Notas iniciais
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O sol havia se posto há duas horas quando Regina finalmente abriu os olhos, em uma cama enorme de ferro, limpa e confortável. Ao redor via-se um quarto de teto alto — moldado com uma espécie de paisagem celestial – mas simples e arejado, com poucos móveis. Pós-espiada no ambiente sua visão periférica capitou a figura de um homem sentado ao lado da cama, um sujeito alto e musculoso, usando um pesado casaco de lenhador, o rosto tinha traços grandes e agradáveis. Não fosse pelos ombros lagos dele estarem encobrindo a maior parte das pequenas velas acessas, ela teria visto sua expressão preocupada.

Robin, por sua vez, esperou atento, um pouco inclinado para frente mantendo os cotovelos rígidos, grudados às costelas e as mãos cruzadas, como se tentasse impedi-las de tocar a moça deitada na cama. As pernas balançavam nervosamente em movimentos rápidos e periódicos.

– Qual o seu nome? – Robin de repente, inspirado, perdeu o medo de falar com ela.

Regina manteve os olhos espertos, ainda analisando o estranho. Agora, sentindo-se mais forte, não era exatamente sua segurança que a preocupava – com músculos ou não, ele não representava ameaça – a maldita preocupação vinha do fato daquele rosto ser tão familiar e de seu coração estar reagindo insuportavelmente rápido a isso. “De onde eu conheço você?” Era a pergunta a ser feita e apesar da reciprocidade da impressão, nenhum dos dois a fez.

– Regina. – finalmente respondeu, com uma voz rouca e Robin sentiu borboletas brincando em suas vísceras.

– Bem, Regina... O meu é Robin. – Ele foi o mais cordial que pode. Escondendo seu sobrenome assim como ela, o que era, obviamente, uma atitude sensata para ambos. – Quando eu a vi, parada na floresta... – Fez uma pausa lembrando a perturbadora cena – Você não parecia real! – Robin contraiu um pouco os lábios, sentindo-se ridículo por sua sinceridade.

Regina sentou na cama e sentiu um leve latejar na cabeça ao se posicionar melhor nos travesseiros dispostos em suas costas — estava sem seu terninho amarelo, usando apenas a blusa branca que o antecedia — Depois observou Robin mais uma vez e notou a grande mancha de sangue que cobria a parte frontal do casaco grosso de pele.

– Isso parece bem real para mim! – Regina disse com a voz mais clara, levantando uma sobrancelha e indicando a mancha de sangue na roupa dele. Havia ainda um meio sorriso divertido em seu rosto.

Robin sorriu de maneira larga – exibindo sua dentição perfeita – não da piada mórbida, mas do quase sorriso dela, como uma reação imediata. Entretanto, nesse mesmo momento ela ficara séria; com o brilho que o sorriso trouxe ao rosto dele, Regina pode ver, alguma coisa em Robin a deixava extremamente feliz, ou pior, esperançosa. E qualquer esperança devia ser esmagada. Era sua lei mais absoluta!

__

A porta do quarto abriu lentamente em um rangido pavoroso, logo em seguida viu-se uma mão branca e magrela anteceder sua dona. Helena estava de pé, olhando os dois, um segundo depois. Regina a encarou e pensou ter entendido tudo imediatamente. Aquela era a esposa!

– Eu trouxe o que você pediu! – uma voz seca e de certa forma desesperada saiu da boca de Helena enquanto ela exibia uma bandeja bem arranjada em sua mão direita. A moça encarou a mulher na cama, por um demorando instante, com curiosidade indisfarçada, sentindo sua autoestima sumir ao ver o rosto vívido dela, sem nenhum sangue o tornando fantasmagórico. – A comida... – disse por fim, dando dois passos até que Robin se levantasse.

“O que tinha dado nele?” Helena pensou enfurecida. “Agora ele trás mulheres para casa? Quem é essa mulher? Por que ela usa roupas estranhamente curtas? Por que está machucada? Quando vai embora?”. As perguntas surgiam em uma velocidade absurda, como dezenas de vozes berrantes.

Regina a olhava nos olhos – como era de seu feitio – sentia-se resignada com os fatos, era óbvio que alguém como Robin não estaria sozinho. Ele poderia ter uma ou quantas moças quisesse. Manteve a expressão calma, imaginando que preferia morrer de fome a ter o momento com ele interrompido.

– Obrigado. – Robin realmente parecia agradecido, embora seu tom, nem de longe, fora tão cordial quanto ao se virar e falar com Regina: – Você precisa comer. Nunca vi ninguém perder tanto sangue por um corte tão pequeno. – Ele sentou-se novamente e de modo não invasivo colocou a bandeja ao lado dela na cama.

Obviamente Regina estava com fome e o cheiro das batatas cozidas a lembrou disso. Além das batatas havia também ovos, pão de centeio, frutas frescas e um grande copo de leite. Tudo impecavelmente preparado.

– Obrigada. – Ela olhou Helena ao agradecer. A moça assentiu com a cabeça e saiu como se, de repente, fugisse de alguma coisa muito desagradável. Efeito colateral não inédito para Regina, isso sempre acontecia. Era um dos talentos dela, fazer pessoas fugirem, mesmo tentando ser agradável. Entretanto a verdade sobre a fuga da garota lhe era completamente alheia; Helena choraria horas fio aquela noite, toda vez que se lembrasse do olhar apaixonado de Robin para a estranha.

Sem dar nenhuma importância a isso, Regina alimentava-se, nem lembrava quando tinha sido sua ultima refeição e a comida estava tão gostosa quanto parecia.“Créditos para a magrela assustada!”

– Então, de onde você é? – Robin virou a cadeira e apoiou os braços em seu encosto, olhando para Regina com um olhar cheio de satisfação e curiosidade quase infantil. – Digo... Você não é daqui! Então presumi que talvez... – Estava se atrapalhando. A presença dela parecia embaralhar a ordem lógica que seus pensamentos e palavras deveriam fluir.

Regina levantou o olhar, observou a expressão jovial de seu interrogador e deixou um suspiro cansado escapar, não por causa dele, mas pela longa história que ela teria de contar para convencê-lo de alguma coisa. Desejou por fim dizer que vinha de Nárnia, porém, o que na Terra seria uma piada para amenizar a conversa, poderia ser levado bastante a sério por um habitante da Floresta Encantada.

– É complicado. – Houve um silêncio sério quando ela falou. – Eu sou... Nasci aqui. Mas fui para outro mundo, por causa de uma maldição... – Regina fez uma pausa cautelosa, escolhendo cada palavra. – Passei uma vida lá e, por acidente, acabei voltando. – Agora era em Henry que ela pensava, porque talvez, nunca mais o fosse ver novamente.

Robin viu a profunda tristeza nos olhos escuros dela e sentiu uma comoção quase inumana. Não quis perguntar mais nada, estava péssimo o suficiente pela pergunta anterior tê-la causado dor. Não correria esse risco novamente! “Uma maldição.” A frase repetiu-se em um pensamento aleatório e o fez imaginar que ela só poderia está falando da Grande Maldição da Rainha Má. Robin odiava a maldita bruxa por tudo que fizera, sobretudo, por aquele olhar profundo e cheio de dor que, de alguma forma causara a Regina.

– Eu preciso voltar... – Regina, de repente, viu-se tomada por uma ânsia de sair daquele lugar, de voltar para casa, como se seu passado fosse alcançá-la a qualquer instante. Tentou sair da cama e torceu para que ele não tentasse impedir. Não queria usar magia nele, mas iria desacordá-lo a mera alusão de resistência.

– Eu posso ajudá-la! – Robin disse imediatamente após ela e quase completou: “E seguirei você a qualquer lugar!”. Mas ao invés disso: – Só precisa me dizer o que fazer.

Ela parou e o olhou com um semblante adoravelmente preocupado. Os dois permaneceram a menos de um metro de distância; não era só um olhar, era uma conexão. Alguma coisa que nenhum dos dois jamais vivera.

– Não sei por onde começar. – Regina foi sincera. Sabia que a tarefa de sair daquele mundo não seria fácil, o próprio Rumpelstiltskin passara anos em busca de uma saída e, por fim, precisara da ajuda dela.

__

As duas figuras esguias se entreolharam por mais um tempo na penumbra do quarto. Até que o som oco e molhado de uma tosse ecoou pelos corredores do castelo. Os tirando de um torpor confortável. Robin virou-se imediatamente, sua capa girou ferozmente como um lençol sendo sacodido e sem nenhuma cerimônia se retirou do quarto, entrando na escuridão do corredor.

– Ele acordou! – Sua voz foi só um sussurro, parecia está falando sozinho. Regina o seguiu, no completo escuro, guiada apenas pelo som das botas dele batendo forte no assoalho de madeira. Uma espécie de confiança inédita a impelia direto para o desconhecido, mesmo cega, literalmente naquele caso, estava disposta a segui-lo.

A escuridão sucumbiu pela chama forte de luz que saia da porta mais a frente. Antes que ele entrasse no cômodo iluminado, Regina o observou caminhar à meia luz: de modo bastante resolvido, másculo, ansioso e destemido, como se estivesse prestes a lutar com um animal selvagem. Depois, quando o perdeu de vista, teve a impressão de que seu coração batia na mesma frequência daqueles passos.

Continuou até poder ver o interior do quarto, que em muito parecia com o anterior, a não ser pela luz forte. Na cama de lençóis brancos, havia um garotinho, de talvez quatro anos – não dava pra ter certeza – Robin estava sentado na cama, com as mãos sobre o pequeno e frágil peito da criança, enquanto essa tinha mais um acesso de tosse. Dessa vez a tosse era seca e rasa, como um vidro sendo arranhado, combinada com uma pausa de busca por oxigênio.

Regina lembrava-se com exatidão daquele som e de todas as noites que passara ao lado de Henry — Ataques de asma foram bastante comuns na primeira parte da infância do filho — Desejou ter um sua bolsa, sempre havia uma bombinha lá, mesmo com as crises de Henry extintas.

Mais uma saraivada de tosse, típica dos asmáticos, agora seguida por um intervalo sem respirar. Uma, duas, três tentativas e o garoto olhava suplicante para o pai aflito. Os dois adultos prenderam a respiração e esperaram por longos segundos até Roland conseguir encher os pulmões. De olhos arregalados e maxilar trincado, Robin lutava contra a ânsia de sacudir o filho e gritar para que ele respirasse. O garoto fechou os olhos e viu filetes de luzes coloridas sob suas pupilas, pareciam fogos de artifício. Sua boquinha começava a ficar roxa...

– Ele está morrendo, Regina. – Robin levantou-se da cama e se virou, usando o nome dela como se a conhecesse por anos, não minutos. Regina o viu passar a mão grande pelo cabelo louro escuro, desesperado, os olhos verdes estavam brilhando por lágrimas não derramadas. – Não sei o que fazer. Nunca o vi assim... Como o faço respirar?

Regina que, por um tempo, pareceu impassível; passou por ele como se não o visse e, tomada por seu extinto maternal, sentou na cama puxando a criança parcialmente para seu colo.

– Qual o nome dele?

– Roland. – Robin respondeu tão rápido que a interrompeu.

Enquanto Regina segurava metade do corpinho pequeno no colo, Roland a olhava apreensivo, com olhos escuros e rosto bem feito, os cabelinhos castanho estavam molhados com o suor frio de quem lutava contra o próprio corpo. A pele branca, o semblante assustado e a irregularidade na respiração o faziam parecer quase translúcido. Um fantasma.

– Vai ficar tudo bem, Roland. Está sendo muito corajoso! Vou ajudar você a respirar... Está bem? – Uma voz baixa e doce foi destinada ao garoto. Até aquela noite, Henry havia sido o único a ouvi-la. A criança balançou a cabeça confirmando e fechou os olhos outra vez.

Robin cruzou os braços tendo uma vertigem quando viu o filho tremer cada parte do corpinho, como se levasse um choque, ao mesmo tempo em que Regina ditava palavras motivadoras: “Isso! Respira!” “Outra vez!” “Vamos lá, estamos indo bem!” “Roland, mais uma vez!”.

O que Robin não sabia — nem poderia saber — é que não foram apenas os exercícios respiratórios que fizeram, gradativamente, a respiração da criança normalizar. O “choque” visto fora o contato térmico com o superaquecimento mágico das mãos de Regina que, por sua vez, sentiu-se aliviada ao ver a temperatura abrindo as vias respiratórias de Roland, até que a tarefa de respirar voltasse a ser fácil para o garotinho com quem, agora, mantinha um segredo.

Robin sentou-se em uma antiga poltrona, exausto, encarando Regina: com o rosto devidamente iluminado ela parecia um milagre, as mãos delicadas e ágeis trabalhando de maneira coreografada, como se dançassem... Talvez ele estivesse ficando louco e não importava, mas acreditava poder ouvir música se olhasse para ela por alguns instantes. E lá estavam as mãos dele novamente travadas sob a vontade de atravessar o quarto e a tomar nos braços.