I ran away
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Notas iniciais
Aconteceu quase um mês depois da manhã em que Regina e Snow White acordaram da terrível Porção Imitatio Reflexio de Merlin. O dia estava lindo, o céu azul e o mar bravo, embora ainda estivesse muito frio, não nevava há semanas. Mas apesar disso, dessa vez, ninguém saíra de suas casas para aproveitar o começo da primavera, havia certa tensão e silêncio profundo cobrindo a cidade.
Regina franziu o cenho e espiou pela janela do gabinete central da prefeitura, tudo tão estranhamente calmo que era possível ouvir as ondas do mar batendo contra as pedras da costa. Algo estava errado. Um tremor sutil, trazido por uma única palavra aleatória, a vez ficar inquieta.
A palavra era: “Hermes!”.
Ela desceu os degraus do prédio o mais rápido que pode, tinha que procurar Robin e Emma da maneira convencional, restringir-se aos métodos humanos de locomoção – como andar, ao invés de simplesmente sumir no ar – por certo, diminuiria sua ansiedade. “Tem alguma coisa errada!”.
Contudo, apesar de sua disposição, não precisou procurar muito. Os dois policiais estavam sentados do outro lado da rua, ao lado do Granny’s Diner; a viatura de polícia e o Fusca amarelo encontravam-se estacionados, um de frente para o outro, como se tivessem vindo de direções opostas. Robin em silêncio ouvia Emma monologar sobre algum assunto, as expressões dos dois eram preocupadas, enquanto bebericaram cafés em copos de papel rosa com a pavorosa logomarca da Granny.
Regina se aproximou; agora com passos menos ansiosos. O simples fato de ter Robin em seu campo de visão já acalmava sua pressa.
– Então?! Ao que devemos essa moda Chernobyl de cidade fantasma? – Regina olhou ao redor enfatizando sua observação. Emma sorriu sem muito humor e escondeu o rosto na fumaça confortável da bebida quente. O sorriso de Robin fora largo, mas só por vê-la, já que ele não tinha nenhuma ideia de quem diabos era Chernobyl.
– Aparentemente?! Não há nada de errado. – Emma tomou outro grande gole de café, pigarreou e continuou: – As pessoas estão em casa. Bem... Ao que parece. Algumas levaram seus filhos à escola. Mas estão evitando as ruas! – O tom na voz dela era tão incrédulo quanto seus pensamentos. Alguma coisa grande estava chegando a Storybrooke... chegando rápido. Ela podia sentir.
Robin espiou o rosto de Regina: os olhos dela estavam astutos, cheios de uma inteligência viva que percorriam minuciosamente o horizonte próximo da cidade, como um cirurgião na busca de um tumor. Ele conhecia olhos como aqueles, já os tinham visto muitas vezes na floresta escura – ainda que tivesse sido em uma versão bem menos bonita – na versão de lobos gigantes. Robin sempre tivera medo daqueles olhares perigosos, fortes e destemidos brilhando no breu total. Era o seu ponto franco, desde criança até se tornar um caçador noturno, ou ladrão. “Leões não temem lobos, Robin!”. Seu pai costumava dizer. Agora, ironicamente, amava um olhar com o mesmo tipo de determinação ameaçadora.
Ele sorriu com uma estranha gratidão quando Regina – que poderia, se quisesse, arrancar sua alma com uma piscadela – o olhou de volta.
David apareceu na esquina próxima caminhando em passos grandes, o rosto compenetrado e distante. Emma sentiu um repentino alívio, seu pai chegara bem a tempo de salvá-la do clima extremamente intimo que começava a se instalar entre Regina e Robin. Ela pulou do banco, subitamente ansiosa pela expressão no rosto pálido do outro policial.
– Temos uma chamada... – David contraiu os lábios levemente. – Emma, você pode ficar na delegacia. Eu e Robin podemos cuidar disso. – Sua débil tentativa de manter a filha longe de problemas foi ignorada, como ele sabia que seria. As chaves do fusca amarelo já se agitavam nas mãos de Emma.
Emma e David entraram no carro e partiram apressados com pneus assoviando contra o asfalto. Robin puxou Regina pela mão, queria que ela fosse com ele, não iria perdê-la de vista. Se as suspeitas de Emma fossem verdadeiras, então aquele tal deus da magia estava de volta. “É como um jogo de tabuleiro para ele, Robin. O filho-da-mãe está brincando com as nossas vidas!”. As palavras exatas da Xerife voltaram trazendo-lhe um bizarro frio na espinha. Regina com certeza era uma peça importante nesse maldito jogo. E para o alívio dele ela não ofereceu resistência, o seguiu automaticamente. Ele a roubou um beijo rápido e deu partida na velha viatura, a tempo de seguir o borrão amarelo que o fusquinha havia se tornado.
***
Regina queria sair dali, mas não conseguia, queria desviar o olhar, porém a visão era grotesca demais para ser ignorada. A chamada policial tinha vindo da senhora Blake, a velha os estava esperando na frente do Hans’s Diner, com o olhar alheio e miúdo fitando os dois cadáveres dentro da lanchonete, como um lagarto de olhos opacos.
– Não queria que ninguém os visse antes de vocês... Assustaria ainda mais as pessoas. Não é?! – ela tinha uma voz decrepita cheia de morbidez, embora suas palavras soassem sensatas. A velha tossiu e sorriu sem graça olhando para o rosto apavorado de Emma. – Não acho que seja bom você se aproximar tanto, meu rapaz... Eles estavam doentes!
Robin não olhou para a Sra. Blake, nem seguiu suas orientações; Hans e Rose jaziam mortos, lado a lado, as mãos enrugadas e rígidas deles estavam entrelaçadas. Hans com seus enormes olhos de coruja abertos, olhando para o nada; embaixo da sua garganta e olhos havia marcas escuras de um tom bordo negro, como uma coleira que cobria todo o pescoço. Rose também usava a mesma coleira, mas ela tinha um fio de sangue coagulado escorrendo lhe da boca e manchando seu avental que um dia fora branco. Por toda a parte havia vômito. Eles deviam está mortos há uns dois ou três dias, Robin pensou e ficou desolado. Como ninguém percebera o que estava acontecendo? Por que eles não foram ao hospital? O que os tinha matado? Todos se faziam essas perguntas, exceto Regina. Ela pensava no cheiro agridoce, no terrível e indefinível cheiro de carne humana podre. Seu estomago reclamou e ela quase gemeu.
Rose e Hans não eram as primeiras pessoas mortas que Regina via, talvez sim em uma cena tão trágica de deterioração. E mesmo a Rainha Má colecionando assassinatos em seu histórico, aquilo ainda fora capaz de revirar seu estômago. Era como o cheiro de tomates podres, porém com qualquer coisa de sódica e cítrica.
“O cheiro!”. Ela pensou e por um momento sentiu desorientação espacial.
– Eu os vi na terça... Estavam ótimos. – Robin falou como se pensasse alto. – Hoje é sexta feira. Eles estão mortos há... Como isso é possível? – Sua voz falhou no final, tomado por uma imensa tristeza, enquanto fechava as pálpebras do rosto pálido de Hans. Em seguida seus olhos procuraram quase em um piloto automático por Regina e quando viu a expressão pétrea dela, desejou não tê-la levado.
– Eles ficaram doentes na quarta, acho. – A Sra. Blake espirrou depois de falar. Todos na sala se assustaram, como se a velha tivesse gritado. – Bem... Pelo menos posso dizer com certeza que tudo está fechado desde quarta. Pobrezinhos. Foram boa gente. – a voz dela estava ficando cada vez mais cansada.
– Você não parece muito bem, Sra. Blake. – David observou. Os quatro se entreolharam com o tipo de olhar: “está pensando o mesmo que eu?”.
Claro que estavam.
– Ah, meu filho... Queria eu ser tão jovem quanto vocês... Gripes não passam simplesmente por mim, elas estacionam e me causa uma porção de problemas. Minha nossa... – Tossiu e espirrou depois recuperou o folego cansado. – Peguei esse resfriado da minha neta. Crianças parecem nem sentir...
– Onde está sua neta? – A voz de Regina a interrompeu. Seu rosto sério olhou para velha e depois para Emma, que um segundo depois desejava com a mesma intensidade ouvir a resposta da velha.
– Na escola! Meu filho achou que ela melhoraria se brincasse com os amigos hoje... – Blake não olhara na direção de Regina ao responder com hostilidade na voz.
Regina desapareceu em um flash repentino, no meio de uma fumaça densa e roxa, que também sumira com ela. A velha Sra. Blake gritou quando Regina dissipou-se no ar.
– Por Deus! Essa moça me assusta. – Ela disse pouco antes de cair no chão convulsionando ferozmente.
***
Snow White hesitou por um momento, lendo a expressão de agitação entorpecida na face de Regina:
– Julie?! – A professora disse, por fim, e chamou a garota com a mão. – Pode me dizer o que está havendo? – Snow voltou-se para Regina.
– Não sei. – Regina limitou-se, balançando umas das pernas, impaciente pela pouca pressa da garota em percorrer os corredores de cadeiras da sala de aula. – Por enquanto, quero que você mande todas as crianças para casa. Todas exceto as que parecerem doentes. A Blue vai cuidar delas. – Regina desviou o olhar para o outro lado da escola onde a Madre Superiora e Leroy começava uma patrulha meticulosa pela sala de Henry em busca de crianças doentes. – Pegue Henry, Roland e fique em casa...
– Regina? O que está havendo? É ele quem está... Hermes? – Snow diminuiu o som da voz até que virasse um sussurro impossível de Julie, agora mais perto, escutar. – Querida? Tudo bem se você acompanhar a Prefeita... – Mary Margaret parou sem saber como continuar, torcendo para a garota não se opor.
– Ok! – Os olhos azuis de Julie Blake fitaram Regina de maneira desconfiada, mas corajosa. Os cabelos loiro-acinzentados de Julie penderam para frente quando ela se inclinou para beijar sua professora como sempre fazia antes de deixar a sala, porém, dessa vez foi impedida pela mão firme e irrevogável de Regina em seu ombro. Não haveria beijo. – Tchau! – Snow acenou com expressão triste e olhou novamente para Regina em busca de qualquer coisa nos olhos dela que dissessem que Julie estaria em perigo.
Regina forçou um sorriso quase solidário e encaminhou a garota até uma sala vazia.
– Julie Blake?! – Regina tinha o rosto tenso, mas tentou parecer leve, a última coisa que precisava era de uma garotinha assustada por, provavelmente, está portando um vírus mortal enviado por um deus lunático e obsessivo. – Julie, você já viu magia? – Regina aproximou-se testando o quanto assustada com a presença dela a criança estava. Contudo ela não se moveu em aversão, manteve-se com o olhar distante especulando o motivo da pergunta. Julie lembrava-se de quando uma nuvem roxa cobrira sua aldeia na Floresta Encantada, fora isso, magia fazia parte da vida dela tanto quanto aquela mulher a sua frente. Era apenas parte de lendas distantes, que de perto não pareciam tão assustadoras como diziam. A garota negou com uma balançada rápida de cabeça depois tossiu fortemente.
– Acha que seria muito assustador se nós duas sumíssemos em... “Um passe de mágica”? – Regina refletiu que aquilo seria exatamente o que uma bruxa má ofereceria. Mas a levaria mesmo assim, não a faria passar novamente no meio das outras crianças, próximo a Henry ou Roland.
Julie sorriu e depois tossiu uma tosse cansada. A mãe do Henry era mesmo uma bruxa poderosa e isso pareceu muito legal. Um segundo depois as duas apareceram no corredor branco e iluminado do Hospital de Storybrooke.
Robin e Tinker estavam do outro lado de uma porta de vidro. Viram, assim como os pacientes parados no corredor, que Regina fazia sua triunfal e despreocupada entrada. Ela sorriu em direção a eles, porém os olhos deles voltaram-se para frente, mecanicamente, como se assistissem televisão, com olhos absorvidos. Alguém, que Regina não podia ver tinha a atenção apreensiva deles.
Julie agarrou-se com as duas mãos à Prefeita assim que seus pés fizeram mesão de se afastar. A garota corajosa de minutos atrás tinha expressão aterrorizada agora; na luz branca e forte do hospital, dava para notar os círculos castanho-avermelhados que apareciam ao redor dos olhos da criança. Obviamente ela não se sentia bem, nem aquelas pessoas ao redor dela. “Eu tou doente como eles!”. Se a própria Rainha tinha ido buscá-la na escola, então as pessoas ali estavam morrendo e ela também iria.
Regina livrou-se das mãos de Julie o mais rápido que pode, não por qualquer prevenção contra um provável contato, isso nem lhe ocorreu... Talvez nem Regina pudesse explicar por que deixara a garota sozinha, chorosa e doente para trás enquanto caminhava para o outro lado da sala onde Tinker e Robin parecia assistir a um filme de Terror hipnotizante.
– Você viu Roland? – Robin perguntou quando Regina entrou no quarto. – Você está bem? – Ele segurou no queixo dela e o ergueu levemente para cima, com a intenção de ver os olhos dela iluminados completamente. – Onde eles estão?
– Em casa, agora, com a Snow. Não quis chegar perto deles... – Ela parou esperando que ele entendesse o motivo, mas teve que continuar antes que o tom de pavor em seus olhos explodisse em pânico. – Eu estou bem, Robin... Mas eu estive na sala com Hans e Rose, não era seguro para eles se eu...
Uma enorme saraivada de tosse, vinda da figura no leito com lençóis brancos, a fez parar. Todos olharam para Gold deitado na cama de hospital. Belle debruçou-se sobre ele em desalento completo e Neal a puxou suavemente, não obteve sucesso, mas também não se importou muito, era óbvio que ela também estava doente. Uma parte de Regina abalou-se profundamente com a imagem de Rumplestiltskin e seus olhos rodeados por manchas escura, afogado em um catarro espesso. O mesmo tipo de abalo que um piloto de caça sente quando seu companheiro é abatido no ar. O Senhor das Trevas respirando por um circuito de tubinhos transparentes enfiados no nariz era o tipo de cena que abalaria qualquer um.
– O que tem nos olhos dele? – A voz grave de Regina ecoou quase ingênua no silêncio pós-crise da sala.
– Primeiro os olhos ficam assim, depois a garganta, a tosse, os espirros a febre e o vômito. Os sintomas variam em ordem de ocorrência. – Dr. Whale disse do canto oposto do quarto, havia mais duas pessoas doentes ali e o médico parecia estar perdido. – Não sei o que fazer. – ele olhou incrédulo para Regina. – Eu não sei o que é isso. É um vírus... Talvez... Com um Risco de Mortalidade Excessiva jamais documentado, está matando em horas. Sem nenhuma resposta aos medicamentos...
– Hermes está fazendo isso! Por isso é tão rápido. Por isso é tão contagioso... Ele vai matar todos nós! – Emma falou, ela própria não parecendo muito bem.
Whale correu pela porta e entrou em outro quarto, Tinker o seguiu, a ex-fada havia desenvolvido gosto especial pela medicina e estava sendo a assistente mais assídua do médico há algum tempo. Era inteligente, doce e aprendia rápido a “Magia da Ciência”, como ela costumava chamar. Regina, por sua vez, retornara a seu posto de protetora da garota que julgava ser a portadora principal da nova Praga de Hermes e que agora era apenas mais uma na confusão de doentes chegando. A cidade inteira parecia ter pegado aquela sentença de morte.
– Julie, levanta daí. – Regina puxou a garota pelo braço, ela estava sentada no chão com a cabeça baixa e joelhos abraçados. – Vamos! Vou arrumar uma cama para você. – Julie pareceu levantar, mas antes colocou uma das mãos sobre a barriga, inclinou-se para frente como se tivesse levado um choque e vomitou uma, duas, três vezes. Robin a carregou no colo depois da sessão de vômitos, ela estava pálida e oscilada em um estado de semiconsciência. Era impressionante como ela tinha piorado rápido, um instante atrás ela sorria com a possibilidade de viajar pelo espaço como fumaça e agora estava morrendo.
Julie foi colocada no sofá do Corredor Norte do hospital, era o melhor que Regina e Robin conseguiriam no meio do pandemônio que o lugar se tornara. Regina percebeu que não era como da última vez, como quando as pessoas ficaram iradas ou simplesmente morreram; dessa vez ninguém transitava nos corredores, as pessoas apenas sedimentavam-se estáticas em cantos, macas e cadeiras, chegavam e esperavam impotentes que melhorassem, nem mesmo o “Comitê de Salvação” parecia disposto a ajudar, não que houvesse muitos meios de o fazê-lo. Estavam todos doentes.
– Robin?! – Regina o chamou, mas Robin a ignorou, ele nem olhou para trás enquanto se afastava. – Robin?! – Ela chamou mais uma vez e o seguiu. As mãos dela agarraram um dos braços dele e o arqueiro prontamente se livrou delas.
– Não chega perto, Regina! – O rosto pálido de Robin virou-se magoado em meia direção a ela. Então Regina pode ver o motivo de sua rejeição: os olhos dele começavam a adquirir um par de olheiras cinza-escuras, como hematomas se curando. – Eu estou doente... – a voz foi tão baixa que Regina não pode ter certeza do que ele havia falado, porém, mesmo que tivesse gritado, àquela altura, nenhuma palavra podia se conectar a outra na cabeça dela. Um medo crescente parecia bloquear cada uma das sinapses de seu cérebro.
– Robin... – Regina começou contida. Só então percebera que sua cabeça doía em pulsantes pontadas. Ela jamais sentira nada parecido com aquele súbito mal estar, uma sensação de semi-realidade, como se estivesse sonhando, a fez imaginar as paredes dançado ao seu redor. Era provável que fosse desmaiar, mas com certeza, não antes de vomitar. Ela lutou contra, só que sua batalha vã, já estava ali: Regina agachou-se e vomitou.
Robin seguiu o movimento com o rosto torturado de pavor. “Ela está doente também!”. Foi como se um corvo gritasse dentro dele. Robin ficou imóvel por um momento de pura tortura introspectiva: “E se não a tivesse levado até a casa de Hans? E se a tivesse impedido de entrar no hospital?”. A culpa agiu sobre ele como garras ásperas, acariciando seu pescoço antes de afogá-lo.
Regina não queria que Robin visse aquilo, ela até tentou pensar em alguma maneira de impedi-lo, mas o gosto azedo de bile subia-lhe pela faringe e ardia até queimar suas ideias, o próprio cheiro agridoce do suco gástrico trazia uma nova maratona de vômitos a tona. Infelizmente, para ela, antes que percebesse, as mãos dele já estavam ali, segurando-a.
– Não! Robin... Não... – Regina recuperou o fôlego e ponderou quanto dano traria a si, se simplesmente sumisse. –... Você não precisa ficar aqui... Não que... que você....
– Shhhh... – Robin a agarrou e a trouxe para trás quando viu que havia acabado. Ambos estavam agora sentados no chão; a mão dele sobre a testa febril de Regina. Ele próprio com a temperatura mais alta do que parecia possível para um ser humano, como se tivesse engolido o Sol. – Você vai ficar bem... Seus olhos... Estão bem! – foi interrompido por uma sessão de tosse cansada. – Você vai ficar bem! – Robin repetiu sua prece e beijou a têmpora da mulher em seus braços.
***
Merlin chegou ao apocalipse de Storybrooke horas depois, encontrando silêncio em quase toda parte, exceto pelas tosses e espirros fortuitos espalhados em cada canto e, algum choro perdido. Ninguém falava. E o Mago teve medo de ter demorado demais para voltar. Tudo parecia acabado e as pessoas pareciam mortas ou querendo está mortas. Não fosse sua magia ser capaz de capitar a presença de Regina, Henry e todos aqueles que o importavam, talvez ele tivesse se acovardado e sumido do inferno frio que o lugar se tornara.
Regina ouvia os passos lentos dele, avançando pelo corredor, mesmo com os gemidos – que outrora foram gritos – do choro de uma mulher em algum lugar do hospital. Além dela e de Regina, todos os outros estavam dormindo, ou mortos. Regina não tinha certeza sobre ninguém, exceto sobre Robin com seu coração que parava gradativamente: ele havia perdido vinte e seis batimentos cardíacos nas últimas duas horas, agora, havia minutos com menos de quarenta e cinco batimentos. Era como contar os grãos de arei de uma ampulheta que marcava o tempo restante de sua sanidade.
– Ah, meu Deus, Regina! – Merlin apressou o passo quando a enxergou finalmente depois de uma pilha de pessoas desfalecidas no corredor principal do prédio. O sono era o último estado da doença, a pessoa entrava em coma por horas até simplesmente morrer. Uma doença benevolente, por sinal. Quantas pragas poupariam seu afligido de testemunhar seu próprio fim? – Você está bem, querida? – Merlin a fez levantar, tirando tão delicado quanto possível o corpo desmaiado de Robin do colo dela.
Regina chorou quando finalmente olhou nos olhos do seu velho e sempre atrasado amigo. Os soluços do choro dela não o acusavam, embora ele tenha se sentido profundamente culpado. Camelot precisava muito menos dele do que as pessoas daquele lugar. Regina precisava. Ela o abraçou e o choro aumentou quando percebeu que tinha perdido as contas dos batimentos de Robin.
– Ele vai morrer, Merlin... Todos estão mortos. E ele também vai! – Regina Mills, a última sobrevivente em um mar de mortos. No ápice de sua dor, anos atrás, aquilo havia sido tudo o que ela desejara: caminhar por um mundo ruído como sua alma. Mas agora que finalmente havia acontecido, sua alma sangrava.
– Não... Ainda estão vivos, quase todos! – Merlin disse docemente, continuando com o abraço por ser incapaz de encarar o rosto dela. – Você não está doente?! – ele não teve tempo mental para trazer a tona sua curiosidade sobre o fato de Regina não parecer doente – Vamos para casa...
– Meus filhos... – Ela se afastou de Merlin subitamente, não que aquela fosse a primeira vez que pensava nas crianças que tinham mandado para casa, na verdade havia pensado neles mais do que no homem semimorto que jazia nos seus braços. Sabia, ou tentou se convencer de que eles estariam bem. Henry e Roland não estiveram na companhia de doentes. Agora podiam ir embora. Sair de Storybrooke era a única maneira de mantê-los a salvo. – Os garotos estão com Mary Margaret... Eles não tiveram contato com os doentes... Você tem que levá-los daqui... Leve-os para Camelot, Merlin. Leve os três para longe de... Hermes.
– Regina... – Merlin tinha certeza de duas coisas, a primeira é que Snow White não estava em casa e sim no quarto ao lado, mergulhada no sono da morte ao lado de Emma e David. E a segunda é que a Praga de Apolo, trazida por Hermes, não era contagiosa. Henry e Roland não precisariam de contato para padecer do mal.
– Arthur!... Merlin, diga a ele que os garotos são meus filhos. Ele vai... – Regina interrompeu-se, lembrando-se de duas crianças, em um tempo remoto, brincando de pega-pega e sorrindo alegremente. Os olhos azuis brilhantes de Arthur reclamando com ela: “Regina, não vale se você for usar magia!”. Mas Regina não a usava deliberadamente. “O último a chegar ao topo da colina, come lama...”, dizia e corria até que seus cabelos castanhos claros estivessem completamente encharcados de suor. Aquilo havia sido em outra vida.
– Regina... Regina? – Merlin a chamou duas vezes para ter certeza de que ela estava ouvindo. – Não posso tirá-los da cidade. Nem você. Ninguém sairá de Storybrooke até que Hermes queira. – ele já a teria tirado dali se pudesse.
Havia um murmuro de choro cortando o silêncio do corredor e a linha do raciocínio cansado de Regina. Uma mulher que, não parecia doente como os outros, apesar de seu evidente estado de desolação profunda enquanto permanecia debruçada sobre o corpo do homem que repetidas vezes ela chamara de: “Jim, meu amor”.
A mulher entrou no leito onde os dois bruxos conversavam; seu coração lhe dizia, firme e sem questionar, que eles teriam a solução para toda aquela tragédia. Mas alguma coisa no olhar de Regina a desencorajou. A prefeita estava segurando a cabeça do policial Robin e seu rosto estava distante, frio. Não era verdade que a Rainha Má era insensível, ela pode ver. Não obstante, no fim, isso não mudava absolutamente nada, todos morreriam. Seu marido já havia partido há muito, em breve seu bebê também iria, ela passou a mão pela protuberância de sua barriga como se sentisse dor.
– Por que eu não estou doente? – A mulher perguntou olhando para Merlin como se ele fosse o próprio patógeno que se recusava a infectá-la. – Por que eu não estou morrendo? – A mulher grávida deu dois passos em direção ao mago e sua barriga parecia prestes a romper-se com o impulso.
– Eu não sei. – Merlin fora rápido e sincero. Ele não sabia. Aquelas não eram pragas convencionais, não havia imunidade contra elas, exceto a sua, mas isso era outra história. No entanto a mulher a sua frente não estava doente e poderia haver outros. – Há outras pessoas não doentes?
A mulher não respondeu, mas antes de sentar seu enorme peso na cadeira ao lado para descansar as costas do que parecia ser uma gravidez de doze meses lançou um olhar impaciente para o mago, com o teor de: “Como é que eu vou saber?”.
– Claro que há pessoas não doentes além de nós. Roland, Henry, Snow... Eles estão em casa... Eles... – Regina pôs-se em pé, subitamente em dúvida, deixando Robin novamente. O corpo ereto tremeu enquanto os olhos profundamente descrentes especularam o rosto de Merlin. – Merlin... – A voz dela saiu como um silvo de ar compacto, bravo e ojerizado.
Merlin não respondeu e nem poderia; Regina sumiu na sua frente tão rápida quanto um raio.
_____
A porta do apartamento de Snow abriu-se e o estouro da fechadura sendo rompida foi o único som que Regina ouviu ao entrar. Tudo estava quieto e as luzes apagadas, transformando todo o cenário em um breu fosco. Porém não demorou muito para que o primeiro sinal de vida fosse visto, ou quase isso. Era Roland ao pé da cama, engatinhando cego.
Regina correu até ele e o que viu foi desolador: as duas crianças, Roland ao chão e Henry na cama. Ambos gravemente doentes. Um desespero cortante transpassou sua alma carregada de culpa. Ela era a mãe deles e os havia deixado ali, sozinhos, morrendo. Regina agarrou Roland tão logo o alcançou e depois se certificou sobre Henry ainda está vivo. Ele entrara em coma, igual ao Robin e tantos outros, coma que parecia sem volta e não importava o quanto ela tentasse, gritasse o nome dele, o garoto simplesmente não reagia. As manchas escuras no rosto de Henry ficaram cobertas pelas lágrimas de sua mãe enquanto ela beijava cada parte de seus hematomas. E qualquer criatura humana ou não, poderia ver, além daqueles soluços de dor, que Regina daria qualquer coisa para trocar de lugar com seu pequeno príncipe. Porém, não existia essa opção.
– Roland?! – Um sussurro rouco e abafado dito ao ouvido da criança que ela segurava no colo. – Fica acordado! Roland! Por favor... – O choro atrapalhava todas as suas palavras. Mas não tinha tanta importância assim, Roland oscilava do delírio a um estádio de inconsciência absoluta.
O suor escorria pela têmpora do garotinho, enquanto seu corpo tremia violentamente com o frio. As mãozinhas estendidas, ora buscavam o calor dos braços de Regina, ora tentava inutilmente se livrar deles.
– Está muito quente, Regina! Tá queimando... PARA!PARA! – As pupilas dilatadas e cegas procuravam imagens de uma alucinação: Regina e suas mãos quentes, como na noite que a conhecera... Mas dessa vez não era confortável. – Por favor! Tá doendo, Regina! – A voz infantil suplicava abafada.
– Desculpa... Desculpa! – Regina o abraçou, com todo o seu amor maternal, encostando o rostinho quente dele sobre seu busto, como se de alguma forma pudesse dividir a dor com ele. – Meu Deus, Robin... – Ela chamou o nome dele no eco profundo de seu desespero, como ele havia feito antes com o nome dela. Entretanto ele não estava ali e, muito provavelmente, agora, Robin não estava em lugar nenhum. Regina segurou Roland mais forte, como se a pequena criança fosse o último fio que a ligava a si própria. – Fica comigo...
Um tempo passou até o corpinho valente de Roland ficar quase inerte... Regina ainda estava agarrada a ele como se agarrasse a um colete salva-vidas. A criança moveu-se devagar e apesar do rostinho cansado, estava consciente. Ela sorriu por trás de sua máscara de sofrimento ao se dar conta de que ele tinha voltado. Roland, em todo o mundo, era a única pessoa que nunca a havia abandonado e Regina podia sentir a força com a qual o garoto lutava contra o sono que o acometia. Teria sido tão mais fácil partir, mas ele não o faria.
– Regina? – A voz baixa e doce dele fora quase inaudível. — ... eu quero dormir. – seu tom era mimado, como o de um principezinho.
– Não, Roland... Mantenha-se acordado! – Ela sentou a criança e o afastou, tentando mantê-lo desperto. – Você está melhor! Está Melhorando. – os dois sabiam que não era verdade.
– Não! Eu quero dormir, mãe... – Roland interrompeu-se ligeiro, não encontrando meios de apaziguar seu deslize em outras palavras. Porém não se sentia arrependido enquanto sua boquinha transformava-se em uma linha pequena e tensa esperando a reação dela. – Desculpa...
– Não, Roland! Não precisa se desculpar... – ela sorriu apesar de haver bastantes lágrimas escorrendo por seu rosto. – Você poderia... – Regina era como uma manhã de sol em um inverno rigoroso para Roland. Ele a havia escolhido! –... Você acha que poderia me chamar assim novamente?
– Mãe! – a criança repetiu e escondeu a face no abraço dela. E chorou. Sentia uma espécie singular de proteção naquele abraço. “Então ter uma mãe era assim!”. Ele não se lembrava.
Regina o retirou do abraço para olhar novamente naquele rosto torturado, bravo em resistir; os olhos dele fechavam e abriam em profundo horror. Roland estava partindo. Tentar ficar só o causava mais dor.
– Shhhh... – Ela pressionou os lábios contra o ouvido dele o acalmando – Pode ir, Roland... Eu estou aqui... Não tenha medo. – Regina forçava o ar sair de seus pulmões para que as palavras pudessem ser entendidas embaixo do próprio choro. – Eu ficarei aqui, meu querido... Ficarei aqui enquanto você dormir...
Toda a fé na ideia sobre força e imortalidade, restrita apenas às crianças, apagou-se gradativamente. Os olhos castanhos de Roland fecharam-se, por fim, e ele caiu naquele sono sem volta.
E como não podia ser diferente, aquilo fora demais para Regina; a fez cair em uma escuridão profunda. Havia perdido o último pedaço do seu Robin.
Quando se deu conta já vagava aleatoriamente por alguma parte da cidade escura, vazia e congelada. Sotorybrooke que nascera de sua magia agora refletia o exato cenário de sua alma solitária; ruas desmanchadas em neblina em uma paisagem de cores retocadas por uma garoa fria e triste. Sua mente experimentava uma resignação profunda que sobrepujava sua dor e ela continuava em sua sólida caminhada deserta ainda segurando Roland nos braços... Um silêncio cheio de gritos.
– Hermes! – Ela se ajoelhou e apertou mais forte Roland nos braços, cansada, completamente vencida. – Hermes! – O grito fora alto dessa vez e ela fechou os olhos, como se rezasse. O choro havia ido embora junto com todo o resto. – Eu faço qualquer coisa... Qualquer coisa... Apenas os traga de volta!
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Ela viu a luz que emanava dele acabar com a escuridão de toda a cidade. Cada luz acendeu com a presença. Era como a chegada do sol em uma caverna; seu rosto lindo brilhava como que coberto por facetas de mil diamantes. Hermes estava parado diante dela, com olhos frios de um azul que zombava do azul mais vivo do céu mais claro que Regina já tivesse testemunhado; seu corpo exato desenhava uma estrutura musculosa por baixo de um suéter de cor azul-cobalto brilhante; os cabelos loiros claros formavam uma espessa camada de cachos macios e livres; cada movimento dele provinha de uma fonte inesgotável de perfeição. Aquele era o rosto mais lindo que um mortal presenciara.
Regina abaixou o olhar, curvando a cabeça, primeiro porque era o que seu sentido de autopreservação gritava: alguma coisa nele arrancava de dentro dela um medo intenso e indefinível. Depois porque parecia o certo a fazer.
– Não! – Hermes estendeu o indicador e direção a ela, depois sacudiu a cabeça em negação. – Você não precisa se curvar para mim... – A voz dele era tão surreal que Regina pensou ter enlouquecido. Tudo aquilo era apenas um sonho! – Você é a única criatura da sua espécie que pode dizer isso! — Hermes sorriu mostrando uma dentição perfeita a ponto de parecer impossível. O coração de Regina acelerou e ela não entendeu o motivo.
O deus aproximou-se mais, com passos elegantes e másculos, como um atroz conquistador.
– Venha comigo, Regina. – Hermes estendeu a mão em direção a ela. – Você não tem ideia do tempo que eu esperei por você... Antes mesmo de seus avós nascerem, eu já a procurava. – sua voz, grave, domada e altiva parecia cortar o mundo em dois. – A profecia destinada a você começa agora! – Hermes sorriu outra vez, seus olhos cheios de orgulho cônscio. Aquela era a primeira vez que ele aproximava-se fisicamente de seu prêmio em meio à humanidade inteira. Finalmente podendo-se mostrar ao seu tesouro tão bem escondido, escondido como uma única pérola navegando todos os oceanos. Ele havia conseguido. – Venha, Regina. Não me faça esperar mais... Não depois de tanto tempo.
Os olhos castanhos de Regina adquiriram cor de âmbar-mel enquanto olhava para o rosto inescrutável dele, tentando sufocar seu pânico sobre as recentes palavras. Era como está diante de Leopold novamente, perdendo o direito sobre si. Outra vez perdendo-se na mão de seu destino. Não havia mais magia, nem Final Feliz, ela pode sentir, era apenas a sua Profecia chamando-a.
Hermes olhou a criança nos braços dela e seu rosto adquiriu um quase imperceptível toque de impaciência. Humanos eram sempre tão descartáveis.
Bem, nem todos.
– Venha... – Hermes balançou a mão, chamando-a cordialmente, como se ela tivesse alguma escolha. – Venha agora e todos eles acordarão... – A boca vermelha, forme e carnuda sorriu com ar benevolente. – Todos! Não só aqueles por quem seu coração sangra, mas toda a cidade.
Regina deitou a criança delicadamente sobre a grama úmida e beijou-lhe a testa. Ela queria poder despedir-se de Henry também, queria dizer o quanto sempre o amaria, mas despedidas não faziam parte das regalias de uma posse. Era ela quem Hermes procurava e queria, por isso todo o jogo, por isso tanto tempo. Ele precisava que houvesse coisas que ela amasse mais do que a própria vida para usar como moeda de troca. Precisava tê-la enlouquecido primeiro.
Regina sentiu-se realmente insana, seus pensamentos viajando como partículas radioativas desviando-se de um único foco: “Robin”. Ela não poderia pensar nele. Não com as mãos de Hermes tocando seu rosto.
Eram mãos macias e afáveis, enxugando as lágrimas mudas que escorria pelo rosto pálido e resignado dela, ao mesmo tempo em que sua alma contorcia-se pela dor que um simples flash descuidado de memória trouxe. A memória de Robin, quente e humano, sussurrando com hálito úmido em seu ouvido, enquanto faziam amor: “Eu amo você!”.
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