I ran away
10 Morte.
Notas iniciais
Robin subiu os degraus de dois em dois, numa explosão. Havia quase meia hora que uma nota – uma única nota – de piano ressoava pela casa e, ele jurava por Deus que se aquele som continuasse estaria louco dentro de cinco minutos, ou menos. Provavelmente era o plano dela desde a noite do Natal, enlouquecê-lo dolorosa e lentamente.
O clima entre eles não havia mudado expressivamente desde o beijo e a súbita fuga de Regina, embora agora uma espécie de fúria contida um pelo outro fosse frequentemente exposta. Algumas vezes eles passavam a maior parte da noite bebendo vinho e conversando sobre coisas sem muita importância, outras pareciam que iam esganar-se. Qualquer coisa, com certeza, se quebrara entre eles quando Regina desencorajara habilmente um envolvimento romântico, mas era óbvio que outra coisa ainda maior se fortalecera e grudava-se neles como a própria pele. Uma espécie de: “Não importa o que vocês pensem a respeito ou o que façam, sempre irão convergir um para o outro.”. Secretamente isso os consolava. Podia até, de certa forma, acalmar a ansiedade monstruosa que os acometia, como a de uma criança faminta diante de um enorme e aromático bolo de chocolate com ordens para não tocá-lo.
Robin parou ofegante diante da porta aberta da biblioteca de Regina, depois entrou sem bater. Há muito se sentia em casa e tinha motivos para isso. Na semana seguinte ao Natal havia considerado fortemente a ideia de mudar-se para um dos quartos da pousada da Granny, mas quando cogitou a ideia para Regina, ela replicara nervosamente que Roland detestaria morar em um lugar como aquele, que não tinha espaço para uma criança e que estava cheio de ratos. “Ratos?!” Robin perguntou assombrado. “Ratos enormes!” Regina confirmou. O café ficara toda aquela semana fechado por uma repentina infestação de ratos.
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Regina estava sentada ao piano, com a cabeça debruçada sobre o braço esquerdo que se apoiava a parte superior do instrumento, na mão um copo pela metade de um líquido caramelo-escuro. A outra mão – a direita – pressionava compulsivamente uma única tecla do piano. Era o tipo de visão que só se tinha em filmes, nas cenas em que as belas protagonistas entravam em crise. Robin reprimiu um sorriso. Naquele momento ele estava, inacreditavelmente, mais apaixonado por ela.
– Escuta... Você só sabe tocar isso? – Robin provocou e ela olhou para ele sem levantar a cabeça, só virando-a, depois retornou a antiga posição. – Por que se essa for a única canção que você sabe tocar... É bastante entediante. – Ele aproximou-se, quando sua provocação não surtiu efeito, e segurou a mão compulsiva pela nota sol. Regina soltou um rugido animalesco como de um gato bravo e Robin não pode segurar a gargalhada. Ela o olhou em fúria, com os cabelos desgrenhados, leves olheiras e metade do rosto vermelho com a pressão do braço. Como ela podia ser linda até bêbada? – Você está bêbada? – A voz dele era divertida.
– Não é... – Ela se levantou, livrou-se da mão dele, bebeu um gole gigantesco da bebida caramelo-escuro, que pela careta não se tratava de chá gelado, e ficou olhando para o homem a sua frente. Robin esperou por um tempo longo e se perguntou se ela tinha perdido a linha de raciocínio. Por um tempo perdeu mesmo, porém a reencontrou: –... Não é da sua conta! – completou e sorriu.
Ele sorriu junto. Era impossível não o fazer.
– São três horas da tarde... Você está bêbada como um urso pardo às três horas da tarde?! – Robin fez uma falsa cara de tragédia, sem conseguir se livrar da vontade de sorrir e beijá-la.
– Eu ia socar sua cara... – Ela o olhava séria, a sobrancelha arqueada coberta por uma mecha de cabelo escuro. –... Mas fiquei em dúvida em qual dos dois Robins bater. Então... – Ela soluçou e estendeu o copo em direção a ele, depois bebeu outro grande gole. Ele gargalhou. – Por que não?!... É a droga de um domingo. – O tom da voz dela teve uma elevação inesperada ao final da frase e ela mesma riu disso, livremente. Robin ficou sério dessa vez. Nunca a tinha visto sorrir daquele jeito e estava guardando o som na memória.
– E torturar o piano pareceu divertido, por quê?...
Regina o olhou com a seriedade mais real que encontrou, tentando parecer ultrajada, e bateu contra o peito dele com o copo – vazio demais para molhar sua jaqueta quando o líquido balançou no interior – fazendo-o, institivamente, segurar o objeto. Depois ela sentou-se novamente ao piano, elegantemente de costas eretas e começou uma canção. Robin pensou que Regina, mesmo como estava, poderia desfilar num evento de moda e ainda deixar todas as modelos prontas a cortar os pulsos de inveja.
A música começou exatamente com a familiar e irritante nota até evoluir para uma composição completa e linda. Primeiro era quase uma canção de ninar, depois ficou feliz e ansiosa ao mesmo tempo, a ponto de Robin sentir que estava atrasado para alguma coisa, alguma coisa de importância vital, nesse momento da música a respiração dele ofegou. O arqueiro sentou-se e observou a expressão neutra do rosto dela enquanto os alongados e bailarinos dedos pressionavam as teclas. Não dava para acreditar simultaneamente naquela coordenação cirúrgica e no litro de uísque quase vazio ao lado. Robin ouviu a canção ficar aflita, assustadora, triste, horripilante até voltar ao tom livre e feliz. Regina terminou esplendidamente e girou o corpo para olhá-lo em todo o seu posto de humilhação. Subestimá-la não era boa ideia. O olhar vitorioso e metido dela gritava isso. Ele pensou que se ela fosse uma canção seria exatamente como aquela.
– Boa! – Robin balançou a cabeça como se a música ainda tocasse.
– Boa?!– Ela levantou-se e quase caiu sobre ele, sentado à poltrona ao lado. – Eu fui perfeita! – Disse meio sem jeito por desejar ter caído, como se ele pudesse ler seus pensamentos.
– Sério? – Ele cheirou o copo e sorriu. – O que você estava bebendo? – o ego dela não seria atingindo, não depois daquela apresentação.
– E você? – Regina apoiou-se no piano e exagerou um sorriso irônico, perguntando-se logo após fazê-lo o motivo de tê-lo feito. – Anda por aí com aquele arco bonito nas costas... É só charme ou você realmente sabe usá-lo? – Robin se levantou abrupto, propositalmente invadindo o espaço pessoal dela. Regina cambaleou, dessa vez não só por estar bêbada.
A ordem do dia era: “Coloque sobre a mesa e vamos medir.”.
– Terei que mostrar a você... – Seu tom foi baixo e sedutor como se sua própria virilidade tivesse sido testada. Quem em sã consciência faria isso? Durante um minuto eles ficaram de pé, próximos. Regina abaixou o olhar e sorriu bobamente, tonta demais para lembrar qualquer ponta de renúncia sobre ele.
Os dois seguiram pelo corredor até o quintal, por vezes Robin a ajudou: na escada segurando-a pelo cotovelo, depois no corredor antes da porta dos fundos quando ela bateu na mesinha com flores e ficou parada sorrindo para as rosas amarelas que estavam murchando. “Não gosto de rosas!”. Robin estava com o abdômen dolorido por sorrir quase sem intervalos. “Lírios não são mais bonitos?”. Ela perguntou enquanto os dois passavam pela porta, chegando ao quintal.
Robin não teve tempo de pensar nessa última pergunta, porque foram surpreendidos por Roland que estava no velho balanço e, quando os viu, correu em direção a eles. Regina imediatamente tentou parecer sóbria, passando a mão no rosto e endireitando-se, assemelhando-se a um robô o que, deixava-a mais suspeita que casual. Roland parou diante deles e sorriu, com as covinhas mais adoráveis do mundo. O garoto havia mudado muito desde que chegara a Storybrooke, não era mais tímido, e agora falava vividamente quase o tempo todo. Na noite anterior, no jantar, nem Robin nem Regina tiveram tempo de falar uma frase completa, ambos ouviam as ininterruptas histórias do garoto. Roland era agradável e vivo. Não fosse por ele está o tempo todo levado a luz infantil e maravilhosa para a tensão que existia entre os dois, por certo, eles já teriam explodido.
– Roland... Acha que a Regina pode aprender arco e flecha? – Robin desfaçou sorrindo largamente.
– Acho! – a vozinha dele era rouca e cheia de entusiasmo.
Robin foi até o centro do quintal acompanhado de Regina – que sofria com a claridade da tarde fria e límpida como um vampiro ao sol. Colocou um pé à frente e posicionou o grande arco. Tudo tão rápido e aparentemente fácil que a arma parecia ser uma extensão de seu corpo. Depois olhando para ela e não para o alvo na árvore distante – que ele havia improvisado para as aulas que dava ao Henry. – ele disparou seis flechas, uma seguida da outra em intervalos tão curtos que Regina pensou está fora dos limites humanos. O coração dela disparou, apesar de não ter percebido que as flechas faziam o formato de um “R” cravado na madeira da árvore. Era como o espetáculo do piano, só que na versão dele.
Robin virou-se para ela, com a hilaridade no rosto restrita aos apaixonados e ela fez uma careta de falsa admiração em direção a Roland que assistia ao show, orgulhoso. A criança gargalhou. Regina abaixou-se e beijou sua bochecha. Roland sentiu o cheiro do uísque, mas não se importou e a beijou de volta, com a mania que lhe era natural de ver apenas o que tinha de melhor nela. – Quando se endireitou, pela primeira vez sentiu-se terrivelmente bêbada. O chão rodou com leve inclinação e ela apoiou-se em Robin, os dois ainda sorriam.
Regina estava bêbada e Robin a observando, de certa forma, também estava... por isso Roland foi o primeiro a perceber a aproximação rápida e intensa dos passos que vinham do corredor. O garoto se virou esperando. Quando o som começou a se elevar de algum lugar da parte lateral e exterior da casa, Emma apareceu com suas botas martelando o chão e com cabelos livres pelos ombros.
Ela parou ao ver os três no centro do quintal igual uma daquelas fotos que vem em porta-retratos. “Por que Regina estava quase completamente apoiada em Robin?” O rosto de Emma tinha uma marcante e peculiar careta de gravidade.
– Ela tá fazendo aquela careta... Você está encrencado! – Regina encostou o queixo no ombro de Robin e sorriu. Ele podia sentir a respiração dela em seu pescoço, o olhar cômico fitando-o e quase esqueceu que via Emma a sua frente.
– Eu liguei para vocês... Por que não atendem a droga do telefone? – Emma soou impaciente e tinha tantas coisas a enlouquecendo que ela nem percebeu os olhos de Roland voltando-se cheio de perguntas para o rosto de Robin que ficou subitamente sério. Alguma coisa estava errada. E diante do rosto confuso do arqueiro ela continuou: – Hermes...
“Hermes”. Foi a única coisa que Regina ouviu e então, como uma chave de proteção do seu próprio cérebro que esperava uma deixa para desligar-se, ela simplesmente apagou. Robin a alcançou antes do impacto com o chão, tudo mais desastrado que teatral. O coração dele deu pulos pela adrenalina. No entanto, antes que ele pudesse acomodá-la completamente em seu colo, as mãos de Emma tocaram o rosto dela.
– Meu Deus, Robin... Meu Deus! – O rosto de Emma tinha a expressão trágica e desesperada enquanto ela virava o ouvido na direção do rosto de Regina, buscando algum sinal de respiração. – Está acontecendo aqui... Vamos levá-la... – A voz dela evoluía para a histeria.
Robin agachou-se cuidadosamente e deixou parte do corpo de Regina apoiado ao chão, de maneira a ficar com uma das mãos livres.
– Emma?! Emma! Ela está bem. – Robin falou de cenho franzido tentando acalmá-la. Depois segurou a mão que tentavam debilmente captar uma pulsação. – Ela bebeu um litro de uísque em um curto intervalo de tempo... – Ele tentou um sorriso. – Regina está dormindo. Só isso! – Ela olhou para o rosto corado de Regina e desejou, de súbito, esganá-la.
Emma sentou na grama verde, deixando os braços caírem pesados sobre o colo e respirou como se não o fizesse há muito, os olhos verdes cintilando com lágrimas de pavor. Esperou um tempo até falar como se pudesse ler as milhares de dúvidas que corriam pelos pensamentos de Robin:
– Robin... – Ele estava começando a se levantar, segurando Regina com uma facilidade impressionante. Emma prosseguiu: – Pessoas estão morrendo. Simplesmente morrendo. – Robin parou e ajustou mais uma vez o peso de Regina, fazendo sua cabeça pender em direção ao ombro dele. – Por isso eu liguei e vim aqui... Estão todos assustados. – A mansão Mills era propositalmente uma ilha na cidade.
– Morrendo? Doentes? – Ele olhou para o rosto assustado de Roland. – Roland, me espere lá dentro. Regina está bem. – A voz foi doce e firme. A conversa esperou a criança se afastar, então prosseguiu.
– Não tinha ninguém doente... Só morreram. Uma hora estavam bem, na outra simplesmente caíram ao chão. Eu vi acontecer. Não pude fazer nada! O Sr. Frank estava com uma xícara de café na sua varanda, um minuto depois, caiu...– “Exatamente como Regina agora!”, Emma não disse. Mesmo assim Robin olhou para o rosto da mulher em seus braços, como garantia e se os olhos dela não tivessem se movido levemente sob pálpebras numa espécie de protesto sonâmbulo, ele teria entrado em pânico.
– Quantos?
– Doze até agora. – Emma tentou lembrar o nome de alguns e desistiu. Estava cansada demais.
– Merlin acha que é o tal deus? – Robin começava a subir a pequena escada até a porta da casa, ansioso para por os olhos em Roland.
– Merlin tem certeza e... Não sabe se vai parar. Ele não sabe de muita coisa sobre tudo isso.
***
O relógio de números vermelhos marcava 04h47min da manhã. Regina sentou-se na cama e fez uma careta, tanto pelo gosto ruim na boca, quanto pela dor aguda em sua têmpora. “Água!”. Ela pensou. Depois gemeu ainda sonolenta. Tudo o que pode lembrar por um momento foi de está lendo um livro sobre Hermes – um igualmente inútil – então quando seus pensamentos começaram a rolar por sua cabeça como uma tempestade de areia, ela admitiu que precisava de algumas horas de descanso absoluto, isso significava a melhor peça de sua pequena adega: um uísque tão antigo e raro que faria os maiores admiradores da bebida atropelarem suas mães para prová-lo. Mas que causava, posteriormente, uma puta dor de cabeça. Agora ela sabia.
O gosto amargo em sua boca voltava a incomodá-la e as memórias desconexas também. Algumas irreais como um sonho, outras mais claras: Robin e a música no piano, depois o quintal e as flechas, o rosto iluminado de Roland... Tudo vindo em visões incômodas, porém límpidas. Quando achou que tinha lembrado a parte importante, levantou-se. A dor de cabeça veio violentamente e ela quase desistiu, mas sua garganta reclamou novamente; “Água!”.
A casa estava silenciosa, naturalmente, já que eram cinco da manhã. Ela desceu as escadas com a estranha imagem de um cérebro cotejando água e depois sendo retorcido, como em um desenho animado que Roland assistia na manhã anterior. A luz da cozinha estava acessa e, de repente, Regina receou não ter lembrado tudo.
“Hermes!”. Lembrou abruptamente ao ver Mary Margaret sentada à mesa de centro, mesmo que eles não tivessem nenhuma ligação. Regina entrou na cozinha em silêncio, ignorando a presença de Snow, serviu-se de um copo d’água, depois outro e mais um. Havia cheiro de chá por toda a cozinha e o estômago dela demorou uma fração de segundos para decidir se vomitaria ou aceitaria o chá, avisando-lhe por fim que chá seria bom.
Sentada do outro lado da mesa ela puxou a xícara de líquido quente que jazia entre as duas, obviamente era a bebida de Snow, mas não importava, a cozinha era dela e o chá também. Sorveu uma grande quantidade de chá e sentiu o calor agradável percorrer seu corpo, depois encarou Mary Margaret como em um daqueles jogos de “Encontre a figura que não se encaixa na foto”. Massageou a têmpora com as duas mãos, desgrenhando ainda mais seus cabelos.
– Já te ocorreu que nós... Storybrooke... Vivemos todos esses anos sem Robin e, agora ele se tornou tão fundamental em caso de problemas? Qualquer problema! – Ela colocou a mão no queixo e olhou para além da janela, imaginando que não importava o que Hermes causara... Robin com certeza estaria lá, ajudando o resto da cavalaria. Então se livrou dos pensamentos irônicos, sem nem ao menos perceber que seu poço descarregador de ira estava a um passo. Snow, por sua vez, sensatamente, não respondeu a pergunta retórica e encarou Regina de volta em silêncio.
Regina diante daqueles olhos verdes tão familiares e tão carentes, inexplicavelmente, casada de odiá-los, suspirou e perguntou finalmente:
– O que aconteceu?
– Pessoas estão morrendo. – Snow disse com voz triste, calma e baixa. – Hermes está matando pessoas sem nem ao menos tocá-las. Ninguém o viu. Ninguém pode fazer nada pelas vítimas. – Ela não olhou nos olhos da madrasta, enquanto lutava novamente contra o pânico, já havia passado por isso muitas vezes naquela madrugada. Regina, por um segundo, sentiu compaixão, talvez pelas vítimas, ou talvez só por Snow White, mas ela não admitiria em nenhum dos dois casos.
– Quantas pessoas morreram?
– Treze! Treze mortes súbitas. – Sua voz permaneceu calma depois de mais uma vitória contra o pânico. – Robin está ajudando, com os corpos e as famílias... Não está sendo fácil. – Justificou.
– E você está aqui por quê...
– Porque Robin me fez ficar. Eu concordei! Não era sensato deixar as crianças sozinhas... – “Nem você!”. Snow prosseguiu quando percebeu que Regina estava preste a levantar e se certificar sobre os garotos – Eles estão dormindo... Mas existe uma enorme possibilidade de Henry ter fingido a última vez que fui ao seu quarto.
– Você pode continuar de olho neles? – ela se levantou e esperou a resposta de Snow. Que veio em um trêmulo e alto “Claro!”.
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Não demorou muito até que Regina se refizesse em todo seu impecável requinte, de maneira a parecer ser o tipo de pessoa que nunca, em toda a vida, tivesse experimentado um porre. Então mais rápido que voar, materializou-se discretamente próximo ao hospital.
O céu estava quase claro, com nuvens cinza e cheias de neve oculta. A manhã era tão fria quanto os olhares direcionados a Regina. Havia um número bastante significativo de pessoas vagando pelos corredores do hospital e outro número ainda maior parado. Alguns estavam com rostos avermelhados e recebiam a ajuda de outros, aparentemente mais consolados. Todos assistindo o desfile de Regina que parecia alheia ao ambiente. Para a maioria deles as botas pretas dela batia contra o chão como um prenúncio de mais mortes, um Tic-Tac maldito. Os olhos ao redor permaneceram tão acusatórios durante todo o percurso até a sala restrita que ela reprimiu a vontade de dizer: “Eu não matei ninguém! Mas eu posso!”.
Robin estava agachado próximo à cadeira de rodas de uma senhora de cabelos grisalhos e pele rosada. Ele a oferecia um copo de água e ela negava impacientemente, mas após algum tempo aceitou. Depois, quando aleatoriamente, rodou sua visão só para se certificar que não tinha ninguém precisando de ajuda, Robin viu Regina parada no centro do caos, com seu vestido e casaco preto, em luto magnífico, o rosto tranquilo e esplêndido exibindo um olhar tão cúmplice e compreensível que parecia sussurrar em seu ouvido: “Estou aqui agora!”. Não havia tristeza na expressão dela, só calma. E de repente, Robin sentiu como se estivesse sendo resgatado de uma areia movediça no momento em que faltava apenas um segundo para sufocar completamente. Regina era seu esconderijo particular.
Embora tivesse demorado bastante até que todas aquelas pessoas fossem para casa – e até o que precisava ser feito o fosse – as coisas ficaram mais leves. Para Robin e Regina, mesmo contra todas as expectativas de um futuro – com Hermes nas trincheiras – crescia livremente em alguma parte do inconsciente de ambos uma inexorável esperança. Um sentimento perigoso que não se previa nem parava, como um coágulo fatal esperando para acontecer.
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