Notas iniciais
Não me odeiem... Tive motivos para tanta demora, mas trouxe um novo capítulo. Obrigada pela enorme paciência. Beijos e espero que gostem do novo capítulo.

Não havia estrelas naquela noite. O céu estendia-se como uma película negra e fria. Hermes segurou Regina pela cintura, de maneira ágil e irrevogável, e ela pode sentir o cheiro maravilhoso que vinha dele, um aroma hipnotizante e peculiar, embora aquilo não lhe trouxesse nenhuma paz. Ao contrário. Um calafrio trespassou por seu corpo, do tipo que se tem quando se está perto da morte; uma súbita sensação de calor com um relance febril, seguido de uma quase dormência. Ela tremeu.

O deus passou a mão por entre os cachos loiros e sorriu. Ele tinha razão afinal, havia muito mais nela do que poderia parecer à distância. O Thesaurus de Regina — a magia fundamental dela, a única que ele não poderia ceifar completamente, apenas manter sob controle — começava a interagir com a natureza ao seu redor, forte e diretamente proporcional ao medo que a acometia. Hermes ouvia o coração humano a sua frente trepidar como o coração de uma noiva antes de caminhar ao altar. Os pensamentos eram um misto de renúncia e dor. Ele sentiu os pelos da nuca dela arrepiarem-se com sua presença. Como ela era adorável.

“Sobreviva, Regina. Sobreviva!” – ele pensou e a beijou lentamente, impondo-se. Claro que ela sobreviveria. O haviam prometido. Era o que a Profecia dizia.

Os braços dele a puxaram para mais perto, envolvendo-a em um abraço tão cálido quanto possível para um não humano. Aquele havia sido o selo do contrato. Regina era, enfim, dele.

Ainda que ela não soubesse, Storybrooke começava a acordar de seu sono profundo. Todos. Um a um dos que Regina, certa vez, condenara a uma maldição, agora levantavam, saudáveis, despertando de um sonho estranho e nublado. Um preço justo. Pago.

– Podemos? – Hermes encarou os olhos vermelhos de Regina sem nenhuma empatia. – Todos eles viverão, minha Rainha. Exatamente como eu prometi. – O rosto dele trazia um paradoxo profundo de trevas e luz: ainda mais lindo que o possível, no entanto, não dava para olhá-lo por muito tempo sem que alguma coisa sugasse até o último fio de esperança de sua alma. Regina fechou os olhos e esperou ser levada.

– Tire suas mãos dela, Hermes! – A voz grave de Merlin cortou o silêncio sinistro da noite. O mago estava sério e compenetrado, vestindo uma capa azul, com a pretensão de ter a mesma cor de seus olhos. Regina pôde ver Roland atrás da enorme capa que ainda a fazia lembrar-se de sua infância, talvez por isso ele tenha demorado tanto para abandonar o terno. O garoto parecia bem, apesar de assustado. Ela tentou um sorriso e deu um passo automático em direção a eles, mas a mão de Hermes, em um puxão violento, a trouxe de volta. Sob hipótese alguma Regina considerou olhar para o rosto do deus, não dessa vez, ao invés, manteve o foco no de Merlin, que reagiu ao puxão como se a dor tivesse se estendido até ele. – Hermes! – o silvo irado de advertência saiu como sussurro entredentes e os olhos de Merlin adquiriram uma cor escura e insana. – Você sabe que não pode simplesmente levá-la... Sabe que não funciona assim. Não importa qual seja seu jogo doentio. Não pode tê-la contra sua vontade...

– Contra a vontade não... – Hermes sorriu, sua voz clara e viva soou pela cidade com acústica espetacular. – Regina usará seu livre-arbítrio e ainda assim virá comigo.

Merlin olhou o rosto de Regina por um longo tempo. Com a saudade de uma despedida. Todos ali sabiam que ele não era páreo para o deus, no entanto, o mago sempre soubera que um dia morreria por sua criança de olhos castanhos.

O dia chegara. E até para alguém que vivera tanto como Merlin o fim revelava-se assustador.

Duas luzes azuis brilhantes surgiram das extremidades Leste-Oeste do campo de visão dos que assistiam ao espetáculo atordoante. Os olhos de Merlin estavam completamente negros, como um anjo maligno domando toda a força de sua própria existência. Regina tentou gritar para que ele parasse, mas era tarde demais. As luzes convergiram como dois cones de luz. Ela sabia o que estava acontecendo. Era o que os magos costumavam chamar de “O desejo humano”. A mais poderosa magia que podia haver em um mortal, a força da vida. Entretanto, se fosse usada, seu dono seria sugado até a morte, mas não só uma morte física, usar seu Desejo significava o sacrifício da própria alma.

Hermes mal pode acreditar naquela improvável tentativa de impedi-lo. O único ataque que realmente seria significativo, vindo de um humano. Regina pode ver, antes que a luz ofuscasse completamente sua visão, duas cobras de cores reluzentes, uma amarela, outra vermelha, deslizando suaves pela perna do deus, subindo até sua mão direita e envolvendo-se em um mastro alado que não estava ali antes. Havia algo de muito aterrorizante na maneira como elas pareciam fundir-se a ele.

Não obstante, fora magnifico, como se estivesse experimentando uma droga. O poder agia completamente sobre ela e, uma respiração depois, viu, ali, ao seu lado, o Caduceu¹ surgir esplendoroso.

Era verdade então. Era tudo verdade!

Os olhos azuis mais lindos de todos os seres viventes olharam-na subitamente preocupados em meio ao clarão. Regina sentiu mãos gentis afastando-a, tirando-a do campo de ação da magia do Caduceu. Um som estranho, ululante e alto a fez sentir-se tonta, ela lutou para manter-se até sentir sua consciência abandonando-a.

______

Robin abriu os olhos e teve a estranha sensação de que eles se dilatavam, parecendo saltar do rosto. A cabeça se ergueu em um gesto brusco:

– Regina? – chamara enquanto certificava-se de que ela não estava ali. Ninguém além de um garotinho loiro de olhos curiosos encontrava-se no quarto que, até onde ele podia se lembrar, estava lotado. – Você está bem? – Perguntou à criança que o respondeu com um rápido e dedicado aceno de cabeça. Ele próprio se sentindo muito bem, mesmo assim inspirou e expirou duas vezes, como o mecânico que checa uma maquina recém-consertada.

Havia conversas e risos por toda parte, aquilo mais parecia uma festa-de-fim-da-colheita que um hospital. Robin saiu do quarto, de repente muito ansioso para encontrar Regina. Precisava vê-la sorrindo e, sabia, com uma certeza incontestável que era o que ela estava fazendo agora. Àquela altura, com todos acordando do que acreditavam ser o derradeiro sono, o sono da morte, sorrir parecia ser quase um reflexo.

Assim que saiu do quarto, percebera de imediato que era noite, isso o fez calcular mentalmente por quanto tempo dormira. “Por horas!”, concluíra enquanto a ansiedade caia sobre ele forte e sufocante.

– Regina?! – ele gritara em meio às dezenas de vozes, esticando-se para ter maior campo visual da confusão de rostos conhecidos, mas nenhum era o rosto que traria paz a sua crescente apreensão. Regina não estava ali.

Robin sentiu um esbarrão tirando-lhe de sua copiosa procura. Gold não o olhou pós-atropelamento, na verdade ele pareceu nem notar, enquanto caminhava irredutível e veloz até o corredor que levava a saída do hospital. E no exato instante em que Robin o perdera de vista, pensou tê-lo visto começar a correr.

Não precisava ter um instinto de caçador para, naturalmente, saber que havia alguma coisa errada, nunca vira Gold correr – e a julgar por sua costumeira bengala, nem sabia que seria possível. Robin não teve certeza se realmente vira o rosto preocupado dele, ou se só o imaginara, mas concluiu, por fim, que pouco importava. Até que Regina estivesse ao alcance de suas mãos nada ali importava.

Virou-se rápido e nervoso em direção ao quarto do qual Gold saíra; porque, de repente, pareceu-lhe lógico que Regina estivesse lá, quem sabe ela e o velho acabassem de ter tido uma daquelas brigas épicas e corriqueiras. No entanto, antes que ele pudesse mover-se, Emma saíra de lá, seguida de Neal e David.

O semblante estava pálido e ela tentava nervosamente colocar um casaco enquanto avançava rápido, como se estivesse atrasada para alguma coisa. Ela não o olhou, embora ele estivesse a sua frente. A tensão dela entregava a força com a qual tentava manter o foco no caminho percorrido meio minuto antes por Gold. Emma não queria encarar Robin, agora não, não havia tempo. E, se o que Rumple acabara de lhe contar fosse verdade, ela não iria querer encará-lo depois.

– Emma?! – ele tentou sorrir, mas estava tão confuso que não conseguiu distender os lábios. Ela permaneceu o ignorando até que, por sua vez, também correu até a saída do hospital. Robin assistiu a cabeleira loira sumir e, como não podia ser diferente, ele a seguiu.

– Robin?! Ei, cara... – Neal apressou-se em acompanha-lo, tentando formular qualquer desculpa que o mantivesse longe da cena que seu pai acabara de descrever.

– Você a viu?... Depois que acordamos... Você a viu? – Robin não olhou para o rosto do amigo tampouco diminuiu o passo. Neal entendia as razões para a pressa, ele próprio possuindo suas razões.

– Você procurou pelo hospital? Ela deve estar em... – a farsa de Neal foi interrompida por um enorme barulho, do tipo que vem acompanhado de um “PIIIIN” atordoante, ambos abaixaram-se, por puro instinto, como se esperassem o fogo da bomba invadir o hospital. Mas não houve fogo e sim uma intensa luz prata. A essa altura eles estavam a poucos metros da porta principal do hospital, completamente cegos.

Quando Robin pode enxergar novamente, foi tomado por singular certeza, tão entorpecedora quanto uma anestesia furtiva: Regina estava em perigo. Ele mal se deu conta de quando cruzou a porta, parecia estar em um sonho em câmera lenta, daqueles que não importa o quanto se corra, nunca se sai do lugar.

Não fora difícil vê-los, estava tudo completamente escuro quando a luz cedeu, exceto por um perímetro iluminado, teatralmente em frente à torre do relógio; havia algumas pessoas ao redor. Robin vira Emma, mais afastada, segurando Roland no colo e a maldita sensação de não ser rápido o bastante piorava.

Ele não respirou até alcançar os dois. Robin não pode ver o rosto de Roland, Emma o segurava com força, seus espessos cabelos loiros caiam como uma manta dourada sobre o corpinho trêmulo da criança. Uma gota de sangue vivo escorria de um corte superficial na têmpora direita dela, as mãos trêmulas de Robin seguraram o rosto apavorado e o polegar espalhou o sangue na débil tentativa de limpá-lo.

– Ele... El... Está com ela. – Emma balbuciou entorpecida. Toda aquela explosão de magia quase explodira sua cabeça. Ela trincou os dentes porque sentia que ia vomitar.

Robin endireitou-se e tentou entender, as imagens ainda permaneciam meio turvas e fagulhas brilhantes brincavam nos seus olhos como vagalumes em uma noite escura. Voltou a caminhar em direção a forte luz do centro da praça, deixando Roland e Emma para trás. Já não havia muita gente por ali, o medo, por fim, sobrepujara a curiosidade e, a essa altura, as pessoas que não se escondiam encolhidas ao lado dos tanques de propano dos porões escuros de suas casas, começavam a lançar-se à floresta com nada mais que pequenas mochilas e cobertores, tentando ficar mais ao sul possível do terrível e inexorável monstro com face de anjo.

Ele pode ver Gold por sua visão periférica, ajoelhado ao lado do corpo desfalecido de Merlin como se atestasse sua morte, entretanto, Robin não parou ou sequer olhou diretamente, porque existia algo naquela luz, como um mistério escondido atrás de uma porta. O arqueiro diminuiu o passo enquanto encara a luz inebriante, uma ruga de preocupação deixava o seu rosto mais sério, quase calmo, com uma espécie de curiosidade inteligente.

Naquele momento, no instante em que seus olhos focaram o núcleo da luz, ele o vira pela primeira vez. Hermes estava de pé, passivo, encarando Merlin no chão com um semblante cauteloso. Robin parou e sentiu sua nuca queimar, como se uma enorme chama de fogo vivo o estivesse queimando de dentro para fora. Cada parte de sua alma implorava para que seus olhos vissem Regina. Qualquer sinal dela antes que aquele fogo queimasse até seus ossos.

Ele se aproximou. Hermes não o olhou.

Hermes olhava para o mago no chão, sabia que não o tinha matado, na verdade, de certa forma, ele acabara por salvar sua vida, o impedindo de usar seu Desejo Humano. O contrato selado com Regina garantia nenhuma morte e, de todos ali, realmente não queria destruir o bichinho de estimação de seu irmão. Já tinha problemas suficientes com Apolo.

– HERMES! – Robin gritou. A voz rouca soou forte e sem nenhuma hesitação. Hermes continuou sem olhá-lo. Ainda que estivesse bastante ciente do humano ingênuo e cego a alguns metros de distância, o mais importante era ter voltado a sentir a gravitação do Thesaurus de Regina sobre ele. Ela estava voltando de seu pequeno lapso.

O deus voltou-se para trás, para olhá-la. Ele sorriu automático enquanto admirava a beleza dela e ordenava mentalmente que o Caduceu se desfizesse; tudo estava sendo desconfortável o suficiente para ela, de modo que uma magia forte a fazendo desmaiar era desnecessária. Então as duas serpentes de cores reluzentes deslizaram por seu corpo até alcançar seus pés, como trens correndo em um trilho em movimentos tão sutis que se alguém as pudesse observar, não poderia dizer para onde elas foram ao deixar o corpo dele.

A luz diminuiu e tudo voltou à cor de antes, as luzes amareladas dos postes voltaram e Robin voltou a ver. No primeiro momento, ao vê-la deitada aos pés daquela ser medonho que, para ele, não se parecia em nada com um homem, muito menos com um deus, ele sentiu que o ar tinha cheiro de metal, metal úmido e frio. “Metal”. A palavra zoou em sua cabeça como uma ideia pertinente e ele sentiu o pequeno peso da arma que levava acoplada à cintura – em um pequeno suporte que Emma lhe dera, após concluir que um policial andar por aí com um enorme arco-e-flecha deixavam as pessoas “potencialmente ansiosas”. Era óbvio, para ele, que Hermes não seria atingindo por um tiro, mas a presença daquela pistola ligou-se a Robin como uma garantia sombria e insana de que, se aquela criatura a tivesse matado, se ela estivesse morta, sua própria vida não se estenderia para muito além da dela. Isso trouxe a esperança de que precisava. Pequenos focos de suor brotaram em sua testa, mas desta vez não era por medo e sim por fúria. Um leão enraivecido avançando para o oponente que nem sequer parecia percebê-lo.

Hermes em sua contenção a respeito da presença de Robin, apenas inclinou-se e abaixou – com movimentos tão elegantes que o fazia ainda menos humano – assim que percebera a volta da mente dela. Ele tinha um olhar iluminado, quando os olhos dela se abriram: castanhos e ingênuos, naquele minúsculo momento em que a consciência dela permanecera alheia a toda a situação. A cor natural deles, sem o medo, o rancor, a dor e todos os malditos fantasmas dela, era a cor mais linda que Hermes vira em todo o Universo.

– Seus olhos... São lindos! – O deus dissera com sinceridade e se arrependera em seguida, porque assim que o fizera, eles adquiriram um tom ligeiramente mais escuro e o rosto dela ficou pálido e amedrontado. Hermes pensou na beleza dela e, aleatoriamente, ele se imaginou apresentando-a para Afrodite. O sorriso dele ficou largo com a ideia. Aquele rosto em um humano era insulto aos deuses.

Robin a vira abrir os olhos. Parte dele nunca duvidara que ela estivesse viva, ele não saberia explicar se fosse o caso, mas apesar da sua mente ter considerado a opção, sua alma simplesmente sabia que a alma de Regina ainda permanecia ali, com certeza fora o que o mantivera lúcido, na medida do possível. Ele nem percebera, mas continuava avançando, agora mais rápido, enquanto ela movia-se lentamente sob a presença invasora do estranho. Hermes sorria para ela, de uma maneira que fez Robin se lembrar das pinturas de anjos risonhos do teto da igreja da cidade. Ele estava próximo agora, a ponto de sentir a intensidade da presença do deus. Porém isso não o conteve.

– Regina, eu não o quero matá-lo... – Hermes falou pausadamente, precavido. – Mas eu vejo na mente dele, que ele só irá parar se eu o fizer. – o humano estava excessivamente próximo. Hermes assistiu a confusão de pensamentos dele; o fluxo tão similar aos de Regina que fez o ciúme cair sobre o deus como um manto inebriante. Agora, com Robin tão próximo, a afiguração da mente de ambos se misturava, como duas frequências de rádio em sintonia.

Regina tentava se levantar quando sentiu o curso fluido da magia de Hermes percorrer seu corpo, ela tentou segurá-lo, mas era tarde; em um movimento elegante e simples ele ergueu sua mão esquerda em direção a Robin. O arqueiro voou em uma trajetória oblíqua até quase sumir do raio de visão.

O grito de Regina ecoou pela noite como o eco em um cemitério silencioso, suas mãos estavam encravadas no braço pálido de Hermes, ela sentia uma dor intensa nas unhas, como se a pele dele estivesse empurrando suas unhas e não o oposto.

– Shhh... – Hermes levou o indicador até os lábios vultosos e sorriu cínico.

Robin perdera a consciência antes de sentir o impacto violento com o chão. Ele caíra de bruços, seu rosto fora cortado profundamente por um cascalho, parte de sua jaqueta rasgou-se, assim como uma enorme superfície da carne de seu tórax. O sangue jorrava dele como água de uma fonte abundante.

Regina levantara o mais rápido que pode, ofegando. O meio breu deixava quase toda a cena escondida para ela. Robin não se mexia, mas ela pôde ver Emma ao lado dele, aflita e tentando, talvez, estancar o sangramento. Ele não está morto.

“ELE NÃO ESTÁ MORTO”.

Na cabeça de Hermes, o pensamento dela fora ainda mais alto que seu grito. Regina estava chorando, em soluços contidos e magoados. O deus olhou detidamente para ela por um longo momento e contentou-se em trazê-la para perto, como se pudesse perdê-la, ou pior, como se ela pudesse nunca pertencer a ele.

– Você o matou! Você... Você o matou! – ela o acusou, de repente perdendo toda a pose de rainha que tanto o encantava, tornando-se uma humana qualquer. Seus lábios tremiam e tinham uma tonalidade arroxeada, seu sangue tinha um ritmo confuso e rápido.

– Ele não está morto... A loira... – Hermes enrugou o nariz como se sentisse nojo enquanto se justifica com tom quase infantil. –... Ela o salvou. Uma magia um tanto desajeitada, mas bastou. – Ele segurou o rosto dela e enxugou as lágrimas delicadamente. A testa enrugada com uma compaixão mentirosa pela dor dela. – Perdoe-me, minha Rainha... Não tive a intenção. Eu preciso de você e ninguém mais precisa morrer. – Ela o encarou, circunspecta, seu olhar cheio de acusações, em seguida ele beijou suavemente uma das pálpebras dela e sentiu o gosto salgado de suas lágrimas. O sabor era tão agradável que o fez pensar que aquela humana se transformaria no seu melhor prêmio por uma eternidade inteira.

– Por que você a quer? – O olhar curioso e sábio de Gold observava a cena. Poucas coisas foram tão intrigantes em toda sua trajetória. Hermes olhou para ele, com uma espécie de curiosidade recíproca e Gold continuou. – Digo... Por que Regina? Você poderia ter qualquer humana, qualquer mortal ou imortal. Com tantas possibilidades, por quê dar-se ao trabalho? Se era de um pet que precisava... Por que ela? – Ele forçou um sorriso calmo enquanto posicionava-se diante dos dois.

– Não vai negociar comigo... “Senhor das Trevas”... – Hermes sorriu. – Quando eu dei esse nome à maldição infame que apodrece sua alma, a piada não parecia tão boa quanto agora. – Gold perdera a placidez imediatamente. – A pergunta certa não é; por que eu a quero. – Ele deu um passo à frente, os dentes lindos sobressaindo-se de ira. – A pergunta certa é; por que nenhum de vocês a quis. Nenhum de vocês. Você... – Hermes fez uma pausa, escolhendo as palavras certas, as que causariam um dano tolerável a ela. –... E aquele garoto! Até o filho da puta que possui a outra metade da alma dela... Todos a rejeitaram. Magoaram-na. Você, seu verme... Usou-a como uma coisa descartável... – Hermes tinha em seu rosto magnífico a expressão de repulsa quando disse a frase seguinte de maneira diabólica. –... Sua própria filha.

Houve silêncio.

Gold tinha os olhos incrédulos, a boca seca e um arrepio subindo pela espinha, alguma coisa agitava-se dentro dele, arranhando-o. Por uma fração de segundo enquanto seu cérebro digeria as palavras recém-ouvidas ele cogitou sorrir, tentou acreditar que era apenas escárnio de Hermes. Mas os olhos do deus estavam compenetrados, sérios e por um momento, talvez, furiosos. Era verdade, Gold podia ver.

– Você... Vocês... – Hermes assistiu a reação dele, ouvindo o zumbido dos pensamentos; altos e agonizantes. No rosto de Regina trespassava o mesmo tipo de choque inocente pausando sua expressão de dor. Ele olhou novamente para Gold e sorriu. – Vocês não sabiam?! Por Zeus! – a gargalhada lunática de linda aumentou com a perfeição de uma orquestra bem afinada. – Cora era a minha favorita! – disse as palavras olhando para Merlin, porque sabia que o mago era, além de Cora, o único guardião do segredo. — Ela era quase tão cruel quanto você. – Hermes mudou tão rápido de expressão (da diversão completa para um nível elevado de nojo) que pareceu imitar um mímico.

Gold entendeu a profundidade da ultima acusação. É claro que Merlin sabia! Desde o inicio. O poderoso confidente de Cora, O Mago de Camelot, não havia nada que pudesse escapar a sua incrível capacidade de ler o teor dos pensamentos humanos. Ele sentiu raiva, porém ainda maior fora uma enorme solidão, tão grande que nem se aproximava, em tamanho, àquela sentida antes da Maldição das Trevas. Uma solidão sóbria, fria e desesperadora do tipo que o ultimo homem da Terra sentiria ao ver o primeiro pôr-do-sol pós-apocalíptico. O Senhor das Trevas não cogitou encarar Regina e desejou com uma vontade visceral que Hermes a levasse, ligeiro, sem que ele fosse obrigado a olhá-la, porque talvez vir seu rosto pudesse ser o derradeiro ingrediente para enlouquecê-lo. Leve-a! Agora! O que mais poderiam esperar dele? Rumpelstiltskin a criatura mais deprimente e mesquinha de que os mundos tinham registro. Não me faça encará-la... Gold tentava se convencer dentro de uma neurose. Não me faça encará-la.

Mas ele não pode evitar e fora como se os olhos de Cora o fitasse de volta, através dos de Regina: o rosto dela estava concentrado e assustado, mesmo assim mantinha uma espécie de força. Rumple amava aquele olhar, sempre amara, porém pela primeira vez não teve medo de admitir. Ele não podia imaginar que por trás daquele olhar calmo e contido, Regina sentia uma onda de saudades da mãe, totalmente inesperada e nauseante em sua intensidade. Ela não sentiu raiva, ao contrário; teve a sensação de que se Cora estivesse ali, as coisas seriam diferentes.

– Peço perdão pelo dano que causei ao revelar um segredo tão mesquinho. – Hermes interrompeu a cena e o fluxo de pensamentos de Regina. Ele segurou gentilmente a mão dela, de maneira cortês e não invasiva... – Tem alguém que deseja se despedir de você... Por meu deslize, te ofereço em troca um minuto com ele, não mais. – O semblante dele era contido enquanto curvava-se, com um dos braços para trás ao beijar a mão dela de maneira galante. – Traga o garoto!

Só então Regina se dera conta de Henry aproximando-se: ao lado dele Snow caminhava tensa, atrás vinham David e Neal.

Ela afastou-se de Hermes, de maneira automática em direção a eles, sem avaliar se poderia ou não fazê-lo, mas ele não a impediu, então Regina apertou o passo, tão desesperada para abraçar seu garoto que quando finalmente o alcançou; os dois bateram-se em um baque mudo e indolor, pelo menos fisicamente.

– Mãe... – Henry chorava enquanto recebia beijos rápidos e fortes em seu rosto. – Você não precisa ir, mãe... Ele vai matar você...

– Shhh... – Ela encostou os lábios sobre a testa febril dele e sentiu como se alguma coisa estivesse sendo arrancada de sua própria carne. – Eu preciso que você me perdoe... – de repente o choro tentou engolir suas palavras, mas ela forçou-se a falar, teria o resto da vida para chorar não queria estragar o último abraço em seu pequeno príncipe. – ... Por não ter sido uma mãe melhor...

–Não! Você foi a melhor mãe... – Os soluços forçaram-se contra sua garganta, seu rosto vermelho enquanto Regina dava uma ultima olhada para ele. O rosto não mais de uma criança, porém, não de um adulto ainda. Ela lembraria daquele olhar para sempre e, rezou para que ele tivesse uma força maior que a dela para superar perdas.

– Eu preciso que você seja forte! – as lágrimas escorriam pela pele pálida dela dando-lhe um ar quase angelical. – Você é bom, Henry! Nunca deixe a luz em você apagar. – Ela o abraçou demoradamente, até avistar Snow em um choro tímido.

Regina encarou-a e, tão certo quanto uma filha corre para os braços da mãe quando sente medo; Snow foi em direção a ela. Os três permaneceram abraçados e chorando, despedindo-se, até que Hermes fizesse um pequeno movimento atrás deles. O tempo havia acabado.

– Cuida deles para mim! – Regina secou as lágrimas de Snow e lhe deu um beijo afetuoso na face, enquanto ela concordava debilmente com o pedido da madrasta.

Em seguida Hermes se aproximou em silêncio com um sorriso contido no rosto, fixamente olhando para Henry. Era um momento de vingança contra o garoto que desejava saborear e sem dizer nenhuma palavra, ele a levou. Não houve explosão, nenhum barulho, luz ou fumaça para trás, nada que indicasse qualquer catarse. No final ela apenas se foi.

Grilos começaram a cantar, estrelas espalharam-se pelo céu, as luzes piscaram algumas vezes e estabilizaram. As pessoas começaram a sair de seus porões, e o burburinho se espalhou pelas casas, depois pelas ruas. Testemunhas relatando a cena com detalhes, a maioria sentia a excitação de uma criança ao assistir seu primeiro filme de terror. Contudo, a verdade é que ninguém jamais esqueceria aquela noite. A noite em que Storybrooke libertou-se daquela a quem chamavam de Evil Queen.

Notas finais
*Caduceu: https://pt.wikipedia.org/wiki/Caduceu
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.