I ran away
7 Neve.
Ninguém saiu de casa aquela noite. A neve que no início caia em tímidos flocos, agora resoluta aglomerava-se por toda parte. As árvores, as ruas, as casas e até a praia, tudo adquiriu o tom branco e gélido de um inverno rigoroso e prematuro.
Regina e Henry estavam sentados ao lado da lareira, ouvindo o sibilar agudo do vento lá fora, que mais parecia um grito feminino. Todas as lâmpadas da sala estavam acesas e mesmo assim havia uma atmosfera cinzenta, como de um filme preto e branco. Henry, em particular, tinha o olhar preocupado, ligeiro e um tanto alerta. Alguma coisa estava errada, ele sabia, não era comum uma tempestade como aquela antes do Natal, mesmo assim a expressão de sua mãe era calma, perdida, olhando para o fogo amarelado. Obviamente ela não tinha ninguém lá fora para se preocupar – não como Henry – tudo o que ela tinha estava ao alcance de suas mãos.
– Mãe?! Tem alguma coisa errada lá fora! – Henry sussurrou em tom de conspiração, preocupado com um dos dois hóspedes, o que permanecia imóvel próximo à janela lateral da cozinha; uma estátua longe demais para escutar qualquer conversa mesmo não sussurrante.
– Humm? – Regina olhou para o filho como se tivesse acabado de acordar. – Eles vão ficar bem, Henry. Sabem se cuidar... – ela fora honesta com ele, sabendo exatamente o motivo de sua ansiedade. Agora havia outra imensidão de coisas para se preocupar e as pessoas lá fora não eram exatamente sua prioridade. Se aquela nevasca estivesse relacionada com Hermes (e sua vingança), seria mesmo possível que o deus se propusesse a matar uma cidade inteira para chegar a Roland?
Olhou, por reflexo, para a escada em direção ao quarto onde o garoto dormia. “Deuses promovem genocídios em nome de sua vaidade desde o começo dos tempos.”. Ela havia lido essa frase em um de seus livros e estremeceu ao lembrar.
Um som de madeira partindo foi seguido de um forte sopro frio. A janela batia furiosamente após ter sido aberta pelo vento. Regina, imediatamente, estendeu sua mão direita para fechá-la discretamente, mas não adiantou. Mais uma vez e seu poder pareceu falhar. Henry a olhou com olhos arregalados e correu em direção à janela, lutando contra os milhares de flocos de neve que promoviam um redemoinho úmido no centro da sala. Ele fechou os olhos sentindo o chicotear do gelo fino em sua face por segundos que pareceram horas, até a madeira firme da janela mover-se, com dificuldade, das suas mãos. O vento cessou. Robin havia fechado a janela e quase usara toda sua força para isso.
– Mãe, tem alguma coisa errada com você?! – Henry voltou-se para o rosto chocado de Regina, sem nem ao menos olhar para seu salvador.
– Acho que ela está bem. – Robin a olhou procurando hematomas ou algo que justificasse a preocupação do garoto.
– Mãe?! – Henry ignorou Robin. O poder de Regina falhara e o garoto esperou que ela fosse desmaiar de tão pálida. Ela teria respondido ao segundo chamado do filho, não fosse o problema que veio a seguir. As luzes piscaram uma vez, de maneira desordenada como em um curto circuito, depois voltaram ao normal, só para segundos depois apagarem completamente.
Então era assim? Hermes estava a caminho e nem ao menos a deixaria se defender. O poder dela não funcionava contra a neve e nem contra ao vento daquela noite, Regina estava vulnerável e Roland perdido. Desejou poder tirar Robin e Henry daquela casa e o toque do walkie-talkie do garoto soou providencial.
Henry se jogou no sofá e estendeu-se até suas mãos alcançarem o aparelho:
– David?! – ele disse apertando um minúsculo botão vermelho, imaginando falar com seu avô, dono do outro aparelho.
– Henry? Você está bem? – A voz de Emma parecia aflita.
– Estou, mãe. O que está acontecendo? Vocês estão bem? – Henry respondeu. O diálogo pareceu bastante cansativo para Regina enquanto Emma narrava como estavam todos bem e fazia perguntas de boa mãe sobre o estado do filho. Não havia mais celulares com sinal aquela altura da nevasca e ouvir o brinquedo chiando era quase reconfortante.
– ... Regina? – Emma a chamou com um tom grave por trás dos chiados. Regina pegou o radio da mão da criança e suspirou. Ela gostaria de ter se afastado de Robin para dizer que seus poderes tinham falhado, mas percebeu que isso não era da conta de ninguém. Sem poderes se tornava igual a todo mundo, pelo menos foi o que ela desejou por um tempo. – Tem alguma coisa errada, Regina. A cidade está um caos, a maioria das pessoas está presa em casa e a tempestade nem ao menos diminuiu em horas. Se continuar assim...
Regina não sabia o que fazer e estava desesperada demais para se preocupar com a cidade e a maioria de seus moradores. Alguma coisa muito terrível estava chegando e aconteceria ali, dentro de sua casa, ela sabia e resignou-se. Talvez estivesse mesmo na hora de voluntariar sua vida em sacrifício: uma alma escura e perdida em troca de uma novinha em folha.
– Se todos ficarem em casa, podemos esperar... Uma hora a tempestade terá que ceder. – A voz da resposta de Regina pareceu distante, assim como sua convicção no que dizia. – Basta você mandar todos ficarem em casa. Quem sairia em um tempo assim?
– Ariel! – A voz doce de Mary Margaret pode ser ouvida a certa distância. – Ela está em algum lugar por ai. Eric não conseguiu encontrá-la antes da tempestade e...
Regina revirou os olhos no escuro amarelado – pelo fogo da lareira – e ouviu os passos de Robin aproximar-se dela, como uma presença gigantesca no escuro.
– Então vamos procurá-la! – Robin impôs-se com voz firme.
– Preciso de ajuda, Robin. – Emma admitiu. – Você acha que consegue chegar até a torre do relógio? Estaremos esperando lá. – Emma esperou do outro lado, mordendo os lábios.
“A Salvadora em ação!”. Regina pensou. Porém aquele era um jeito de tirar Robin de casa. Ele não estaria correndo mais perigo lá fora do que na mansão Mills.
– Chegarei lá o mais rápido possível. – Robin deu duas passadas até a porta de saída. Sair naquele gelo foi como bater numa parede. Só o impacto físico o fez titubear. Ficou parado por um instante com a mão na porta, olhando o rosto nublado de Regina. Ele estava indo ajudar alguém que salvara sua vida, honrando sua dívida com a moça de cabelos avermelhados, mesmo assim era como se, não metade, mas toda sua alma ficasse para trás, presa naqueles olhos castanhos. Não existia nada mais doloroso para ele que deixá-la. Ela sempre tinha o olhar profundo como se estivesse se despedindo. Fechou a porta, por fim, afastando-se lentamente, imaginando que nunca superaria aquela sensação.
Regina recuperou-se, limpando a única lágrima que escorreu por seu rosto, agradecida pelo escuro tê-la deixado em segredo para Henry. Como uma mãe loba que se prepara para proteger sua prole ela sabia que precisava recompor suas forças. Nem o fato de existir uma imensa possibilidade de nunca mais ver o rosto de Robin se colocaria a frente da importância de manter Henry seguro.
Proteger Henry nunca fora uma tarefa muito fácil, ela mais do que qualquer outra pessoa no mundo sabia disso. Ele sempre fora tão provido de coragem, curiosidade e atrevimento que era improvável fazê-lo prometer que permaneceria toda a noite no quarto, sem ter que responder a meio milhão de perguntas.
– Henry, prometa! Não importa o que acontecer lá fora... Não saia do seu quarto... Se for preciso fuja pela janela! Dessa vez tem minha permissão. – Regina não sabia o que esperar e era estranho preparar Henry para isso. Mas sentia-se esperançosa de que o filho estaria a salvo.
Não sem luta, o garoto balançou a cabeça – confirmando – com seus estreitos olhos, fitando-a cautelosamente. O sentimento de achar que sua mãe, de algum modo, estava se despedindo era perturbador. Então ele prometeu a si mesmo que não cumpriria a promessa anterior se achasse que ela corria perigo.
Antes de partir com um “eu te amo” audível, ela se inclinou sobre ele com todo o furor maternal, beijando sua testa e acariciando seus cabelos.
Regina parou do lado de fora do quarto de Henry e ergueu uma mão, primeiro fazendo uma pequena luz flutuar, livrando-se do breu, depois selando a porta do cômodo, para todo caso. Não era nem um pouco ingênua para esperar que Henry cumprisse sua promessa caso ouvisse alguma coisa instigante fora de seu quarto.
Seus passos faziam um toc toc rítmico no assoalho, trazendo um pouco de familiaridade a zona hostil que sua cabeça se transformara desde a última conversa com Gold. Por que é que seus poderes só não funcionavam com a nevasca? Repetira o teste algumas vezes para ter certeza e concluíra que não existia nada errado com seus poderes a menos que tentasse derreter um punhado de neve ou lutar contra o vento.
Ela abriu a porta do quarto de hóspedes com cuidado, a madeira escura movendo sob seus dedos de maneira inaudível – O cômodo guardava um escuro cinzento, o ar um tanto húmido e frio, mas não de maneira desagradável. Aquele não era um lugar muito movimentado, nunca fora, entretanto era sempre impecável, exatamente como o resto da casa. – Respirou fundo enquanto observava seu pequeno salvador dormir: um pacotinho trêmulo e rosado no canto inferior da cama, como se estivesse escondendo-se de algo. Era o tipo de visão pela qual as pessoas costumavam viver. Nada podia ser tão puro e inocente quanto o sono de uma criança.
Então naquelas quatro paredes havia o contraponto entre um exemplar de culpa e um de inocência, o nefasto e o imaculado que, nesse caso também era o condenado.
Regina agonizava internamente, lutando contra mais uma pontada de culpa e evitando olhar para o rosto angelical. Dois passos para longe da cama dele foi o suficiente para fazê-la esbarrar no cabide que aconchegava o casaco de Robin – o que ele usava quando se conheceram – fazendo a cair ao chão.
O brasão da Resistência brilhou sobressaindo-se ao tecido cru: era a gravura de um leão cercado por um círculo de folhas, simples e um tanto disformes por ter sido feito em couro, mas era de muitas formas, bastante significativo. Regina passou os dedos de leve por ele como se examinasse uma joia, observando um pequeno bolso interno, um esconderijo que acidentalmente mostrava a ponta amarelada de um pedaço de papel; Ela ponderou por um instante e o retirou certa de que bisbilhotar era o menor de seus crimes.
O papel era, na verdade, o pedaço rasgado do que parecia ser uma carta completa, estava cheio de dobraduras e manchas fortes, como se, outrora, tivesse sido amaçado. A caligrafia cuidadosa dizia:
“... como o mar. Imagine um lugar onde podemos ser livres. Todos iguais. O povo liderado por um líder a quem amem e que os ame também. Já podes sentir a vitória? Eu sim. Vejo os homens comemorando ao luar, dançando bêbados sobre o sangue da Rainha, Russel reclamando como o cavalo mal criado que é. Liberdade, meu querido Robin! Aliás, que palavra bonita essa, tenho a impressão de que poderia escrevê-la até meus dedos sangrarem. Li-ber-da-de! Amo-a e morreria por ela, mas morreria sussurrando teu nome. Teu amor é a única coisa que me prende. Conto a luas para te ver novamente, porque te amo. Lady Marian.”
Regina sentiu o estômago revirar, como se alguma coisa estivesse se debatendo fisicamente dentro dela, as paredes do quarto brincavam de carrossel e o ar estava pesado demais. Ela manteve os dentes trincados, fortes, ao reler a carta e percebeu que já a tinha decorado. Marian assombrava sua cabeça com uma eficácia extraordinária, inveja e ódio subiram por sua garganta em brasa. Inveja do espírito livre, tranquilo, aventureiro que se lia e, principalmente, inveja por Marian ter vivido um amor com ele, por ter seu amor. Ódio do fato da mulher da carta está morta; não dava para lutar contra um fantasma. Marian estaria sempre em algum lugar da memória de Robin, aonde Regina jamais poderia entrar.
Ela apoiou-se na janela e respirou fundo. Restabeleceu-se após um tempo imaginando como havia sido a história de Robin com aquela mulher – Pensando em como as coisas eram irônicas: lá estava a Rainha Má, motivo do ódio de Marian e Robin, tentando salvar o filho de ambos. –Até decidir que nada daquilo realmente importava, guardou o papel de volta no bolso secreto e deu uma espiadela além da cortina branca.
O céu de chumbo, baixo e denso permanecia descarregando, incansavelmente, grandes cristais de neve, tudo estava coberto de gelo, tudo exceto um lugar. Regina encarou de olhos arregalados e incrédulos o centro do seu quintal onde havia um pequeno circulo perfeito com grama verde e nenhum floco de neve.
Um segundo depois Regina estava lá fora, diante do círculo que mais parecia cavado no chão pela altura do gelo que sedimentava ao seu redor. Ela abraçou-se para se aquecer ao mesmo tempo em que descobriu o envelope grande e dourado no centro da circunferência. Aquilo não era o tipo de coisa que parecia fazer o feitio de um deus, embora Regina não soubesse muito sobre eles e como faziam as coisas. Uma mensagem de Hermes para Roland! O nome do garoto estava escrito em caligrafia itálica e tinta preta. Ela hesitou por um tempo, vendo sua respiração embaçar o papel espelhado. Atrás dele tinha a verdade sobre a vida ou morte da criança que dormia no quarto acima.
Um barulho opaco quando o papel abriu-se lentamente, Regina estremeceu ao começar:
“Morte iminente, Roland. Esse seria seu destino. Mas como posso condenar à morte alguém que nem ao menos sabe o que fez? Não me desafiastes e não o farei com você. Está redimido de todas as culpas.”
O bilhete nem ao menos estava assinado e as palavras de Hermes pareciam desapontadas e entediadas, não parecia nem de longe o que um deus escreveria, Regina pensou enquanto sorria para o nada no meio da escuridão, com os cabelos e cílios repletos de pontinhos brancos.
– Regina? – Robin chamou seu nome parado na pequena escada que levava para o quintal. O rosto dele tinha uma expressão tão preocupada que Regina sorriu novamente. Ela sentiu vontade de jogar-se em seus braços. E Robin perguntava-se, em segredo, se talvez ela tivesse bebido além da conta. Era a forma mais rápida que encontrou para explicar o motivo de encontrá-la no meio do escuro em uma nevasca, apesar de, não fosse o medo de que ela congelasse, ele teria aproveitado bastante o vislumbre: vê-la sorrindo... não costumava acontecer muito.
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