I ran away
15 Abrigo.
Notas iniciais
O barulho de estática aumentou, o rádio da viatura policial parecia prestes a explodir. Merlin passou a mão pela velharia e o chiado acalmou. Robin não estava acostumado com aquilo e talvez nunca se acostumasse, mas naquele caso, sentiu-se grato por magia existir. A voz de Emma que vibrava do outro lado pode ser ouvida com perfeição:
“ROBIN, TÁ OUVINDO? ROBIN.”
“AGORA SIM. PODE REPETIR? EMMA.”
“TRÊS PESCADORES OUVIRAM UM BARULHO ESTRANHO ONTEM A NOITE. TALVEZ UMA BUZINA. PARECIA VIR DA FLORESTA NO LADO NORTE. ESTAMOS INDO VERIFICAR. ROBIN.”
“ENCONTRO VOCÊS. DESLIGO!”
A mão do arqueiro tremeu quando ele desligou o rádio. Merlin o havia garantido que Regina estaria bem, mas as pessoas que ajudavam na procura pela princesa pareciam dispostas a alterar esse quadro se preciso. Havia um grande grupo de pessoas na legião de resgate a Snow White e, estava claro, para a maioria deles, que Regina finalmente concluiria sua vingança final se não fosse impedida. Impedida de qualquer maneira.
O mago deixara claro a todos que se as encontrassem e elas estivessem dormindo, não poderiam ser acordadas sob hipótese alguma. Coisas horríveis aconteciam a pessoas que eram acordadas no meio de uma Porção Reflexo, loucura e morte eram as mais tênues delas. Por isso Regina e Mary Margaret esconderam-se, ele supôs.
“Aquela bruxa pegou Snow White! A verdadeira herdeira do trono da Floresta Encantada... Nossa princesa... Vamos resgatá-la!” – Leroy gritara para uma dúzia de homens armados no centro da praça. Robin sentiu os olhos arderem com lágrimas ao lembrar e disse furioso a si mesmo, que mataria todos se Regina fosse tocada. Compulsivamente ele calculou quantas flechas precisaria até que todos estivessem mortos.
– Porque ela está fazendo isso? Porque usar essa porção? – Robin falava baixo e rápido, como se contasse um segredo grave ao homem de terno sentado no banco ao lado.
– Terá que perguntar isso a ela, meu jovem. – Merlin sorriu tranquilamente e voltou a assistir ao sol nascer por entre as árvores, era uma pena que elas o estivessem impedindo de ver a grande bola de fogo nascendo sobre o mar.
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Emma estava na estrada, ao lado de seu fusca amarelo, de mãos estendidas indicando o outro lado. Robin parou a viatura e saltou dela tão rápido quanto possível. Viu o carro de Regina, entre o acostamento de cascalho e a floresta. Seus olhos tinham uma agitação insana, enquanto ele caminhava a passos tão largos a ponto de fazer seu caminhado parecer engraçado. David jazia próximo ao automóvel em uma pose estranha e improvável; ele parecia se apoiar em alguma coisa, mas não havia nada para apoiá-lo. “Merlin?!”. Emma gritara assim que o senhor descera do carro e um instante depois Robin entendeu:
Havia entre eles e elas uma membrana invisível e forte, protegendo um curto perímetro de qualquer invasão. – Uma excelente ideia caso você, premeditadamente, resolvesse desmaiar na floresta. – As duas mulheres dentro do carro pareciam ter sofrido uma espécie de impacto, pela posição que estavam. Não fosse, é claro, pelo cromado intacto do automóvel que atestava nunca ter sido arranhado.
– Feitiço de proteção! – Os olhos azuis de Merlin iluminaram-se de orgulho. E três pares de outros olhos o fitaram com incredulidade.
– Abre isso! – Robin gritou para o Mago e chutou a redoma firme. A velha fúria que surge antes do pânico completo. Ele não via o rosto dela e nos recessos mais sombrios de sua mente podia vê-la morta: com uma flecha no coração ou com marcas profundas de dedos no pescoço: estrangulada até o último suspiro. “Conseguiu o que queria, Hood?”. A voz de Regina em uma versão Rainha Má soou em sua cabeça.
Agora ele estava em pânico!
Merlin ignorou Robin, Emma e David, como um velho catatônico. Não ia destruir uma coisa como aquela, primeiro porque parecia um crime tão grande quanto queimar a Capela Sistina e depois ele levaria mais tempo tentando do que as garotas lá dentro levariam dormindo. Regina era forte! Sua magia era forte e ninguém, além dele, poderia sequer trincar uma proteção assim. Hermes poderia, claro, mas esse não era o caso.
O sol já havia nascido completamente – e se escondido em nuvens cinzas, carregadas de neve – quando o primeiro sinal de vida sob a redoma pode ser visto, ou nesse caso, ouvido. Um gemido lento e grave seguido de um choro compulsório e cheio de soluços. Era Mary Margaret acordando. David batera na estrutura invisível e gritara o nome dela. A moça não estava bem e isso ficou ainda mais claro assim que a porta do carro se abriu e ela arrastou-se para fora com mãos e joelhos roçando pelo cascalho bruto. Snow sentou-se e chorou por mais um tempo, antes de vomitar pelo menos umas cinco vezes seguidas. Quanto mais perto do mundo real ela chegava, pior as coisas ficavam. Vomitou outra vez e abriu os olhos, finalmente. Não viu nada além de uma penumbra embaçada: podia ver Emma e David, talvez com expressões preocupadas, porém, eles ainda pareciam em outro mundo.
Robin a essa altura resumia-se a uma estátua de cera, com rosto indecifrável e olhos atidos na segunda figura sob a redoma. A figura inerte. Regina não se movia e Robin teve a sensação de que nada mais o fazia. As ondas do mar, o vento, as nuvens, a Terra e o próprio Universo... Nada se movia. “Por que ela não está acordando?”.
Entretanto, Regina voltava; mais gradativamente e bem menos agitada que Snow White. Ela levantou a cabeça e abriu os olhos, percebendo que o efeito da maldita porção ainda estava presente. Sua visão permanecia unida com a de Snow, de maneira que ambas viam tudo sobreposto. Era como está cega, só um pouco pior. Regina apoiou-se na porta e permaneceu em pé, segurando firme no metal frio. Não pode se segurar muito tempo, tudo girava ao redor, nada parecia real, exceto um peso esmagador sobre sua cabeça. Obviamente o feitiço protetor, mas ela não se lembrou dele. Caiu, por fim. Com um enjoou repentino e implacável agindo livremente, invalidando qualquer tentativa de reergue-se.
– Regina! – O grito de Snow fora histérico, muito próximo a um berro de corvo. – Ah, Meu Deus, Regina... Como eu poderia imaginar? Meu Deus! – Regina engatinhou de olhos fechados, pelo que pareceu um enorme percurso, até encontrar as mãos trêmulas e geladas da moça. – Eu sinto muito, Regina... Sinto muito que você tenha...
– Shhhhh! – Regina a interrompeu e a abraçou, agora mais ciente da plateia a espreita. – Eu também sinto muito, Snow... Sinto muito! – As palavras soaram estranhas até para a própria locutora, porém eram verdadeiras. Regina sentiu-se leve. Repentina e maravilhosamente leve. Não sentia raiva, não da mulher que abraçava e, tampouco da garotinha de uma vida atrás. Como se toda a raiva guardada por tanto tempo fosse apenas um troféu antigo que, um dia, significara muito, talvez tudo, só que agora estava velho e feio e não importava o quanto Regina tentasse, não conseguia lembrar porque ainda o guardava enquanto o lixo era seu destino mais óbvio e saudável.
As duas choraram. O perdão não era fácil. Qualquer vingança, por mais árdua que fosse ainda era mais fácil do que aquilo. Era invariável, para ela, que a raiva a tivesse escravizado por tanto tempo, trazendo medo, covardia e grande dose de loucura. A velha escolha entre o fácil e o certo. Aquela fora a primeira vez que Regina escolhera o certo e, apesar da terrível dor de cabeça, da gigantesca desolação que a última lembrança de Snow lhe trouxera, e da cegueira esdrúxula que a acometia, um orgulho próprio a acalmava. “Não por ninguém. Por mim!”. Ela pensou.
Para Snow, tantos anos haviam se passado – uma vida – até a moça que, um dia, salvara sua vida, voltar. Ela pode sentir e embora não visse o rosto de Regina, o imaginou como naquela tarde: um sorriso grande e cálido, olhos castanhos, mas não totalmente escuros, porque a luz do Sol tinha um jeito de agir sobre eles que os transformavam em cristais cor de caramelo. Era uma bela visão, do tipo que faria qualquer um sorrir em resposta, menos, claro, os demônios que cruzaram o caminho dela. Snow soluçou profundamente ao lembrar que seu pai era, talvez, o pior deles.
Regina retirou o feitiço de proteção e sua dor de cabeça diminuiu. Tão logo a redoma cedeu, as duas mulheres foram separadas. David arrancara Snow para seus próprios braços ao mesmo tempo em que gritava com desespero histérico. “O que ela tem? Querida?! Snow?! Meu Deus, o que essa bruxa fez com você?”. Sua esposa não estava muito mal e visivelmente a culpa pertencia a Regina. Quem mais?
Regina ouvia os passos de um número pequeno de pessoas — mais de duas, com certeza, porém não muito – ouvia também vozes com eco, sua audição ainda em sintonia com a de Snow transformava a maior parte em sons interferentes. Robin estava lá. Ela o ouviu e abriu os olhos, contudo, diante da inutilidade desse outro sentido, os fechou rapidamente. Bem a tempo de não ver nem mesmo uma névoa da cena seguinte:
– David! – O grito de Robin fora alto e amedrontador, uma versão humana para o rugido de um leão alfa. Mas a advertência chegara tarde ao objetivo. David havia avançado em direção a Regina, cego de raiva. “A culpa é dela!”. Regina sentiu duas mãos tocando-lhe os braços pesadamente, depois ela fora sacudida por um momento tão breve que pensou tratar-se apenas de mais um efeito colateral da porção.
As pedrinhas de cascalho tintilaram bravamente quando Robin puxou David pelos ombros e o empurrou tão longe quanto pode, foi como o som de um carro frenando emergencialmente. O arqueiro agarrou David com força irracional até que as mãos dele estivessem à distância segura de Regina, depois entrou na frente dela. Com o peito estufado e respiração ofegante, esperando pela volta de seu opoente e, tão certo quanto humanos são animais, David voltou e a briga entre amigos teria sido um duelo devastador se Emma não tivesse se colocado entre eles.
David não poderia continuar, não sem machucar a filha, então parou. Não fazia sentido algum brigar com um amigo por causa de Regina, ela não valia a pena.
– Vocês vão me ajudar a tirar elas daqui? Ou vão continuar... – A Xerife suspirou e interrompeu-se. Estavam todos magoados e cansados. Ninguém havia dormido em horas e os significados das coisas destorciam-se com facilidade. – Vamos apenas levá-las... Elas estão congelando. – Emma abraçou Snow e sussurrou alguma coisa em seu ouvido, alguma coisa como: “Você vai se sentir melhor quando acordar.”. Um instante depois Snow White caíra em um sono calmo e profundo.
Fazê-las dormir era uma ótima maneira de acalmar tudo, de dar tempo para a porção sair completamente de seus organismos e sem muito sofrimento. Emma olhou para Robin um tanto impaciente, ele estava parado meio aleatoriamente ao lado de Regina, mas não a tocava, nem sequer olhava para ela, sentada ali, com a cabeça baixa e olhos fechados. Por fim entendeu o aviso implícito no olhar da Xerife e segurou Regina assim que o sono a acometeu.
Segurá-la foi como levar um choque, como se uma enorme corrente elétrica tivesse percorrido o seu corpo naquele momento. Mas seu coração, por trás da fibrilação veloz, estava feliz. Exultante. Seu coração estava finalmente em casa. Ele a levou até a viatura policial, reparando, pelo caminho, que a floresta estava cheia de margaridas e trevos, como um tapete branco esverdeado com milhares de botões amarelos cobrindo o chão. Tudo tão lindo e vivo que quase o fez esquecer a tormenta dos quatro dias anteriores.
Merlin, nesse ponto, na pequena trama daquela manhã, havia sido um ótimo espectador, assistindo e só assistindo, com olhos arregalados e um meio sorriso orgulhoso, perspicaz e bastante irritante – Emma que o diga – a expressão perfeita de um cientista observando, finalmente, sua vacina curar um grupo de cobaias. Eureca!
Robin apoiou delicadamente a cabeça de Regina ao deitá-la no banco traseiro do carro, ainda sem ousar fixar os olhos no rosto dela. Em parte por medo da dor que isso lhe causaria e, em parte porque não precisava olhá-lo para vê-lo; pálido, lindo e plácido. E ele teria continuado a ignorá-la com o sucesso que um girassol costuma ignorar o Sol, porém, uma das pontas do cachecol azul-marinho pendeu fracamente para o lado, deixando parte do pescoço de Regina a mostra.
As mãos de Robin flutuaram trêmulas e desordenadas – livrando-a do cachecol como um policial libertando uma vítima de sequestro de sua mordaça – até que toda a prova do crime ficasse exposta. Foi devastador. Lá estava o pesadelo que tivera desde a última vez que vira Regina. Lá estava a marca do monstro: hematomas roxo-amarelados e amarelo-esverdeados, as formas dos polegares dele ainda estavam intactas, anatômicas, sobre a glote dela – com certeza a força fora maior ali –; mais atrás os indicadores, médios e anulares tocando-lhe escuramente a linha da nuca, havia aranhões também, quase completamente curados, causados pelas próprias unhas de Regina, que tentaram cavar lugar entre a mão do agressor e sua garganta.
Robin afastou-se, encostou-se ao metal congelante da viatura de polícia e observou a culpa agonizante tomar conta de quase tudo que restava de sua mente, deixando apenas um pequeno fio de sanidade só para que ele pudesse retomar a cena, em detalhes, cada segundo de dor que causara a ela naquele dia. E durante os dias que se seguiram. Toda vez que Regina olhara no espelho tivera motivos para lembrar o monstro que causara aquelas marcas. Robin ergueu a cabeça para o céu, com lágrimas escorrendo pela face e gritou.
Um grito lunático que fez Merlin pular de susto, Emma e David já tinham desaparecido no horizonte da estrada cercada de árvores, agora ele era a única testemunha da loucura de Robin. O rapaz não se deteve com a expressão assustada do velho e atravessou o acostamento com passos resolvidos até a extremidade da floresta, as margaridas sendo esmagadas por suas botas pesadas. Alguns pássaros voaram quando o punho direito de Robin chocou-se brutalmente contra o carvalho firme, a dor lhe subiu pelo braço como chamas de fogo ardente, mas ele não parou. Outro soco, um de esquerda, a madeira mal pareceu notar, a não ser pela pele e marcas de sangue que a tatuaram. Dor! Socou a madeira mais uma vez e outra e mais uma. Não podia parar, nem quando teve certeza de que sua mão havia quebrado.
– Pare! – Merlin exclamou o olhando com preocupação e descrença. – Você ficou maluco?! – Dessa vez foi um grito. Ele afastou Robin da árvore e o segurou, usando magia, claro. – Robin, eu juro por Deus que vou acordá-la se você não parar... Não precisa perder suas mãos só porque errou com ela. Acredite, eu sei o que está sentindo. Todos nós erramos... Regina errou com você também. – Merlin tinha o olhar complacente e infeliz. – Não quero que ela te veja assim, mas se for a única maneira, eu o farei. – O mago blefou e Robin pareceu imediatamente mais contido, se tivesse que encará-la assim, não suportaria. Depois era bastante provável que ela não o fosse perdoar e isso seria ainda mais insuportável. – Ela perdoará você, garoto. Despois de tudo o que você viu hoje, ainda consegue duvidar do perdão?
Robin não sabia responder a isso então ficou concentrado nas gostas de sangue que pingavam descontroladamente em suas botas, como um chuveiro quebrado. Suas mãos não pareciam muito com mãos agora, era como está usando luvas deformadas de cor escarlate.
– Eu jurei amor eterno a ela... Disse que não importava o que acontecesse... Que sempre estaria com ela. E o que eu fiz não tem perdão! – Robin falou com uma voz meio travada e bastante rouca, seu rosto coberto de suor, lágrimas e algumas gotas de sangue. Repetiu a frase em um sussurro: – Não tem perdão...
– Bem, isso é ela quem decide. – Merlin segurou as duas mãos machucadas do arqueiro avaliando os estragos. – Todos nós escondemos um monstro, meu jovem, o sufocamos dentro do submundo de nossas consciências. Você viu o dela e ela viu o seu. E... – o mago estendeu uma das mãos sobre as de Robin. –... E se vocês ainda se amam depois disso... Então é um amor forte. Como é mesmo que costumam chamar essa espécie? “Amor verdadeiro”... Acho que é isso. – O sangue começou a regredir diante dos olhos espantados de Robin e do sorriso franco do velho feiticeiro; em seguida a pele começou a se refazer, dolorosamente.
– Eu quase a matei! – Robin ainda estava magoado e assombrado com a ideia, porém, o discurso tranquilo de Merlin fizera nascer qualquer tipo de esperança viva que acalmava seu coração. – Não fosse ela ser a... – Engoliu em seco e parou, pela dor que sentia na cura mágica, ou por não querer pronunciar o resto da frase. –... Se ela não fosse quem fosse.
– Então que bom que ela seja quem é! Não acha? – Robin balançou a cabeça imediatamente, como uma criança. O mago sorriu largamente. A mão do rapaz já estava curada. – Sorte sua não ter quebrado nenhum osso. Consertar um osso é muito, muito doloroso, bem mais do que quebrá-lo. – ele se afastou um pouco, sorriu e voltou-se novamente para Robin. – Cuide dela. – Disse e transformou-se em uma fumaça azul que sumiu no ar um segundo depois.
Claro que ele poderia ter se afastado, mas transportou-se na frente de Robin. Já estava na hora do jovem se acostumar com magia. Porque a magia jamais deixaria Regina, assim não deixaria o mundo dele também. Merlin e sua enorme TV interativa.
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Regina acordou em casa, quando as luzes do crepúsculo começavam a tingir o céu de alaranjado. Notou imediatamente que não usava seu cachecol, talvez antes mesmo de notar que estava na própria cama. Isso trouxe certa ansiedade e confusão. Não se lembrava de muita coisa e, com certeza, não podia saber quem a tinha visto exposta, com aquelas marcas. Robin, provavelmente. Mas esperava que não.
“Só que ele é o responsável por elas... Por acaso alguém impediria Da Vinci de ver A Monalisa? Não. Então, que se dane!”.
Pulou da cama e tomou banho, estava um calor insuportável e estranho. Algum problema no aquecedor, óbvio, tinha neve lá fora. Ela desceu as escadas tão logo se vestiu, seu cabelo pingava água. Acendeu o maior número de luzes possível pelo caminho e mudou o marcador do calefator de 38°C para 20°C. Alguém estava tentando cozinhá-la! Regina lembrou-se do frio que sentira pela manhã, quando acordara na floresta e ficou grata por Emma ter certificando-se, bastante, a julgar pela temperatura do aquecedor, de que ela não morreria de hipotermia. Claro que havia sido a Xerife. Quem mais? “O que seria do mundo sem a Salvadora?”. Contudo aquele forno estava deixando-a seriamente nauseada. A neve lá fora pareceu bizarramente confortável.
O som das botas de Regina contra a madeira do alpendre não era o único som no quintal, mas ela não percebera de imediato. Antes, quando o baque frio do vento e da neve a alcançou, ela considerou fortemente voltar para o interior da mansão, só que o tintilar fino da corrente do balanço de Henry roçando periodicamente contra a barra de ferro, ficou cada vez mais alto. Não podia ser o vento. Regina o ouviu antes de vê-lo, em pé ao lado do brinquedo barulhento que o havia entregado. Robin mostrou-se ao alcance da luz branca do alpendre, com sua jaqueta de couro preta fosca e seus cabelos louro-escuros coberto de flocos de neve. Os olhos dele não olharam diretamente nos dela e, com a precaução de um visitante da Medusa, ele deu dois passos, aproximando-se. O primeiro impulso de Regina fora de fugir, esconder-se; aquele homem era uma das poucas pessoas no mundo que podia causa-lhe algum dano, ela não suportaria reviver tudo novamente, não o olhar de desprezo com o qual ele a olhou pela última vez. Mas, por fim, abraçou-se com frio ou medo, ou os dois e esperou.
Robin tinha o olhar torturado e sem jeito, hesitando mentalmente sobre o que falar, porque não havia palavras em inglês – em nenhuma língua – para o que ele precisava dizer, para fazê-la entender. Ele havia entregado sua alma Regina, entretanto, na primeira prova de fogo a jogou nas chamas e partiu enquanto ela queimava. Não existia nada a fazer quanto a isso, o tempo não podia voltar, esse era o motivo de não conseguir dizer o quanto a amava agora: já o tinha feito e falhara.
A respiração de Regina era ofegante e impaciente. Começava a sentir tontura com a sobrecarga de ventilação. Porém quando Robin começou a subir o alpendre sua respiração, subitamente, cessou. Ele ficou ali, parado, chorando, com olhos não verdes e sim cinza-nublados. Vacilando e jamais olhando diretamente para o rosto dela. Regina não sabia muito o quê pensar, exceto que era doloroso vê-lo com aquela aparência destroçada e doía ainda mais não poder ajudar.
Uma coruja gritou loucamente na noite já escura e os dois sobressaltaram-se.
– Você... – A voz rouca dele pareceu um milagre para Regina. Robin engoliu em seco, reprimindo o choro e buscou força no seu último estoque. – Você acha que... Um dia... Mesmo que demore... – Ele estava chorando agora. – Acha que... Algum dia poderá me perdoar? Pelo o que eu fiz a você? – Os olhos dele estacionaram nas marcas do pescoço dela. E as lágrimas silenciosas aumentaram.
Regina olhou ao redor por um segundo, checando se não era mesmo um sonho. Depois o encarou com o rosto sério e secretamente desconfiado. Robin ainda não parecia pertencer ao mundo dela. Onde estava a multidão com tochas e foices? Ela era uma bruxa má.
Incrível como o tempo pode ser subjetivo, cinco dias haviam se passado, com a velocidade de cinco séculos para ambos. Um prazo razoável para tanto segredo e um bocado de mentiras e omissões. Embora Robin não tenha demorado tanto para saber que seria impossível viver sem Regina. Não cinco dias, nem cinco minutos. Ele percebera antes mesmo de deixá-la sozinha, sangrando em seu quintal. “Não importa! Eu amo você mesmo assim”. Uma parte de sua alma gritou, mas foi sufocada pela parte orgulhosa e burra.
Um minuto havia se passado desde que Robin falara. Era hora de olhá-la, encarar seu rosto, caso contrário perderia sua última chance e, como ele suspeitava, não foi fácil: a expressão dela estava confusa, com cenho franzido, lábios levemente contraídos – sua memória não fazia jus aquela beleza, nunca fizera, agora ele via – os olhos escuros e brilhantes de lágrimas não derramadas. Os olhos que decidiriam o destino de um homem.
– Robin... – finalmente o milagre dele soou pela noite: a voz firme e clara da mulher que amava. – Fui eu quem mentiu. Eu escondi a ver...
– Não importa! Não importa quem você seja, ou foi, ou será, Regina... Não importa e agora eu vejo. – Os dois estavam chorando agora, Regina fechou os olhos como se ouvisse alguma melodia bonita. – Eu amo você, Regina! E se for preciso quebrar todos os padrões que me impedem de ficar com você, então eu quebrarei. Eu posso fazer! Eu não quero ser bom, Regina, não quero ser o herói... Não quero ser nada sem você. – ele esperou algum tempo, ponderando. E prosseguiu: – Robin Hood e Rainha Má sempre existirão nas nossas vidas, então me diga se você pode viver com isso...
Estavam tão próximos, a uns dois passos de distância, ambos partilhando a mesma angustia: precisavam tocar-se, caso contrário, suas almas abandonariam seus corpos e o faria por si próprias. Então eles se abraçaram, ficando parados por um tempo, apenas sentindo a deliciosa sensação de terem um ao outro. Tudo de volta! O ponto gravitacional, o cheiro, a pele, a familiar lagoa de larva, tudo sendo devolvido a eles em um único abraço.
Beijaram-se na imensidão escura de suas pálpebras fechadas e foi como flutuar no Espaço vazio e mergulhar no magma da Terra no mesmo instante. Depois de terem passado tanto tempo torturando-se por imaginar uma vida sem amor, aquele beijo tinha o sabor do primeiro gole de água depois de se atravessar um deserto.
Não falaram mais nenhuma palavra naquela noite, não precisaram. Não com a comunicação perfeita e cognitiva de seus corpos. Não enquanto faziam amor e adormeciam exaustos em seguida.
Robin e Regina, juntos, sentiam-se invencíveis e infinitos. A bela plenitude do Amor Verdadeiro que costuma esquecer e ignorar todo o resto ao redor. No caso deles, ignorando certo par de olhos azuis, lindos e cínicos, à espreita deleitosa, assistindo-os como um atroz masoquista. Para aqueles olhos sorridentes e cheios de poder divino – embora bastante demoníaco a sua maneira – Regina e Robin não possuíam nada de invencível e, tampouco, de infinito.
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