realidades mistas,
De me ter deixado, a mim, num banco de carro elétrico,
Para ser encontrado pelo acaso de quem se lhe ir sentar em cima. (...) Álvaro de Campos ( Heterônimo de Fernando Pessoa)
Miguel declamou aqueles versos. E ao passo que expelia cada sílaba, o som produzido por seus lábios era doce e suave, criando toda uma atmosfera onírica para a jovem.
– Agora durma. Prometo não atormentá-la novamente. Faço o que faço por sua segurança. Só quero me certificar que estará bem pela manhã. [Então, ele sorriu novamente para ela.]
Samantha apenas atendeu ao pedido do rapaz. Adormeceu lembrando-se do poema ainda há pouco recitado.
[...]
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Enquanto isso, Oliver já completara mais de uma hora à espera da moça. Normalmente, aquela situação estaria invertida. Ele jamais levara bolo de garota alguma. Sentado, ali, sentia um vazio em seu estômago.
A garrafa de whisky já estava quase pela metade. Ele mal percebera o quanto havia bebido. Estava ali, sozinho, quando foi surpreendido por uma companhia.
– Olha se não é o incrível Oliver Carter sentado sozinho, bebendo a tristeza de um encontro que não deu certo...
Dizia Rebecca, provocando-o.
– Você pode dizer o que quiser, tudo que ouvi foi o “incrível”...[Ele ria, enquanto mais uma dose do líquido cor de madeira queimava seu esôfago]
– É ela não é? A forasteira no bar, noutro dia.
Ele nem sequer respondera. Apenas bebia, sem sequer olhá-la.
– Samantha Greer...[Ela o encarou. Como previsto, agora ela tinha a sua atenção]
– Como sabe...?
– O fato de estarmos na mesma turma de Artes Clássicas, ajuda um pouco.
Oliver escutara o suficiente. Não precisava mais estar ali, então jogou algumas notas no balcão e se levantou. A garota, claro, o seguiu.
[...]
Lá fora, ele já se aproximava do carro, quando a garota tomou seu braço, forçando-o a virar-se para ela.
– Esquece essa garota. É óbvio que você não passou de uma distração para ela... Já pra mim...[Ela colocou suas mãos envolvendo a nuca do rapaz]
– Não, obrigado. [Ele se virou novamente, abrindo a porta do carro]
Mesmo após a negativa, a garota não se deu por vencida. Então, em uma tentativa desesperada, ela bateu a porta do carro com os pés e o agarrou ali mesmo.
O beijo não passou de meros segundos. Enquanto ela pressionava seus lábios contra os dele de modo feroz e sedento, ele não demonstrava interesse algum, interrompendo ele mesmo a interação entre os dois.
– Você deveria se valorizar mais, Rebecca. Quando alguém diz “NÃO”, geralmente significa “NÃO”.
Assim, ele saiu, abandonando a garota na calçada.
[...]
Já era de manhã. Miguel despertou com os finos raios de sol que invadiam o quarto pelas faixas da janela. Passou a mão no rosto e alongou levemente o corpo, mas foi interrompido quando notou que estava sozinho no quarto.
Samatha já estava próxima a sua moto, quando foi surpreendida.
– Nem sequer um bilhete de despedida? [Miguel apareceu em sua frente]
– Acho que um bilhete atencioso não faz muito a minha cara...
– Entendo...Jaquetas de couro e um motor potente sim. [Ele sorriu para ela]
Ela o encarou e logo depois subiu em sua moto, dando partida.
– Até mais, Miguel. Ou devo dizer “poeta”?
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Então, ela sorriu e foi embora.
[...]
Oliver ainda estava deitado. A quantidade de álcool que ingerira noite passada foi a culpada por seu sono prolongado. Mas aquilo não durou muito tempo, já que, lá debaixo, vinham gritos estridentes da sua mãe.
– Oh Deus! Não acredito! [Dizia Marie]
Então, Oliver desceu as escadas o mais rápido que pôde. E lá embaixo, recebeu a maior surpresa possível.
– Miguel?!!
– Como vai, irmão?!
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