Notas iniciais
Desculpem a demora. Estou de férias e férias na vida de um pré-vestibulando de medicina é tão rara quanto Astatine. Então perdoe essa quase sempre tão falha contadora de histórias. Se me perdoarem de fato, leiam o próximo capítulo com essa playlist -> http://hypster.com/playlists/user/NatZurc?6975103 Espero imensamente e, como nunca, que gostem desse capítulo.

Na tarde do dia seguinte nevava pouco, mas o suficiente para manter a cor branca de cristais de gelo sedimentados sobre a rua, telhados e também sobre os caixões que, um a um, desciam lentamente pelas inúmeras sepulturas.

Havia um número significativo de pessoas sentadas nos bancos pesados do auditório público, a maioria ainda não havia se recuperado do dia anterior, alguns nunca iriam. Aparentemente os únicos a não se lembrarem dos horrores passados eram aqueles a quem a Praga da Fúria tinha acometido. Depois que acordaram, não foi fácil convencer nenhum deles do que acontecera. Emma, Madre Superiora e Mary Margaret ficaram responsáveis pelo trabalho de conectá-los com a tragédia. “Você precisa saber que não foi sua culpa, Nick.” Emma dissera ao Sr. Stowe depois de conta-lhe que o próprio matara sua esposa. David, Robin e Neal tiveram que segurá-lo, enquanto ele berrava como um urso preso. Nick Stowe era do tipo grande e forte, mal humorado e completamente apaixonado por sua mulher. Pobre Sarah Stowe.

Não obstante, agora estavam vítimas e assassinos sentados lado a lado. E mesmo os abençoados com a amnésia podiam sentir a tensão vibrante que se instalava como um hóspede maldito em Storybrooke.

O microfone zuniu como centenas de abelhas presas e a voz de Emma soou hesitante:

– Boa tarde. – Ninguém respondeu. Ela pigarreou e continuou: – Bem, vamos começar...

Regina estava firme ao lado de Emma, embora não quisesse está ali porque achava aquela reunião uma bobagem. “Hermes vai matar todos nós. Então vão para suas casas e vivam o resto de suas vidas medíocres o melhor possível até o fim.”. Teria sido um discurso direto e verdadeiro, mas a Xerife queria manter a ordem e isso significava mentir.

Robin na primeira fila – ao lado de Henry e Roland – lançava em direção a ela, o tipo de sorriso encorajador. Regina, por sua vez, mantinha-se tão distante às palavras de Emma quanto ao sorriso de Robin. Ela estivera o tempo todo lembrando seu último pesadelo. Um sonho vivo a ponto de ser inconscientemente confundido com a realidade. O dia que o antecedeu – com suas mortes, histórias sobre fadas e “Eu amo você”– provavelmente influenciara fortemente.

No sonho Regina via-se em um dia comum, indo à prefeitura pela manhã, mas quando passou pela porta notou que Robin, Henry e Roland, caminhavam a curta distância, afastando-se. Ela naturalmente os seguiu, porém por mais rápido que andasse não os alcançava, tentou manter a calma enquanto os ouvia conversar e discutir um lance de alguma partida de beisebol. Eles sorriram e Regina desejou ainda mais ver seus rostos, então correu. Correu o mais rápido que pode, mesmo assim, os três se foram, sumindo na escuridão a frente. Um silêncio se instalou e ela percebeu que o cenário era diferente, agora Regina estava em um dia frio na Floresta Encantada e à sua frente um homem forte e alto, coberto por uma capa. “Robin!”. Ela se aproximou e quando o fez, percebeu que aquele homem não era Robin. Um frio assombroso lhe atingiu como se tivesse mergulhado em um lago de gelo. O homem não passava de uma sobra, sem rosto e sem expressão, ainda que fosse possível ver seus terríveis e frios olhos azuis, cortando o escuro de sua não-face. Ele estendeu uma mão e a chamou. Ela não queria ir, mas seus pés caminharam inexoráveis até o encontro da figura...

Felizmente Regina acordara e sentira aquela sensação maravilhosa que se sente ao acordar de um pesadelo, seguida daquela frase que, invariavelmente, vem à cabeça: “Era só um sonho!”. Robin costumava acordar quando Regina tinha pesadelos, – noites que se tornavam mais comuns a cada semana – acendia a luz, beijava-lhe a boca e depois sussurrava coisas como: “Foi só um sonho. Já passou!”,“Olha para mim... Não era real!” ou “Quer me contar o sonho?”. Ela nunca os contava. Em seguida eles faziam amor, um método tão bom para relaxar e pegar no sono como qualquer outro. Porém, dessa vez, a presença de Robin fora resumida ao peso do braço direito dele sobre ela e em sua respiração pesada e lenta que soprava com óbvia exaustão.

– Regina? – Emma chamou e Regina saiu de sua meditação a cerca de pesadelos e homem sombra. – Você gostaria de acrescentar alguma coisa? – Emma lhe entregou o microfone e, pela expressão das pessoas sentadas ali, a Xerife tinha contado sobre Hermes.

“Dane-se!”. Regina forçou um sorriso e estava prestes a falar qualquer coisa que os mandassem de volta para suas casas quando uma voz feminina gritou de algum lugar do salão:

– Não queremos ouvir você! – O grito era inteiramente arruaceiro, trazendo um burburinho violento, alto e tumultuoso. – A culpa é sua! Sempre é!

– É! A culpa é dela! – outra voz agitou-se no canto oposto, dessa vez, masculina.

Regina estreitou os olhos e encarou o motim generalizado, suas mãos tremendo de fúria e sua magia causando um barulho agudo de interferência no microfone. As frases prosseguiram: “A culpa é sua, bruxa!”. “BRUXA! BRUXA! BRUXA! BRUXA!”. Parecia que todo o mundo entrara em um coro que evocava a Rainha Má de dentro de suas entranhas mentais. Regina poderia matá-los, não todos, mas alguns, só para mostrar quem mandava, no entanto, alguma coisa a impediu, talvez tenha sido Henry e Roland na plateia, a mão de Robin em seu ombro – ele havia subido no palco tão logo começaram as acusações – ou fora algo mais profundo e pessoal. De toda forma, Regina a estava sufocando, prendendo a Rainha Má em qualquer parte de sua alma escura.

Eles continuaram gritando, como uma multidão linchadora e nenhuma das tentativas de Emma e Mary Margaret para acalmá-los surtiu qualquer efeito. Regina caminhou para a saída, antes que sua ira incendiasse o mundo. Ela respirou fundo o ar frio que tinha leve cheiro de lilases e musgo lá fora. Robin parou a sua frente, o rosto triste e magoado, como se pedisse desculpas em nome das pessoas lá dentro. Ele usava sua capa de arqueiro, a mesma que vestia quando se conheceram. E, subitamente, Regina percebeu a familiaridade com seu pesadelo.

Robin estendeu a mão para que ela pegasse e ambos começaram a se afastar da sala de reuniões, mas antes que estivessem longe o suficiente a porta voltou a se abrir e uma pessoa passou por ela. Era Nick Stowe com seu corpo gigantesco e passos pesados castigando o chão.

– Fique longe dela, Robin. – Nick disse em voz alta para ter certeza que o policial ouviria. – Você é um homem bom, não merece ser enganado... – Nick fungou, seus olhos tinham profundas olheiras avermelhadas dando a impressão de que ele ou chorara durante horas, ou fumara um imenso baseado. – Não sabe quem ela é! Ninguém ousaria contar... Todos têm medo dela... Mas eu não tenho absolutamente nada a perder... – Robin encarava Nick com uma clara impaciência, seus dedos entrelaçados aos de Regina sem nenhuma hesitação. Disposto entre o delator e a acusada, no caso de eventual investida agressiva –... E se é verdade que ela teve culpa No que aconteceu com Sarah...

– Nick, vai para casa, cara... – Robin puxou Regina, mas ela não se moveu. O clima estava mudando, um vento forte e frio começou, abruptamente, arrastando tufos de neve como penas de um travesseiro.

– Ela é a bruxa que causou tudo isso, policial! – Nick andou em direção a eles o vento abalava até alguém do seu tamanho. – Foi ela que nos trouxe a esse mundo. A prefeita é quem costumávamos conhecer por “Rainha Má”.

Por um momento o assoviar fino do vento fora o único som capaz de ser ouvido. Em seguida Robin interrompeu em uma gargalhada mais lunática que divertida.

– Você está se excedendo, Nick ... Conte a ele quem você é, Regina! – Robin tentou ler a expressão muda do rosto dela, no entanto o vento balançava furiosamente o cabelo de Regina, sendo impossível se concentrar naqueles olhos castanhos e apavorados. – Regina? – ele repetiu o nome, dessa vez em um tom baixo e quase interno. Robin se lembrou de certa vez Marian ter dito: “Não vencerá uma guerra se não souber o nome de seu inimigo, Robin!”. E ele nunca soubera de fato. Sua resposta havia sido seguida de um sorriso: “Tenho tantos nomes para ela, não preciso de mais um?!”. RE-GI-NA. Era o nome. A ciência que teria mudado tudo. – Diga a ele, Regina! – Dessa vez o grito dele surtiu efeito e a Rainha Má se afastou e fechou os olhos, como se esperasse uma agressão física.

A mente de Robin vagou, por um longo momento, numa espécie de inconsciência vazia, enquanto a via partir no meio do quase tornado. “A Rainha não tem medo, não dorme, não chora, não sente dor e, sobretudo, é incapaz de amar.” Mas ele a tinha visto dormir, todas as noites, observando-a em sonos calmos ou perturbados. Viu o pânico pós pesadelo tomar conta dela e, com certeza a viu amar, de todas as maneiras possíveis. Como Regina poderia ser ela? Robin sentiu um súbito enjoou.

– Hermes outra vez? – Emma perguntou aleatoriamente olhando para o céu. A essa altura estavam quase todos fora do salão.

– Não! É a magia de Regina que está causando isso. – Merlin respondeu e respirou fundo, como se absorvesse um aroma peculiar. – Não pode sentir?

Emma devia ser capaz de discernir a diferença entre magia e seus donos, mas não perdeu tempo o fazendo, ela estava preocupada demais com Robin e sua apatia que beirava o choque. E, no momento, em que se aproximava dele, o arqueiro começou a se afastar. Primeiro em um ritmo cambaleante e sem rumo, depois em evidente direção à Mansão Mills.

“É a magia de Regina que está causando isso.”. A frase percorria a mente ferida de Robin, de um lado para o outro, como uma bola de bilhar batendo em um canto e seguindo para o outro. “... a magia de Regina...”.

***

Regina entrou em casa e bateu a porta. O impacto fez os objetos balançarem fortemente sobre a mesa do hall de entrada. Ela caminhou com passos largos e firmes ao atravessar o corredor que a levaria até o jardim dos fundos; batendo a outra porta, dessa vez houve barulho de vidro trincado e caindo no chão.

O céu estava completamente nublado e o vento desalinhava não só os cabelos dela, mas todas as árvores que podiam ser vistas. Perto dali, os animais e tudo que era vivo estava em alvoroço. A agitação era assustadora, menos para Regina que se mantinha no centro do quintal tentando se concentrar no tintilar do parafuso de ferro do antigo balanço de Henry, enquanto ao redor parecia montar-se um pequeno apocalipse. Por fim, lembrou-se das outras vezes que aquilo havia acontecido: a Natureza parecendo responder ao seu medo.

Medo. Essa era a chave. Jamais aconteceu quando ela estava irada, nem quando estava triste ou cheia de qualquer outro sentimento. Apesar de nunca ter pensado muito a respeito, lembrava-se com exatidão das três vezes anteriores que acontecera.

A primeira, quando tinha aproximadamente dez anos, Cora a trancara por dois dias inteiros em um porão sujo, disciplinando-a a nunca mais falar com crianças plebeias. Ainda podia ouvir o barulho dos ratos correndo pela escuridão absoluta do calabouço. Naquela noite quatro cavalos dos estábulos bateram a cabeça nas porteiras até morrerem, inclusive Angus, seu favorito. As pessoas sempre se lembrariam de como o terror invadiu seus corações de maneira determinada durante àquelas horas de desesperança e destruição; era como se nunca mais fossem ser felizes.

A segunda vez foi quando Daniel morreu. Cora havia esmagado o coração dele na sua frente. Foi o fim. A primeira vez que Regina se sentiu realmente sozinha no mundo. E tinha certeza que estaria para sempre. Ninguém a amaria o suficiente para tirá-la de perto do demônio que era sua mãe. Nunca haveria um final feliz. Ela correu por entre as árvores densas da floresta enquanto as via ruir em sua presença. Não fosse o medo da solidão e da mãe, aquilo também a teria deixado assustada.

Sentia-se tão apavorada que nem a figura forte de um leão da montanha aparecendo em sua frente, recuperou seu sentido de autopreservação. Na verdade, o que ela fez foi encarar o felino. Os olhos castanhos, cheios de lágrimas, pareciam implorar pela morte quando deu dois passos em direção ao animal que, de maneira incrivelmente milagrosa, recuou. Os dois fitaram-se por uma fração de segundos. O leão tinha os olhos de um amarelo tão vivo quanto larva quente: ele rugiu imponente, como se reivindicasse sua superioridade diante da humana frágil. Depois se aproximou da garota, cauteloso, até ficar tão perto que ela poderia tocá-lo com um simples impulso.

– Por favor – A voz dela fora baixa e seus olhos estavam fechados esperando o fim.

Porém seu fim não veio. Nada aconteceu. Mesmo tão próxima a ponto de sentir a respiração quente do animal; ele permanecia parado. Quando ela finalmente abriu os olhos, levou o maior susto, o amarelo vivo da íris do leão havia sumido, agora, os olhos do poderoso assassino eram castanhos, exatamente o mesmo tom que os seus. Regina deu dois passos para trás e caiu, aquela era a primeira vez que ela via magia que não vinha de sua mãe ou de Merlin, a primeira vez que ficava frente à magia branca desde que o mago se fora.

A magia fora esplêndida e natural, como se fizesse parte do mundo desde sempre. Seu medo sumiu parcialmente e uma calma estranha tomou conta de seu coração machucado, como um remédio paliativo.

O leão olhou fixamente, depois se curvou diante da garota assustada — que já não destruía mais árvores – em uma reverência elegante, harmoniosa, como se, de repente, estivesse agindo sobre ele alguma força superior. Pós cortesia nobre o grande predador partiu e tudo ao redor ficou tranquilo, uma chuva fina começou a cair, uma chuva que lavava lágrimas. Ninguém jamais, além dela, saberia sobre aquilo.

A terceira vez aconteceu pouco tempo depois da segunda. Foi na sua noite de núpcias. Ela precisou ser valente naquela noite. O medo tomava conta de sua alma, enquanto Leopold fazia do corpo dela, templo dele. Regina fechou os olhos e imaginou está em outro lugar. Talvez a tempestade que devastava vilas e plantações inteiras lá fora fosse uma boa ideia. Assim como aconteceu com o leão antes, ela desejava com todas as suas forças que Leopold a matasse. E ele, por pouco, não o fez. O grande Rei da Floresta Encantada quase conseguira o que o leão da montanha se recusara a fazer.

Ela ficou parada, completamente estática quando Leopold deixou o quarto pela manhã — pouco antes da luz do sol entrar pela janela — tinha medo de se mover e a dor cortante piorar, não se atreveu nem mesmo a chorar, além do mais sabia merecer tudo aquilo, tinha absoluta certeza; por ter sido uma garota má, como Cora gritara a vida toda: “Ninguém vai amar você se não for rainha!”. Mas e agora? Agora ela era a Rainha. Fato consumado! No entanto, como seu marido mostrava habilmente; ainda merecia punição.

O dia começou, depois de muitas batidas fortes de seu teimoso coração. Não adiantava desejar que ele parasse, porque não aconteceria. E mesmo não se movendo, estava exausta. Exausta de sua luta para respirar com duas costelas quebradas. Por sorte, uma de suas damas de companhia foi acordá-la, uma garota com a mesma idade que a dela. Tinha cabelos loiros e olhos grandes, principalmente quando parou diante da porta e viu o cenário catastrófico do quarto.

Regina sentou na cama imediatamente, sem conseguir disfarçar a careta de dor. A dama correu em sua direção e apoiou suas costas com travesseiros. Corajosamente e sem dizer nenhuma palavra ela retirou a rainha dos lençóis cheios de sangue e a ajudou até que tudo estivesse limpo, até que o único vestígio do monstro se resumisse a hematomas e cortes.

– Vai ficar tudo bem, Majestade! – Ela finalmente falou, com uma voz doce, ao escovar cuidadosamente os cabelos da Rainha, tentando amenizar o efeito do sangue seco que os mantinha grudados à cabeça.

Regina não estava mais com medo, só tentava manter o foco. Afinal sobrevivera a pior noite de sua vida, vida essa que se grudara a ela como uma doença; então prometeu a si mesma que sobreviveria a todas as outras noites. As muitas que viriam pela década à frente, algumas tão graves, outras piores. Decidira também ficar longe da moça que tinha testemunhado parte de seu horror, no momento em começasse a fazer o Reino de Leopold sucumbir. Nem a garota de olhos grandes, nem sua família seriam tocadas. E nunca foram.

Em meio a sua dor e determinação Regina percebera que aquela era a primeira vez que alguém a chamava de “Majestade”.

_____

– Majestade?! – Uma voz rouca e familiar a tirou do torpor. – Quem é você afinal? – Robin resistia ao vento e a sensação de que estivera o tempo todo certo. Certo sobre o fato de Regina não ser real. Ele sorriu com raiva e humilhação em seus olhos. – Como eu pude ser tão idiota?

Ela olhou pra trás; Robin estava há poucos metros, sua capa cobria quase todo o corpo, o capuz bem colocado deixava-o com uma aparência assustadora, quase tão assustadora quanto à mulher no centro do que parecia ser um pequeno tufão se formando. E foi o vento que balançou tão furiosamente a capa de Robin que levou seu capuz totalmente para trás, tirando seu rosto das trevas. Regina o viu e desejou não ter que olhar naquele rosto.

O corpo dela tremeu ao ver os olhos dele: furiosos, flamejantes e verdes. Havia tantas acusações naquele olhar. Havia dor também, mas Regina não podia ver. Não depois de ser tantas vezes deixada, acusada, massacrada, destinada a ser a mais desprezível criatura de todos os mundos. Ela só podia esperar que ele começasse e sabia exatamente o que viria.

– Sua magia matará a todos! – cuspiu as palavras com ânsia. Ele esperou um tempo, revivendo os dias maravilhosos que tinham passados juntos em um flash. Foram os dias mais felizes de sua vida. A reputação da Rainha Má a precedia com louvor. Sua maldade era sem limites. – Foi tudo premeditado, não foi?! Você sabia quem eu era e resolveu se divertir...

– Não! – a voz dela estava cheia de agonia.

Robin podia sentir que a ventania convergia em torno dela e, se continuasse, destruiria toda a cidade. Mais pessoas morrendo por causa dela! Como podia? Perguntou-se olhado para a mulher ali parada, a uma distância que, antes, era insuportável, agora parecia que nem o oceano seria o bastante. Como se um demônio a tivesse possuído, tirando toda a essência que ele amava. Sua vontade era de gritar, gritar com o mundo todo, com qualquer coisa que houvesse causado aquilo. Por que ele tinha que amá-la tanto? O Universo tinha um senso de humor cruel.

– Por que você fez isso? – Ele abriu os braços, ainda rouco com o choro que parecia prestes a emergir. – Por que eu? – A pergunta e o tom dele magoaram-na com eficiência. Em nenhum momento Robin fora capaz de lembrar-se das intermináveis fugas dela, ou dos “Não podemos!”, “Você deveria ficar longe de mim!”.

– Eu... Eu sinto muito. – Disse com voz abafada enquanto chorava. Queria dizer que não podia evitar o que acontecia à natureza, sem saber que não era isso que o atormentava de fato.

Cada soluço do choro dela era como se uma faca entrasse no peito dele. Uma vontade paradoxal de correr até ela e abraçá-la, ou matá-la, crescia. As perguntas zuniam em sua cabeça como vespas, mas a principal entre as muitas dezenas era: “Alguma vez você... Você realmente me amou?“.

As histórias sobre a Rainha Má se repetiam em sua memória como se fossem uma enciclopédia. Todas ruins, uma pior que a outra. Que triste fim, para ele; diante do monstro que havia escravizado seu povo, submetido pessoas a total miséria, desafiado seu arco a batalhas sangrentas e também se tornado o amor da sua vida.

Regina deu dois passos em direção a Robin.

– Fica aí! – ele apontou com o indicador de maneira preventiva. – Fica longe de mim! – Agora sentia como se as palavras não fossem dele, porque eram opostas a sua vontade.

Ela parou e esperou, olhando os olhos do grande arqueiro, com lágrimas não derramadas cintilando um verde ainda mais vivo.

Robin estava sofrendo.

– Eu amo você!... Sei que nunca disse antes, mas eu te amo. – foi uma tentativa desesperada de parar a dor dele. – Eu te esperei por cada segundo da minha vida...

– Cala a boca! – A voz ficou apavorada após ouvir aquelas palavras. Não aquelas palavras! As mesmas do sonho que teve na madrugada anterior a manhã em que se conheceram. Ele sentiu que estava enlouquecendo.

– Desculpa por ter medo. Eu não posso evitar. Eu fiz isso com a gente. Tudo o que eu toco morre! Eu sabia que deveria manter distância de você, ou tudo terminaria assim, mas... – sentia-se realmente fraca daquela vez, não por pedir desculpas, mas por ter a voz embargada pelo choro; estava tentando salvar seu amor e simplesmente não conseguia continuar.

Mais soluços compulsórios.

– Você usou magia em mim? O que eu sinto por você... Isso faz parte da sua magia? – Robin perguntou com um tom baixo, a voz ofuscada pelo desejo do não.

–Não! Não funciona assim... – Regina concentrou-se no fato dele ter usado o verbo no presente. “Sinto”.

Ele respirou, ainda não tivera tempo para perder a terrível mania de acreditar nela. Depois a olhou por um minuto: ela estava no meio de um cenário caótico, seus cabelos balançavam com o vento e isso o impedia de ver a maior parte do rosto dela. Como podia ser linda mesmo assim? A força que o impelia em direção a ela continuava presente. Regina permanecia sendo sua gravidade.

Robin desceu o último degrau do alpendre do quintal e caminhou em passos largos e cautelosos, embora seu maior medo agora fosse chegar perto – talvez por sua segurança, ou muito provavelmente pela dela – ele não parou. Sua cabeça continuava um torvelinho de dúvidas. Mas era sua única certeza que o mantinha em pé; ele a amava.

Parou em um ponto perto o bastante para tocá-la e longe o suficiente para voltar atrás. Aquela era a mesma mulher que ele amava. Os mesmos olhos, a mesma boca, pele, estava tudo ali, a perfeição. Parecia que uma de suas flechas cruzava sua garganta, o fazendo chorar. A urgência de tomá-la em seus braços tornou-se insuportável quando Robin estendeu uma das mãos no ar até tocar o busto dela.

Regina usava um sobretudo magenta, que ficava ainda mais intenso com o contraste em pele branca. Ela sentiu o toque dele e fechou os olhos, um tanto aliviada: Robin estava ali. Perto dela. Não havia fugido, pelo menos por ora. Uma confortável e teimosa esperança crescia no coração cansado de Regina.

Em um piscar de olhos, sem aviso, nem outra ação – como era de seu feitio – Robin a puxou, envolvendo-a com seus braços, em um abraço forte, doloroso e protetor. Por um minuto, ele ansiou por escondê-la do próprio passado ou futuro, como se a separasse do mal que a cercava. Nesse momento parecia que um campo magnético os impedia de se separar.

Regina machucara, acidentalmente, o pulso em uma das frechas-ponta-de-aço que Robin tinha nas costas – ao abraçá-lo com rapidez – e mesmo com a dor forte subindo por seu antebraço, não se importou, continuou agarrada a ele com toda a sua força humana, sentido o sangue escorrer lentamente por seu braço até que tocasse a nunca dele de maneira imperceptível.

Os dois choraram, abraçados, mas não havia perdão naquele abraço, Regina sabia. Parecia mais o último castigo: tê-lo em seus braços, só para depois perdê-lo.

Robin via como um filme em sua cabeça, cada morte, cada maldade atribuída a Rainha Má, todas as flechas que haviam acertado seu alvo na tentativa de salvar outras vidas. Tudo o que ele amava e considerava sagrado tinha sido maculado por ela. Eles se amavam, era fato. Mas isso não parecia mudar nada na maldita ordem do Universo. Nada daquilo tratava-se dos dois, muito menos dele. Seria egoísmo demais pensar que sim. Regina era uma criatura nociva aos mundos e as pessoas. Precisava morrer.

Por fim, então, tratava-se de uma vingança. Ou uma proteção a todos os inocentes que ela jamais tocaria. Mesmo que fosse causar a ele a maior dor que alguém poderia sentir, agora não importava mais. Robin devia isso ao seu filho, a Marian e a todo o seu povo. Não existia salvação para ela.

Seus olhos permaneciam fechados ao mesmo tempo em que beijava cada parte do rosto, do cabelo e pescoço de Regina, tentando absorver aquele cheiro e guardar para sempre a temperatura exata daquela pele. Depois abriu os olhos pensando em como desperdiçava o momento sem olhá-la. Segurou o rosto dela entre suas mãos e a beijou na boca com a intensidade que existira no primeiro beijo. Preparando-se para que aquele fosse o último. Desejava desesperadamente, com tudo o que sobrara de sua alma, mais tempo e menos nobreza. Desejava trocar o Mundo – e tudo o que era certo – pelo seu amor.

“Ela precisa morrer!”. Uma voz gritava furiosamente em sua cabeça. “Ninguém mais poderia fazer além de você!”. De onde vinha aquilo? O arqueiro se perguntava perturbado e apavorado.

Ele ansiou a própria morte para não ter que ouvi-la, ou pior, que obedece-la.

O corpo de Robin trepidou enquanto olhou nos olhos dela mais uma vez, buscando aflito algum sinal de arrependimento. E lá estava. Como um bom demônio aquele também tinha rosto de anjo. Os olhos castanhos avermelhados dela pareciam pedir-lhe clemência mesmo antes das mãos dele escorregarem gentilmente até sua garganta. Ele não sabia o que fazer, nem como parar. Sentia-se fora do próprio corpo. O medo tomou conta dele enquanto ela tentou se afastar com total descrença no que aconteceria a seguir. Era ele quem a estava machucando. Tudo acabaria ali, nada romântico, não era um final feliz nem um crime passional. Apenas tinha de ser feito!

Regina, mais uma vez, lutava para respirar: colocando suas mãos sobre os braços dele tentando, sem sucesso, afastá-los. – A tatuagem de leão que antes fora um símbolo da sina do amor de ambos, agora era apenas o local onde os dedos e unhas dela apoiavam a mecânica de sua resistência. – Ela fez uma careta de dor, quando sentiu a força em sua cervical aumentar. Os olhos do seu agressor permaneciam fechados e seu corpo tremia não só pela força que colocava na garganta dela, mas pelo inacreditável pavor que sentia enquanto a estrangulava.

– Olha... Olha pra mim! – Regina finalmente conseguiu falar com uma voz abafada. Achava que ele só precisava abrir os olhos e... Tudo mudaria.

Mas infelizmente, para os dois, Robin continuou de mãos trincadas e olhos fechados. Regina então fechou os dela também até ouvir apenas o barulho leve da nota de um piano repetindo-se... Uma, duas, três, infinitas vezes a nota se repetia. A velha canção começou e ela já não sentia as mãos do homem que amava em seu pescoço, só o que sentia era o cheiro do próprio sangue, do que corria de seu pulso lutador e manchava as mãos de ambos.

Sangue! Ela se lembrou da última vez que um homem a tocara daquele jeito, lembrou-se, sobretudo da promessa que tinha feito a si mesma desde que se livrara do marido: “Ninguém me tocará assim novamente!”.

Foi exatamente nessa hora que pode sentir a Rainha Má ressurgindo de algum lugar muito profundo. Dessa vez Regina não a impediria — sempre soube que nunca se livraria dela. Quando abriu os olhos viu seu assassino em potencial e com um estalar de dedos ele não a tocava mais.

Havia fúria nos olhos dela quando o vento e o caos cessaram. Robin rodopiou no ar e aterrissou distante. Um baque que o fez cair como um saco de ossos. Ao olhá-la novamente, teve certeza de que ela poderia matá-lo, se quisesse; tão fácil quanto esmagar um inseto. Ele colocou-se rapidamente de pé, por reflexo puxou seu arco e antes que pudessem respirar duas vezes, ele estava apontando uma flecha certeira para o coração de Regina.

Os dois se encararam ofegantes por um doloroso e longo minuto, permaneciam em extremos diferentes do quintal, elegantemente colocados em uma linha reta. Como inimigos se preparando para o último duelo. Do tipo que não teria vencedores.

– Importa-se de lutar de igual para igual, Hood?– A voz dela estava diferente: mais grossa e mais alta que o normal, havia um tom desdenhoso e nos seus olhos acusações que o feriam com a mesma profundidade da culpa de ter tentado matá-la. – Ou prefere que eu esteja... Vulnerável?

– Não vou lutar com você! – A voz dele era um sussurro quase impossível de ouvir. O que aconteceu? Robin sentia-se como se tivesse acordado de um transe. – Eu... Não sei o que aconteceu. – Não parecia um pedido de desculpas e ela não ouvira mesmo assim.

Robin não podia acreditar na figura que via à sua frente: a luz do pôr-do-sol iluminava a pele dela, atribuindo-lhe uma cor dourada e, o sangue – vermelho vivo – manchava parte de seu corpo fazendo-a se transformar de maneira assustadora na visão mais imponente que ele já tivesse visto. Exatamente igual à primeira vez que a vira. Só que agora era diferente; ela não terminaria em seus braços. Para o bem, ou para o mal; Regina não o pertencia mais e talvez nunca tivesse realmente pertencido. Não havia perdão para ela. Nem para ele.

Robin estava fatalmente magoado, como se caísse em um buraco negro e sem volta. Uma última lágrima brilhou em seu rosto, enquanto suas mãos trêmulas abaixava o arco. Virou as costas para sua oponente, sem lutar, sem dizer nenhuma palavra — nenhuma das que mantinha engasgadas na garganta, o impedindo de respirar- e caminhou em direção à saída da propriedade da prefeita, em passos lentos e quase calmos, deixando para trás sua alma. Tudo o que conseguia pensar, embaixo do espesso capuz, era na sensação de ter o pescoço dela sendo esmagado sob seus dedos – o mesmo lugar onde tantas vezes beijara com amor e paixão, sentindo a deliciosa sensação da pulsação periódica do coração sobre seus lábios.

Robin se tornara um monstro, afinal, e esse era o ponto: saber a verdade sobre Regina, sobre tudo o que ela fez e amá-la mesmo assim, o fazia sentir-se um monstro. Porém sem ela, agora ele sabia, sentia-se morto.

Notas finais
Aguardo ansiosa as opiniões sem as quais não consigo prosseguir. @Nat_Zurc