I ran away
3 A Volta.
Notas iniciais
Como não podia ser diferente, Robin foi tomado, gradativamente, por um sono pesado – não dormia bem há dias. Nos últimos dois dias não dormira nada. – tão biologicamente cansado que se sentia bêbado antes de olhar mais uma vez para a mulher que salvara a vida do seu filho.
Paz, e não solidão, era o sentimento que pairava no silêncio quase palpável do quarto. Regina ainda estava com a cabeça de Roland sob seu colo: o semblante adormecido da criança era adorável, tinha o rosto rubro e ainda meio rechonchudo como o de um bebê, a boquinha rosada e os olhos faziam uma combinação perfeita. Havia muito de Robin naquele rosto. Talvez tenha sido por isso que ela o beijou na testa, de maneira doce enquanto o deixava na cama. Era um adeus ao garoto que tinha alma de guerreiro e que, fizera jus ao fato, quando lutara ao seu lado por horas até voltar a respirar.
Dirigiu-se até a porta do quarto, resolvida a partir, mas antes parou em frente à antiga poltrona onde Robin dormia e o observou por um longo momento. Regina sorriu involuntariamente enquanto tentava guardar com exatidão cada detalhe daquele rosto. Ele dormia com a respiração longa e rítmica, seu tórax enchia-se de ar tão furiosamente que mais parecia um urso pardo em hibernação, tinha a cabeça um pouco inclinada para trás e seu semblante estava tranquilo. Quando a urgência da dor de abandoná-lo começou a se tornar insuportável, Regina desejou poder tocá-lo, só um instante, só para poder sentir como era a pele dele. Mas não o fez, ao contrário; partiu, subitamente entregando-se ao breu do castelo.
– Tenha uma boa vida, Robin. – Disse tendo o cuidado de não o acordar.
Em todos os mundos onde a história da Maldição da Rainha Má havia chegado, sido escrita, ou narrada, ninguém seria capaz de imaginar uma cena como aquela. Regina era o próprio demônio das lendas que assombrava criancinhas e agora estava andando como se seus pés lutassem para ficar. Como se fosse impossível deixá-los para trás. Mas ela não tinha nada a oferecer. Nada além de dor e de um futuro cheio de decepções. Era perigosa demais para pertencer ao mesmo mundo que Robin sem o machucar fatalmente. Então continuou pelo palácio de Rumpelstiltskin: uma sala após outra, enfrentando todas as lembranças que elas lhe traziam. — algumas tão fortes que se tornavam reflexos físicos de vários momentos de seu passado nebuloso — Pavor por pavor sendo deixado para trás até conseguir entrar no hall que a levaria para fora de seu inferno particular. Quando finalmente chegara a porta, estava triste demais para se orgulhar da decisão escrupulosa de deixar Robin em paz.
Sempre existiu em Regina um lugar para onde ir. Um refúgio da dor. Um lugar onde nada nem ninguém poderiam alcança-la. Cora, particularmente, detestava quando isso acontecia, quando via os olhos dela distantes demais. Inalcançável! Ela própria sendo, por muitas vezes, o motivo da filha se esconder em si mesma, enquanto a sacudia e gritava-lhe palavras odiosas: “Você é fraca, Regina. É como seu maldito pai! Nunca vai chegar a lugar nenhum”. Embora Cora tivesse certeza do oposto. Tomada pela raiva que sentia da força e do espirito da filha, sabia que nenhum dano acabaria com ela. Não completamente. Uma alma como aquela desafiava qualquer poder.
Regina possuía danos permanentes, era fato, mas ainda conseguia ir ao seu lugar, seu esconderijo. Exatamente onde estava quando abriu a porta gigantesca do castelo e olhou para o céu da noite, com nuvens prateadas pela luz da lua cheia, densas como as de uma pintura. O vento frio a fez desejar seu terninho de volta, mas não o suficiente para enfrentar novamente o interior do castelo em busca dele.
Saiu definitivamente do palácio, deixou a grande porta bater — fazendo um pouco mais de barulho do que ela esperava – e continuou caminhado de maneia corajosa, sem olhar para trás, por uns cinquenta metros até perceber uma luz brilhando pouco acima de sua cabeça, parecendo uma estrela de luz vermelha. Regina parou de maneira cautelosa e estendeu seu braço, sentindo claramente a magia do objeto quando o puxou para si. Assim que a pequena caixa tocou suas mãos, a luz vermelha se apagou.
Era um relicário retangular de madeira. Havia algumas palavras entalhadas cuidadosamente em Élfico Antigo, a língua dos magos, uma espécie de idioma complexo, raro e mesclado – Quase todos os feitiços eram professados nele – Entre todas as frases escritas na caixa, a mais importante e que, ganhara a atenção imediata, traduzia-se: “Para Regina!”.
Regina abriu sem dificuldades o objeto e o olhou por alguns minutos, sentindo a essência da magia que ele trazia; não parecia muito forte, mas com certeza era refinada. Dentro podia-se ver um papel grosso e uma vela vermelha. Curiosidade e senso de preservação a fez desdobrar imediatamente o pedaço de pergaminho velho contido no relicário, descobrindo uma pequena carta escrita com elegante caligrafia em um inglês arcaico.
“Minha querida Regina, os melhores e mais fortes possuidores de magia já estiveram perdidos nesse imenso e injusto Universo. Devia tê-la ajudado há muitos anos atrás, quando tu eras apenas uma pequena assustada. No entanto fui fraco e tive medo de mover a ordem natural que teu destino tomava. Mas contra minha fraqueza falou tua força e tu sobreviveras para me ver-te pedindo perdão. Use a Vela de Hermes para seguir teu caminho. E eu cá pagarei por ter roubado artigo tão valioso do deus da Magia, entretanto, por ter finalmente te libertado de alguma forma, sinto que valerá a pena. Minha pequena Regina, não espero que me perdoe. Tudo o que espero é que sejas feliz. Com todo o meu amor... Teu amigo Merlin.”
Uma gota de lágrima molhou a palavra “amigo”. Regina caiu de joelhos na neve e releu a carta algumas vezes, enquanto lembrava-se do homem gentil de cabelos brancos e olhos do azul mais vivo que já vira em uma íris. A imagem do Merlin de sua infância. Lembrou-se, sobretudo da amizade dos dois, ela com dez anos e ele com muitos múltiplos dessa idade; o mago havia estado presente em sua casa durante muito tempo, como professor de piano de Cora, mas Regina sabia, com a perspicácia de uma criança de dez anos que, não era piano que ele ensinava a sua mãe. De qualquer forma não importava, Merlin era maravilhoso. Era seu anjo da guarda, toda vez que Cora estava muito brava, Merlin dava um jeito de, gentilmente, tirar Regina de perto. Certa vez eles discutiram feio no meio de uma “aula de piano” quando o mago percebeu algumas marcas de dedos nos bracinhos de Regina: “Cora, fica longe dela! Se isso acontecer novamente, suas aulas acabam no mesmo dia.”. As ameaças não intimidavam a bruxa que, graças a ele ficava cada vez mais poderosa.
Um dia ele cumpriu sua promessa e desapareceu sumindo no ar. Antes de partir para sempre, Merlin levou sua criança favorita a uma colina e a olhou nos olhos enquanto contava uma história bonita sobre maçãs e como elas representavam a vida. Os olhos de Regina brilharam quando uma pequena árvore apareceu ao lado dos dois, de maneira tão natural que nem parecia magia. Magia costumava assustar a garotinha.
“Regina, cuidarás dessa árvore enquanto eu estiver fora?” – Merlin sorriu tristemente quando a viu acenar positivamente com cabeça. Ele era poderoso demais, podia ver o futuro evidente, podia ver com certa clareza quem ela se tornaria. A imagem da mulher esbelta e má, colhendo as maçãs, horas antes de lançar uma terrível maldição, tomou conta dele como memórias de um pesadelo.
“E quanto tempo vai levar?” – A voz dela foi preocupada, quase aflita, ele longe significava mais Cora. O velho amigo não respondera, apenas fixara seus olhos azuis-celestes na pequena macieira, lutando contra lágrimas.
Depois de sua partida, as coisas mudaram, Cora parecera cada vez mais alheia à Regina e Henry virara, de um dia para outro, seu pai protetor. O que provavelmente tinha ligação com a primeira e longa conversa que Merlin teve com ele pouco antes de desaparecer.
“Ele se foi para sempre”. Regina costumava sussurrar essa frase para a macieira, sua maior confidente. Gostava de pensar que Cora o houvesse matado, mas às vezes, dava-se conta de que fora mesmo deixada. Era a primeira, porém não seria a última vez que se sentiria assim.
___
– Regina?! – A voz rouca de Robin caiu sobre ela como um cobertor quente, despertando-a de seus terríveis traumas. As palavras na carta não faziam sentido, o objeto que ela segurava nas mãos — que até aquela noite, acreditava ser apenas uma lenda — também não fazia sentido algum, a única coisa que fazia sentido era Robin parado ali, com pequenos flocos de neve sobre seus cabelos e a respiração ofegante de alguém que havia corrido para chegar onde estava.
E, de fato, Robin correra, assim que acordou e percebera a ausência; correra pelas escadas, salas e pelos cinquenta metros até encontrá-la sob a luz azulada do reflexo da Lua na neve. Havia alguma coisa nas mãos de Regina, porém ele manteve-se concentrado em sua expressão, tão fria quanto o gelo, do tipo que arrepiava a alma.
– Robin... Volte para sua família! – Regina disse séria, talvez um pouco ríspida. Levantou-se e retirou a vela vermelha de dentro da caixinha.
– Você a salvou hoje... – fez uma pausa — A minha família! – Tentava desesperadamente encontrar um assunto que a convencesse de voltar para o castelo.
– Então acho que estamos quites agora! – Uma pequena reverência sarcástica a fez parecer definitivamente ríspida. – Volte para sua esposa... – Aquilo não devia ter saído, mas sua raiva a ultrapassava.
– Ela não é... – Robin sorriu levemente, aceitando de bom grado a raiva, porque, de repente, aquele parecia ser o único motivo que a impedia de voltar. – Ela não é minha esposa, ela não é nada minha. Minha esposa está morta. Roland é minha família.
Regina estava prestes a continuar sua caminhada pela noite, mas a expressão triste dele a fez perder o equilíbrio, como o descompasso de uma dança. Por que se importar tanto com um estranho?
– Sinto muito. – Ela sussurrou com uma ruga de preocupação verdadeira.
– E você? Tem alguém esperando nesse outro mundo? Ou só está fugindo?– havia certa nota de nervosismo em sua voz quando notou que seria ingenuidade demais imaginar que aquela pessoa não tivesse ninguém. Alguém a procurando loucamente por entre os mundos.
– Tenho! — Ele vacilou levemente com uma agonia repentina até que ela concluísse: – Meu filho. Ele é tudo o que eu tenho. – Ao dizer isso olhou para trás, impaciente como se estivesse atrasada. – Robin, eu preciso ir! Vai ser melhor para todo mundo se eu for agora... Sem trauma.
Do que ela estava falando? Estar perto dela era tudo o que ele desejara desde que a vira pela primeira vez.
Assim como parecia que faria, Regina, de repente, encorajada, se preparou para sumir por entre as árvores densas da floresta.
– Não vai embora não. – a voz baixa e suplicante de Robin a fez parar como um freio. Regina se virou novamente para olhá-lo de frente. – Eu quero que você fique!
Houve um longo e torturante silêncio para ambos. Regina o encarava com uma curiosidade pericial. Robin prendia a respiração, disposto a se livrar de qualquer máscara ou sutileza: pronto a implorar se fosse preciso. Porém, implorar não era o caso. Porque Regina caminhou repentinamente, como se voasse até Robin e se lançou em seus braços. Inesperado. Um abraço tão forte e urgente que o impacto o teria feito cambalear, não fosse ele tão grande e forte. Dois corações acelerados que parecia encontrar-se em algum momento do ritmo. Robin imediatamente a envolveu em seus braços, sentindo a pele, o cheiro e a respiração ofegante dela. Mesmo assim, tendo ela tão próximo quanto parecia ser possível, Regina ainda parecia fazer parte de um sonho, lindo e passageiro.
Regina, naquele instante, sentiu-se curada, livre e ao mesmo tempo presa a ele. Ninguém jamais a fizera sentir aquilo, parecia que seu lugar no Universo era exatamente nos braços daquele grande homem quase completamente estranho. Como se finalmente pudesse descansar. E fora o sentimento de relaxamento responsável pela queda da Vela de Hermes de sua mão. Ela nem ao menos se importou com o fato, parecia que quando o abraço acabasse levaria tudo que existia junto com ele.
O objeto caiu quase em silêncio e rolou para trás dos dois até uma pequena distância. Eles, em meio à própria dormência de se contemplar, jamais teriam sido capazes de perceber que a Lua não era o único telespectador da cena. Roland os observava parado, atento, ingênuo demais para captar o motivo real do pânico daquele abraço. Observou ainda o pequeno cilindro vermelho-cintilante rodopiar pela neve até tocar cuidadosamente seus pés descalços. E por reflexo ou curiosidade infantil, ou os dois, ele pegou imediatamente o artefato valioso do chão.
– Roland. Não! – Regina se livrou dos braços de Robin, como quem tirasse um casaco apertado, de olhos arregalados, surpresos, gesticulando com as palmas das mãos voltadas para frente, tentando acalmar a criança. Aquela era sua passagem de volta a Henry. – Roland, entregue a vela para mim, está bem?! – O rosto dela brilhava com algumas lágrimas derramadas durante o abraço. Robin se virou incrédulo para o filho descalço na neve, o garoto estava tão pálido e espantado, com o grito de Regina, que parecia fazer parte da paisagem enquanto encarava os dois adultos com seu rostinho apavorado.
Roland então deu uma última observada no objeto antes de caminhar ao encontro da moça bonita de braços estendidos e olhar enfático. Nesse momento ele pode ver alguns desenhos engraçados gravados na vela: “um pássaro!”. Mas a neve cobria parte do desenho e a criança, na tentativa de se livrar do gelo branco, assoprou a vela.
– Não! – O grito fora assustador, bravo e imediato. O susto vez Roland soltar de súbito a Vela de Hermes, mas ao invés dela cair, flutuou e subiu pouco acima de sua cabeça. Uma chama azul-prateada ofuscou completamente a visão dos três e com um zumbido ensurdecedor a luz abriu um buraco no chão. Era um portal. Roland foi sugado tão depressa que Regina nem teve tempo de sair do lugar. Um segundo depois e o buraco verde sorveu os dois adultos, poupando-lhes do desespero de ficar.
Regina sabia como a Vela de Hermes funcionava; ela não era apenas um modo de viajar por mundos, ela respondia ao maior desejo de quem a acionasse.
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