I haven't seen you coming
14 Capítulo 14
Notas iniciais
— Eu não sei não… Nós já cruzamos o nome dele várias vezes e não apareceu nada.
Emma analisava a foto de um suspeito de um caso de roubo seguido de morte, ao seu lado igualmente pensativos estavam David e Graham.
— Talvez algum apelido que a gente não saiba. — Graham sugeriu.
— Mas devíamos saber todos! Fala sério, seja lá quem for o cara que fez isso, inteligência não é o forte dele. Quem entra numa loja, olha direto pras câmeras e não quebra nenhuma?
— Ele estava de máscara. — David ponderou – Então não se preocupou.
— Exatamente, e tudo o que nos resta é essa maldita tatuagem comum que 80% dos fichados tem. Isso não ajuda em nada, precisamos reduzir a lista.
— E nós reduzimos, Emma. Esse Pablo Bianchi é uma das nossas últimas apostas.
— Eu odeio apostas, Graham… Nunca se pode contar com elas. — passou a mão pelo rosto para espantar o cansaço, já era noite e normalmente se as coisas estivessem mais calmas ela já estaria em casa – Tem alguma coisa faltando… — voltou para o computador e puxou o vídeo da loja de jóias na noite do crime, ao reproduzir assistiu cuidadosamente e embora já tivesse visto várias vezes ela sentiu que algum detalhe não estava sendo considerado – Ali! Filho da… — respirou fundo e engoliu o palavrão – Como eu não pensei nisso antes?
— O que? — perguntou David, alarmado, passando os olhos sobre a filmagem e de volta para a loira.
— A estrela do vídeo ali manca da perna direita. É bem sútil então quase não dá pra perceber, ainda mais com ele agitado daquele jeito. — apontou para a tela – Agora a gente só precisa…
— Checar o histórico médico de cada um e encontrar um que tenha registro de alguma cirurgia, acidente ou deficiência. É pra já! — Graham completou e foi para a mesa dele usar o próprio computador.
— Ok, certo, mas e se foi encoberto ou ele não se tratou em nenhum hospital e…
— Vamos pensar positivo, por favor David. — pediu – Eu realmente quero ir pra casa.
Ele assentiu e se apoiou na mesa da loira, enquanto ambos esperavam e assistiam o outro detetive fazer o que precisava. De relance viu Emma sentar na sua cadeira giratória e massagear a cabeça.
Ele sabia que o momento não era o mais apropriado, mas não estava conseguindo se aguentar.
— Então… Central Park é? — provocou – Está se empenhando pra valer, Swan.
Ela ergueu a cabeça e o estudou com os olhos por alguns segundos.
— Depois de todo esse tempo eu já devia saber que contar algo pra Mary automaticamente significa contar pra você também.
David deu com os ombros, sorrindo.
— Nós não guardamos segredos um do outro. E além do mais, eu estava do lado dela quando você mandou aquela mensagem.
Ela lembrava bem da noite anterior, pouco depois de falar com Regina não se conteve e avisou para a amiga que tinham marcado de se ver no sábado. Mary já sabia que Emma a havia convidado ao parque pois se encontraram para tomar café no fim daquela mesma tarde, e a professora pediu para ser informada caso a morena confirmasse algo.
— Pra variar, vocês parecem colados.
— Ah não se preocupa que se tudo der certo em breve você vai estar colada em alguém também. — riu e Emma aproveitou a distração dele para lhe acertar um soco na perna.
David reclamou mas antes que pudessem continuar Graham levantou com tudo.
— Consegui! — rapidamente eles foram checar o nome e a foto que surgiu na tela, não era o último suspeito que tinham cogitado, mas isso não importava no momento.
— Deixamos esse passar na primeira remeça, que droga. — disse Emma.
— É mas com tudo que esse cara já tem nas costas um mandado vai ser fácil. — concluiu Graham.
— Por mais fácil que seja nós não vamos conseguir mais nada por hoje com o juiz Crownford, e nenhum outro vai dar prioridade pra esse caso. — aproximou os olhos da tela para ler algo e continuou – Até porque esse cara não vai a lugar nenhum tão cedo, ele está em condicional.
— Não sei quem é mais idiota, o agente responsável por ele ou ele por cometer um crime que vai jogá-lo na cadeia definitivamente dessa vez. — Emma comentou – Mas só vamos conseguir terminar isso amanhã, por hoje chega. Eu quero o meu chuveiro e a minha cama.
— Tudo bem, vocês vão na frente e eu vou adiantar o protocolo aqui.
Emma pegou sua jaqueta e vestiu rapidamente, desligou o computador e ao passar por Graham diminuiu o passo e tocou-lhe o braço.
— Obrigada, Graham. Boa noite.
Ele sorriu e assentiu.
David logo estava atrás dela e os dois entraram no elevador juntos, os primeiros segundos foram silenciosos, mas ela conhecia o amigo bem o suficiente para saber quando ele estava se segurando para não dizer algo.
— Bota pra fora, David. Antes de explodir perto de mim.
— Você sabe que precisa deixar Mary te ajudar a planejar tudo, não sabe? — perguntou – Ela não vai descansar até conseguir.
Emma suspirou, observando o painel indicar os andares pelos quais passavam.
— Ah sim, eu conheço bem a peça que é essa sua namorada. Por isso mesmo você que vai dizer pra ela que eu só vou falar com ela depois de sábado.
O ding do elevador soou e a porta abriu, Emma saiu na frente em passos largos antes que David pudesse argumentar.
— Não, espera… — pediu seguindo-a – Eu preciso te falar… — continuou ao saírem para a rua, mas parou ao ver a loira dar de cara com Mary, que esperava na calçada com um sorriso ansioso nos lábios.
Emma virou para ele.
— Você armou pra mim?
— Eu tentei te avisar mas você saiu correndo. — justificou.
— Ai que horror, vocês falam como se eu fosse uma ameaça. — Mary se pronunciou – Só decidi vir até aqui de surpresa porque te conheço bem o bastante pra saber que ignoraria minhas ligações, Emma.
— Claro, você quer fazer da minha amorosa o filme romântico do século.
— Foi você quem escolheu o Central Park, de todos os lugares nessa cidade imensa, então o mínimo que deve fazer é atender às expectativas e organizar tudo muito bem.
— Mas eu estou organizando! Confia em mim, ok? Eu posso fazer isso sozinha.
— Mesmo? — cruzou os braços – E o que você resolveu até agora? Faltam dois dias.
Emma olhou bem para a amiga e depois para David, que assistia a cena sem dizer uma palavra, mas ela podia ver o brilho de divertimento nos olhos dele. Aproximou-se da professora e pegou a pelo braço, deram alguns passos para o lado onde tivessem um pouco de privacidade, e voltou a falar.
— Olha, nós somos diferentes então não importa o que eu sugerir eu sei que você não vai gostar, mas vai ser super gentil enquanto me dá outras ideias pra deixar tudo do seu jeito. Só que isso é comigo, Mary. Você sabe que eu adoro essa sua animação e vontade de ajudar, mas preciso que me deixe lidar com isso por conta própria, por favor. — pediu.
Mary abriu a boca pronta para insistir, mas parou e pensou por alguns segundos, analisando bem a expressão de Emma.
— Está bem, me desculpe.
— Não tem pelo que se desculpar. — sorriu.
— Claro que tenho. — disse sem graça – Eu usei meu namorado, que também é seu amigo e parceiro de trabalho para vir fazer essa emboscada. Céus… Às vezes só percebo a proporção das minhas atitudes tarde demais.
Elas riram.
— Tudo bem. — garantiu – Mas com você… — virou para David – Eu me entendo depois.
Ele engoliu em seco, mas não disse nada.
— Melhor irmos, David. — Mary chamou, parando ao lado do loiro e entrelaçando o braço com o dele – Eu preciso de você inteiro.
Trocaram um olhar cúmplice e com certa malícia, antes de juntarem os lábios num selinho rápido.
— Ah qual é, melhor vocês irem mesmo, eu que digo! — reclamou – Tem certas imagens que eu prefiro não ter na minha cabeça.
O casal riu da cara que Emma fazia, mas antes de se afastarem, Mary disse.
— Ok, nós vamos, e já que não vou participar dessa sua organização, pode pelo menos me ligar imediatamente quando vocês se despedirem, no sábado? — juntou as mãos num gesto de súplica, sorrindo.
— Sim, eu posso. Não quero ser culpada por te matar de curiosidade. — cedeu.
Enfim Mary e David seguiram para um lado e Emma para o outro. O carro não estava longe, então ela andou devagar para poder pensar.
Na verdade não havia parado para planejar nada. Sabia que independente do que fizesse, Regina encontraria um jeito de tentar afastá-la, e por que não criticando sua ideia de encontro para as duas? Não queria ser pessimista, mas às vezes não conseguia evitar. Estava começando a achar que sábado seria sua última tentativa de amolecer a morena. Se não houvesse nenhum progresso, ela iria recuar. Por mais recente que tudo fosse, chegar a essa conclusão lhe apertou o peito.
Sacudiu a cabeça e abriu a porta do veículo, já imaginando o merecido descanso que teria ao chegar em casa. Talvez depois, no dia seguinte e com a cabeça fresca, pudesse pensar no que fazer.
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— O Nick chegou! — anunciou Henry, ao entrar correndo na cozinha do apartamento onde Regina conversava com Tinker, no comecinho da tarde de sábado.
— Oh, está bem. Eu vou com você até o elevador. — a morena desceu do banco onde estava sentada e seguiu o menino que acenou rapidamente para Tinker e voltou a correr em direção à porta – Henry, não corra. — ele obedeceu e diminuiu o passo enquanto caminhava pelo corredor – E eu ainda não recebi o número do pai do Nick.
— Nossa, é mesmo… Eu acabei esquecendo, mas já anotei no papel e tudo… — procurou no bolso esquerdo da calça e nada, foi para o direito e retirou de lá um pedaço pequeno de papel branco, e entregou para Regina.
— Muito bem, você já sabe as regras...
— Sim, mãe. — respondeu, um pouco impaciente – Obedecer o pai do Nick e não me afastar deles.
Regina assentiu e o elevador se abriu, ela deu um beijo rápido na cabeça do filho e ele entrou apressado, cumprimentando o amigo num ‘high five.
— Como vai, Regina? — perguntou, Michael, pai de Nick.
Não gostava de tratar pelo primeiro nome pessoas que não fossee realmente próximas, mas os meninos estudavam juntos desde a primeira série e com o passar dos anos ela se viu caindo nesse hábito.
— Bem, e você? — bloqueou a porta do elevador com a mão para impedir que fechasse.
— Vou bem. E não se preocupe que eu trago ele de volta antes de escurecer.
— Certo, qualquer problema pode me ligar. Passei meu número em outra ocasião, não foi?
— Sim, passou. Mas fique tranquila. — sorriu.
Ela devolveu o sorriso de forma mais contida e tirou a mão da porta.
— Tchau, querido. Divirta-se.
Henry assentiu e acenou se despedindo quando a porta fechou.
Regina voltou para dentro do apartamento e encontrou Tinker saindo de seu escritório com uma expressão estranha.
— O que você está aprontando? — perguntou.
— Eu que pergunto, que roupas são aquelas na sua cama?
— Eu as deixei lá porque vou usá-las daqui a pouco.
Tinker franziu o cenho e se aproximou da morena.
— Ok… Mas por que?
Regina suspirou e desviou os olhos para se preparar para o furacão que sairia da boca da loirinha quando soubesse de seu encontro com Emma. Sim, ela ainda não havia contado, mesmo tendo falado com Tinker nos últimos dias depois de definir com certeza os planos com Emma, então sabia que a amiga não gostaria nada de saber em cima da hora. Mas ela não podia ficar em silêncio para sempre.
— Vou me encontrar com a Emma às três horas, no Central Park.
Dito e feito.
Tinker arregalou os olhos e colocou as mãos na cintura para falar.
— E você só me conta isso agora?! Como foi que… Quando foi que…
— Nesta terça nós nos falamos e ela fez o convite. — respondeu interrompendo a gagueira da amiga.
— Espera aí, você falou com ela e não me disse nada também?
— Tinker, por favor… — então lembrou de algo – O que você estava fazendo no meu quarto aliás?
— Eu fui procurar o seu notebook pra pesquisar umas coisas. — explicou.
— E não encontrou? — apontou para as mãos da loirinha que estavam vazias.
— Encontrei mas me distraí com as roupas e não… Espera, quer parar de tentar mudar o assunto? — pediu exasperada – Me explica logo essa história de encontro no Central Park.
— Não é exatamente um encontro… — passou pela amiga indo em direção ao quarto.
— Ah não? Vocês já se beijaram, já dormiram juntas, agora ela te chama pra encontrá-la no parque mais famoso e romântico da cidade e você acha que isso é o quê? Uma tarde entre amigas? — ironizou enquanto a seguia.
— Claro que não, só prefiro não rotular. Agora se me der licença, eu vou tomar banho. — ela entrou no banheiro acoplado ao quarto e quando foi fechar a porta a mão de Tinker interferiu segurando a madeira.
— Você sabe que eu vou ficar aqui até você sair, não sabe?
— Não imaginaria outra coisa, querida.
Tinker soltou a porta e Regina foi para o banho.
Não demorou muito pois escolheu não lavar o cabelo e quando saiu enrolada na toalha a loirinha estava sentada na cama mexendo no celular.
— Pode ao menos sair para eu me trocar?
Tinker ergueu os olhos para ela.
— Nós nos conhecemos desde criança, Regina. E tudo que você tem debaixo dessa toalha eu tenho também.
— Ainda assim eu gosto de optar pela minha privacidade, agora por favor… — apontou para a porta do quarto.
Tinker deu um suspiro alto e se levantou, saindo do cômodo.
Regina tirou a toalha, passou sua loção corporal pós banho e vestiu a roupa separada. Uma calça preta justa e uma blusa meia manga na cor cinza prateado.
— E então? Pronto? — a voz de Tinker se fez presente quando ela terminava de calçar os sapatos de saltos médios, tendo em mente que pisaria em grama fofa.
— Sim, entre.
Logo a loirinha estava de volta e analisando a aparência da morena quando ela ficou em pé.
— É, até que às vezes você acerta sem mim. — Regina riu mas não respondeu e foi procurar os acessórios para continuar se arrumando – Eu sei que isso que eu vou te perguntar agora provavelmente vai te fazer surtar, mas acho que é preciso, então… — chegou mais perto e parou atrás da amiga que colocava os brincos – Se isso que vocês tem evoluir, você pretende contar ao Henry?
Como previsto Regina se assustou, virou rapidamente para Tinker e tentou assimilar aquilo sem deixar transparecer que havia ficado nervosa.
— O que você quer dizer com isso? Evoluir? Não, isso não… — deu as costas novamente e se apoiou na penteadeira – Como eu disse desde o início, você está levando tudo isso a sério demais. Não existe razão pra que eu sequer cogite contar algo a ele.
— Não tem como você saber isso. — quando viu pelo espelho que Regina continuaria a argumentar, ela se apressou – E nem pense em sabotar as coisas hoje só porque eu falei isso, viu?
Regina quis dizer que aquela ideia nem tinha passado por sua cabeça, mas era mentira. Ela estava sim pensando em talvez fazer algo para que Emma se afastasse definitivamente. Mas não era uma certeza, ela estava confusa.
Graças a Tinker e sua maravilhosa pergunta, ela só conseguia pensar em como tudo aquilo poderia afetar Henry. O filho era a pessoa que ela mais amava no mundo e em hipótese nenhuma ela o colocaria no meio de algo que o deixasse desconfortável de alguma forma.
— Regina! — voltou a si ao ser chamada e olhou para a amiga – Olha, eu não posso e nem vou te obrigar a nada então se você quiser mesmo parar com tudo você que sabe, mas pelo menos termina de se arrumar e diz isso pessoalmente pra ela.
Ela não sabia mesmo se iria encerrar tudo com Emma, mas ainda assim decidiu terminar o que fazia e ir encontrá-la.
Passou sua maquiagem habitual acompanhada de seu indispensável batom vermelho e pegou a bolsa.
Tinker que observava tudo em silêncio apenas seguiu a amiga quando ela saiu do quarto.
— Quer que eu fique aqui esperando o Henry? — perguntou.
— Não, eu chego antes dele. Obrigada. — fechou tudo o que precisava e foi em direção a porta – Quer uma carona?
— Não, é fora do seu caminho. Eu vou ficar bem. — passou pela porta – Nem sei se vou pra casa, vou pegar o metrô e ver o que acontece.
Regina riu ao ouvir aquilo, enquanto trancava a porta. Tinker tinha a mania de andar pela cidade como uma turista, não alguém que nasceu e cresceu ali. Vivia procurando lugares para conhecer usando o metrô para se locomover.
— Você precisa comprar um carro e dirigir.
— Com o trânsito do jeito que é? Não enquanto eu puder evitar. Prefiro poupar meus nervos.
Elas pegaram o elevador e se despediram quando chegaram ao térreo, onde Tinker saiu e Regina ficou para descer mais um andar até a garagem.
O trânsito estava realmente um pouco difícil, mas por ser fim de semana ainda podia ser considerado calmo em comparação com os dias úteis. Mas depois quanto mais ela ia se aproximando da região onde ficava o parque, mais devagar o carro andava. Afinal aquela área era bem movimentada, e após procurar bem conseguiu estacionar.
A entrada estava repleta de pessoas conversando, rindo, tirando fotos.
“Imagine como deve estar lá dentro.” pensou.
Olhou ao redor procurando Emma e quando já começava a achar que precisaria ligar para ela para perguntar onde estava a loira entrou em foco. Alguns metros a frente se revezando entre uma olhada para os lados e outra para o celular. Ela carregava uma mochila preta pequena e usava uma calça legging preta, uma blusa justa azul clara e uma camisa de flanela num tom azul mais escuro por cima.
Regina aproveitou que ela não a tinha visto e se aproximou devagar.
— Esperando alguém, Srta. Swan?
Emma virou a cabeça tão rápido que seu cabelo loiro solto voou e quase atingiu a morena, então ela deu um passo para trás e sorriu.
— Sim, uma mulher que gosta de aparecer do nada e me assustar.
— Espero que ela não tenha feito você esperar muito.
— Ah não, foi bem pontual, pra variar. — fez uma pausa e olhou melhor para Regina da cabeça aos pés – Você alguma vez calça algo que não tenha salto?
— Sim, mas não achei necessário. — olhou para baixo rapidamente – E eles não são altos.
— Tênis seriam melhores… — balançou o pé direito exibindo o tênis que usava – Mas ok, você estar aqui já é bastante progresso.
— Eu disse que viria.
— Eu sei, mas vai que… — pensou melhor e resolveu não terminar – Deixa pra lá, vamos entrar?
Regina assentiu e elas começaram a andar lado a lado, desviando das pessoas que passavam ou estavam paradas.
O parque como era de se esperar estava devidamente cheio com todo os tipos de pessoas, e isso apenas no primeiro campo de visão, pois com certeza em toda sua extensão havia muito mais.
— O que você tem aí? — Regina perguntou gesticulando para a mochila.
— Algumas coisinhas que nós vamos precisar.
— Espero que não tenha planejado nada espalhafatoso, Srta. Swan.
— Só Emma, lembra? E não, eu não planejei nada que você não possa aguentar, relaxa. — fez uma pausa e olhou em volta avistando uma das atrações típicas do local, a carruagem – Aquele seria o tipo de coisa que você considera espalhafatosa, né? — sentiu a diferença da palavra que não lembrava de ter usado antes.
Regina olhou na direção que Emma apontava e sorriu.
— Bem… Sim. — talvez fosse algo que ela gostaria de fazer se fosse mais jovem ou se permitisse abrir o coração para as pequenas coisas, mas no momento aquilo lhe parecia… Inalcançável.
— Então pode deixar que eu prometo que o máximo que a gente vai fazer é olhar e rir de quem pagar esse mico. — Emma disse.
Na verdade ela também não via nada de errado em usufruir daquele passeio, parecia divertido e confortável. Um bom descanso para quem não quer usar as próprias pernas percorrendo certos trajetos dentro do parque. Mas já que Regina não demonstrou interesse, ela resolveu apoiar.
— E onde vamos agora? — Regina perguntou.
— Bom, eu não vim aqui muitas vezes, mas se eu não me engano tem uma parte pertinho daqui chamada The Conservatory… Alguma coisa.
— The Conservatory Garden? — completou.
— Isso! Esse mesmo, eu pensei em dar uma passada por lá e depois… Não sei, depois a gente vê o que acontece.
— Não planejou esse roteiro muito bem, não é? — provocou.
Emma cogitou se defender, mas no fim preferiu não levar aquilo a sério e continuar descontraída.
— Eu poderia, mas pra que quebrar a cabeça se eu sei que a única coisa que eu tenho que fazer pra impressionar de verdade é… — deu uma olhada em volta e se aproximou mais da morena para pode sussurrar – Beijar você.
Regina não conseguiu segurar o sorriso e uma leve risada com a ousadia da loira.
— Quanta autoconfiança. Como sabe que eu não aprecio mais as outras partes?
— Algo me diz. — respondeu simplesmente e não fez a menor questão de voltar a distância entre as duas para como estava, elas andaram mais um pouco em silêncio observando o parque e as pessoas – E você? Costuma vir aqui?
Regina pensou um pouco antes de responder, já sabendo o que aquela pergunta inocente traria a sua memória.
— Não nos últimos anos, mas quando meu filho era pequeno nós vínhamos algumas vezes. — apertou mais a bolsa contra o corpo e passou a unha pela alça num vai e vem – Com meu marido.
O término da frase coincidiu com a chegada ao começo do caminho de um pedaço do The Conservatory Garden. Era muito bonito, bancos de madeira dos dois lados, grades baixas de ferro separando o jardim das pessoas e árvores bem cuidadas.
Emma foi para um canto e Regina a seguiu, elas pararam diante de uma árvore de folhas escuras e flores roxas.
— Daniel, certo? — a detetive perguntou após o silêncio – O nome dele. — completou.
— Sim… — respirou fundo – Mas eu não quero…
— Tudo bem. — interrompeu ao entender – Não precisamos falar disso. — elas se olharam por um tempo cada uma tentando encontrar algo mais leve para dizer, até que uma voz de criança se fez presente ao lado.
— Olha o tamanho dessa árvore, mamãe! — disse um menininho de cabelos ruivos e pele branquinha, não aparentava ter mais do que seis anos e sorria encantado com a natureza, algo raro de se ver em tempos modernos e naquela idade. – Aposto que eu consigo subir até o topo. — a mãe ocupada com o bebê que trazia no carrinho não deu muita atenção e o menino aproveitou para se apoiar na grade pronto para passar, Emma deu um passo adiante quando pensou em fazer algo mas a mulher finalmente percebeu o que estava acontecendo e o tirou de lá.
— O que você está fazendo? Não pode sair escalando as coisas, Kevin! — advertiu – Você prometeu que ia se comportar.
— E eu vou, juro! Só queria mostrar que já sou grande pra subir na árvore.
— Eu sei que você é, mas aqui não é lugar pra isso, você pode cair e se machucar. Preciso que seja um homenzinho porque já tenho seu irmão pra me preocupar, ok? — usou um tom mais calmo.
— Desculpa. — pediu – Eu não faço mais… Ainda vou ganhar sorvete? — os olhinhos brilharam.
A mãe riu.
— Vai. — colocou a mão nas costas do menino e quando iam se afastando ela notou as duas mulheres que observavam a cena e sorriu – Crianças. — comentou indicando o filho e se virou.
Emma e Regina retribuíram o sorriso e depois de ver a pequena família se afastar voltaram a olhar uma para a outra.
A morena não tinha muitas oportunidades de vivenciar pequenas coisas como aquela e isso lhe causou certa nostalgia que quando deu por si já deixava transparecer em palavras.
— Sinto falta dessa época. — Emma a olhou intrigada e ela continuou – Não que Henry seja rebelde ou algo assim, e Deus sabe o quanto eu espero que ele não se transforme em um, já que está apenas no começo da adolescência… Mas a inocência da infância acaba se perdendo, por mais que você tente adiar.
Emma refletiu sobre aquilo, sempre imaginou que Regina fosse o tipo de mãe super protetora que não quer o que o filho cresça, e naquele momento sua teoria se reforçou.
— Se acontecer dele se rebelar eu não tenho duvida que você vai saber lidar muito bem. — apoiou – Agora… — começou ao se lembrar de algo – Pense em como controlar mais de vinte adolescentes dentro desse parque. — riu – Foi a minha primeira visita aqui. Passeio do orfanato. — andou um pouco mais a frente e se sentou num dos bancos logo recebendo a companhia de Regina, que prestava atenção no que ela dizia – Todas meninas, uma implicando com a outra, a idade variava dos treze aos dezessete. Eu tinha quatorze e digamos que… Marquei presença.
— O que você fez? — perguntou.
— Bom, nós éramos muitas e tinham só três supervisoras, cada uma era responsável por um grupo, mas era difícil manter todo mundo na linha. O orfanato era bem rígido mas ao ar livre a maioria se soltava, sem pensar nas consequências. Eu fazia parte do pequeno grupo que aprontava dentro e fora, então acho que não foi nenhuma surpresa quando aproveitei uma brechinha pra sumir e entrar numa área restrita. — ajeitou a posição e sentou mais de lado, passando uma perna em baixo da outra – Era uma construção, nem lembro mais do quê, mas eu achei que seria legal ver o que ninguém mais podia, e entrei.
— Para uma policial você tem uma tendência um pouco incomum de invadir lugares. — comentou.
— Eu não regulava bem da cabeça, isso sim. — apertou a mochila com as mãos e jogou a cabeça para trás, sorrindo com a lembrança – O lugar era estreito, sujo e escuro, uma espécie de túnel, mas eu vi que acabava logo em frente então continuei andando…
— Estou sentindo um “mas” chegando…
— Sentiu certo. — riu – Mas… Eu tropecei num carrinho enorme que até hoje eu não sei como não vi e disparei alguma coisa que jogou um pó branco em cima de mim, não sei dizer o nome do que era porque não entendo nada de construção, mas enfim… Você já pode imaginar o resultado.
— Oh sim, eu posso! — riu descontraidamente – E saiu impune disso?
— Bem que eu queria, mas seria bom demais pra ser verdade. Eu estava toda branca, inconformada comigo mesma e continuei andando seguindo a luz no final do túnel, por mais clichê isso seja… E quando saí do outro lado estavam as supervisoras e dois guardas me olhando como se fossem me matar, e todas as meninas rindo da minha cara. — pegou fôlego para finalizar – Os guardas me deram uma bronca mas não fizeram nada, já as supervisoras tiraram meus privilégios como próximos passeios e umas outras atividades de recreação. Elas me levaram até um dos banheiros daqui e eu consegui me limpar um pouco, mas aquilo rendeu história por dias. — ela lembrava bem das piadinhas envolvendo loiras, fantasmas e túneis.
— Não pode ter ficado chateada com isso, querida. Você transpassou uma área privada e causou uma bagunça, um pouco de bullying era de se esperar.
— Fácil falar, não foi com você!
— E jamais seria, eu sempre procurei me manter do lado certo da lei.
— Ei, eu nunca fui nenhuma delinquente, ok?! — usou um falso tom de indignação e olhou a hora no relógio em seu pulso esquerdo – É melhor a gente continuar andando se quisermos achar um lugar pra ficar. — disse levantando – Que horas você precisa ir?
— Por volta das cinco. — respondeu também levantando – Mas o que quer dizer com lugar pra ficar? O que tem em mente, Senhorita Swan?
— Você já vai saber, Senhorita Mills. — sorriu dando alguns passos de ré – A paciência é um dom.
— Certo… E você parece gostar de se aproveitar desse meu dom, não é mesmo?
— Claro, eu adoraria me aproveitar de todos os seus dons. — falou maliciosamente levada pelo momento.
— Emma! — repreendeu, mas não com a firmeza que esperava ter, pois se pegou sorrindo.
— Desculpa! — ergueu as mãos em sinal de rendição e instintivamente aproximou os lábios do rosto de Regina e depositou um rápido e carinhoso beijo.
Para quem olhasse e prestasse atenção, elas pareceriam um casal comum passeando no parque, ainda mais depois daquele pequeno gesto.
Regina arregalou os olhos em surpresa e parou de andar, e Emma entendeu aquilo como um mal sinal.
— Ok, desculpa de novo. — pediu seriamente dessa vez – Eu não…
— Está tudo bem, vamos em frente.
Então continuaram andando em silêncio, cada uma perdida em seus próprios pensamentos, mas foi Emma quem despertou primeiro e resolveu aliviar o clima.
— E você tem alguma história constrangedora do passado pra contar? — perguntou.
— Não que eu me lembre.
— Ah fala sério, não pode ter sido perfeitinha a vida toda, tem que ter alguma coisa. Vamos lá… — incentivou.
Regina pensou por alguns segundo procurando algo para compartilhar, até que por fim encontrou.
— Bem, uma vez participei por engano de um protesto na faculdade e…
— Por engano? Como alguém participa de um protesto por engano?
— Você vai saber se me deixar terminar… — Emma assentiu e ela continuou – Eu fiquei até mais tarde um dia para esperar por um livro que havia encomendado, e quando estava saindo me deparei com a multidão e simplesmente não consegui passar por eles. Eram muitos e gritavam pedindo a liberação de um terreno que fazia parte da propriedade mas estava inativo há anos, e no fim na confusão eu recebi um banho de tinta azul em spray, meu livro foi pisoteado e acabei indo parar na sala do reitor, junto com o líder do protesto e mais uma garota. — revirou os olhos com a lembrança – Não conhecia nenhum deles, estava irritada e me sentia ridícula, mas toda vez que eu tentava explicar era interrompida. O reitor ouviu cada um separadamente então não pude contar em ser absolvida pelos outros dois, e só em mim ele não quis acreditar, mesmo com meu histórico impecável. Como se não fosse o bastante ele ligou para minha mãe e a fez ir até lá, mesmo que eu já fosse maior de idade. Quando ela chegou trouxe junto um advogado da firma e exigiu que o vídeo de segurança do pátio fosse visto, e nele finalmente foi comprovado que eu não tive nenhuma ligação com o que tinha acontecido, e meu histórico permaneceu limpo.
Emma que ouviu tudo atentamente e imaginou todos os detalhes em sua cabeça, pensou um pouco antes de falar.
— Por mais que eu tenha adorado imaginar você pintada de azul e sendo empurrada pra lá e pra cá… — comentou rindo e ganhando um olhar zangado da morena – Essa história teve um final feliz, não vale.
— Final feliz?
— Claro, sua mãe foi te salvar. — apontou.
— E quem disse que acabou? Não, quando pensei que estava livre de surpresas desagradáveis e iria pra casa tirar aquela tinta do corpo, minha mãe me proibiu de entrar no carro, me deu dinheiro e mandou que eu pegasse o ônibus.
— O que? Por que? — Emma perguntou.
— Ela não queria que eu ficasse até mais tarde naquele dia, garantiu que poderia comprar o livro na melhor biblioteca da cidade, mas eu insisti na minha independência e ela achou que aquele seria um bom jeito de me castigar. E talvez estivesse certa afinal não foi nada fácil ser o centro das atenções por onde eu passava. Um adolescente no ônibus me chamou de… — interrompeu a fala pensando se revelava ou não, vendo o olhar expectante de Emma.
— De que? Do que ele te chamou? — insistiu.
— Smurf gostosa.— completou em voz baixa, contrariada.
— O que? Eu não ouvi direito… — ela tinha ouvido, mas queria provocar.
— Ah por favor… — Emma continuou olhando-a e esperando – Smurf gostosa. — repetiu mais alto e Emma riu abertamente.
— Adorei! Esse menino ganhou uma fã. — isso lhe rendeu um tapa no braço.
— Cuidado com o que fala, eu ainda posso ir embora.
— Mas não vai. — rebateu e antes que a morena pudesse revidar ela resolveu continuar – Chegamos.
Regina olhou o espaço aberto à sua frente onde várias pessoas andavam, jogavam, liam, brincavam com cachorros ou comiam sentadas na grama.
— O que vamos fazer aqui? — perguntou.
— Aqui exatamente nada, ainda estou procurando um lugar mais reservado e… — avistou um que parecia ser perfeito – Vem! — chamou.
— Emma, o que você…
— Vem, Regina! — chamou de novo já andando.
Regina foi mesmo sem entender o que a loira pretendia e parou junto dela ao pé de uma árvore um pouco afastada da parte do parque onde estavam as outras pessoas, na sombra, e viu Emma agachar e abrir a mochila que carregava, de onde tirou uma toalha vermelha e estendeu na grama.
— Isso é o que eu estou pensando que é? — perguntou.
— Se você estiver pensando que eu sou um clichê ambulante e preparei um piquenique, então sim. — respondeu sem olhar para cima e continuou tirando alguns ítens da mochila, como um pote de plástico, uma garrafa de suco e dois copos, ao terminar se levantou – Não deu pra te imaginar jogando frisbee, dando comida aos patos no lago, o que na verdade eu nem sei se é autorizado, e também não tem como aproveitar os passeios disponíveis só em duas horas. Então… Pensei nisso.
— Muito bem… Mas espero que tenha dois bancos dentro dessa mochila, porque eu não vou sentar nessa grama. — avisou.
Emma revirou os olhos e se aproximou mais, pegou a mão de Regina e guiou-a até encostá-la no tronco da árvore.
— Vamos ver.
— O que você…
O resto da frase morreu na garganta quando os lábios de Emma se chocaram com os dela de forma firme.
Ela não ofereceu nenhuma resistência e se entregou, momentaneamente esquecendo onde estavam e puxando a loira para si pelo pescoço.
Emma sorriu ainda com a boca próxima a dela e plantou mais alguns beijos pelo rosto até chegar perto do ouvido.
— Agora você vai sentar na grama comigo. — sussurrou.
Regina respirou fundo e olhou em volta rapidamente antes de enfim ceder, para sua própria surpresa.
— Não se acostume. — avisou ao sentar calmamente e com a elegância de sempre, Emma ajoelhou na frente dela, sorrindo – Estou errada ou está virando um hábito me pressionar contra árvores e me beijar?
— Está muito certa, sempre que a gente estiver perto de uma é melhor você se preparar. — brincou – Aqui tem alguns sanduíches, são leves, imaginei que você fosse gostar. — abriu o pote – Eu vou atrás do carrinho de cachorro quente que eu vi enquanto a gente vinha pra cá, já volto. — levantou – Ah, o suco é de maçã, pode pegar também.
Regina observou-a se afastar e olhou de volta para os sanduíches, após pensar um pouco pegou um com o guardanapo e deu uma mordida. Era gostoso.
Entre uma mordida e outra e algumas olhadas para o movimento ao redor, avistou Emma voltando com um cachorro quente em mãos e no meio do caminho uma bola foi parar em seus pés e ela jogou de volta devagar para uma menina, que sorriu e saiu correndo de volta para sua família.
Emma continuou andando e ergueu o lanche para ela em sinal de vitória.
Foi ali que Regina reconheceu algo para si mesma, Emma era espontânea, extrovertida e cheia de vida. O que estar com alguém assim poderia lhe causar? Será que ela se contagiaria e voltaria a ser a mulher que foi um dia, ou suas tentativas seriam falhas e ambas só acabariam se machucando?
Ou talvez tudo aquilo não fosse para frente e ela nem precisasse se preocupar…
— Ei, o que foi? — despertou ao ver Emma sentada diante de si – Meu sanduíche te paralisou?
— Não, eu… — mas ela não ia contar o que pensava de verdade – Vai mesmo comer essa coisa?
— Vou, estou namorando desde que passamos por ele.
— E eu pensando que estava atenta a minha história.
— Eu estava, consigo fazer duas coisas ao mesmo tempo… Na maioria das vezes.
Então cada uma se concentrou no que comia e quando Emma estava quase terminando o cachorro quente pegou os copos e serviu suco para as duas.
— Sábia escolha, tenho que admitir. — Regina disse depois de beber um gole.
— É eu lembrei do seu amor por macieiras e resolvi apostar nisso. — sorriu – Aliás, no final você não me contou por que gosta tanto delas.
— Sim, é verdade… — limpou a boca com o guardanapo e endireitou a postura – Eu cresci em uma casa grande, com um jardim amplo e sempre fui encantada pela natureza. Então um dia ainda criança o jardineiro que vez ou outra me deixava ajudá-lo me deu algumas sementes, disse que eram de macieira e cresceria bonita se eu cuidasse bem dela. Eu agradeci e… — parou ao se lembrar – Mostrei ao meu pai, que como sempre muito atencioso se ofereceu para plantá-la comigo e foi o que nós fizemos. Durante anos eu vi aquela árvore crescer, praticamente junto comigo. E se tornou especial porque…
— Por que? — perguntou ao vê-la parar.
— Foi a primeira vida que eu cultivei, me senti responsável por ela. — ao ver que Emma tinha um sorriso no rosto ela se apressou em emendar – Eu sei, pode parecer bobo…
— Não parece. — interrompeu – Nada que tenha feito ou te faça feliz é bobo, nunca.
Seus olhos se perderam um no outro e Regina não soube dizer por quanto tempo, mas Emma quebrou o contato primeiro e começou a arrumar as coisas espalhadas na toalha.
— Vai querer mais alguma coisa? — perguntou e a morena negou, vendo-a guardar os ítens de volta na mochila, sacodir a toalha, dobrá-la e guardar também.
Emma sentou ao seu lado, encostando na árvore e respirando fundo o ar puro do parque e olhou para as mão de Regina próxima à sua. Calmamente a tocou com o indicador até entrelaçar os dedos, para sua surpresa não encontrou nenhuma resistência.
Seus olhos se encontraram outra vez e Emma usou a mão livre para acariciar o rosto da morena, mexendo em alguns fios de cabelo.
— Adivinha o que eu vou fazer agora? — perguntou.
— Com essa proximidade toda eu vejo só uma opção… — foi silenciada por um selinho – Exatamente essa.
Então se beijaram novamente, num novo ângulo, e logo encontraram um ritmo. Mesmo ao pararem o beijo continuaram de mãos dadas observando o horizonte.
Tudo estava bem até que de repente Regina se viu assustada o que sentia e puxou a mão de volta.
— É melhor irmos embora, logo Henry estará em casa e eu preciso estar lá. — disse tentando disfarçar a instabilidade na voz.
— Tudo bem… — concordou mesmo contrariada, ainda que já fosse de se esperar que a morena retraísse do nada – Vamos indo.
Elas fizeram o caminho de volta tranquilamente, roubando olhares quando a outra se distraía e já no final do trajeto avistaram duas mulheres um pouco mais jovens de mãos dadas, sorrindo e conversando e passaram por elas que vinham no sentido oposto.
Instintivamente Regina olhou para a própria mão que balançava perto da de Emma conforme ela andava, e a loira seguiu seu olhar.
— Não se preocupa, eu já te beijei em público, não vou segurar sua mão assim também num dia só. — Emma brincou – Seria muita informação né.
— Sim, provavelmente… — “Então por que acho que estou querendo isso? O que está acontecendo comigo, Meu Deus?”.
Tentou limpar a mente e não pensar mais naquilo, continuou andando até chegarem na saída do parque. Do lado de fora a calçada ainda estava movimentada e elas encontraram um canto mais reservado para ficarem.
— Seu carro está longe? — Emma perguntou.
— Não, eu o deixei virando a próxima esquina. — apontou – Você veio como com aquela sua lata amarela?
— Não, meu bebê está muito bem guardado. Eu vim de metrô.
— Sei… — pensou um pouco – Posso dar uma carona até…
— Não precisa, obrigada. — sorriu sem vontade ao se dar conta de que a despedida havia chegado – Se cuida, ok? Tenta não me esquecer mofando na sua lista de contatos.
Ela deu um passo para frente e depositou um breve beijo na bochecha da morena, logo em seguida começou a andar de ré ainda olhando Regina, que por dentro se encontrava numa perfeita confusão.
Algo estava errado.
Ela sentia.
“Ela está se despedindo sem sugerir nada, nenhum próximo encontro ou ligação…”
Sentiu o coração acelerar de um jeito ruim e seus olhos só conseguiam focar em Emma dando um tchauzinho tímido e virando as costas.
— Que tal um almoço segunda feira? — as palavras saíram tão apressadas que ela mal reconheceu sua própria fala.
Emma virou rápido e parecia confusa.
— O que? — mas Regina permaneceu calada tentando processar o que estava fazendo – O que você disse? — insistiu.
— Eu disse… — suspirou – Que tal um almoço segunda feira?
— Almoço?
— Sim… Mas teria que ser no meu escritório, supondo é claro que você possa ir até lá.
— Eu posso. — confirmou se aproximando novamente – Mas você tem certeza disso?
“Pirou, Emma? Se ela te convida pra almoçar você aceita! Se ela te convida pra dormir na rua você aceita!”
— Não muita, mas o convite já está feito e pelo que eu entendi você já aceitou então… — seu tom saiu mais grave, como se estivesse começando a se fechar.
— Ei, calma. Eu vou estar lá. — sorriu – A gente se vê segunda.
Regina assentiu e viu Emma se afastar de novo, mas dessa vez ostentando um grande sorriso e ela mesma notou seu coração batendo normalmente. Tranquilo.
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O relógio do computador marcava meio dia e dezenove minutos e Regina encarava o papel de parede com o logotipo da firma.
Ela sabia que a distância entre o prédio e a delegacia não era muito grande então começava a se perguntar onde raios Emma estava.
Jasmine já tinha entregado a encomenda do restaurante, estranhando o pedido de um prato extra, diferente do saudável que a morena comia. Antes da moça sair da sala ela avisou que receberia uma convidada, passou o nome e pelo olhar de Jasmine ela se lembrou quem era.
Quando pensou em mandar uma mensagem para a loira o telefone de mesa tocou.
— Sim? — atendeu.
— A Senhorita Swan está aqui.
“Finalmente.”
— Mande-a entrar.
— Sim senhora. — acatou.
Regina desligou o aparelho, endireitou a postura na cadeira e passou os dedos pelo cabelo aperfeiçoando.
A porta se abriu e Emma entrou hesitante até focar na morena e sorrir.
— Aqui estou eu. — fechou a porta e deu mais alguns passos até parar no meio da sala.
— Estou vendo. — retribuiu o sorriso de forma mais contida e gesticulou para a cadeira do outro lado da mesa – Sente-se.
Emma sentou e viu os recipientes separados na mesa, Regina abriu um por um e olhou para ela com certa expectativa.
— Esse aqui só pode ser o meu. — apontou para o prato que não continha sequer uma folha de alface, diferente do outro.
— Exatamente. — concordou – Acertei na escolha?
— Se você acertou? Só de olhar pra essas batatas fritas eu já ganhei meu dia. — disse animada – Mas claro que antes disso vem a sua companhia. — completou galanteadora.
Regina colocou a mão no peito, em alívio dramatizado.
— Fico feliz, por um instante pensei que as batatas fossem mais interessantes.
— Nunca, Vossa Majestade. — sorriu.
— Você ainda não me disse de onde tirou esse apelido, querida. — relembrou.
— Na hora certa eu te conto.
— E quando será isso? — insistiu.
— Não sei… — desviou o olhar fingindo pensar – Talvez depois desse almoço… A gente vê.
Regina balançou a cabeça sorrindo.
— Então vamos começar.
Durante o primeiro minuto elas comeram trocando alguns olhares, até que de repente Emma pegou algumas batatas e colocou no prato de Regina, que arqueou uma sobrancelha para ela enquanto ainda mastigava.
— Sua comida está muito verde. Eu não aguento ver.
— Isso está brilhando de gordura, eu não vou comer. — quando fez menção de devolvê-las com o garfo Emma interferiu e pegou sozinha, deixando apenas uma.
— Uma só não vai te matar.
— Emma…
— Vou ter que fazer aviãozinho? — provocou.
Regina suspirou e se deu por vencida, comeu a batata mordida por mordida jurando não revelar o quanto estava saborosa.
— Está feliz? Pode voltar a se comportar como adulta agora?
— Claro, ao seu dispor. — simulou uma reverência – Você devia era se sentir especial, eu não saio dividindo minha comida com todo mundo. — comentou remexendo no prato e olhando para a morena.
— Ah sim, estou lisonjeada. — levantou e pegou o suco já pronto que tinha em sua mini geladeira num canto da sala, junto com dois copos – Como posso agradecer? — continuou provocando enquanto servia a bebida.
Aquilo pareceu levar a mente de Emma para um lugar mais tentador e seu olhar escureceu, ela então se apressou em beber o suco antes de responder.
— Está aí outra coisa que a gente pode resolver depois de comer.
As insinuações estavam claras e nenhuma das duas parecia se importar com isso.
Regina apenas assentiu, elas voltaram a comer e não demoraram a terminar. Emma ajudou a jogar os ítens fora e automaticamente sentou no sofá de couro que havia lhe conquistado na primeira visita.
— Ai caramba… Senti saudade desse sofá. — disse se afundando no couro e sorrindo.
— É um prazer presenciar esse reencontro. — Emma que tinha os olhos fechados os abriu ao ouvir a voz de Regina bem perto, e se deparou com ela em pé praticamente entre suas pernas e com os braços cruzados – Estou esperando.
— Esperando o que? — perguntou.
— Sua explicação sobre a origem do tal apelido. — relembrou, novamente.
— Ah sim, certo… — ela não sabia bem como dizer mas decidiu simplificar – No SPA uma vez Ruby comentou que você se comportava como uma rainha, então eu fiz a conexão. Pronto, foi isso.
— Ruby? A garçonete? — perguntou incrédula – E quando exatamente vocês se reuniam para falar sobre mim? — de repente ela se sentiu irritada com a ideia de Emma junto com Ruby fazendo comentários sobre ela.
— Ei, também não é assim… Nós não tínhamos um clubinho, Regina. E ser chamada de rainha é na verdade um elogio… — tentou.
— Claro… — concordou irônica – Se eu soubesse disso antes poderia ter usado para reforçar a demissão dela.
— Ok, chega de falar besteira. — num ato impulsivo puxou Regina pela mão fazendo-a se acomodar sentada em seu colo com uma perna de cada lado – Deixa a Ruby em paz com o emprego dela, tudo bem?
— Eu vou pensar…
— Ah por favor, mulher! — resmungou e a silenciou com um beijo forte e rápido.
— O que você… — isso pareceu desestabilizar Regina o suficiente para tirar seu foco de Ruby e concentrá-lo na atual posição em que estava – O que está fazendo?
— Agora nada, mas há cinco segundos eu te beijei pra te fazer ficar quieta. E mesmo que você não esteja falando mais nenhuma besteira, eu vou fazer de novo.
E ela fez, beijou-a outra vez sendo prontamente correspondida e se perdendo na sensação dos lábios conectados. Desceu as mãos pelas pernas de Regina sentindo o tecido da calça social que ela usava e mudou o beijo para o pescoço.
— Eu prefiro quando você usa saia. — ao ouvir Regina rir ela percebeu o que tinha acontecido – Eu disse isso em voz alta?
— Sim você disse, querida. — olhou para Emma que estava vermelha – Não fique envergonhada, eu vou tentar levar essa sua preferência em consideração de agora em diante.
— Você vai? — perguntou.
“Eu vou? Céus, acho que vou…”
Ela assentiu e Emma voltou a beijá-la com ainda mais fervor, unindo seus corpos e recostando mais no sofá levando-a junto.
Os minutos passaram sem que elas percebessem, Regina estava ofegante com Emma passando a língua de forma lenta e torturante em seu pescoço até perto da orelha direita, apertava os dedos em volta dos bíceps da loira e gemia entregue àquela carícia.
A única coisa capaz de quebrar aquele momento foi o toque de um celular que a morena logo reconheceu como sendo o seu. Um pouco relutante ela se desfez dos braços de Emma e levantou indo até o aparelho na mesa, onde o nome do filho piscava sem parar.
— Eu preciso atender… — avisou rapidamente – Henry? Aconteceu algo?
— Não, mãe. Bom, pelo menos não comigo, mas a professora da última aula passou mal e minha sala foi liberada mais cedo. — explicou – Então eu pensei em passar a tarde aí, pode ser?
— Claro, meu bem. — concordou prontamente – Onde você está agora?
— No ônibus, mas já estou chegando.
— Tudo bem, tenha cuidado mesmo assim. Estarei esperando, quando chegar suba direto pra cá.
— Ok, tchau mãe.
— Tchau. — desligou e olhou para Emma que já estava em pé se arrumando e limpando como podia os vestígios de batom.
— Algum problema com seu filho? — perguntou após ouvir só parte da conversa.
— Não, a professora dele que não se sentiu bem e por isso a turma saiu mais cedo. Ele está vindo pra cá e…
— Ah sim, não precisa dizer mais nada. — interrompeu – Eu entendo, já estou indo.
— Obrigada… — se aproximou – Por entender.
— Claro, ele é seu filho e nós ainda estamos… — “Ainda estamos o que? Não se enrola, Emma.” – Enfim, obrigada pelo almoço e… Por tudo.
— Disponha. — disse ao abrir a porta.
— Posso te ligar à noite? — perguntou.
— Sim, acredito que isso seria… Agradável.
— É, vai ser. — sorriu e deu um selinho rápido em Regina antes de sair pela porta.
Regina também sorriu e voltou para dentro para se recompor antes de Henry chegar.
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A primeira coisa que os olhos de Emma registraram quando o elevador abriu no térreo foram várias folhas de papel espalhadas pelo chão, que teimavam em voar com o vento que vinha da rua e um garoto tentando pegar tudo.
Algumas pessoas olhavam irritadas para ele por estar no meio do caminho ou por terem que driblar os materiais.
Sem pensar duas vezes Emma começou a ajudar e reuniu o máximo de folhas que conseguiu e entregou para o menino.
— Nossa obrigado, eu ia ter que me multiplicar pra alcançar tudo. — sorriu.
— Imagina, não me custava nada. Desenhos maneiros, aliás. — apontou para as folhas.
— É eu gosto, estou pensando em tentar entrar numa exposição online com eles, mas não sei… As chances são pequenas. — ele disse parecendo desanimado, colocando os desenhos de volta numa pasta de plástico que tinha um rasgo na lateral, por onde deviam ter caído.
— Ei escuta só, eu sou o exemplo perfeito de chances pequenas… Tudo que eu sabia fazer de especial era correr rápido e ainda assim consegui usar isso pra algo bom, que me deu isso aqui. — mostrou o distintivo, orgulhosa – Não foi fácil, principalmente no começo, mas eu continuei e acabou dando certo. Então se é o que você quer, vai fundo.
Ele sorriu, feliz pelo incentivo.
— Você é legal, obrigado. — olhou para o elevador de onde saíram algumas pessoas e pareceu se lembrar de algo – Eu tenho que ir agora, se não até te mostrava alguns…
— Claro, eu… — então o celular dela tocou e na tela apareceu o nome de Graham – Também preciso ir. — mostrou o aparelho e começou a se afastar de ré – Não vai derrubar mais esses desenhos por aí, garoto. Ainda podem te render uma grana. — brincou e ele riu, assentindo.
Emma virou e foi em direção à saída, mas antes de pisar na calçada deu uma última olhada para trás e viu o menino esperando o elevador.
Ela pensou brevemente em quando e se conheceria o filho de Regina um dia, que deveria ter mais ou menos a idade daquele garoto, mas logo tratou de esquecer isso e se concentrar no que elas tinham no momento. Então retornou a ligação de Graham e se apressou de volta à delegacia.
Enquanto isso, o menino já dentro do elevador refletia sobre o que a loira desconhecida havia dito, nem sequer sabia o nome dela mas era sempre bom ouvir alguém incentivando seus sonhos.
O celular dele tocou e o rosto de sua mãe apareceu na tela.
— Oi, mãe. — atendeu.
— Henry, onde você está?
— No eleva… — o ding soou e a porta abriu – Na verdade acabei de chegar.
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