I ran away

4 Quase em casa.


Notas iniciais
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A conhecida sensação de viajar entre mundos durou pouco, e até teria sido confortável não fosse, é claro, o fato de não conseguir respirar. Regina abriu os olhos e sentiu a água do mar os encher de sal. “Droga!”As coisas nunca eram fáceis para ela e como de costume, precisou lutar; primeiro para emergir, depois contra o vai e vem incessante, típico das rebentações de ondas na praia. Quando finalmente sentiu seus pés tocarem no chão, mal podia acreditar na temperatura da água. Estava sozinha em um mar quase congelado, no meio de uma escuridão densa, desejando a lua da Floresta Encantada, desejando não ter soltado a Vela de Hermes e desejando, sobretudo, não ter parado aquele abraço.

Um som molhado e cavo chamou a atenção dela, mesmo no meio de tanta água, alguma coisa próxima rebatia-se, em uma profundidade rasa. “Roland!”. Ela pensou no momento em que ouviu uma tosse abafada e imediatamente rodopiou seu indicador direito no ar, como se desenhasse uma ponta de foice imaginária, terminando com uma luz branca e brilhante. A luz subiu a certa distância e acompanhou o ângulo de visão dela com a obediência de uma lanterna.

Roland muito hábil em passar privações de oxigênio, começava a desistir quando fora, de repente, puxado, como por uma corda, mas não havia nada o tocando, apenas as mãos de Regina com palmas erguidas em sua direção.

– Roland! – Regina gritou com a criança, sem nenhuma polidez. Roland chorava copiosamente, de olhos fechados e ainda sem perceber que não estava mais na água. – O que você desejou antes de assoprar a vela? – O garoto olhou para ela como se ouvisse uma frase em outro idioma. Regina sacudiu Roland pelo ombro, ignorando os soluços e, reformulando a pergunta para um nível “quatro anos”: — Roland, eu preciso saber no que exatamente você estava pensando quando pegou aquele negócio vermelho. Aquele com desenhos... — O garotinho respirou com dificuldade, o semblante confuso e assustado. Tentando engolir o choro. Aquela não parecia ser a mesma mulher que cuidara dele horas antes.

Regina esperou por um momento, passando superficialmente uma das mãos por ele, fazendo toda a água gelada sumir. Agora, ambos estavam secos, preocupados e, Regina, impaciente. Onde diabos era aquele lugar congelado, calmo e sem estrelas?

O rosto dela estava pálido, focado e bastante assustador para a criança que, agora, a via andar de um lado para outro, vez ou outra levando a mão à cabeça como se fosse perder o controle. E perder o controle era muito fácil para Regina, mas, pelo menos, o choro cessara, deixando-a pensar com mais clareza.

– Roland, consegue me dizer no que estava pensando, antes de viajarmos para nesse lugar? Eu preciso disso para encontrar seu pai! – tentou parecer calma ao dizer as palavras que, derrubavam, para si, sua própria máscara; o desespero que gritava dentro dela, não era por estar em um lugar desconhecido e sim por não saber o paradeiro de Robin.

– Eu... – a voz dele era rouca, baixa e trêmula. –... Eu só queria que você parasse de chorar. – disse depois de uma pausa, olhando para o chão de areia amarelada, de maneira tão tímida que mais parecia está confessando um crime.

Ela sentiu alguma coisa estranha aquecer seu peito quando ouviu a confissão de afeto gratuito. Ajoelhou-se diante do garoto e ergueu delicadamente o queixo infantil para olhá-lo nos olhos. A face pálida dele tinha bochechas tão rosadas que, quando o olhar dele finalmente encontrou o rosto compassível dela, parecia que brotaria sangue delas.

– Então deu certo. Não estou mais chorando. – Regina beijou a testa dele de maneira terna. Ficou novamente de pé, olhando para o mar e procurando resposta em suas memórias. Mal se lembrava de ter chorado enquanto o abraçava Robin, porém, se estava chorando, não era um choro ruim. E se a Vela de Hermes tivesse repelido o motivo de seu choro, então Robin estaria... A imagem que se instalou em sua cabeça foi perturbadora: Robin no meio daquele mar, distante demais para se ouvido ou visto por ela.

Roland encravou suas mãos na areia parecendo se segurar quando o rosto dela ficou sério e a luzinha brilhante que pairava no ar, subiu mais uns metros, seguindo a ordem invisível do olhar dela em direção ao mar. De repente um raio lilás-claro saiu das mãos de Regina, fazendo a luz explodir em direção ao oceano de maneira tão forte que o garoto ficou cego por quase um minuto inteiro. Quando pode ver novamente, a mulher continuava a encarar o mar, mas agora com um olhar vago. Como se fosse uma estátua inabitada.

O minuto em que o clarão branco ofuscou a visão da criança, Regina passou procurando Robin por um perímetro enorme de mar. A boa notícia veio com os navios que vira; um deles com uma pomposa bandeira dos Estados Unidos da América, isso significava, por fim, que aquele mundo era a Terra. A má notícia foi não ter encontrado nenhum sinal de Robin.

– Vamos para casa, Roland. – A voz fora séria e preponderante. Regina sentia-se tão nociva: havia condenado um homem bom à algum fim cruel, com um único abraço. “Eu avisei!”.

___

[Storybrooke, Maine, USA].

Um clarão pardo entrou pela janela do Granny’s Diner e Henry levantou a cabeça imediatamente para fitar Emma que já o encarava com expressão atônita.

– É ela! – ele disse e correu em direção à porta da lanchonete, deixando para trás o eco do sininho da porta.

O sol havia se posto há poucas horas na cidadezinha gelada e a tímida equipe que se unira para procurar Regina, cabia com folga no pequeno Café, este, temporariamente fechado para uma reunião que não tinha muito a reunir; nada de pistas, ideias, ou qualquer coisa que fosse levar ao paradeiro da prefeita da cidade.

O desaparecimento dela em um portal, em plena luz do dia, para quem quisesse ver, pareceu algo providencial para a maioria dos habitantes do lugar. Ninguém fora ouvido pela xerife, nem mesmo a Madre Superiora que era com quem Regina mantinha uma discursão acalorada antes do chão simplesmente abrir embaixo de seus pés. Um mistério. Mesmo assim o fato não parecia preocupar a maioria, com exceção de Henry, Emma, Mary Margaret e Tinker. Os demais; David, Neal, Mr. Gold, Leroy, Belle, Ruby, Granny, esses pareciam mais entediados que preocupados. Mas mantinham a compostura em respeito ao garoto que perdera a mãe.

Outra vez o sininho da porta quebrou o silêncio. Dessa vez era Tinker quem não se continha e corria para ver de onde vinha o clarão.

– É ela! – Mr. Gold disse de maneira calma encarando a xicara de café que tinha nas mãos. Para quem não o conhecesse, pensaria ter visto um pouco de orgulho no sorriso sutil que seguiu o comentário.

– Você acha? – Emma levantou e o encarou com expressão agitada. Ela sabia mais do que qualquer um ali dentro, ou fora, que Henry precisava de Regina. Aceitara isso no momento em que contara ao filho que Regina havia caído em um portal para um mundo desconhecido e vira o olhar dele se perder, como se caísse em um buraco. “... Mas, Emma, você precisa encontrar quem fez isso com a minha mãe... Ela tem muitos inimigos. Você sabe!” – Ele havia argumentado enquanto chorava. A frase ainda rodopiava dolorosamente na cabeça de Emma: ele usando o nome dela, chamando apenas Regina de mãe.

– Eu mesmo a ensinei esse feitiço! – Mr. Gold olhou para o relógio, depois para Belle. Regina estava em Storybrooke, tinha certeza absoluta. – Digamos que esse seja um feitiço bastante peculiar. – vez uma pausa para encarar os rostos confusos, tomou um gole do café e prosseguiu: – Para cada pessoa o padrão da luz é diferente. Como uma impressão digital... Esse que acabamos de ver é o da Regina!

Neal deixou um suspiro escapar e seguiu Emma pela porta.

– Como é que ela consegue? — Mary Margaret encarou Mr. Gold que conversava baixo com Belle, encostado despreocupadamente no balcão da lanchonete. – Como ela pode demorar apenas horas para se livrar... Sabe-se lá do quê e voltar? – “E nunca conseguiu se livrar de mim?”. Ela poderia ter incluído a frase a questão, mas não o fez.

– Ahhh... São muitas variáveis a se considerar. Nem sabemos onde ela estava. – Gold falava de maneira cética e prática, sem responder, de fato, o que sabia ser a pergunta de Snow. – Digamos apenas que sua madrasta seja bastante determinada a se livrar de qualquer coisa que ela realmente queira. – A voz dele era cínica quando usou o status de Regina que ainda dava calafrios em Snow. “Madrasta!”.

Lá fora os olhares eram atentos e ansiosos. Como se esperassem pelo final de um filme de suspense. Havia insaciáveis burburinhos pela cidade, as pessoas falavam do clarão que parecera um flash fotográfico interminável. Assunto que substituíra o anterior — O desaparecimento da Prefeita – antes discutido abertamente, se tornando motivo de piadas. Diziam: “Não sei para quê tanto falatório, ela só foi almoçar com algum amigo no inferno e volta logo.”, “A limpeza de Storybrooke nunca fora tão efetiva!”, “A própria terra se encarregou do impeachment.”.

Henry permanecia alerta e agitado, mesmo depois de Emma ter repetido as palavras de Gold para ele. Precisava ver a mãe a salvo e a única coisa que o impedia de correr em direção à praia – de onde tinha vindo a luz – era a mão de Neal sobre seu ombro, cautelosamente o contendo.

– Henry, eu posso vê-la! – a voz de Tinker parecia uma flauta bem afinada, enquanto sorria ao ver o que olhos humanos não viam. Como a maioria dos seres alados, as fadas também possuíam uma visão extraordinária, independente de magia.

O garoto ficou na ponta dos pés, depois se inclinou para frente e esperou até finalmente poder ver a silhueta elegante de sua mãe caminhando em direção as luzes da cidade. Como não podia ser diferente, correu o mais rápido que pode pela rua principal de Storybrooke.

– Mãe?!

– Henry!

Os dois se abraçaram fortemente por um longo tempo. Regina passou a mão pelo rosto do filho como se fizesse anos e não horas desde que o vira a ultima vez. “Ela voltou!”. O filho pensou. Ela sempre voltava, eram as pessoas da vida dela que a abandonava não o contrário. Henry com certeza fazia parte da lista de pessoas que a deixaram, mas ele também voltara a tempo. Tempo de ainda ser seu “Pequeno Príncipe”.

Só quando já estavam próximos ao Granny’s Diner, onde todos os esperavam na porta, é que Henry viu o pequeno vulto tímido que os seguiam; com uma capa grosseira e grande demais para ele, os pés descalços e as mãos cobertas de areia; tinha olhar intimidado como o de um animalzinho selvagem pronto a correr se chegassem muito perto.

– Quem é ele? – Henry voltou o rosto de maneira divertida para a mãe. E o que viu foi tensão nos olhos dela, que encaravam, fixos, as pessoas à frente.

– Emma, preciso da sua ajuda! – a voz dela era receosa e cansada. Pedir ajuda para Emma era a última coisa no mundo que queria fazer. Mas não importava, sabia que ela era a líder do clã de hipócritas que a cercava. Persuadi-la significava bastante ajuda. – Há um homem perdido... O nome dele é Robin e é muito provável que o portal o tenha deixado no meio do mar. – a voz dela fora tão rápida que pareceu falhar.

A boca de Emma abriu em um suave “o” enquanto ela tentava digerir toda a história, desde o pedido inesperado até o fato de ter alguém em perigo.

– Onde está Gold? – Regina parecia impaciente quando passou pelos olhares chocados de uma dúzia de curiosos e entrou no café batendo com força a porta que balançou ferozmente.

– Roland?! – Neal viu a criança que seguia Regina. O olhar do garoto estava fixo na mulher, como se estivesse apavorado demais para olhar qualquer rosto ao redor. – É claro! Eu conheço essa criança. Conheço Robin, o pai dele, foram eles que me ajudaram... Por causa deles eu consegui ir para Neverland.

– No meio do mar? – David encarou a filha e os dois, apenas com olhares, já traçavam planos de como iriam fazer uma busca como aquela. Na água.

– Hook pode ajudar! – Emma disse e foi como se tivessem acendido uma luz. É claro que Hook era o mais indicado para qualquer coisa que envolvesse o mar. A ajuda mais óbvia.

– Estamos perdendo tempo. – Mary Margaret interrompeu impaciente enquanto observava, pelo vidro da lanchonete, Regina falar com Gold.

– Regina. Vamos! – Emma deixou sua cabeleira loira a preceder pela porta quando lançou um olhar quase bravo para Regina que seguiu o som do chamado dela como se fosse um despertador, percebendo, pela agitação das pessoas lá fora, que todos ajudariam.

E lá estava, mais uma vez, o Comitê da Salvação montado, pronto para a ação imediata. Henry observou Regina colocar-se diante deles como uma professora e imaginou que lhes faltavam apenas armaduras reluzentes. Resolutos e completamente ignorantes ao que acontecia a dois quarteirões dali.

___

Robin sentia o peso de sua capa encharcada enquanto seguia uma moça de cabelos ruivos e saia verde-grama em fiapos, por algum lugar bastante diferente de tudo que já vira. Só o que sabia sobre a ruiva era que se chamava Ariel, que costumava nadar a quilômetros da costa, “para pensar” e que o levaria até alguém chamada “Xerife”. Mas nem o desconforto de imaginar como ela não congelava com aqueles trajes o salvava dos pensamentos angustiantes, que subia à sua garganta como ferro em brasa, parecendo rasgar sua mente em duas. A imagem invasiva de Roland e Regina rebatendo-se no mar; estava prestes a fazê-lo gritar, ou cair, ou os dois. Por que é que aquela moça tinha que andar tão devagar?

Notas finais
Desculpa a demora.