I ran away

14 Indulto.


Notas iniciais
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A pedra submergiu no mar calmo formando arcos concêntricos seguidos de ondas. Regina sorriu quando a água bateu em seus pés descalços e preparou-se para a segunda pedra. Dessa vez uma rocha ainda maior emergiu do fundo da água azul-acinzentada daquele litoral cênico; formou-se um enorme chafariz.

Merlin observava a cena à distância: Regina estava sentada no píer que adentrava o atlântico – como era típico nas praias do Maine – arrancando e depois devolvendo enormes pedaços de rochas do fundo do oceano. Em uma incrível demonstração de magia. Um perfeito retrato do contraponto entre poder e fragilidade.

Antes de seguir até lá, ele próprio retirou uma rocha do mar e a manteve no alto. Ele pensou, limitado ao que via, que talvez Regina estivesse muito brava, pelo o que acontecera entre ela e o rapaz arqueiro, se esse fosse o caso, corria grande risco de uma daquelas pedras voarem em direção a ele. Mas Regina sorriu e o mago se aproximou mais.

Ela tinha o rosto tranquilo e leve, feliz até... Se você não a conhecesse o suficiente para ler um sofrimento secreto, ofuscado em qualquer canto de seus olhos castanho-amarelados – pela luz do sol. – Merlin sentou ao lado dela e sorriu melancolicamente. Ele era do tipo que a conhecia o suficiente.

– Você gostava disso quando criança. – O mago liberou sua rocha sobre o mar e houve um barulho agradável de água ricocheteando. – Embora naquela época as pedrinhas não tivessem mais de dez centímetros... E você usava as mãos. – voltou a sorrir, agora com mais saudade que melancolia. Regina o encarou de modo calmo.

“Esses malditos e doces olhos azuis”. Regina pensou e depois deixou que o grande pedregulho mergulhasse de volta ao seu lugar. Aquilo era bastante cansativo e ela começava a se sentir cansada, mas estivera sentada ali e não sairia até que sua condição fosse de exaustão. Ainda eram dez horas da manhã do quarto dia desde que Robin se fora... Ela não conseguira dormir muito desde então, sua casa estava mal assombrada com a presença dele; sua cama, em particular: grande e fria demais.

– Acho que você precisa dormir, querida. – Merlin podia ver a olheiras aprofundando-se.

– Eu sei. – Regina disse e o mago não esperava que ela fosse admitir.

– Sinto muito, pelo o que aconteceu... Com o rapaz... – ele parou, como um soldado que, subitamente, percebe ter pisado em uma mina. O mago pode ver alguma coisa nos pensamentos dela. Uma espécie de escuridão assustadoramente perigosa. – ... Desculpa. Não é da minha conta.

– Nós vamos sobreviver. – Regina balançou as pernas livres fora do píer, com seu jeans dobrado até os joelhos e sorriu sem humor. Ela experimentava um estado mental que se aproximava muito do alívio. Robin sabia a verdade. Por tanto tempo o medo de perdê-lo subjugara seu consciente e subconsciente que agora uma boa parte dela sentia-se livre. – Achei que quando acontecesse... Quanto ele soubesse a verdade sobre mim... Achei que a dor me mataria.

– E terminou não sendo tão ruim assim?! – Merlin especulou, mantendo-se educada e precavidamente, longe dos pensamentos dela.

– Foi ainda pior! – Ela parou, contraindo os lábios, lutando contra algum choro eventual. Merlin teve certeza de que devia estar sendo pior que a morte. – Mas eu permaneço viva... Como uma bactéria resistente a antibióticos...

– Não fale assim! – O mago a interrompeu de cenho franzido. Os olhos duas pedras azuis cristalinas. – Fala como se não houvesse pessoas que a amam. – Houve silêncio depois, enquanto ele ponderava sobre lhe contar o que sabia. Até decidir que devia isso a ela: – Ele ama você, Regina. Sabe que eu posso ver...

– Ele ia me matar... Um segundo e eu estaria morta. – A voz dela cheia de mágoa foi ficando mais baixa até a última palavra sair apenas como um sussurro rouco. – Não o culpo... O que eu fiz...

– Regina?! – Merlin a chamou, livrando-a da tendência de reviver o terrível drama. – Eu sei. Eu vi. Nos pensamentos dele. O garoto não pensa em outra coisa. Repetindo a cena mil vezes. Nunca vi um ser tão perturbado. – ele parou por um segundo, porque ela estava começando a chorar — Sua dor, minha querida menina, não chega nem perto do inferno que Robin está vivendo.

Um silêncio de palavras prolongou-se por um longo tempo, embalado por sons naturalmente comuns à costa litorânea. O mar tocando as colunas de madeira do píer, um tímido vento balançado a calha das árvores mais altas e um casal de gaivotas barulhentas. Merlin esperou até que Regina parasse de chorar e quando ela o fez, pareceu precisar ainda mais de umas longas horas de sono. “Obrigada!”. Regina dissera a palavra aleatoriamente em uma voz novamente contida e calma. De onde ela tirava essa força toda? Ele era incapaz de saber, sempre fora.

– Quando eu fugi aquele dia... Eu estava sendo um covarde. – A voz de Merlin soou nervosa, a voz de alguém que ensaiara o mesmo discurso mil vezes. – Uma profecia chegara até mim naquela época... Mostrando parte do seu futuro... De quem você estava destinada a ser. Eu mal pude acreditar. Não parecia possível que a pequena Regina, minha pequena Regina, fosse predestinada a causar tanto sofrimento. Você sorria para mim ao lado das macieiras quando eu dei uma última e desesperada espiada no seu destino. Tudo o que eu vi foi dor e escuridão. Uma escuridão tão profunda que atravessava minha alma. – Ele respirou fundo e ignorou os olhos arregalados de Regina. – Eu fui tomado por um medo tão primitivo e egocêntrico. Aquele destino, com certeza me afetaria se eu permanecesse ao seu lado. E então eu fui para o mais longe possível, voltei para Camelot e me escondi lá durante todos esses anos. Dizia a mim mesmo que não devia nada a você. Porque você não era minha filha, embora sua mãe tenha me feito acreditar nisso durante muito tempo, tempo o suficiente para que eu te amasse como tal. Cora era... – Merlin interrompeu a frase, não queria falar sobre a Cora. Regina tinha suas próprias mágoas a respeito da mãe, não fazia sentido acrescentar mais nenhuma. – O tempo passou e a profecia cumpria-se tão certa quanto um calendário. Enquanto minha fama de poder e de coragem corria os mundos. “O destemido Mago de Camelot. O grande e poderoso bruxo de Arthur. Ele viaja os mundos sem portal”. E por aí vai. Mas nós dois sabemos quem eu sou realmente: sou o cara que fugiu como um rato assustado de uma garotinha, a quem ele amou quase até a morte e, por isso, ela passou por coisas terríveis... Essas coisas, Regina, são maiores do que nós. Isso de se está predestinado... Mas nunca vou poder justificar o que eu fiz.

Regina estava desperta apesar do sono, seu rosto pasmado, ouvindo o discurso que por vezes sonhara em ouvir. Uma explicação, mesmo que fosse tão superficial e direta quanto essa... Ela sempre precisou saber o motivo. Não se lembrava de algum dia tê-lo visto falar tantas palavras assim e, com certeza, nunca em um só fôlego nervoso. De repente, tinha esquecido onde estava e, sentiu-se novamente a criança magoada que Merlin deixara para trás. Simples assim, ele era um covarde. Mas ela também havia sido durante sua trajetória vingativa; tantas vezes que não podia contar.

– Eu sempre soube que voltaria para ver você. Antes eu julgava que era apenas por egoísmo, por não conseguir conviver com minha autoimagem de covarde. Pensava nisso todos os dias, nem que fosse por um segundo, imaginava encontrar uma maneira de fazer você me perdoar. Eu precisava do seu perdão para fazer as pazes com a minha consciência. – Merlin olhava fixamente nos olhos dela. – Porém, no momento em que sua magia me tocou naquele dia, no dia em que voltei... Percebi que nunca estivera tão errado a respeito de meus sentimentos, porque não se tratava de egoísmo... Vir aqui proteger você de Hermes. Quando a vi, a mesma garotinha de anos atrás, descobri que eu ainda a amava, talvez ainda mais agora. Porque ela havia sobrevivido, sem mim, sem ninguém... E se tornara magnífica em intermináveis aspectos. – Ele colocou a mão na parte interna de seu longo casaco de frio e retirou algum objeto pequeno. – Ainda preciso do seu perdão! Mas não preciso mais disso. – Merlin colocou uma ampola de vidro na mão de Regina. Ela analisou e soube de imediato, pelo tipo de recipiente, que se tratava de uma Porção. – Bem... Eu poderia dizer que isso aí é uma Porção rara, mas nesse caso, a palavra “única” se encaixa melhor. E é sua agora!

– O que ela faz? – Regina ainda se recuperava do choque que o monólogo dele causou.

– Eu a fiz, em um dos dias difíceis de conviver comigo mesmo. Ansiava seu perdão e como não conseguia imaginar nenhum discurso bom o bastante para explicar o inexplicável... Pensei que se você vivesse tudo a respeito do medo que eu senti e tudo o que ele me tirou, talvez pudesse entender... – Merlin mordeu os lábios e Regina teve a impressão de que ele estava ficando mais jovem, ali, diante dos seus olhos.

– Está me dizendo que alguém pode viver a vida de outra pessoa através dessa porção? – Regina arqueou uma sobrancelha, incrédula. Ela ouvira lendas a respeito de porções Reflexio.

– Sim. Mas não só uma pessoa. Tem que ser duas para funcionar. É uma Imitatio Reflexio – Merlin parou e suspirou. – O motivo de estar dando isso para você... – Ele escolheu bem as palavras — Você está mudando, Regina, posso sentir, posso ver. Todos podem! – Os olhos dela saíram do pequeno frasco e voltaram-se para os dele, especulando a verdadeira profundidade da última frase. – E, ao contrário do que pensa, não tem mudado por causa de Henry, Roland, muito menos por causa de Robin... Não é por nenhum deles. E sim por você! Tem mudado porque a Rainha Má está cada vez mais fraca dentro de você. Agora ela é só um borrão lunático e defensivo...

– Aonde você quer chegar? – “Fica longe da minha cabeça!”, ela diria a seguir.

– Quando decidi que iria consertar as coisas, mesmo sabendo que seria tarde demais... Comecei a busca pelo perdão principal: o seu. Significa minha redenção e é provável que eu nunca o consiga, porém sempre será meu ponto de partida e... Você tem o seu próprio ponto de partida.

Regina ficou sentada por alguns minutos, olhando o mar, depois levantou e caminhou calmamente, se afastando o píer. “Preciso dormir!”, ela se limitara a dizer. E realmente precisava. Durante todo o percurso, depois de tudo que ouvira, não conseguiu pensar em mais nada – talvez ela tenha pensado um pouco sobre Robin está sofrendo, porém em um estado de inconsciência que beirava o sonambulismo. – Adormeceu, por fim, em sua cama, ignorando todos os fantasmas.

_____

Robin arqueava-se tenso, sentado à mesa, seu rosto desenhado no brilho opaco da luminária, a mão direita aberta sobre as têmporas, apoiando todo o peso de sua cabeça. Estivera cochilando por um minuto, ou talvez dois, impossível dizer com certeza. Era provável até que ainda estivesse dormindo, enquanto, no interior escuro de suas pálpebras, observava a réplica exata do rosto de Regina. Uma caprichosa e recorrente imagem, que vinha assombrando seu subconsciente. Às vezes ela estava apenas parada e sorridente, olhando-o, em algum lugar que ele não conhecia. Outras vezes ela estava nua, deitada sob os lençóis brancos de sua cama, com uma expressão convidativa e provocadora, a pele ridicularizando a maciez da seda dos lençóis. Essa era sua favorita. Mas havia as vezes que ela surgia com uma voz estranha, desdenhosa e fria, com os olhos gélidos e um sorriso que faria qualquer monstro que se prezasse, esconde-se de volta em sua toca.

No entanto não importava como sua memória – ou imaginação – evocava Regina, tudo sempre terminava do mesmo jeito. Com os dedos dele, em um estrangulamento vigoroso, sobre o pescoço dela e a sensação sempre lhe causava um enjoou exasperado, do tipo que trás a mente a frase: Dessa vez eu vou vomitar!

A porta da delegacia bateu fortemente, o vidro da porta continuou a balançar por alguns segundos depois, Robin pulou da cadeira e colou-se de pé, saindo de seu entorpecimento como um zumbi. Os olhos verdes de Emma fitaram-no numa recente, mas já familiar hostilidade. Ela ainda o culpava pelo estado de pânico prolongado que Henry entrara quando viu Regina coberta de sangue, apesar de está tentando se convencer de que Robin era a vítima.

No dia em que Robin soubera a verdade sobre Regina, Henry encontrara sua mãe deitada no sofá, o pulso dela pendia para fora, escorrendo sangue vermelho vivo sobre uma poça de sangue mais escuro. Por um instante incalculável, o garoto esperou, à distância, que ela se movesse. Mas Regina permaneceu imóvel. “Ela está morta. Ele a matou!”. Uma voz cruel sussurrava secretamente, ao mesmo tempo em que outra voz gritava. “MÃE! MÃE! MÃE, POR FAVOR!”. Emma chegou por volta de cinco minutos depois e encontrou o filho sentado no chão ao lado do sofá branco manchado de vermelho; sua mão apertada com força ao redor do pulso de Regina; a cabeça levemente encostada e os olhos paralisados na expressão pálida a sua frente. Ele não chorava, não até ver a Xerife entrar pela porta, depois disso começou com um choro abundante e sem lágrimas, apenas soluços nervosos. “Ajuda ela, mãe!”. Henry afastou-se quando sua mão foi substituída. Emma notara que o corte era profundo e vertical demais para o próprio bem de Regina. “Meu Deus!”. Ela poderia morrer ali, sangrando até a última gota. Um frio subiu pela espinha de Emma.

– Precisamos de policiais acordados aqui, Robin. – Ela colocou o café que tinha nas mãos sobre a mesa dele. – Já pode ir para casa. São quase nove da noite. – Na segunda vez a voz de Emma fora amigável, tentando reparar o desconforto gerado. Mas Robin não percebeu nenhum dos dois tons, seus pensamentos voltaram-se para Roland. “Nove horas?!”.

As coisas não andavam muito fáceis com Roland, o garoto não havia dito nenhuma palavra desde a tarde de quatro dias atrás. Não falava mais com ele nem com ninguém. O último diálogo entre pai e filho fora um pouco mais que catastrófico. “Você não vai mais vê-la. Entende? Ela não é quem nós pensávamos. Ouviu?! Nunca mais chegue perto dela!”. Robin gritara e sacudira Roland, com vitalidade. Ainda que depois o tenha abraçado e pedido desculpas dezenas de vezes, nada fora atenuado. “Não importa!”. Havia sido a última frase de Roland, dita com uma voz infantil, chorosa e magoada, em seguida a criança usou sua bombinha broncodilatadora que estava sempre no bolso esquerdo de seu casaco. Regina nunca a esquecia.

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Enquanto Robin saía pela porta da Delegacia de Polícia de Storybrooke e caminhava até seu quarto do Granny’s Diner, Regina acordava de um longo sono sem sonhos. Embora ela ainda sentisse aquele profundo desespero toda vez que qualquer coisa a fizesse lembrar Robin, fisicamente, sentia-se ótima e com fome. O que era bom, porque mal podia recordar sua última refeição.

Regina usava preto, exceto por um cachecol azul-marinho e a faixa branca que, sutilmente, ainda cobria seu pulso machucado, como uma pulseira pouco ornamental. Ela parou no alpendre de sua casa e inspirou fundo, se arrependendo em seguida: o ar congelante fez a expiração sair acompanhada da típica fumacinha – suspensa no frio – de noites como aquela.

Sentia a mente trabalhar a mil, como se houvesse um pequeno parlamento de ideias ponderando a cerca do que fariam a seguir. A discussão em sua cabeça estava agitada, vozes, memórias e sentimentos faziam parte das principais oposições, mas Regina era monarca absolutista por natureza, o que significava, naqueles termos, uma decisão sem volta. “Eu quero fazer isso!”. Dissera em voz alta e o som pareceu meio estridente de ansiedade. Ela entrou em seu carro, por fim, dirigindo-se ao seu “Ponto de Partida”.

O percurso até o Granny’s Diner fora tão rápido que o aquecedor do carro não teve a menor chance contra a gélida atmosfera à qual Storybrooke permanecia envolvida. Ela parou o automóvel do outro lado da rua, a uma distância suficientemente boa para ter uma panorâmica geral da pequena vitrine do café, sem chamar a atenção. Regina caminhou até a porta esquerda do carro e encostou-se, esperando que sua própria coragem começasse a agir e lutando contra o percevejo do medo que zunia tentando impedi-la de continuar. “E se Robin aparecer? Vê-lo será mais doloroso do que você pode aguentar!”. Contudo, não foi Robin o primeiro a entrar no seu campo de visão.

Roland sentou-se à mesa mais próxima da vitrine da lanchonete, depois Mary Margaret: os dois estavam dobrando guardanapos de papel ao lado da porta de entrada. Regina sentiu primeiro alívio por ver Snow White – tinha vindo ao lugar certo – em seguida sentiu uma grande e aguda falta de Roland, seu pequeno e gentil Roland. Porém, agora era muito provável que ele não a amasse mais, não depois de Robin ter-lhe contado toda a verdade. “Ela é uma bruxa, Roland!”. Regina pode ouvir a frase em sua cabeça com a perfeita imitação da voz de Robin no mesmo momento em que uma tristeza profunda e assustadora tomava conta dela. Teve a certeza de que estava sozinha em todo o universo e, sabia com enorme experiência que não importava o quanto Henry a amasse, ele também a deixaria. Todos os que a amaram – ou afirmaram amar – um dia o havia feito. Entretanto, apesar de suas desesperanças, ainda precisava ter certeza quanto a Roland.

O garoto estava compenetrado e quieto enquanto dobrava um guardanapo em uma diagonal não muito perfeita. De repente, o papel guinou para fora de suas mãos e dobrou-se, transformando-se em um origami de passarinho que voou por um instante curto até se chocar contra a vidraça, caindo em forma de confetes no chão. Roland estava de pé e com a expressão mais perplexa que assustada. Mas quando viu a figura parada do lado de fora seu rosto se iluminou em um sorriso tão largo quanto possível, o que era, àquela altura, muito estranho: sorrir depois de tanto tempo.

Talvez tenha demorando apenas um segundo até a porta do Granny’s balançar com seu sininho barulhento e Roland correr para fora dela em direção à moça parada do outro lado da rua. Regina repetiu o gesto feliz dele e abriu os braços também, alcançando a criança. Roland lançou-se naquele colo em um abraço apertado, escondendo seu rosto nos cabelos dela. Ela tinha o cheiro mais agradável do mundo.

O sino da porta soou novamente e Regina podia ver, por sua visão periférica, a grande sombra da capa de Robin formar-se na frente das luzes do Café. Seu coração trepidou a uma velocidade alarmante e ela protegeu-se fixando o olhar exclusivamente no rosto de Roland e concentrando-se na respiração dele que ofegava ansiosamente. Por um instinto quase mecânico, ela procurou pelo remédio que o faria respirar melhor. E o encontrou.

– Por que você demorou tanto? – A voz soou abafada e doce. Ele passou a mãozinha sobre a face dela, como fazia sempre, depois a abraçou outra vez. – O papai disse que eu não ia mais ver você... Mas eu sabia que...

– Desculpa ter demorado... – Ela o interrompeu. – Eu senti muito a sua falta!... Não chore... Por favor. – Regina voltou a abraçá-lo. Roland fungou e limpou as próprias lágrimas.

Robin, do outro lado da rua, encarava o asfalto como se estivesse observando um oceano perigoso no qual não pudesse atravessar. Mary Margaret estava ao lado dele, de olhos inexpressivos ao assistir a cena do abraço entre Regina e Roland. Sua madrasta amava profundamente aquela criança e isso era óbvio o bastante para fazê-la sentir a antiga fagulha de dor que fora tão viva na sua infância. O sentimento fruto da rejeição, da culpa, do medo e do ódio que havia sido submetida durante a maioria de sua vida como Snow White. De certo modo, uma parte dela seria para sempre aquela criança tola, correndo pela floresta escura em busca de uma nova chance, procurando desesperadamente na noite fria qualquer maneira de consertar o que tinha feito à boa moça que salvara sua vida. Sua ingenuidade condenara alguém bom e doía saber que não havia nada que ela pudesse fazer quanto a isso: nunca ajustaria o passado e Regina nunca a perdoaria.

– Você pode buscar ele? – Robin tinha a voz bastante rouca e apelativa. Mary Margaret perguntou-se sobre qual teria sido a última vez que ele dormira. Estava com a aparência péssima.

– Dê um tempo a eles, Robin... – Mary Margaret lançou seu habitual sorriso doce. – Roland está falando. Isso é um bom sinal! Qual foi a última vez que ouviu a voz dele?

Os dois esperaram. Robin mantinha-se exageradamente atento, evitando olhar para Regina sempre que podia, mas não estava tendo muito sucesso nisso. Porque ela se destacava no cenário. O rosto insuportavelmente lindo, com olhos brilhantes como um âmbar escuro, escuro o suficiente para esconde qualquer segredo em seu interior.

O tempo de Roland e Regina acabara quando Mary Margaret atravessou o oceano e resgatou o filho do arqueiro. Nesse momento, Regina olhara para Robin. Em um curto e desesperador instante os olhos deles se encontraram. Naquele exato segundo eles pertenceram ao mesmo vazio e ao mesmo destino obrigatório, como uma ligação estática e viva. Era o olhar sigiloso dos companheiros eternos de uma mesma vigília.

Foi perturbador para ambos.

– Posso falar com você? – A voz de Regina soou firme por puro hábito, mas sua expressão implorava um “sim” de Mary Margaret. Robin já havia fugido para o interior do Granny’s Diner com Roland no colo.

Mary Margaret assentiu e ambas entraram no carro.

Não era muito sensato da parte de Snow White ficar a sós com Regina, dentro do carro dela, enquanto ela dirigia livremente pela estrada norte, completamente cercada de floresta. Isso só ocorreu a Snow quando elas estavam longe o bastante para as luzes de Storybrooke serem confundidas com vagalumes na escuridão e as janelas do carro terem se transformado em quadros negros. Havia as pequenas luzes do painel e as poderosas luzes dos faróis, entretanto nenhuma delas trazia conforto. Tudo o que iluminavam era ainda mais assustador que o próprio escuro: às do painel transformavam o ambiente interno em uma meia penumbra, deixando o rosto de Regina parcialmente a mostra, com sua pele branca e expressão fria. E às luzes do farol iluminavam vagamente o caminho que não parecia ter fim.

O carro parou. Ainda que Snow achasse que haviam parado aleatoriamente no meio do nada, Regina sabia exatamente onde elas estavam. O lugar era próximo ao mar do lado direito e não muito distante do limite oposto da cidade. Era um lugar seguro e solitário. Ninguém costumava frequentá-lo, exceto alguns caçadores.

– Então... Essa é a hora que você me mata?! – Snow disse tentando quebrar o silêncio, mas sua voz foi mais preocupada que divertida, mesmo forçando um sorriso.

Regina não sorriu, apenas ligou a luz. O que foi um grande alívio para as duas. Havia uma profundidade tão inédita nos olhos de Regina que Snow perguntou-se sobre o fato de ser a mesma pessoa. Não era a mesma pessoa. Nenhuma das duas era.

Um elo profundo e sério as unia: para começar, uma havia destruído parte da vida da outra e a mágoa se arrastou a proporções inimagináveis. Ambas perderam muita coisa no caminho até aquela noite. Contudo, por fim, depois de tantos anos, as coisas haviam se atenuado. Emma estava de volta e Snow teria tempo com ela, tempo para provar o quanto sentia por tê-la abandonado e tinha Charming a acompanhando nessa jornada. A vida era boa novamente! Regina, por sua vez, havia reencontrado o amor. O havia provado de uma maneira diferente e indefinível, alguma coisa que Daniel jamais poderia lhe dar. Não. Aquele amor era exclusividade de Robin. E ainda que ela o tivesse perdido, fizera por conta própria, por covardia própria, Snow estava isenta dessa culpa. E existia o Henry, para as duas.

Regina retirou um pequeno frasco transparente de dentro do casaco e mostrou sobre a palma da mão para Snow White. “Nitroglicerina!”. Seria o pensamento mais óbvio se seu inimigo tirasse um líquido de dentro do bolso, a não ser que seu inimigo fosse um bruxo poderoso, aí então não há pensamentos óbvios e sim possibilidades infinitas.

– Eu ganhei isso de presente... Merlin! – Regina pareceu hesitar antes de continuar. – É uma porção Imitatio Reflexio... Elas são muito raras e muito fortes... – vez uma pausa e resolveu ir direto ao ponto. – Isso significa que funciona apenas se duas pessoas usarem... O que acontece com uma, acontecerá com a outra.

– O que ela faz? – Snow a interrompeu em uma ansiedade incontida.

– Eu sei o que Merlin me contou então... Ela pode me fazer ver a sua vida, através das suas memórias. Eu veria a parte que você mais lembra e passaria em branco pelas que você esqueceu e, você...

– Viveria a sua!

– Essa é a ideia. – Regina mordeu os lábios enquanto observava Snow encontrar o sentido real de fazerem aquilo. – Olha, eu não posso pedir que você faça isso... Mas eu também não posso pedir perdão antes que você entenda. – A palavra “perdão” ecoou sem acepção na cabeça das duas.

– Isso seria... – “Horripilante! Terrível! Assustador!”. Snow teria dito, mas não o fez. Aquela era uma oportunidade impar de entender e ainda melhor, de fazê-la entender tudo o que fizera. Ela repetira debilmente: – Isso seria...

– Terrível! Eu sei. Sei também que seria pior para você. – Lá estava Regina superestimando seu próprio sofrimento. – E é por isso que não estou pedindo que faça isso. Não estou... Só precisava que você soubesse... Que a alternativa existe.

– Se eu dissesse sim, você faria? Você estaria disposta? – Antes de Snow terminar, Regina assentiu. “Quem é você e o que vez com minha madrasta?”. Snow endireitou-se no bando e encarou a escuridão. – Quanto tempo duraria? – Ela lembrou-se da última vez que usou uma porção e da dor quase insuportável. – Vai doer?

– Algumas horas, talvez... Não tenho certeza. Também não sei se vai doer... Não fisicamente.

Já passava das onze da noite agora. Ambas ficaram em silêncio por muitos minutos, sentadas e congelando, embora nenhuma das duas percebesse isso. Cada uma perdida em seus próprios pensamentos.

– Eu perdoou você, Regina! – Snow White tinha a voz clara e tranquila quando falou novamente. Mas Regina a olhou como se não a tivesse ouvido. – Eu estou o tempo todo tentando perdoar você. Toda vez que sinto o que você me fez, tento te perdoar por isso. Quando olho para o rosto da minha filha, com a mesma idade do meu, tento perdoar você. Todo esse tempo que perdi, ou que ganhei... – Ela suspirou e prosseguiu. –... E a maioria das vezes eu consigo... Perdoou você! – Snow White estava quase chorando quando disse a última frase. – Então eu quero fazer isso! Porque preciso que me perdoe também... Eu realmente preciso que você veja as coisas da minha perspectiva e entenda.

“Entender” era a palavra chave que parecia mudar tudo. Simples assim. Apenas três sílabas e nada poderia ser mais significativo que en-ten-der.

– Você tem que saber... – Regina parou, de repente, lembrando-se de seus motivos, alguns deles seriam dolorosos demais para a princesa. – Snow, existem coisas bastante desagradáveis na minha vida. Talvez mais do que você possa imaginar. – “Na minha também!”. Snow quase dissera, porém deixou que Regina continuasse. – Coisas que poderão ser fortes demais... A verdade... – Regina tremeu, mas não de frio. – Sobre o seu pai, Snow White! Se você viverá minhas memórias principais então... Precisa saber que não será fácil.

Os olhos de Snow permaneceram atentos, inocentes e curiosos, embaixo do seu cenho franzido.

– Quero fazer mesmo assim! Não tenho medo de você e não tenho medo das suas memórias. – Snow sorriu timidamente com a provocação e depois Regina a acompanhou. Um riso de puro medo.

Entretanto elas estavam prontas. Regina colheu uma de suas próprias lágrimas com o vidrinho da porção, depois uma das muitas lágrimas de Snow. “Vamos nessa!”. A princesa dissera com voz trêmula tentando contornar o nervosismo.

Regina levantou as duas mãos e olhou para fora por um tempo. Era claro que estava conjurando alguma magia, mas Snow não perguntou.

Quando colou o líquido azulado no olho pode sentir o poder de Merlin percorrer seu corpo, em seguida foi a vez de Snow e, no instante em que a última gota tocou a segunda córnea dela, as duas apagaram. Instantaneamente. A Princesa pendendo para trás e Rainha para frente, debruçando-se sobre o volante.

A buzina estridente do carro ecoou por entre às arvores enquanto elas conseguiam o inimaginável: entrar na cabeça de seu maior inimigo.