Notas iniciais
Novo capítulo. Espero que gostem. Beijos

A canção triste dos anões tomava toda a praça, fazendo as conversas ficarem em segundo plano. O “Coral dos Sete” fazia sua primeira apresentação. Impecável. O grave da voz deles trazia o âmago do espirito natalino.

Era Natal e não nevava. Na semana anterior Mary Margaret, em um ímpeto de genialidade, sugeriu uma festa comunitária; todos juntos, com muita comida, sob milhares de pequenas luzes na praça da cidade. “Uma noite feliz”. E a cidade inteira precisava daquilo, talvez esse tenha sido o motivo principal para Regina aceitar a ideia: distração.

Embora nada tivesse acontecido nos dias que decorreram a chegada de Merlin a Storybrooke – nem neve, furacões, maremotos ou coisas relacionadas com pragas – ninguém parecia ter esquecido Hermes e seu jogo. David checava o mar todas as tardes, Emma fazia perguntas estranhas para Whale no hospital semanalmente. “Alguém ficou doente?”. Até Robin tinha sua dose de paranoia, observando o céu e mapeando suas mudanças. Ele ficara sabendo de tudo quando virou Assistente de Xerife Eleito. Agora andava com uma estrela prateada no bolso direito do jeans. Na tarde de sua posse ele havia visto Regina revirar os olhos várias vezes enquanto era obrigada a abotoar o broche de Confiança Pública na sua jaqueta. “Está virando um deles!”. Ela sussurrara ao espetá-lo fortemente com o alfinete da honraria e ele sorriu em resposta. A plateia aplaudiu, Emma deu um soco de leve em seu ombro. Regina queria dá-lhe um soco na cara.

____

– Você é boa... – Robin sorriu e as palavras soaram avulsas. “Não sou não!”. Regina pensou. –... Nesse lance de se esconder. – Ele não entendia por que as pessoas estavam sempre a evitando, por que ela estava sempre fugindo. Regina era alguém tão magnética e, mesmo não possuindo uma personalidade simples, de determinado ponto de vista, cada momento com ela valia a pena. Absolutamente.

– Não tão boa assim. – Sorriu tristemente. “Você me encontrou.”. Ela estava sentada no galho retorcido de uma grande árvore que enfeitava aquele lado da cidade, o engraçado é que ele não se lembrava da existência de um galho tão próximo ao chão e confortavelmente convindo a assento. Nem poderia. Regina o tinha feito minutos trás.

Sentada no breu melancólico da noite de Natal, ela parecia emanar luz, iluminar-se por si mesma, destacando-se da paisagem como em um quadro impressionista. Vestindo um longo casaco verde e luvas vermelhas. “Uau!”. A mente dele tinha repetido aquela pequena palavra tantas vezes que estava perdendo o sentido. Robin a entregou um copo com ponche:

– Queria que fosse cerveja.

– Eu também.

Todos os dias que passaram juntos haviam sido acompanhados de um paradoxo cruel entre a sensação arrebatadora que sentiam na presença um do outro e a dor intensa que acometia suas almas todas as vezes que, como agora, ficavam perto demais. Robin sentou ao lado dela, cautelosamente, ficando em silêncio depois, concentrado no fato dos ombros de ambos estarem levemente encostados. O perfume dela era maravilhoso. O silencio continuou, até:

– Onde ela está? – Robin leu a expressão confusa nos olhos escuros dela e continuou. – A Rainha Má?! A bruxa que arrastou vocês... – o rosto de Regina adquiriu um tom vermelho alarmante, mas ele não percebeu de imediato já que se voltara para encarar a floresta escura, pensativo. Continuou: – Quer dizer... Sempre achei que ela tivesse vindo com vocês, mas...

– Ela está presa! – A voz soou rouca e abafada. – Em um lugar muito escondido. Não é mais problema. – Não era totalmente mentira, ela tentou se convencer disso, já que lutava contra a prisioneira, internamente e initerruptamente. Robin a olhou com meia fúria e, de maneira instintiva, ela presumiu que ele sabia a verdade. Claro! Alguém o havia alertado. Regina sentiu que ia sufocar, como se a Rainha Má arranhasse sua garganta para emergir...

– Criatura desprezível! – Robin silvou com ódio mudo entre dentes e Regina arrancou seu cachecol em pânico, lágrimas escorreram fácil por sua face vermelha. Robin arregalou os olhos e a ajudou a livrar-se do maldito cachecol, ela estava meio envergada, a boca aberta como Roland fazia em suas crises de asma, um sussurro rouco escapou pelos lábios dela e o fez enlouquecer. O que diabos havia de errado com ela? – Regina! Meu Deus, Regina... O que está acontecendo? – Robin parecia pré-histérico enquanto segurava seus ombros. Talvez ela tivesse sido picada por um inseto paralisante, uma cobra venenosa, talvez ela tivesse levado um tiro, ou tudo isso ao mesmo tempo, as possibilidades eram infinitas e improváveis.

O rosto lindo dela estava apavorado e aquilo causou mais dor nele do que ele imaginava ser possível. Sentia vontade de correr e gritar por ajuda, mas não conseguia deixá-la. Regina levantou e ambos agora ficaram de pé, as taças de ponche tintilaram ao tocar o chão, primeiro a dela, depois a dele. Robin segurava o rosto dela com as duas mãos, com a delicadeza de quem segura um peixinho dourado vivo. “Respira, meu amor.” Ele pensou repetidas vezes, como uma prece. E funcionou! Um minuto de terror intenso depois, Robin assistiu a respiração dela voltar ao normal. Mas seus olhos estavam, preventivamente, perdidos, em um leve estado catatônico.

– Regina?! – O som doce da voz dele pareceu penetrar sua alma. Regina estava completamente ciente das mãos sobre seu rosto e o calor do corpo dele, tão próximo, começava a tornar-se significativo naquela noite fria. “O que aconteceu?”. Ela se perguntava em uma introspecção emergencial. Tudo havia saído de seu controle com tanta facilidade que a deixava fragilizada. No entanto para encontrar a resposta sobre sua reação não precisou se aprofundar muito: mesmo sabendo que não poderia tê-lo, quase sufocara com a mera proximidade de perdê-lo. Um dia ele saberia a verdade e quando acontecesse, iria embora para sempre. Definitivamente, ela não estava pronta para esse dia. – Regina? Tá me ouvindo? Eu vou levar você para o hospital se não me responder.

– Hmm... – Regina limitou-se. E assistiu o rosto preocupado dele acender com um sorriso aliviado.

Ele teria dito: “Nunca mais faça isso!” ou “Eu quase morri de susto.”. Mas parecia ter desaprendido a falar. Palavras eram trivialidades diante da beleza que segurava entre suas mãos trêmulas. O silêncio voltou. Os dois olharam-se com a seriedade do desespero de uma terrível paixão, há tempos sufocada.

Tudo aconteceu tão rápido e natural que nenhum dos dois percebeu quão ligeiro aproximavam-se da lagoa de larva que os ferviam o sangue... A mão esquerda dele deslizou do rosto para a cintura dela, trazendo-a para perto, a mão direita permanecendo, controladora e delicada ao mesmo tempo. Depois uma dança simples levou ao inevitável: os lábios deles tocaram-se levemente. De olhos fechados e respiração contida, ambos trocaram um beijo lânguido, lento e apaixonado. Aproveitaram o calor profícuo que subia de seus corpos como névoa de verão, enquanto a noite sem lua, dava lugar às piscadelas de estrelas exibidas.

O beijo parou e Regina sentia-se maravilhosamente bem sob o olhar aturdido dele. Ela deu um passo para trás, endireitando-se e ele se recusou a liberá-la totalmente, segurando-a pelo cotovelo, como pronto a imobilizá-la em caso de fuga. Um astuto leão teria segurado o último gnu da savana com menor empenho. Regina sorriu terrivelmente cínica. Havia uma ruga na testa de Robin acompanhando a insanidade de seus olhos e, em sua mente, só podia pensar que a felicidade daquele rosto, do rosto de Regina, teria deixado o mais feliz mortal com inveja.

Nenhum homem ou monstro, jamais lutara tão imensamente contra um desejo quanto Robin nos instantes seguintes ao roubo mais esplêndido de sua vida: o beijo dela. Fosse ele menos forte em sua empreitada contra a fera amordaçada na qual se transformara sua paixão por Regina, o casaco dela teria se tornado um montinho de confetes verdes no chão. Não obstante, a fera não podia ser completamente contida... Robin voltou de seu apaixonado torpor e calou o sorriso dela como um animal faminto, jogando-a contra o tronco da árvore e beijando ferozmente sua boca. O susto do impacto contra a madeira talvez a tivesse feito gritar, mas sua boca não a pertencia mais.

Robin a tinha em seus braços e teve uma sensação de confiança absoluta. O tipo de sensação jamais encontrada na vida consciente. Robin, o Inabalável! Agora ele podia acreditar na existência dela. Regina era real! Enquanto sua língua engajava-se em uma destemida expedição pela boca dela, ele se encontrava num estado de excitação tão profunda que beirava a demência. Mas ela era real, cada detalhe de sua perfeição era real.

A música dos anões parou, embora para eles, possuídos pela astúcia peculiar dos loucos, havia uma música ainda mais linda no ar, mixada por suas respirações ofegantes. Segurando-se um no outro como se estivessem à beira de um abismo que crescia junto com o medo letal de que algum ato divino pudesse pará-los. Nada menos poderoso o faria.

Regina sentiu seus pés deixando o chão, literalmente. Robin a havia retirado do chão e agora, olhava-a com o rosto torturado de quem desejava mais e lutava para conter seus sentidos desnorteados. Ela quase sorriu da aflição que, em segredo, compartilhava com ele. Porém agora estava ocupada demais observando o acrômio perfeito dele, trincado com a presença do peso dela. Ela mordeu o lábio inferior, arqueou a sobrancelha, depois olhou para ele com um sorriso sedutor e cúmplice.

Robin sorriu e a colocou no chão, não como uma desistência, mas uma trégua emergencial. Precisava segurar sua sanidade, porque começava a duvidar da existência dela novamente. Mas quando os pés dela tocaram o chão, uma expressão séria perpassou por seu rosto. Transpareceu novamente, dessa vez mais significativa, quando ela olhava fixamente para o braço direito dele que, eventualmente, tinha ficado descoberto com a jaqueta enrugada à altura do cotovelo. Os dedos de Regina eram dançarinos contornando a tatuagem de leão que Robin tão orgulhosamente carregava.

– O homem com tatuagem de leão. – Regina sussurrou ainda sentindo seu rosto arder pelo atrito com a pele dele. Encarou Robin tão profundamente que ele teve a estranha sensação de está pelado. – Eu não entrei... naquela noite... Não passei pela porta. – As palavras se aproximavam tanto de um delírio febril que Robin reprimiu o desejo de colocar a mão sobre a testa dela.

– Do que você está falando? – Ele tentou o tom mais casual que encontrou. Os olhos dela brilhavam com lágrimas não derramadas e Robin a abraçou. A tatuagem nem era tão feia assim.

Regina não chorou e também não retribuiu o abraço, seus braços permaneceram colados ao próprio corpo com a força dele, enquanto ela vislumbrava a imagem da garota suicida abrindo a porta da taverna e encontrando o dono daquele abraço. Mas a patética garota jamais passaria pela porta. Não. Ela havia fugido com medo da dor que um novo amor poderia trazer e depois, é claro, havia lançado uma maldição só para que todo mundo pudesse ser tão infeliz quanto ela sabia que sempre seria. Abraço atrasado! Regina fechou os olhos e lembrou-se da sensação maravilhosa de queda quando se lançou da torre mais alta de seu castelo. “Era para ser rápido!”. Os suicídios nem sempre precisavam ser dramáticos, um final trágico não teria anulado a libertação do durante. Regina sabia que uma parte dela sempre estaria caindo daquela sacada, ainda marcada com sangue fresco da rainha que, na noite anterior recebera uma breve visita do rei. A última lembrança a fez querer livrar-se dos braços dele.

– Robin... – Estava séria, mas tranquila. – Você... Eu!... Eu não posso fazer isso. – Regina tinha o rosto pétreo e diplomático. Robin permanecia com uma ruga no cenho e não conseguia ligar as palavras dela ao significado real. – O que aconteceu aqui... Não está certo e não deverá acontecer outra vez. – Ela interrompeu o discurso medíocre e seus olhos procuraram uma rota de fuga, antes que o rosto dele ficasse impossível de ser deixado.

– Por quê? Por que não está certo? Você... – Robin parou contendo a irritação. Ele estava se hiperventilado e sua cabeça doía. Onde estava a mulher de cinco minutos atrás? Prendeu a respiração, receoso de que fosse gritar com ela. A última coisa que desejava era assustá-la. Inocente ao fato de que não era o ódio que a assustava e sim o amor e a paixão avassaladora que haviam compartilhado minutos atrás. – Eu não entendo você, Regina!

– Você não e o único. – A perna dela sacodia nervosamente como se estivesse atrasada. Até que ele abriu caminho para que ela seguisse em direção à festa... Robin a observou se afastar na pouca luz da noite e sua mente oscilava de um inferno fervente a um deserto mudo. “Eu não vou desistir de você!...”. Foi a primeira frase lúcida que sua mente pode extrair daquele tornado de pensamentos. A segunda foi: “...Porque eu amo você.”.