Notas iniciais
TT: @Nat_Zurc. Música: https://www.youtube.com/watch?v=kBdQXleZ8ow

A manhã da segunda-feira tinha uma neve tímida que se acumulava em pequenas manchas brancas nas folhas das macieiras e em todo o resto. Henry observava curioso e aturdido o rosto da mãe. Ambos na cozinha, a mesa tinha tanta comida que o garoto calculou que talvez nem dez pessoas pudessem liquidar tudo. Quem sabe eles teriam visita para o café. Só que Regina não parecia está esperando visitas, usando o cabelo em um coque alto e ainda de robe, enquanto lia a primeira página do site do The Times e cantarolava baixinho uma música que ele poderia jurar ser algum Rock N’ Roll indecifrável. – Led Zeppelin era uma escolha difícil para cantarolar – Ela sorriu para ele e voltou os olhos ao computador.

Roland entrou na cozinha correndo e deu duas voltas ao redor da mesa, como um bonequinho de corda tentando se esgotar. Robin, que vinha atrás do filho o parou e o fez sentar. Depois sentou-se ao lado de Regina, parecendo hesitar um pouco antes, olhando para Henry igual a um criminoso atento diante da promotoria.

Henry notara, desde a volta do acampamento, que Estranho Um e Estranho Dois, além do lado da mesa tinham outra coisa em comum: um olhar leve, distraído, quase alucinado, era o olhar de um admirador de obra de arte ao entrar no Louvre pela primeira vez.

Regina encarara a página do jornal online durante um bom tempo e, basicamente havia lido apenas uma pequena manchete que dizia em letras grandes: “A poderosa Garota egoísta.”. O texto abaixo era uma coluna bem humorada e cheia de ironias sobre a política da China, mas ela não conseguia sair do ridículo título: “... Garota egoísta!”. Sua mente atribuía uma causa simples à obsessão, significava que deveria se importar com a dor que Robin sentiria ao saber toda a verdade. E ela se importava! Contudo não o suficiente a ponto de parar agora, não agora. Regina sabia que provavelmente pagaria com a própria vida. Mas até esse dia chegar, ela seria uma garota egoísta muito feliz.

A mão de Robin tocou o braço dela acidentalmente, trazendo-a de volta ao café da manhã, a tempo de ver os garotos espantados, encarando com enormes olhos castanhos, a velocidade na qual Robin devorava a comida, como um tiranossauro adulto após semanas sem caçar. Ele não teve muito espaço para refeições nos últimos dias então estava mesmo faminto. Fazendo Henry mudar de ideia sobre as dez pessoas.

– Quê?! – Robin disse com a boca cheia de torta de maçã, após ser chutado de leve por Regina. – Eu tou com fome! – Ele gesticulou de maneira engraça e os meninos sorriram. – Não falem de boca cheia! – olhou de maneira mais séria para Roland e bebeu um longo gole de café.

O pé de Regina – o mesmo do chute – permaneceu imóvel entre as botas pesadas de Robin por quase um minuto, depois começou a se movimentar lentamente, empurrando a barra do jeans dele até alcançar a pele quente. Robin, abruptamente, perdeu a fome, enquanto o pé descalço e frio dela fazia pequenos círculos em sua canela, como um balé entorpecedor que subia e descia devagar. A porcelana da xícara que ele tinha nas mãos ameaçou romper-se com a força de contenção. A expressão dele ficou estacionada em uma incredulidade muda.

O rosto de Regina estava calmo e sorridente, mastigado um pedaço de torrada e outro do cérebro de Robin. Ele levantou, por fim, perguntando-se o motivo de ter demorado tanto para fazê-lo.

Ela era um imã. Um lindo e sedutor imã.

– Escola! – Ele avisou com voz meio trêmula.

Henry foi o primeiro a se levantar, depois Roland passou por ele correndo, ambos fazendo barulho na escada, indo ao andar de cima em busca das mochilas. Robin, por sua vez, permaneceu na porta da cozinha certificando-se de que eles não estariam por perto. E quando teve certeza, virou-se para Regina sentada despreocupadamente... Os olhos dele estavam estreitos e desaprovadores.

– Que? – a voz dela era a da própria inocência. – Eu também estou com fome! – sorriu mostrando os dentes e Robin se sentiu com uma febre de quarenta graus. O dedo indicador dela movimentou-se no ar no formato de uma pequena foice oscilante, chamando-o. A fórmula do desejo teria os mesmos olhos.

Robin lançou-se com precisão, arrancando-a do lugar, a cadeira arrastando pelo chão com um barulho estridente e irritante, mas nenhum dos dois sequer ouviu. A pia era o limite norte da cozinha e o deles também. Os lábios resolutos do arqueiro pressionavam com força os dela. O beijo urgente com sabor de torta de maçã e café foi tão intenso que quase doía, fisicamente. As respirações começavam a ofegar, sufocar até que pararam.

Causa mortis: excitação!

Ela mordeu o lábio inferior dele e ambos se libertaram. Robin sorriu apaixonado olhando o semblante cínico dela e provando o gosto literal da expressão: “Louco por ela.”. Em seguida, a trouxe de volta aos seus braços, deslizando o robe cor de marfim que ela usava até que seu ombro estivesse nu. O ombro esquerdo de Regina exibia um hematoma roxo-amarelado – ambos tinham suas mostras de hematomas, porém nenhum arrependimento – Robin beijou o lugar machucado delicadamente.

Os dedos dele deslizaram para o interior do robe com agilidade, contornando a linha da coluna dela em um vai-e-vem rítmico e terno. Robin a olhava sério e absorto, o olhar que teria feito qualquer outra ficar sem jeito, mas Regina não. Regina era invencível. Foi ele quem, por fim, desviou o rosto, beijando a testa dela demoradamente. Fugindo daqueles olhos castanhos que tinham a profundidade do Universo.

O barulho de passos rápidos chegou à cozinha, vindo das escadas, Roland e Henry corriam em disputa. “Eles estão apostando corrida outra vez!”. Regina pensou e de amante sedutora, passou a mãe embravecida:

– Eu falei para eles não correrem em casa. A escada... – Ela suspirou e reajustou sua roupa. – Vai! Você precisa levá-los a escola entes que quebrem uma perna. – Ela lutou contra o sorriso quando Robin fez biquinho.

– Henry pode dirigir?

– Não!

– E Roland?

_________

Naquela mesma manhã, Robin levara os garotos à escola e, quando dirigia em direção à delegacia, brecou repentinamente, rodopiando a velha viatura – a cena de um filme policial dos anos setenta – mudando a rota: de volta a mansão Mills.

Regina estava desfilando um Prada vermelho pela saída da casa quando Robin a surpreendeu com o sorrido de um adolescente que acabara de fugir da escola, e a pegou no colo. Ela gargalhou com o rapto. Eles escutaram outra vez Led Zeppelin enquanto faziam amor.

– Você vai superar essa fase Led Zeppelin! Todo mundo supera. – Regina falou ainda ofegante. Seu cérebro, de súbito, trazendo a música para o centro de seus pensamentos, já que parecia insano demais acreditar no que tinha acabado de acontecer. Eles eram muito bons nisso de ficar juntos. “Somos ótimos!”. Ela fechou os olhos, um lado da cabeça dela doía com a pulsação acelerada.

Robin demorou a retrucar, ainda duvidando de que sobreviveria ao evento anterior. Suspeitava seriamente de que estava entrando em coma. Talvez ela finalmente o tivesse matado.

– Eu estou morrendo! Aquilo que vocês fez... Aquilo foi... – parou em busca de ar. Seu peso inteiro ainda sobre ela. – Me deixe morrer ouvindo Zeppelin! – ele exagerou uma voz abafada. Regina sorriu alto e Robin pensou que qualquer música tornava-se ridícula se comparada com aquele som. “Eu vou viver”.

Se fosse possível encapsular a sincronia em que os corpos dos dois trabalhavam, ou só a energia da química que compartilhavam e, posteriormente, colocassem essa cápsula a venda. Venderiam mais que LSD.

***

O dia parecia bastante radiante apesar da neve e do frio. Regina estava sentada em seu gabinete, tentando se concentrar em algum documento; uma espécie de ofício enviado pela Madre Superiora, solicitando proteção para a atividade pesqueira da costa de Storybrooke. A prefeita suspirou e pegou o telefone a contragosto:

– Blue?! – sua voz soou acusatória, mais por hábito que por esforço. Depois de um tempo, finalmente conseguiu se concentrar no problema, enquanto a Fada narrava o fato dos pescadores locais estarem sofrendo ameaças piratas e, isso influenciava diretamente a vida de muitas famílias da cidade. Conforme a entediante mulher continuava falando do outro lado da linha, mais o assunto parecia desinteressante. – Bem... eu poderia quebrar o pescoço daquele pirata... Do Hook! Seu problema seria resolvido. – Houve silêncio do outro lado da linha e Regina não conseguiu segurar o sorriso vitorioso quando ouviu o bipe do telefone sendo desligado.

– Seria ótimo se você não quebrasse pescoço algum... Especialmente o do Hook. – A voz doce de Tinkerbell invadiu o ambiente e Regina a viu parada ao lado da porta. As duas sorriram. Há muito não se viam e, a culpa não era de ninguém em particular, já que o motivo do sumiço de ambas era, aparentemente, o mesmo. – Você sumiu! – O sorriso dela evoluiu para um cheio de malícia.

– Olha quem fala... – Regina indicou a cadeira da frente, casualmente. – Estava prestes a mandar a polícia resgatar você daquele navio. Porém... – ela empurrou uma mecha do cabelo para trás da orelha, fingindo estar constrangida. –... Andei meio sem tempo!

As duas gargalharam. Foi inédito e maravilhoso ver o quanto Regina parecia feliz.

– Eu sabia que vocês iam se encontrar... Um dia aconteceria. – Tinker ficou, momentaneamente, mais séria e desviou o olhar, tentando disfarçar.

– Sei quem ele é, Tinker. E sei que você também sabe, então... – Regina disse gravemente, no entanto tinha o rosto bastante tranquilo. A tatuagem e todo aquele papo de destino já a tinham torturado o suficiente. Robin estava com ela agora, mas não estaria por muito tempo e, esse fato aterrador, serviu como um filtro de tudo que realmente importava. “Vai à merda, Destino!”. Fora sua resposta (subconsciente) mais madura. – De qualquer maneira, acho que não é tão relevante. Você e sua magia de fada estavam erradas sobre isso. Ele não me ama... – Tinker estava prestes a retrucar, porém Regina fora mais rápida: –... Quem ele ama não existe. – Ela lutou contra uma fagulha de pânico que costumava agir como um relógio gritando a cada momento: “O tempo está acabando!”.

–Eu não sou mais fada, Regina, mas... – Tinker se levantou da cadeira e colocou as mãos sobre a mesa, sua voz contida: –... Mas ainda me lembro da força que fazia vocês convergirem um para o outro. Nós apostamos tudo nisso. Tudo! Porque era real. E ainda é! Eu errei porque devia ter esperado até vocês dois estarem frente a frente. – Ela sentou, admirada de sua súbita defensiva. Regina olhou para ela e as duas ficaram caladas durante um momento de silêncio pesado. Tinker jamais colocaria culpa nela outra vez, já havia a odiado por muito tempo. Muito tempo desejando matá-la e conseguir sua vingança. Porém aquilo era passado e, torceu para que nenhuma de suas palavras fosse interpretada de maneira equivocada.

– Você sente falta... De ser fada? – Regina perguntou, em um lapso de altruísmo gratuito e verdadeiro.

– Sinto! Sinto muita falta... – Tinker entrelaçou seus dedos nervosamente. – Imagine se alguém te transformasse em um elfo. – ela sorriu triste –Foi como eu me senti quando me tornei humana... Nunca mais serei eu mesma novamente. – lançou outro sorriso que fez Regina lembrar ela mesma. Era o tipo de sorriso que escondia dor.

– Sinto muito! – Regina sabia que tinha sido a culpada por tudo aquilo. Ainda que Tinker soubesse que essa culpa nunca fora exclusividade dela.

O silêncio se impôs mais uma vez e quando Regina voltou a falar parecia ter estudado cada palavra anterior da amiga, porque sua pergunta captou a incógnita do diálogo.

– A quem você estava se referindo, exatamente, quando disse: “nós”? – Regina permaneceu casual e leve, como se perguntasse que horas eram. Tinker não respondeu, ficou olhando para uma pilha de papel sobre a mesa. Porém, aos poucos, a busca lunática por um meio de escapar foi se desvanecendo na memória, tal como o resto da lealdade que mantinha aos segredos das fadas. – Tinker, você não deve mais nada aquelas pessoas! São eles que devem a você. – Regina tinha tanta ideia de quem eram “eles” quanto de quem eram o “nós”.

E ela mal acreditou que seu argumento tinha funcionado quando Tinker começou a falar:

– As coisas eram diferentes naquela época. Quando eu nasci. Existia maldade, claro, mas ela nunca nos afetava, nunca chegava ao mundo das fadas. A única coisa capaz de tirar o sono de uma fada era a descrença de uma criança, em particular de um afilhado. – Ela parou e olhou o rosto atento de sua ouvinte. Havia tantas coisas a serem explicadas que Tinker suspirou ao continuar: –Há bastante tempo atrás, conheci uma fada madrinha... Ela era a mais magnífica fada que tínhamos. Era forte, feliz, bondosa e bastante engraçada – Tinker sorriu como se lembrasse de uma piada. – Era também a mais rápida em competições de voo e sua magia parecia tão forte que nem dez de nós a superaria. Todas nós a amávamos, inclusive a Mãe. – Fez uma pausa e reformulou o que ia dizer, de modo que não precisasse esclarecer qualquer coisa sobre a “Mãe”. – Nem todas as crianças têm fadas madrinhas, Regina. Mas, para toda criança destinada a ser grande... destinada a realizar coisas importantes... A natureza responde com uma fada que deve protege o humano com a própria vida. E os dois estarão ligados para sempre, de um jeito que nem nós entendemos. – Regina tinha olhos interessados enquanto perguntava-se onde Tinker queria chegar. A história continuou:

– Um dia ela sumiu. A fada! Nós a procuramos por toda parte e não encontramos nenhum vestígio, ou pista que indicasse seu paradeiro. Isso, claro, causou rebuliço e uma porção de teorias: morte, rapto, fuga, entre outras. Mas nenhuma chegou perto da verdade. Porque a Fada estava presa. No nosso próprio mundo e, por algum motivo que jamais entenderei... Eu fui escolhida para tomar conta dela. Ser sua carcereira. Não é o tipo de cargo que possa ser recusado.Tudo que me permitiram saber foi que a própria Mãe a havia mandado para lá. A profecia sobre o humano dela tinha mudado e a Fada não poderia mais aproximar-se dele nem ajudá-lo. Então durante anos ela definhou naquela sala diante dos meus olhos, sentindo cada dor que seu humano sentia, passando por cada tormenta junto com ele e, tudo que eu podia fazer era assistir. – Tinker respirou fundo e olhou nos olhos de Regina e não viu nada que a impedisse de continuar. – Certa manhã, a prisioneira teve uma visão e, pela primeira vez ela me pediu ajuda...

– Quem era o humano dela, Tinker? – a voz de Regina soou trêmula ao interromper a moça. Seu rosto com a desolação de quem já sabia a resposta.

– Você, Regina! – Os olhos de Tinker cintilavam de lágrimas não derramadas e a mão dela encontrou ternamente com a mão de Regina sobre a mesa.

– Tem certeza? – O rosto de Regina permaneceu imóvel, pétreo. Ela visualizava uma Fada imaginária, tentando lidar com a ideia de que, em algum lugar, o tempo todo, sempre houve alguém que se importasse. A sensação de perder alguém que jamais fora sua era fria e estranha. “O humano dela se tornara mal e baniram-na do mundo.”. Isso também podia ser acrescentado à lista de Culpas da Regina. Tinker confirmou com a cabeça. – O que aconteceu com ela? – De repente pareceu importante.

– Você não morreu naquela manhã. Contudo, minha ajuda foi revogada e, no mundo das fadas, tudo aconteceu como se você tivesse caído daquela torre. Um humano permanece vivo se sua fada morrer, mas o contrário...

– Tudo bem! Não precisamos mais falar sobre isso. – Regina se levantou e caminhou meio sem rumo pela sala. Não tinha mais relevância. Uma fada morta! A lista ficava cada vez maior.

– Ela tinha os olhos exatamente da cor dos seus... Todas as fadas têm os olhos de seus humanos... – Tinker forçou um sorriso.

Lá fora, um estouro alto soou seguido por um barulho estridente de metal rompendo-se. Regina imaginou um gigantesco gongo libertando-a do resto daquela conversa. Só que um grito histérico e feminino a tirou desse vislumbre de alívio.

***

“ALÔ?! É MEU MARIDO... ELE FICOU LOUCO... TENTOU NOS MATAR. ESTÁ TRANCADO NO BANHEIRO... PRECISAMOS DE AJUDA, POR FAVOR, POR FAVOR...”

“ELA PEGOU MEU BEBÊ... MEU BEBÊ, VOCÊS PRECISAM ENCONTRÁ-LA... ELA ESTAVA LOUCA!”

“MEU DEUS! É DA POLÍCIA? TEM ALGUÉM OUVINDO? ESCUTA... MEU VIZINHO ACABOU DE MATAR A MÃE DELE... BEM NO JARDIM... COM A MERDA DE UMA ENXADA... DEUS, ONDE ESTÁ A XERIFE?”

“ALÔ, EMMA? TEM UM HOMEM ATIRANDO EM PESSOAS NO CENTRO DA CIDADE! ELE TÁ MATANDO TODO MUNDO!”

“Alô?!”. O primeiro sussurro em meio às ligações. “Alô?”. A voz infantil insistiu. “Tem alguma coisa errada com a minha mãe. Ela está brava... Muito brava. Matou meu cachorro! Ela está lá fora agora... Mas eu tou com medo. A mãe do Henry pode vir aqui?”.

Os telefones da delegacia tocavam em uma sinfonia abominável, as mãos trêmulas de David dançavam sobre um e outro aparelho enquanto uma gota de suor descia por sua testa.

– Não faz sentido atendemos aos telefones, David, precisamos ajudar lá fora. – Merlin interrompeu o rapaz. David pensou em Emma no meio do pandemônio que Storybrooke transformava-se gradativamente. Claro que não fazia sentido atender telefones.

O casaco longo de Merlin moveu-se teatralmente. Ele seguiu em direção à saída da delegacia. A porta se abriu e, atravessava para o hall de entrada do prédio com ansiedade quando seu passo forte e resoluto foi interrompido por um impacto. Regina! Os dois toparam-se fortemente, Merlin a segurou evitando que ela caísse de costas com o baque. Por um instante, antes do rosto dela se tornar hostil, o mago poderia jurar ter visto uma espécie de alívio nos olhos dela.

– Onde ele está? – Regina ficou na ponta dos pés para espiar a delegacia por cima do ombro de Merlin. Depois se livrou dos braços dele, orgulhosa.

– Robin?! Suponho que ele esteja em um dos chamados... Não estava mais aqui quando eu cheguei. – Se a situação não fosse inteiramente tensa e, se pessoas não tivessem morrendo lá fora, Merlin teria sorrido da adorável e urgente expressão jovial que tomou o rosto dela. – Estava indo ajudá-lo, pode vir comigo...

Regina pensou: “Não vou com você!”. Mas a presença de Merlin trazia uma involuntária e consciente segurança. Ele era velho, sábio e poderoso, tanto quanto se pode ser. E Isso significava alguma coisa.

A cidade havia adquirido ares embaçados em função de uma cerração repentina. Tinha muitas pessoas nas ruas, tantas que talvez fossem todos os habitantes de Storybrooke. Uma multidão inquieta que seguia de um lado para o outro; gritos e exclamações eram abundantes em cada canto. Um homem jazia deitado sobre a poça do próprio sangue, na frente do Granny’s Diner, os olhos azuis abertos em uma máscara de choque. Na frente da biblioteca, outra vítima, dessa vez era uma mulher, sentada e encostada na parede do prédio, a roupa coberta de sangue e de alguma coisa cinzenta que parecia aveia em flocos, um dos olhos havia sumido. No centro de toda aquela bagunça Ruby segurava um homem irado, ele se debatia de um lado para o outro, mas a moça nem parecia notar. O assassino gritava e lutava contra a opressão: “Eu vou matar você, sua puta de cabelo vermelho! Eu vou matar todos vocês.”.

– Por que os poderes dela funcionam contra eles? – Regina olhou para o Mago que ainda estava encarando os olhos azuis do cadáver. Ela própria havia tentado parar o atirador, pela janela de seu gabinete, mas seus poderes falharam. Hermes.

No tempo decorrido desde o grito da mulher até aquele momento, Regina estivera se certificando sobre a segurança de Henry e Roland, cada um agora trancado em seus quartos sob guarda de Snow White e seu arco protetor.

– Não é magia, Regina. Faz parte de quem ela é; Um lobo! – A voz tranquila dele fazia parecer que estavam comentando uma cena de filme.

Outros descontrolados eram segurados por grupos de pessoas, gritos e ofensas podiam ser ouvidos com mais frequência do que Regina podia contar. Uma fumaça preta próxima à floresta do lado oeste desenhava no céu mais caos.

– O que está acontecendo, prefeita? – Uma garota tocou-lhe o braço. Sua cabeça sangrava. Regina estava agora rodeada por pessoas feridas e assustadas. O grisalho do cabelo de Merlin podia ser visto se afastando involuntariamente. Ela se moveu em defesa, o meio do povo nunca era um lugar muito seguro para a realeza, principalmente nesse caso.

– Escutem... – Regina começou sua voz calma e alta. Todos calaram menos os insanos e repentinos atacadores, esses continuavam com seus intermináveis insultos. – Preciso que me escutem. Eu sei que estão com medo. Sei que pessoas que vocês amam pareceram enlouquecer de uma hora para outra... Bem... Eu não sei o que vem causando isso! Mas precisamos da ajuda de todos. Todos! Há mais como esses homens pela cidade, machucando suas próprias famílias... A polícia precisa de ajuda.

Regina nunca tinha falado com o povo daquela maneira e, com certeza, nunca no meio deles. Suas palavras surtiram efeito, quase tão poderosas quanto magia. Imediatamente alguns homens e garotos começaram a varar a multidão, a maioria tentando parecer mais fortes do que eram. O olhar dela encontrou certo olhar azul-celeste no meio do povo; Merlin balançou a cabeça, encorajando-a orgulhosamente. Rumple, por sua vez, tinha o rosto chocado. “O mundo todo enlouqueceu... Ou isso é um daqueles sonhos estupidamente reais?”.

Tinham zumbis raivosos, contudo, tinham voluntários também, tudo ia ficar bem (mais ou menos). Alguém se aproximava ao fim do pequeno discurso de Regina, estava correndo no meio da neblina, primeiro apenas uma sobra, depois se mostrou em cabelos loiros esvoaçantes de maneira selvagem e, não demorou muito até que o rosto de Tinker pudesse ser identificado no meio da névoa. Tinha a expressão ligeira e avulsa, como a de um felino faminto. Em seguida, soltou um grito furioso, suas mãos agarraram o pescoço mais próximo.

A cena fora tão terrível e assustadora que desestabilizou as pessoas que assistiam. Erradicando o efeito calmante e de ordem das palavras da prefeita. Gritos voltaram afiados. Regina parou chocada olhando para o rosto de Tinker, enquanto as pessoas corriam da praça, deixando os outros furiosos livres. A situação inteira fugiu do controle e, a cidade parecia queimar em uma chama de loucura intensa.

Neal agarrou Tinker pelo pescoço e lançou-a contra a parede. A cabeça dela bateu forte a ponto de lascar a estrutura dos tijolos. Seu rosto insano contorceu-se de dor e quando ela forçou para sair, estava sangrando abundantemente. Regina viu, de olhos arregalados, a cor vermelha cobrindo os cabelos loiros da fada – tudo acontecera tão rápido.

A resposta de Regina fora ligeira e instintiva: ela estendeu a mão direita e fez Neal voar, caindo desmaiado a metros de distância de Tinker. A magia dela ainda estava ali, só não podia ser usada contra os furiosos de Hermes.

– Rumpelstiltskin! – A voz de Merlin ecoou urgente, clara e alta mesmo com os gritos.

Regina sentiu seu corpo girar no ar, por um tempo que pareceu ser bastante longo, a mágica familiar deRumpelstiltskin envolvendo-a... Porém, não sentiu o impacto que a teria matado. Seus pés simplesmente tocaram o chão, aterrissando tão leve quanto se pulasse de um degrau. A mão esquerda de Merlin a havia colocado no chão, enquanto a direita permanecia estendida em direção à Gold. Os dois homens encaravam-se furiosos:

– Você nunca mais tocará nela, Rumpelstiltskin! Ou eu mato você. – Merlin silvou em um sussurro entredentes que não fora ouvido por mais ninguém além de Gold. Eles caminharam um em direção ao outro e a coisa estava prestes a ficar ainda mais feia.

Regina olhou ao redor, em busca de Tinkerbell e a viu presa nos braços do único que, agora, tinha permissão para tal; Hook tentava contê-la, não sem muito esforço. “Eu matarei você, seu pirata maldito. Vou abrir sua cabeça usando seu próprio gancho.”. Ele se inclinava preocupado, tentando ver a profundidade do corte que ela tinha na cabeça. Tinker se agitou cada vez mais rápido, como se estivesse convulsionando e depois desfaleceu.

Os outros raivosos já estavam caídos ao chão. O silêncio fora tão repentino que zuniu desconfortável. As demais pessoas permaneceram paradas, ou vagando devagar e de olhos atônitos, sem saber muito bem o que viria a seguir. Ninguém sabia pelo que esperar, mesmo agora com a neblina recuando, o desconhecido assombrava-os.

– Regina?! – Robin vinha de uma das ruas do lado leste da cidade. As coisas haviam ficado difíceis lá também. Emma tivera que atirar em uma mulher que segurava um machado o que, ainda assim, não a conteve. A cidade tinha virado uma completa confusão, como em uma briga generalizada de uma taverna, ninguém agia normalmente, todos se agredindo até que, de repente, caíram no sono.

Regina virou-se seguindo a direção da voz dele e sorriu. Ele estivera passando determinado pelas pessoas no momento em que a viu. “Ela está bem!”. A respiração dele ficou, subitamente, mais fácil.

– Meu Deus, Regina, o que aconteceu aqui? – Robin se aproximou com ansiedade e a abraçou, antes que ela pudesse responder, ou pensar em responder. Tudo ali parecia, aos olhos de Robin, ainda mais caótico: um cadáver a pouca distância, Tinker sangrando, outros mortos. O cataclismo fora, com certeza, maior nessa parte de Storybrooke. Ele a abraçou mais forte, em seguida se afastou para olhar o rosto dela. – Você está bem?

– Estou! – Regina forçou um sorriso e Robin a beijou, primeiro em sua testa, depois na boca. Nenhum dos dois sequer notou que estavam em público.

Agora falem a vontade, cretinos!

Poucos realmente notaram a cena e, quem o fez, pasmou-se diante do beijo – do homem bom que todos amavam com o demônio que assombrara suas vidas.

– Não vou mais perder você de vista, Prefeita... – Robin falou em voz baixa e lenta, depois sorriu em resposta à simples beleza do rosto dela. –... Porque eu amo você! – A última frase foi só um sussurro no ouvido de Regina, dessa vez, em tom intenso. Ele não esperou nenhuma resposta ao que dissera, sentia-se como um âncora de telejornal dando uma notícia velha ou muito óbvia. Amá-la era um fato e um de ocorrência antiga do tipo sem espaço para argumentação. Contudo, agora, ele tinha certeza que ela sabia.

Regina sabia e passava, nesse momento, por uma espécie de indigestão mental, como se seus neurônios estivessem proibidos ou incapacitados de sinapizar a frase: “Eu amo você.”.

Robin se afastou alguns passos dela, depois deu à mão a um rapaz sentado no chão, puxando-o e levantando-o. “Vamos lá, precisamos de ajuda.”. Robin dissera de maneira firme. O garoto bateu a mão no seu jeans manchado, depois confirmou com a cabeça. Em seguida o arqueiro ergueu a mão esquerda e fez um sinal concêntrico com a mão, como um policial faz ao mandar adolescentes para casa depois de uma festa barulhenta: “Circulem!”. No entanto aquele sinal fora, em particular, direcionado a seu Comando Superior, Emma.

Emma estava no canto Norte da praça. Pouco conseguira evoluir em sua caminhada pela multidão estupefata. Ela confirmou o sinal de Robin com a cabeça, enquanto tentava parecer, ao máximo, interessada nas diversas narrações que ouvia. Todas trágicas.

Eles haviam sobrevivido a mais uma praga de Hermes. Era só mais um dado lançado naquele jogo lunático e precisavam se preparar para a próxima jogada. Para isso era fundamental limpar toda a bagunça. Exatamente como fizeram da última vez.

Notas finais
Aguardo ansiosa a opinião de vocês.