Notas iniciais
Quase como uma Fênix ressurgi das cinzas para terminar de postar I Ran Away. Desculpa ter demorado mais do que o nível tolerável. Andava bastante ocupada, embora igualmente apaixonada por OQ, talvez mais agora que antes. A boa notícia para aqueles que gostam da minha história é que ela está finalmente escrita. Completinha. Os caps serão postados a cada dois dias. Promessa. Então volte, releia os capítulos anteriores (Eu dei uma revisada) e continue. Espero mesmo não decepcionar, não depois de toda essa demora. Beijos, queridos leitores, e até a cada dois dias. :*

O sol começava a mostrar-se em um crepúsculo tímido e a nevasca havia sessado exatamente como veio, sem nenhum aviso prévio. Pairava em todos os cantos da cidade, além do gelo acumulado, um ar triste e cheio de medo. Robin e David acabavam de estender o corpo da sétima vítima da noite anterior, um garoto de doze anos, que havia ido acampar com dois primos mais velhos... Agora, ambos o faziam companhia estendidos ao lado, sob lençóis brancos, na sala mais ao sul do hospital da cidade.

Neal esperava do lado de fora da porta, tinha sido o bastante para ele as últimas seis pessoas mortas ali, não queria olhar para o rosto da sétima, um rosto com a mesma idade de seu filho. Emma estava mais afastada, silenciosamente agradecendo por Robin e seu pai a estarem poupando daquele trabalho, seus olhos ora olhavam para o monitor cardíaco – que soava um bipe rítmico catalogando a frequência dos batimentos do coração de Ariel – ora para o rosto do doutor Whale, mantido criteriosamente sem expressão, como um boneco de cera irritante. “Sereias não morrem congeladas!”. David falara aquela frase uma centena de vezes quando Robin tirou a garota ruiva de um monte de neve. É claro que ele se referia a um gelo comum, não do tipo que anula qualquer magia. Para nenhum deles a noite anterior pareceu real, era como um sonho cinza. Mas sonhos não matavam ninguém.

***

Merlin sentiu a maresia forte em seu rosto e esperou por um tempo, olhando o sol nascer. Ele gostava da Terra, mas aquele não era seu lugar favorito, definitivamente; com aquele céu emudecido de nuvens, aquela areia escura e o cheiro frio, o Maine não parecia ser o lugar favorito de ninguém. Irônico que a magia dela os tivessem levado aquele lugar. Merlin lembrou-se do rosto agradável de Regina: que criança linda ela era, uma criança do verão que brilhava como o sol.

Storybrooke por outro lado não parecia ser completamente desagradável, pequena e cheia de suas sarcásticas piadas sobre as adaptações de habitantes mágicos para a vida da Terra, caminhar por suas ruas era com está no cenário de um filme que ele já assistia há muito tempo. Mesmo congelada como estava essa manhã, a cidade parecia capaz de guardar histórias felizes.

Não seria difícil encontrar quem procurava, Merlin sabia, poderia ter ido direto ao gabinete da prefeita, mas não estava pronto para aquilo ainda e tinha medo de nunca está. O antiquário de Gold pareceu ser uma parada mais óbvia. Uma visita inesperada, sem dúvida, a última vez que se viram, ainda disputavam espaço na vida de Cora, seria estranho, ainda que tudo parecesse ter acontecido mil anos atrás.

***

A porta de seu gabinete estava entreaberta... Regina esperou por um segundo com a mão no trinco arredondado – sentindo a presença de alguém na sala – até decidir que certamente não haveria ninguém num raio de uma ou duas dimensões que significasse perigo real. Não para ela.

Quando entrou descobriu o equívoco: lá estava Robin Hood sentado em sua mesa, com a expressão distante, rodopiando uma caneta com precisão equilibrista, estonteantemente lindo com sua jaqueta de couro marrom que evidenciava seu profuso conjunto de músculos. Aquele sim era um perigo em potencial, o disparar copioso do coração dela toda vez que ele entrava no seu campo de visão, o olhar dele quando a via, tudo era uma grande lista de perigos em potencial.

Regina bateu a porta atrás de si, o fazendo emergir de sua distração infantil. Ele sorriu para ela, a resposta habitual. Aquela não havia sido uma madrugada muito boa, tampouco uma manhã, mas o rosto dela – que naquele momento, em particular, não se encontrava muito amistoso – tinha o poder de fazê-lo esquecer do próprio nome.

– Você sumiu! – Regina soou propositalmente acusativa enquanto sua sobrancelha arqueava-se de modo esmagador – Tomei a liberdade de deixar Roland na escola. É onde as crianças ficam a maior parte do dia e ele pode...

– Obrigado! – Robin ficou sério, interrompendo a, e um tanto triste também. Haveria uma criança a menos na escola hoje. – Sete pessoas morreram essa madrugada.

Regina encarou o rosto dele e se perguntou quão profundamente ele se importava com aquilo. Robin era um homem bom e, de repente, ela estava novamente tentando manter distância dele.

– A garota... Ariel?! – a pergunta era para ganhar tempo, como se procurasse uma saída de emergência.

– Não! Nós a encontramos a tempo... Ela vai ficar bem. – Ele pulou da mesa e caminhou em direção à prefeita que mais parecia está prestes a jogar-se pela janela. – Sua mesa! – O verde dos olhos dele estava tão vivo naquela luz e Regina, descuidadamente, lendo a expressão do rosto confuso a sua frente, o deixou se aproximar demais.

– Achei que te deixaria brava se sentasse na sua mesa. – Era como mexer nas brasas de uma enorme fogueira e esperar que ela revivesse. Robin queria a mulher que aquele olhar precedia e Regina não poderia fugir de si mesma por muito tempo. Os dois sabiam.

– E deixou. – Ela o encarou com um meio sorriso descarado, com dentes que mastigavam o juízo do arqueiro. Tinha esquecido o motivo da fuga – Na verdade já matei homens maiores por muito menos. – Ambos sorriram; ele completamente alheio a veracidade das palavras dela.

– Aposto que sim... – A voz ficou mais baixa e ele estava prestes a arrancá-la de sua personagem durona quando um bipe insistente evoluiu para um toque eletrônico dentro de sua jaqueta. Regina passou por ele em direção à mesa, como se acordasse ao som de um despertador, deixando-o para trás a margem de uma piscina de larva.

Robin retirou um rádio do bolso da jaqueta e o esperou chiar como um ninho de moscas, enquanto recuperava-se da dor latejante que subira um segundo atrás por suas veias. Mesmo antes de ouvir a voz da Emma do outro lado, Regina sabia do que se tratava: um curta-frequência da polícia de Storybrooke. Os olhos dela reviraram como por tédio, mas estava apenas reprimindo a vontade de arrancar o intestino de Emma para usá-lo como acessório luxuoso, talvez um colar. Ela parou de fingir que organizava papéis sobre a mesa quando ouviu seu nome na voz da xerife. O chamado não era para Robin, afinal; havia uma reunião no salão de reuniões da cidade – do tipo urgente e imperativa – e todos os celulares pareciam não está funcionando desde a nevasca da noite anterior. “Diga a ela que é urgente... estamos esperando.” Regina parou e deixou um suspiro escapar, agora realmente entediada.

O salão de reuniões e festas não era longe da prefeitura – nada ficava realmente longe em Storybrooke – chegar lá demorou menos de cinco minutos e, de qualquer modo, Regina achou que seria mais fácil do que ficar a sós com Robin em uma sala de portas fortes. Quando a luz cinzenta do sol de outono atingiu suas retinas como bombas luminosas ela percebeu o quanto os dois chegaram perto de ir longe demais, quase ultrapassando o limiar seguro para ele, ela e os outros. Embora afastar-se um do outro naquele momento tivesse sido como um grito de pânico sendo abafado com éter... Pareceu ser a coisa certa a fazer. Funcionava como um pacto secreto entre ela e seu destino: existia apenas uma pessoa no mundo na qual o seu coração escuro e perdido tinha permissão de amar, Henry, em troca não haveria mais perdas, nem riscos. Talvez houvesse dor, sempre existia a possibilidade de perder o filho, mas isso Regina nunca ponderava a fundo, se acontecesse alguma coisa com Henry, o mundo todo poderia ir à merda. Não havia cláusulas sobre dor, sabia disso porque sentia dor o tempo todo, em intensidades diferentes, por motivos diferentes, porém o tempo todo.

Mary Margaret e David esperavam ao lado da porta dupla de entrada do prédio. Aquilo parecia significar alguma coisa. Uma reunião de camaradas! Quem mais estaria lá dentro, Papai Noel e Coelhinho da Páscoa? David parecia está desconfortável, sussurrando entredentes para sua esposa alguma coisa baixa demais para que Regina ou Robin ouvissem.

– Não é uma festa surpresa, é?! Porque hoje nem é meu aniversário. – Regina disse sorrindo sem humor, só sarcasmo. David deixou as palmas das mãos baterem sem paciência, incomodado. Não era justo que Snow continuasse se preocupando com uma mulher como Regina, mesmo agora, tantos anos depois, não tinha como ela mudar. Não ia acontecer.

– David?! – Snow olhou para marido esperando que ele cumprisse o combinado. David realmente pensou em dar as costas para todos e entrar no salão, mas decidiu que o preço a pagar por isso pudesse ser caro. Simplesmente não valia a pena medir forças com ela. Então passou por Snow e Regina e colocou uma mão sobre o ombro de Robin.

– Vamos, cara. Vamos tomar um café. – David disse frustrado. Robin entendeu de imediato; seu ingresso para a reunião estava sendo revogado. Obviamente uma conversa entre figurões da cidade e não o incluía, parecia bastante simples e normal. Não haveria uma máquina de tortura atrás daquela porta e eles não usariam nela. Eram gente boa. “Gente boa!” Tentou se convencer quando a deixou. Ela firme e impassível ao lado da moça de cabelos escuros. Ele tentando disfarçar seu olhar tão desolado quando uma criança em seu primeiro dia de aula.

– Regina... – Mary Margaret começou docemente. E, se antes o sensor premonitório de Regina apontava para problema grave, agora estava gritado.

– Saia da minha frente. – Regina sibilou asperamente de maneira tão familiar para Mary Margaret que essa se sentiu novamente com doze anos. A porta se abriu sem que Regina a tivesse tocado. Ela entrou altiva pelo salão, mas não havia como está preparada para a cena que encontrou.

____

O salão era grande e cheio de bancos de madeira pesada, um palco grande também, para os padrões. O lugar era usado com frequência pelos moradores e por isso era zelado e toda a madeira tinha polimento excelente. Nada diferente a ponto de justificar a fúria nos olhos de Regina, exceto, é claro, Merlin parado no centro do palco com um sobretudo preto e seus cabelos completamente brancos, os olhos de cor azul-celeste cintilando tristes, exatamente como Regina o vira pela última vez, embora sem barba, era o exato rosto de mais de meio século atrás.

“Filho da puta!” Gold havia pensado quando Merlin batera em sua porta, agora estava em pé ao seu lado, a uma distância segura para o caso dos pensamentos de Regina ser menos educados que os dele. Ela era imprevisível com raiva e, Gold apostaria sua alma – se já não a tivesse apostado antes – que a coisa ficaria feia para Merlin.

Vê-lo ali parado, como se tivesse de volta, como um pai arrependido ou um amigo chegando de viagem foi bem mais forte do que ela havia imaginado, talvez por ela ter parado de imaginar a muito tempo. Foi como ser atropelada por um trem em alta velocidade, sua cabeça latejava e seu estômago rodopiava de maneira alarmante, dava para ver o choque em seu rosto, um retrato de pânico e ânsia e fúria e medo. Os observadores presentes no salão reagiam apáticos como se assistissem ao final de um filme sem tê-lo acompanhado. Emma, Mary Margaret, Neal, Hook, Madre Superiora, Tinker e Gold, todos os figurões testemunhando o que parecia ser a única provável máquina de tortura pensável para Regina e não foi exatamente uma surpresa quando um ruído fino e estridente de madeira começou a arranhar todos os ouvidos presentes.

– Haa... Parem com isso! Regina, vamos... – Tinker deu um passo disposto em direção a Regina e mal pode ver o que aconteceu entre esse passo e os braços de Hook agarrando-a pela cintura e movendo-a com uma facilidade que, em outro momento, a teria ultrajado. Só quando ouviu o barulho do banco de madeira voar contra a vidraça da enorme janela é que percebeu: todos os bancos voavam como bexigas de gás. Era uma cena perturbadora, aqueles bancos deviam pesar cinquenta quilos cada um e, havia dezenas batendo contra a parede, janelas e teto.

Emma sentiu uma força arrebatadora batendo contra seu corpo agindo contra a inércia natural, lançando-a ao chão e depois a parede, suas costas batendo em um estalo rixoso. Ela pode ver que estava acontecendo com todos no salão, todos exceto Gold que mantinha no rosto um meio sorriso seco, como se estivesse concentrado demais para se divertir de fato. Mas ele estava se divertindo... E muito; lutando contra o poder vívido de Regina, quase podendo sentir o sabor da magia dela embaixo da língua... Ela era magnifica de um jeito que ele nunca entenderia e nem admitiria. O que fazer? Um mestre pode apreciar sua criação, seja ela destrutiva como for. “Destrutiva”. Palavra perfeita para descrever a expressão de Regina, com a mão direita estendida enquanto os pés de Merlin deixavam de tocar o chão e sua garganta deixava de passar ar. Um simples olhar para o rosto devastadoramente lindo e sinistros dela e os maiores valentões sentiriam vontade de chamar suas mães para secar o mijo de suas calças. Era a visão de um Anjo da Morte.

O corpo de Emma continuava forçado a comprimir-se ao chão, tinha rolado para o canto como uma bola de pebolim, mesmo assim lutava bravamente contra a magia. Havia magia nela também, em algum lugar, bastava-lhe apenas encontrá-la. Provavelmente o som áspero de Merlin sufocando tenha sido estímulo suficiente para que ela ficasse de pé com enorme dificuldade como se tivesse oitenta anos e uma artrite avançada. Snow viu a filha levantando e abriu a boca para gritar, mas o que saiu foi um sussurro: “Em... Emma”. Os olhos verdes de Snow arregalaram-se enquanto ela observava Emma levantar as duas mãos em direção a Regina. Não era possível. Regina estrangulava o maior dos magos de todos os mundos e, Emma, simplesmente, achou poder pará-la. “Não, Emma!”.

Regina evoluía rapidamente para uma assassina – uma assassina recente, pelo menos. – Merlin morria lentamente e não lutaria contra, mesmo podendo; a morte era uma redenção fácil e covarde, como ele havia sido. Aquele monstro a sua frente havia engolido a pessoa que ele mais amou na vida, por sua culpa, então parecia justo que terminasse assim. Não obstante, Emma continuava a lutar, concentrando-se no núcleo do poder que a sobrepujava. Quando pode sentir a própria magia emergir em suas mãos, por fim, fixou o olhar em Regina e fez o que julgou ser o certo. Emma era poderosa, sempre fora, porém seu alvo nem se moveu, Regina nem ao menos sentiu a tentativa de retaliação, ainda que tivesse sido intensamente doloroso para Emma que caíra de joelhos com a sensação de ser golpeada na cabeça, seu nariz sangrando.

“Azul. Azul-celeste.”. Regina pensou. Como ela havia esperado para que aquela cor retornasse. Infinitas vezes, sentada ao pé da macieira, olhara para o horizonte, esperando. Haveria sempre uma garota de vestido rosa esperando no topo daquela colina. Ela se lembrou de muita coisa, nem todas tristes, mas no fim aquela figura de rosto familiar passou a ser apenas alguém que tentara matá-la de maneira catedrática e covarde. Sua saliva tinha gosto de sangue quando ouviu uma palavra soar louca e desencontrada do contexto de seus pensamentos: “Henry...”.

– Henry, Regina... Você prometeu! Vai partir o coração dele novamente. – A voz de Emma era chorosa pela dor que ainda sentia. Usava sua última arma, embora achasse que Merlin já estivesse morto àquela altura. – Ele não vai perdoá-la. Prometeu que tentaria ser alguém melhor. Vai fazê-lo perder a fé. – Ela tinha a impressão de estar convencendo um tigre a não morder um lindo e suculento bife usando a lógica.

Contra todas as expectativas, deu certo. Regina soltou Merlin, deixando o cair como uma marionete que teve as cordas cortadas. O rosto dele estava da cor de violeta e ela o encarou sem piedade, os bancos às suas costas pousavam em absoluto silêncio, era um alívio livrar-se daquele peso. Sua fúria estava lá, intacta, no entanto havia alguma coisa mais forte, outra coisa para focar, uma cena em particular: Henry, Robin e Roland sentados no sofá foleando bobamente quadrinhos de ação e comendo batatas fritas. Ela fechou os olhos e sorriu tentando imaginar que eles estivessem assim agora. – só Gold viu o sorriso e ficou enlouquecidamente intrigado. – Regina virou-se e encarou as testemunhas, vítimas de um furacão, levantando lentamente.

Merlin tossiu, abriu os olhos e viu milhares de fagulhas coloridas brincarem em formas desorientadas, um show mudo de fogos de artifício. “Extraordinária”. Ele pensou. “Ela é extraordinária”. Um abraço teria sido ótimo, mas tamanha demonstração de poder, fora ainda melhor, enormemente instrutivo em relação a ela, seu poder, sua força, culpas, dores, medo, principalmente os amores que, para surpresa dele, ocupava boa parte dela. Aqueles dois minutos de estrangulamento fora como assistir uma aula que ninguém poderia dar.

O mais velho e poderoso de todos os magos havia adquirido um poder que poucos dominavam; o lendário dom de enxergar além da alma das pessoas. Era como ler pensamentos, mas ele nunca os ouvia de fato, parecia um bizarro embaralhado de imagens, cores e sentimentos, porém com décadas de treinamento, aprendia-se a montar algumas peças. No caso de Regina estava tudo em sua magia, sua cabeça era um lugar para pessoas espertas ficarem longe – o mago temia não ser tão esperto assim.

Merlin sentou-se depois de quase dez minutos, uma moça de olhos verdes e gentis o ajudou a levantar. Ele recompôs-se batendo as palmas das mãos contra seu sobretudo, parecendo limpar lama ou algo parecido. A parte difícil ainda viria. Regina estava do lado de fora do auditório, de costas para porta dupla aberta. Merlin a encarou por um tempo e tossiu novamente, esperando ganhar atenção dos outros.

Após um longo e tedioso silêncio ele finalmente falou:

– O que aconteceu ontem... A nevasca... Não vai parar. – Merlin fora direto, rodeios não faziam sentido em tempos como aqueles. A voz dele chegou a Regina com uma enxurrada de antigas lembranças. Para os demais ele pareceu um tanto lunático, estava fazendo o costumeiro sol de outono lá fora, a neve que acumulara no chão começava a escorrer para os bueiros. – O tempo vai continuar ruim, não com neve especificamente, mas haverá mais calamidades... Haverá mais mortes. – fez uma pausa para a digestão dos ouvintes. – É importante que estejam preparados.

– Sem prefácio, Merlin. – Gold disse. – Vá direto ao ponto.

– Hermes. O deus da Magia... Ele fez nevar ontem. Não sei o que ele quer em Storybrooke. Talvez seja apenas um jogo. Ele é o deus de jogos também. – Merlin suspirou e continuou. – Ele não vai parar... Está com as Pragas de Apolo, seu irmão. As roubou com a intenção de não parar até conseguir o que quer, seja lá o que for. – Conteve-se antes de dizer que Hermes também era o deus dos ladrões.

Ele era o lunático novamente. A boca de Gold abriu uma vez e depois fechou, os outros se mantinham como feitos de pedra.

– Quando você fala “Hermes”... você não está falando do Hermes Hermes, está?! O do Olimpo com botas de asas? Mensageiro dos deuses? – Neal fez uma careta ao perguntar e Emma, pela primeira vez nesse aspecto, não se sentiu sozinha. Aparentemente todos ali viviam, naquele momento, a saga que ela vivera por muito tempo. De repente os personagens dos livros os assombravam. Olha quem fala.

– Temos como lutar? – Gold sabia a resposta, mas perguntou mesmo assim, de olhar perdido e mente aturdida.

– Lutar sim. Claro! Vencer não.

Houve um silêncio pesado.

– Podemos fugir? – A voz de Emma era cansada e baixa, a mão de Mary Margaret estava entrelaçada com a sua, ambas geladas.

– Não! – Gold disse firme – Isso o deixaria ainda mais furioso, desafiado ou animado... Seja lá o que esse filho da mãe está buscando aqui... Temos que encontrar e dá a ele.

– Tá dizendo que a gente deve sentar e esperar esse deus bundão nos massacrar com pragas de sei lá quem?! – Hook falou irritado.

– Estou dizendo para encontramos o que ele quer e... – Gold decidiu que não valia a pena continuar com a explicação: – Faça o que você quiser, pirata.

Um leve burburinho tornou-se rapidamente tão barulhento quanto o parlamento chinês, todos dando suas opiniões e fazendo perguntas agitadas. Ainda assim, Merlin ouviu o som tímido dos passos de Regina percorrendo o corredor entre bancos, o salto fino atribuía àquele andar sincronizado e elegante uma melodia significativa. Ela parou ainda distante e olhou intensamente para Merlin, desejando que não tivesse perdido a prática de limpar seus pensamentos o direcionando ao exato teor desejado, para que o mago lesse com precisão. E não tinha perdido, na verdade, de muitas maneiras, estava aprimorado agora que ela era adulta.

– Não! – Merlin disse e todos olharam para ele. Falando sozinho? O velho era mesmo louco. – Não tem absolutamente nada relacionado com isso. Estou certo disso... O garoto está seguro. – A voz de Merlin era sóbria e calma, o olhar piedoso. Ele ainda parecia um avô em uma tarde de piquenique e achou que seria um bom momento para pedir desculpas pelo terrível engano sobre a Vela de Hermes, porém não teve tempo. Regina caminhou para fora do salão, determinada a se afastar. Tinha ouvido tudo o que precisava: uma guerra estava se aproximando e eles não poderiam vencer. De repente, sentiu-se exausta e assustada, desejando acima de tudo que Robin estivesse ali, porque ao lado dele existia uma estranha sensação de que não importava como nem quanto, ele sempre estaria pronto a segurá-la se ela caísse.

Ao mago, restou o papel instrutor de tirar o maior número de dúvidas possíveis – inclusive contando-lhes tudo sobre a Vela e a volta de Regina – mesmo sem ter todas as respostas, ainda era o único que sabia tanto sobre deuses e seus poderes quanto possível. “Como vamos descobrir o que ele quer?”. Snow perguntou e Merlin virou-se em sua direção, observando-a de perto – O centro do alvo do ódio de Regina – tinha o rosto doce e expressões marcantes, tão marcantes que o fez submergir em pensamentos, lembrando-se da carta que recebera na noite anterior com um papel dourado e o selo prateado. Então a outra moça falou:

– Ele veio atrás do ladrão de sua vela e... Encontrou alguma coisa ainda mais valiosa. – Tinker falou para ninguém em especial, olhando pela janela, imersa em suas próprias especulações. – Hermes! Ele irá jogar até levar seu prêmio. – A tom da voz soou agourento, como em um transe e Hook considerou sacudi-la.

“Merlin, sua criança está em perigo. Meu irmão roubou-me novamente. Minhas pragas! Agora as está usando contra aquela cidade. Não posso impedi-lo. Ele tem permissão de Zeus... nosso pai continua esperando que ele se encontre em uma de suas odisseias pelo mundo humano. Sinto muito.” As palavras simples de Apolo rodopiaram como um disco em velha vitrola na cabeça de Merlin, o fazendo lembrar-se de quando conheceu o deus Sol. Apolo havia se humanizado na forma de um rapaz bonito de cabelos escuros e olhos de um amarelo tão vivo que fazia qualquer um que os olhasse relacioná-los imediatamente com o Sol. Porém aquilo acontecera há muito tempo, na época em que o próprio Merlin era um rapaz. Depois disso tudo viera com mais facilidade, inclusive a aproximação com a magia poderosa e a vida longa. Uma honraria ímpar ser amigo de um deus. Amizade improvável e duradoura. Até que o deus retornou ao seu mundo. E ainda que nunca mais, em centenas de anos, tivesse visto Apolo novamente, Merlin ainda rezava para ele e, às vezes, cartas douradas apareciam.

Notas finais
Aos que chegaram aqui: obrigada.