I haven't seen you coming
17 Capítulo 17
Notas iniciais
— Mãe, por que não chama a Emma pra jantar aqui amanhã?
Dizer que Regina não esperava ouvir aquilo, ainda mais vindo de Henry, seria um eufemismo. E como resultado do choque a gaveta que ela estava fechando prendeu seu dedo e imediatamente ela o levou à boca para aliviar a dor.
Colocou a colher que tinha acabado de pegar em cima da pia e virou para olhar o filho que estava fazendo a lição de casa em cima do balcão, e parecia alheio ao que aquela pergunta havia causado.
— O que você disse, querido?
— Emma, a loira que veio aqui outro dia. Que me ajudou a salvar meus desenhos e…
— Sim, eu me lembro mas… — conferiu o dedo uma vez rapidamente e ergueu o olhar – Por que quer eu a convide para jantar?
— Não sei… — deu de ombros – Ela parece ser legal e vocês são amigas, não são?
Amigas.
Isso a fez pensar na noite anterior com Emma. Ela já havia revivido tudo várias e várias vezes nas últimas 24 horas, mas parecia sempre encontrar algo novo para analisar. Mas claro que Henry não precisava saber disso, então se limitou a dizer: – Acredito que sim.
— Então, qual é o problema? Foi só uma ideia.
Claro que Regina sabia que o filho não teve segundas intenções, então qual era o problema?
Bem, pra começar a primeira visita de Emma ao seu apartamento havia sido inesperada, não estava pronta para recebê-la naquele dia e a ideia de preparar um jantar para ela, na presença de Henry e toda a intimidade que isso poderia desencadear não melhorou esse fato nem um pouco.
Sim, ela estava baixando a guarda, reconhecia isso, mas era algo pessoal, no tempo dela. Não queria acelerar nada pois sabia do risco de estragar tudo caso fizesse.
— Mãe? — voltou a si ao ver o menino acenando – O que foi?
— Nada, só… Você gosta dela? Emma, eu quero dizer.
— Acho que sim, a gente não conversou muito mas como eu disse ela parece ser legal… E também gostou dos meus desenhos. — ela se perdeu em pensamentos mais uma vez, até Henry voltar a falar – Se bem que... Vai ver ela nem poderia vir mesmo. Aposto que num sábado a noite já deve ter outras coisas pra fazer. Talvez alguma festa ou encontro, sei lá… Né? Mãe? — chamou ao notar que Regina só o encarava quase sem piscar.
— Vamos jantar e depois eu vejo o que consigo com ela, está bem?
E assim ela fez, enquanto esperava a lava louças terminar seu ciclo pegou o celular e abriu o aplicativo de mensagens.
Regina: Emma?
Emma: Eu.
Regina: Está ocupada? Pode falar?
Emma: Posso.
Emma: Bom, posso digitar no caso né.
Regina: Observação brilhante, querida.
Emma: Eu sei haha ;)
Regina: Está livre amanhã à noite?
Emma: Que eu saiba sim, por que?
Emma: Qual o plano?
E junto com aquilo mandou um emoji de carinha maliciosa, que fez Regina involuntariamente sorrir.
Regina: O plano não é nada do que você está pensando, tire sua mente da sarjeta.
Regina: Gostaria de saber se aceita jantar aqui em casa, comigo e Henry.
Ela não se surpreendeu quando a resposta demorou para chegar, imaginava bem a reação da loira. Provavelmente de boca aberta e sem saber o que digitar.
Emma: Sério?
Regina: Sim.
Emma: Na sua casa? Com seu filho aí?
Regina: Sim, foi exatamente o que eu disse.
Emma: Uau… Ok, por essa eu não esperava.
“Muito menos eu.” A morena pensou.
Regina: E então?
Emma: Eu vou, claro.
Emma: Preciso levar alguma coisa?
Regina: Apenas você mesma, e pontualmente se possível.
Emma: Vou tentar…
Emma: Que horas?
Regina: 20:00.
Regina: Agora preciso ir, tenho algumas coisas para fazer.
Emma: Certo, tudo bem. Até amanhã ;)
Regina: Até. Boa noite.
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Era fim da tarde de sábado e Emma estava uma pilha de nervos. Mary Margaret tinha ido visitá-la e seus olhos acompanhavam enquanto a loira andava de um lado pro outro dentro do quarto.
— Você vai gastar o chão desse jeito, Emma. Eu não entendo porque está tão nervosa.
— Como assim não entende? Daqui a algumas horas eu vou jantar na casa dela, com o filho dela junto. Você sabe o que significa isso?
— Não…
— Pois é, nem eu! — exclamou jogando as mãos para o alto – Ela tem sido instável comigo desde o começo e agora do nada me aparece com essa. Eu não sei o que esperar dessa mulher, Mary. Ela é distante e fechada num segundo e no outro está querendo me devorar e eu só… — suspirou – Eu não quero estragar tudo.
— Você não vai, está bem? Eu até entendo sua preocupação, é normal se sentir assim. Mas se você não se acalmar pode sim acabar fazendo alguma besteira. Se ela te convidou é porque está se abrindo, aproveite isso. E você disse que já conheceu o filho dela, não foi?
— Sim, mas eu nem sabia que era ele, achei que fosse só um menino e depois… Até hoje não me conformo com como fui desligada, mas dessa vez vai ser diferente.
— Diferente como?
— Bom, eu vou ter tempo pra falar com ele e… Estou acostumada a conhecer pais, irmãos, tios e etc, mas um filho? Essa é nova pra mim.
E aí estava o problema.
Ela já tinha passado pela ritual “conhecendo a família” algumas vezes desde que começou a se envolver com mulheres, mas nunca precisou se preocupar em impressionar o filho de nenhuma delas. Sabia que Regina não ia apresentá-la oficialmente, mas ainda assim achava importante fazer Henry gostar dela.
— Não vai ser tão difícil, é só descobrir algo que ele goste e criar o assunto a partir disso. Qual é a idade dele mesmo?
— Treze, se eu não me engano. E… — pensou por um instante – Ele gosta de desenhar.
— Pronto, aí está. — sorriu.
— Eu não posso contar só com…
— Loira, cheguei! — Ruby anunciou, interrompendo – Na verdade só vim pegar o uniforme do… — parou ao entrar no quarto e ver as duas – Nossa, pela cara de vocês acho que eu estou atrapalhando alguma coisa.
— Tudo bem, Ruby… — Emma desconversou – Mary essa é a Ruby, que está dormindo no seu antigo quarto. Ruby, essa é a Mary Margaret, minha amiga. — apresentou – Acho que já falei de uma pra outra, né?
— Falou sim. — Mary respondeu e se aproximou de Ruby com a mão estendida – Estava mesmo ansiosa para te conhecer.
— Ansiosa? — riu e apertou a mão oferecida – Não sou tudo isso não.
— Nunca te disseram que modéstia não combina com você? — Emma brincou e sentou na cama.
— Já, mas eu gosto de tentar de vez em quando. — rebateu e voltou para Mary – Olha só, não precisa se preocupar que eu sou da paz, ok? Quando resolver minhas coisas e for embora a nossa loira ali vai estar inteirinha como quando eu cheguei. Até porque não sou besta e sei que ela tem uma arma escondida em algum lugar fora aquela que vive colada na cintura dela.
Mary riu.
Estava gostando do jeito extrovertido de Ruby.
— Tudo bem, eu acredito em você. Confesso que num primeiro momento me preocupei um pouco, mas minha intuição me diz que você é sim inofensiva. E eu confio nela.
— Ei! — Emma interveio – Dá pra voltar a focar no meu problema aqui ou querem que eu saia pra vocês continuarem melhor esse papo?
— E qual é o seu problema, loira? — Ruby perguntou.
— Nenhum. — Mary respondeu antes que ela pudesse – Ela só está exagerando porque vai conhecer o filho da namorada.
— Nós não somos…
— Já está sério assim com a toda poderosa? — Ruby interrompeu num tom elevado, surpresa – E ela tem um filho?
— Tem, mas eu… — Emma tentou outra vez.
— Você já a conhece? — Mary perguntou para Ruby, que assentiu e então ela virou de volta para a loira com cara de ofendida – E por que eu ainda não? Existe algum motivo especial pra isso, Emma?
“Sim, você surta e se mete muito mais.”
— Não, claro que não… Ruby só conhece ela porque ela trabalhava no restaurante do SPA, esqueceu?
— Ah, sim… — sorriu sem graça – Por um momento eu pensei que…
— Que eu estava escondendo ela só de você? Sim, eu sei. Mas não, se tudo der certo acho que eu também vou conhecer a amiga dela e a gente pode… — enquanto falava olhou o relógio na parede e se assustou com a hora – Droga, eu passei mais de meia hora pensando e pensando e ainda não sei o que fazer hoje!
Mary a encarou frustrada pelo seu comportamento mesmo depois de tantos conselhos que ela havia dado, e Ruby resolveu opinar antes de sair.
— Olha, eu sei que a gente se conhece faz pouco tempo Emma, mas já me sinto no direito de te dizer… Pára com essa neura toda! — chegou perto e segurou a loira pelos ombros, olhando-a de cima para baixo – Você não tem sido nada além de você mesma com ela desde o começo, certo? — Emma assentiu – Sem máscaras, enfeites ou atitudes ensaiadas, certo? — assentiu novamente – E tem funcionado, não tem? — mais uma vez – Então pronto, o mesmo vale pra esse menino. Até porque se você forçar a barra ele vai perceber, crianças são espertas com essas coisas. — disse se afastando e voltando pra perto de Mary Margaret.
— Ele não é criança exatamente, está na pré-adolescência. — Emma corrigiu.
— Melhor ainda, é só você aproveitar quando estiver sozinha com ele e dar umas dicas sobre como pegar…
— Ok, já chega! — interrompeu vendo onde aquilo ia dar – Agradeço o conselho. Bom, o primeiro pelo menos… — riu e levantou – Melhor mesmo eu não pirar porque aí sim piora tudo.
— Sempre bom ser útil, precisando é só chamar. — piscou – Agora eu preciso ir, depois vou querer saber tudo hein… Tchauzinho, amei te conhecer! — abraçou Mary e saiu.
— Gostei dela. — a professora refletiu e balançou a cabeça, voltando para Emma – E então? Está mais calma?
— Estou né, agora só posso rezar pra não dizer nenhuma besteira.
— Um passo de cada vez, agora vamos encontrar algo para você vestir! — juntou as mãos animada e foi em direção ao armário da loira.
Aquela seria uma nova batalha a enfrentar.
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Quando chegou ao prédio de Regina ela se deparou com o mesmo porteiro a quem tinha praticamente intimado para conseguir subir, mas antes que pudesse ficar sem graça ele sorriu e avisou que a morena havia avisado sobre ela e que daquele dia em diante sua entrada estava liberada, então passou tranquilamente pelo hall, pegou o elevador e continuou sua missão de tentar não surtar durante o trajeto para cima.
Eram vinte andares mas naquele dia para Emma parecia o dobro, até que enfim chegou na cobertura.
“Você pode fazer isso, claro que pode… Já enfrentou coisa muito pior.” Pensou enquanto encostava na parede do corredor, observando a porta do apartamento de Regina. Para não correr o risco de se atrasar ela tinha saído de casa bem mais cedo e ainda lhe sobravam cinco minutos para o horário combinado.
Lembrou do dia em que conseguiu conquistar a avó religiosa e rígida de uma moça com quem ela estava namorando, aos vinte e poucos anos. Henry não podia ser mais difícil que isso. Ele era só um garoto e a garotada dos dias atuais tinha a mente mais aberta, certo?
“E de que importa isso agora, sua louca? Ela não vai te apresentar como namorada dela, esqueceu?! Vocês não tem nem um nome pro que estão fazendo.”
Respirou fundo e contou os minutos no relógio de pulso, até finalmente bater na porta. Logo ouviu passos vindo de dentro, não sabia quem iria recebê-la primeiro e tentou não ficar nervosa com isso, mas não pôde evitar perder a fala quando viu Henry parado diante de si.
— Ei, você veio. — sorriu – É ela mesmo, mãe! — gritou para o lado – Está tudo bem? Você está meio pálida.
— Eu… — pigarreou para recuperar a força na voz – Estou bem, só não sou fã de elevadores. — mentiu, quem tinha problema com elevadores era Mary Margaret, mas podia pegar a fobia dela emprestada por uma noite para usar como desculpa.
— Ah tá, entendi. Entra. — Emma passou por ele ainda hesitante e deu uma rápida olhada em volta antes de voltar para o menino – Um garoto na minha sala também tem medo de elevadores e outros lugares fechados, ele passa mal e tudo, mas está fazendo terapia ou algo assim. Você já tentou?
Emma demorou analisando melhor a figura de Henry. Fisicamente ele não se parecia muito com Regina, mas o jeito como se portava entregava bem quem o tinha criado. Quando finalmente absorveu a pergunta que ele havia feito e pensou no que responder para dar continuidade aquela pequena mentira, ouviu passos já conhecidos e a voz que frequentemente deixava seus joelhos fracos.
— Boa noite, Senhorita Swan. — disse Regina vindo da cozinha com um avental cobrindo-a apenas da cintura para baixo, ela estava mais casual do que de costume e com um ar mais caseiro, e continuava linda.
— Eu não disse, garoto? Ela tem algo contra o meu primeiro nome. — Henry riu e ela voltou a olhar para a morena, sorrindo – Boa noite. — respondeu.
— Henry… — chamou – Já terminou aquela redação?
— Falta só passar a limpo.
— Então vá fazer isso, quando o jantar estiver servido eu aviso.
Henry assentiu e foi em direção à escada mas antes de subir voltou a olhar para elas.
— Não é melhor dar um copo d’água pra ela ou algo, mãe? — perguntou.
— E por que eu faria isso? — estranhou.
— Bom, ela está nervosa por causa do medo de elevadores. — apontou para Emma como se fosse óbvio.
— É mesmo? — perguntou embora não acreditasse naquilo nem um pouco – Está bem, vou ver o que posso fazer. Agora suba. — quando o menino sumiu de vista ela virou para Emma com a sobrancelha arqueada – Medo de elevadores? Engraçado, eu não me lembro de ouvi-la mencionar isso nas vezes em que foi até o meu trabalho e subiu mais de trinta andares dentro de um.
Dito isso virou as costas e voltou para a cozinha, o que Emma entendeu como uma deixa para segui-la.
— O que você queria que eu dissesse? Que estava branca como uma folha de papel por nervoso? — tomou nota da decoração da cozinha, entre tons de branco e preto, e parou atrás do balcão de mármore.
— E por que exatamente você estava nervosa?
— Não sei… Talvez porque eu não esperava esse convite pra jantar?! Ainda mais com seu filho aqui. – sussurrou a última parte.
— Ele não pode ouvir você, querida. — sorriu e mexeu numa panela com uma colher de madeira, de costas – Eu confesso que isso não estava nos meus planos, mas Henry sugeriu e eu acabei cedendo.
— Ah, nesse caso muito obrigada pela concessão, majestade. — brincou parando atrás de Regina – O que você está fazendo aí? — ao tentar mergulhar o dedo no molho temperado dentro da panela ganhou um tapa leve na mão e a puxou de volta reclamando – Ai! É assim que você me recebe?
— Sim se tentar experimentar antes da hora. E está quente, poderia ter se queimado. — repreendeu.
— Ok, tudo bem… — passou para o lado – Eu devia ganhar um beijo, não um tapa.
Ela falou sem muitas esperanças, afinal estava na casa da morena com o filho dela no andar de cima, então foi pêga de surpresa quando sentiu seus lábios pressionados num rápido mas firme selinho.
— Feliz? — não esperou pela resposta e voltou a mexer no molho, logo sentindo o corpo de Emma encostando no seu por trás, e um beijo em seu ombro direito, não conseguiu conter a curva de um sorriso.
— Por enquanto… — suspirou e observou o que Regina fazia por mais alguns segundos – Quer alguma ajuda?
— Não, já estou quase acabando aqui. Mas se puder levar os pratos e talheres até a mesa eu agradeceria. Estão em cima do balcão. — indicou com a cabeça e Emma seguiu seu olhar.
— Ok… É pra já. — pegou tudo o que coube em suas mãos e quase deixou cair um garfo, recuperando-o no último momento e fazendo barulho.
— Tente não quebrar nada e eu também ficarei grata.
— Certo, claro. — sorriu sem graça – Já volto.
Passou pela entrada no canto da cozinha que dava para a sala de jantar e se deparou com uma grande mesa de madeira escura, quase preta. Não entendeu o porquê de algo tão grande apenas para duas pessoas, mas resolveu deixar pra lá e distribuiu e organizou tudo o melhor que pôde.
— Pronto, consegui dar esses dez passos direitinho e a sua louça continua… O que? — perguntou ao notar que Regina a estava encarando, com um sorriso no canto dos lábios – O que foi? Eu esqueci alguma… — não conseguiu terminar pois em menos de um segundo Regina cortou a pequena distância e tomou-a num beijo estalado e firme, fazendo-a perder o foco – Uau… Ok.
Regina sorriu orgulhosa de si mesma por alcançar o efeito desejado e limpou com o polegar a mancha de batom deixada na boca de Emma.
— Não pude recebê-la assim quando chegou, então… — deixou o resto no ar para ser entendido.
— É, eu sei. Mas tudo bem, eu não esperava mesmo que você me agarrasse na frente do seu filho. — sorriu e recebeu um leve beliscão na cintura – Ai! Que coisa, uma hora me beija e depois já está me agredindo… — reclamou passando a mão no local.
— Então não diga bobagens. — deu um selinho rápido e contido para não deixar vestígios de batom outra vez – Aceita uma taça de vinho junto com o jantar?
— Claro, acho que uma só não faz mal né.
— No armário atrás de você. — indicou afastando-se um pouco – Pegue duas taças e um copo.
Emma não questionou e fez como ela disse, levando os objetos até a mesa, e quando virou para sair Regina passou por ela trazendo uma travessa coberta por um pano, e que exalava um cheiro delicioso.
— O que você fez? Deixa eu só… — ao tentar descobrir o recipiente recebeu outro tapa na mão, o segundo da noite, e embora ela não se importasse, precisava fazer seu drama – Ei! Eu preciso das minhas mãos inteiras, sabia? É bom você pensar nisso se quiser que esses dedos te façam…
— Emma! — interrompeu – Não esqueça que nós não estamos sozinhas. E seus dedos estarão seguros desde que pare de tentar tocar na comida antes da hora. Agora venha… — pediu saindo da cozinha já sabendo que a loira a seguia – Aquela porta à esquerda é um banheiro, pode lavar suas mãos lá. — orientou – Eu vou chamar Henry.
— Sim, mãe… — murmurou indo em direção ao banheiro, mas sem deixar de sorrir com o jeito autoritário da morena.
— Me chame assim outra vez e eu descarto qualquer interesse pela funcionalidade dos seus dedos. — ameaçou já na escada e continuou subindo mesmo ao ouvir a risada da loira. A porta do quarto de Henry estava aberta e ela bateu levemente ao entrar – O jantar está pronto, querido. Terminou a redação?
Henry estava apoiado na mesinha de estudos que tinha e escreveu mais algumas palavras rapidamente, antes de soltar a caneta e suspirar.
— Agora sim. Eu nunca mais quero ouvir ou ler a palavra revolução na vida, ok? — levantou e guardou a folha dentro de uma pasta, para então se virar para a mãe – Emma está mais calma?
Ela franziu o cenho num primeiro momento, sem entender a pergunta, até se lembrar da pequena mentira contada pela loira e ligar os pontos.
— Está, não se preocupe. Na verdade acredito que foi só algo de momento… — desconversou – Agora vamos, depois vou querer ler o que escreveu.
Ele assentiu, já acostumado.
Regina gostava de analisar os trabalhos da escola que ele fazia desde pequeno. Embora não fosse especialista em nenhuma das matérias sentia-se bem em participar assim da educação do menino.
Henry parou rapidamente no banheiro do corredor para também lavar as mãos e os dois desceram juntos, encontrando com Emma sentada no último degrau da escada, de costas.
— Há um sofá logo à sua frente. Consegue vê-lo, não é? — Regina provocou, fazendo-a ficar em pé quase que imediatamente.
— Claro, só achei sua escada mais… — parou a ver Henry – Oi, garoto.
— Oi. — sorriu achando graça do jeito meio atrapalhado dela – E então, o que tem pra hoje mãe? — perguntou já indo para a sala de jantar.
Regina esperou que ele chegasse até a mesa e tirasse o pano da travessa com cuidado para finalmente responder.
— Minha especialidade. — sorriu ao ver o animação do filho com o prato.
— Lasanha! — duas vozes igualmente entusiasmadas disseram juntas, Henry e Emma.
— Você gosta? — a morena perguntou com a sobrancelha arqueada – Eu não sabia ao certo suas preferências então resolvi optar pela aposta mais segura.
— E acertou em cheio, quem é que não gosta de lasanha?!
— Minha avó. — Henry respondeu entrando na conversa e recebendo a atenção das duas – Ela diz que engorda. — puxou uma cadeira e sentou.
— Bom, isso é verdade, mas só se você comer demais e tipo… Todos os dias. — Emma defendeu – Como a maioria das coisas na vida, só faz se exagerar. — Henry assentiu concordando e ela virou ao sentir os olhos de Regina – O que?
— Acaba de dar uma opinião sensata e madura sobre algo? — provocou – Está se sentindo bem, querida?
— Zomba mesmo… Vou lembrar disso na hora de dar minha opinião nessa sua lasanha. — ela sabia que as chances disso acontecer eram abaixo de zero, já que só pelo cheiro sentiu seu estômago vibrar, mas não podia deixar de rebater os comentários.
— Você vai gostar. — Henry interveio – É impossível acontecer o contrário, vai por mim.
— Vamos dar a ela a oportunidade de comprovar o óbvio, não é mesmo? — perguntou ao filho – Sente-se, Emma.
Normalmente ela não gostava de se gabar sobre isso, mas queria sim que a loira provasse e reconhecesse que ela de fato era boa na cozinha.
Foi pegar a garrafa de vinho e a jarra de suco de Henry e quando voltou Emma já estava sentada, de frente para o menino.
Os três se serviram da lasanha acompanhada com um arroz de forno, Regina despejou o vinho nas taças e o suco para o filho. Os dois aguardaram expectantes enquanto Emma levava a primeira garfada até a boca, soltando um gemido de satisfação logo em seguida.
— Meu Deus… — começou de boca cheia e mastigou melhor até engolir – Isso está… Nem sei que palavra usar! É como se tudo que existe de bom na comida estivesse junto dentro da minha boca. — elogiou como pôde.
— Sem reclamações então?
— Nenhumazinha. — cortou mais um pedaço grande e pegou com o garfo, mas antes de continuar comendo parou e olhou para Henry – Pode continuar fazendo propaganda da sua mãe, ela merece.
— E eu vou mesmo. — concordou sorrindo – Então você é policial, Emma? — perguntou.
— Sim, isso aí.
— Como sabe disso, querido? — a morena perguntou, não se lembrava de ter mencionado a profissão da loira para ele.
— Ela me mostrou o distintivo no dia que a gente se conheceu.
— E por que exatamente? — virou para Emma – Estava usando sua autoridade para intimidar meu filho também? Depois do episódio com meu porteiro estou começando a achar que gosta de fazer isso.
— O que? Claro que não. — largou os talheres para se concentrar só em Regina – Em primeiro lugar com o seu porteiro foi um momento impulsivo, eu não saio por aí colocando meu distintivo na cara das pessoas pra conseguir o que eu quero. E em segundo lugar só mostrei pra ele aquele dia pra que não pensasse que eu era uma doida que gosta de dar conselhos pra crianças desconhecidas. — tomou fôlego ao terminar e encarou Regina por mais alguns segundos, esperando uma resposta que não veio – Posso voltar pra essa lasanha maravilhosa agora?
Regina gesticulou com a mão para que ela ficasse à vontade, e em seus lábios carregava um sorriso discreto, observando a loira. Havia perguntado aquilo apenas para provocá-la. E gostou do resultado, como sempre.
Geralmente Emma não se preocupava em ter os melhores modos na mesa, já que na maioria das vezes comia sozinha, mas ali ela se viu tentando ao máximo não fazer nada errado ou deselegante. Por mais que seus instintos dissessem para devorar aquela lasanha como se não houvesse amanhã.
Henry que tinha assistido toda a interação das duas, esperou que o clima voltasse ao normal para falar novamente.
— Bom, só pra constar eu não sou criança… — disse ganhando a atenção delas – Mas tudo bem, foi um erro de principiante, você está perdoada.
Emma riu.
— Poxa muito obrigada, prometo me esforçar mais.
— É o que eu espero. — riu de volta – Mas o que eu ia perguntar antes era como você chegou nessa profissão. Sabe… Era seu sonho?
Emma limpou a boca com o guardanapo enquanto pensava em como responder aquilo sem fazer um discurso que atrasasse o final do jantar deles.
— Eu não não usaria essa palavra, garoto. Na verdade acho que nunca tive um sonho propriamente dito, só queria me sentir viva, sabe? — ao ver que o menino estava atento ela continuou – Não estou dizendo que não é bom ter um sonho, porque é claro que é. Mas eu mudava de opinião muito rápido sobre as coisas, sempre me mantinha em movimento. Antes de entrar pra academia e seguir esse caminho, eu tive vários empregos. Mas nunca me senti completa, como se o que eu fizesse tivesse um sentido. Até que um dia numa conversa com uns amigos a ideia surgiu, eu duvidei que fosse conseguir no começo, mas fui mesmo assim. E foi a melhor decisão que eu tomei na minha vida.
— Aquilo que você me disse sobre insistir, né? — ela assentiu para ele – Eu mandei um desenho para o site que faz a exposição, mas eles ainda vão avaliar. — contou – Espero que dê certo, mas se não der eu sei que existem outras chances por aí, não vai ser o fim do mundo. Uma hora eu consigo.
— É assim que se fala. — incentivou.
Eles trocaram mais um sorriso e voltaram a comer, alheios ao olhar curioso e admirado de Regina diante da interação de seu filho com Emma, que dia após dia dominava mais um pedaço do seu coração.
O silêncio se instalou por pouco mais de um minuto até Henry quebrá-lo com uma pergunta um tanto quanto inesperada.
— Você já matou alguém?
Emma derrubou o garfo, fazendo barulho, e tomou um gole de vinho para ajudar a descer a comida que parecia ter entalado na garganta.
— Henry! — a morena repreendeu – Essa não é uma pergunta que se faça!
Ele pareceu entender e assumiu uma expressão culpada.
— Desculpa, Emma. — pediu – Não quis te chatear ou…
— Não, tudo bem. Não me chateou… Só me pegou de surpresa, mas enfim… Posso responder isso? — perguntou para Regina, afinal ela como mãe que decidia se ele podia saber ou não um pouco mais do mundo perigoso que o cercava, e ao receber um aceno de cabeça afirmativo ela continuou – Bom… Sim. Durante um confronto infelizmente eu tirei a vida de uma pessoa, Henry.
— Por que infelizmente? Não era um bandido?
— Era, mas não deixa de ser uma vida. Foi há anos atrás e me mudou pra sempre depois que aconteceu. Isso é algo muito sério. — disse séria – Eu carrego minha arma comigo por segurança e precaução, mas sempre espero não precisar usar ela.
Henry assentiu e voltou a comer, sem tocar de novo no assunto.
Quando acabaram Regina disse que cuidaria da louça e Henry avisou que enquanto isso ia para o quarto pegar algumas coisas para mostrar para Emma, e logo as duas estavam sozinhas mais uma vez.
— Peço desculpas pela pergunta que ele fez, foi totalmente inapropriada e…
— Tudo bem, Regina. Mesmo. — tranquilizou – Qualquer coisa não fui eu que disse, mas ele é ainda praticamente uma criança. É normal ter esse tipo de curiosidade. Na idade dele eu era bem pior, acredite.
— Ah, eu realmente não duvido… — começou a organizar a louça dentro da máquina enquanto falava, logo recebendo a ajuda de Emma que lhe entregava peça por peça, no início pensou em impedi-la mas a loira parecia contente com aquilo então deixou, pelo menos daquela vez.
— Mas então… — começou depois de entregar a última taça – Posso saber por que escondeu de mim que cozinhava tão bem desse jeito?
Regina estranhou a pergunta, mas fechou a máquina e apertou o botão para iniciar o ciclo de lavagem antes de responder.
— Posso garantir que não escondi nada. — ao notar que Emma ainda parecia duvidar ela completou – Durante nosso primeiro encontro você me perguntou sobre meu hobbie, algo que eu fizesse por prazer, se lembra?
— Sim, é claro. Mas você…
— Eu disse que gostava de cozinhar. — interrompeu.
De repente algo clareou na mente de Emma e isso transpareceu em seu rosto. Ela lembrou do exato momento em que Regina falava durante o jantar e sua mente simplesmente viajou.
— É, então… — desviou o olhar – Eu meio que me distraí enquanto você falava.
— E o que de tão interessante causou essa distração? — perguntou curiosa, colocando uma mão na cintura e aguardando a resposta.
Emma sorriu vendo a pose da morena e disse a mais pura verdade.
— Você. — ao ver que Regina não conseguia reagir àquilo e apenas continuava olhando-a e abrindo e fechando a boca, ela deu dois passos para frente até estar perto, bem perto, ao ponto de sentir suas respirações se misturarem – Foi você com essa sua boca, esses olhos lindos e… Bom, sinceramente o conjunto todo. — passou os braços pela cintura da morena até espalmar as mãos nas costas dela e aproximá-la ainda mais de seu corpo – Vou ser super cafona agora, então se prepara… — fez suspense assistindo o brilho nos olhos castanhos – Eu sei que fui eu que te derrubei quando a gente se conheceu, mas acho que foi você quem me tirou o chão.
Não demorou mais que dois segundos até Regina registrar bem as palavras e pender a cabeça para trás, dando uma risada alta. E antes que Emma pudesse dizer algo foi surpreendida por um beijo pela segunda vez na noite.
Regina parecia estar vibrando, puxando-a para ela com as mãos perdidas nas mechas loiras.
— Parabéns, você conseguiu se superar. — Regina disse ao parar o beijo, mas sem se afastar.
— Eu avisei, não foi?! — riu virando até encostar na pia e trazer a morena junto, usando o apoio para prendê-la mais perto sem correr o risco de cair para trás como uma idiota – Vem cá, Senhora Mills… — tentou puxá-la para outro beijo mas Regina segurou a cabeça no lugar.
— Senhora Mills combina mais com a minha mãe, para você é senhorita. — disse séria, mas com um brilho sensual nos olhos – Entendido?
— Sim senhora… Digo, senhorita.
Regina revirou os olhos e elas se perderam em meio a mais beijos e o barulho da lava-louças. Por sorte esse aparelho não era alto, então o apartamento estava silencioso o bastante para os passos de Henry descendo a escada serem ouvidos no tempo certo para elas se separarem.
Ele entrou na cozinha carregando um caderno de desenho e o celular, talvez por ser algo inesperado, ou por querer mostrar logo para Emma o que sabia fazer, mas ele nem sequer notou que as duas estavam agitadas e até ofegantes.
— Emma, quero te mostrar uma técnica nova que eu aprendi. — chamou.
— Ah… Claro, garoto. Mas a louça ainda não está pronta e eu preciso ajudar sua…
— Eu termino sozinha, você pode ir. — Regina interrompeu.
— Tem certeza?
— Sim, não é muita coisa.
Emma assentiu e deu uma última olhada por cima do ombro enquanto seguia Henry até a sala de estar.
Aquele era o “momento da verdade”, como ela gostava de chamar.
Ainda estava com medo de dizer ou fazer alguma besteira que estragasse tudo com o menino, mas como Mary Margaret e Ruby haviam dito, deixar o nervosismo vencer ou forçar a barra para agradar só iria piorar tudo.
Então ela focou em uma coisa de cada vez, começando por sentar so lado de Henry no grande sofá e olhar atentamente enquanto ele abria e folheava um caderno repleto de desenhos.
— Esse aqui. — apontou e virou a folha para ela visse melhor.
Era o esboço de uma cidade vista do topo de uma montanha, os prédios estavam perfeitamente desenhados e com uma aparência esfumaçada que dava um toque especial. Mas o que chamava atenção era que no canto da folha havia um garoto de braços cruzados e roupa de frio, com um cachecol enrolado no pescoço, mas seu rosto estava em branco. Não tinha nada desenhado.
— Isso é… Ótimo, Henry. De verdade! — sorriu ainda mais quando viu a felicidade do menino diante do elogio – Não sou nenhuma especialista, quer dizer… Só passava raspando em artes e essas coisas na sua idade e até hoje mal consigo fazer um boneco de palitinho, mas acho que sei reconhecer um talento quando vejo um.
— Valeu, eu… — passou a mão pelo desenho – Eu gosto de escrever também, sabe… Criar histórias. Mas dei uma pausa pra focar só nos desenhos agora, quem sabe um dia eu te mostro um capítulo ou algo. — ofereceu – A não ser que você só esteja fingindo interesse pra me fazer gostar você… — olhou-a com ar suspeito por alguns segundos, se segurando para não rir.
— Claro que não. Por que eu fa… O que? — perguntou ao ver ele abrir um sorriso grande.
— Eu estou brincando! — confessou, e ela respirou aliviada – Só queria ver a sua cara. Até porque… Que motivo você teria pra querer me impressionar tanto assim? — claro que ele não sabia ainda o que aquela pergunta poderia causar, então também não percebeu o quão sem reação Emma ficou. Não que ela estivesse mesmo fingindo gostar dos desenhos, mas existia sim um motivo bem particular que tornava a opinião dele sobre ela muito importante – Emma?... Emma!
— Eu! Oi! — respondeu um pouco desorientada pelo susto, estava mesmo viajando.
— Você parecia estar em outra dimensão… Eu estou sendo chato né? Claro que você não quer ficar sentada falando sobre desenho e…
— Não é isso, Henry… — negou antes de ferrar tudo de vez – Muito pelo contrário, eu estava aqui tentando entender isso tudo. — apontou para a folha – Parece tão… Carregado.
— É, bom… Essa é a intenção. Ele está meio triste então tudo tem que seguir essa linha pra mostrar isso de algum jeito.
— Cada um desses que você faz tem uma história diferente? — perguntou.
— Tem. Eu até penso em fazer uma continuação de algum desses um dia, ligar uma história na outra e tudo mais, mas por enquanto está bom assim.
— E qual é a história desse?
— Mais ou menos isso que eu falei… Ele está triste porque está indo embora da cidade onde sempre viveu. — passou o dedo pelo contorno do garoto desenhado – Por isso ele está de costas pra tudo, eu gosto de desenhar os rostos então fiz como se ele já tivesse se despedido e estivesse começando a fazer o caminho de volta. Seja lá pra onde for.
Emma mais uma vez se viu sem palavras.
Estava só começando a conhecer Henry mas já sentia que ele era um menino e tanto. Quem dizia aquele tipo de coisa com tanta serenidade e conhecimento aos treze anos de idade? Não se surpreendeu ao constatar que Regina tinha feito um ótimo trabalho com ele. E continuava fazendo, é claro.
— Isso é muito bonito, mas… Por que o rosto dele está vazio?
— É aí que entra a técnica que eu falei… — tirou um lápis e uma borracha do bolso da calça – Como dá pra ver esse espaço é bem menor do que quando é um desenho só de rosto, então pode acabar não saindo muito realista, mas eu achei umas dicas esses dias que ajudam com isso… — começou a puxar uns traços e parou – Ainda não entendo direito então posso acabar erran…
— Ah, tudo bem, eu não tenho autoridade nenhuma pra te julgar, ainda mais com essa essa minha capacidade artística de um macaco.
— Macacos são muito inteligentes e coordenados, mas eu agradeço o apoio. — voltou a se concentrar no papel.
— Você é bem filho da sua mãe, sabia? — disse rindo.
Henry apenas riu de volta e continuou desenhando. Chegava a parecer um profissional e não um menino que tecnicamente estava “preso” entre a infância e a adolescência, tamanha era sua concentração.
Quando terminou entregou o caderno para Emma com expectativa e ela analisou a expressão facial agora exibida no garoto do desenho, que na verdade lembrava uma foto, em preto em branco, mas uma foto.
— Essa técnica é milagrosa ou isso é tudo coisa sua, garoto? — perguntou sorrindo – Ficou muito real.
— O que? — Regina perguntou entrando na sala.
— O que esse seu filho sabe fazer com um lápis na mão. — Emna respondeu.
— Acho que sou um pouco suspeita para falar, mas… — sentou no sofá ao lado da loira – Sim, ele tem muito talento. — olhou para Henry que corou e abaixou o rosto para disfarçar, voltando a retocar o desenho – Não era hoje a tal série que você queria ver, Henry?
Isso fez ele esquecer o papel e virar para ela com os olhos alarmados.
— É sim, caramba eu estava esquecendo! — jogou o caderno em cima da mesinha de centro junto com o lápis e a borracha e em menos de dois segundos já tinha pegado o controle e se mudado para o outro sofá, que ficava de frente para a televisão.
— Nossa, isso foi rápido! — disse Emma achando graça da rapidez com que o menino fez tudo – Que série é essa?
— The big bang theory, conhece?
— Conhecer? Eu adoro. — respondeu acompanhando enquanto ele zapeava pelos canais – Mas estou atrasada nessa temporada de agora.
— Eu também, por isso queria ver hoje, vai ter uma maratona. Fica aí e vê também.
Emma olhou para Regina, incerta se devia aceitar ou não, e a morena entendeu de outra forma.
— Se não puder ficar tudo bem, ele vai entender.
— Não, eu posso… — conferiu se Henry prestava atenção mas ele estava concentrado demais na tv – Só não sei se está tudo bem pra você. Sabe… Tudo isso.
— Se não estivesse você saberia, querida. — sorriu – Agora preste atenção no episódio.
Emma realmente prestou, mas antes disso observou como Regina se portava. Ela parecia confortável, e isso passava longe do que ela esperava. Desde sempre a morena tinha se mostrado reservada e arredia, então ela imaginou que na presença de Henry ela estaria medindo cada gesto ou palavra. Mas não.
“Será que eu fico feliz ou com medo?”
— Vou pegar sorvete! — o menino avisou durante o comercial e Regina mal teve tempo de pensar antes que ele desaparecesse na cozinha.
— Desculpe, ele esquece as boas maneiras quando está assistindo essas coisas… — disse para Emma – Se quiser posso trazer para você também. É de chocolate.
— Normalmente eu não recusaria, mas se for pra cobrir o gosto maravilhoso daquela lasanha na minha boca eu prefiro que seja com outra coisa… — sorriu maliciosamente.
— Comporte-se por enquanto e eu verei o que posso fazer por você mais tarde. — virou para a tv e fingiu assistir os comerciais com um sorrisinho nos lábios, olhando discretamente vez outra para o lado – Vejo que conseguiu se separar daquele pedaço de pano vermelho que chama de jaqueta.
Emma olhou para seu suéter fino na cor creme mesclada com branco.
— Não se anima muito, minha amiga Mary que escolheu.
— A que interferiu na nossa conversa aquele dia? — perguntou.
— O que? Quando que… — então se lembrou do que disse para Regina – Ah não… Na verdade foi a Ruby.
Isso capturou a total atenção de Regina que virou o corpo para encará-la. – Então você mentiu para mim?
— Bom, se eu dissesse que era ela que estava lá o que você ia pensar?!
— Não sei, mas com certeza me pouparia do desprazer de vê-la seminua no meio da sua sala. — rebateu.
— Ok eu já entendi que devia ter falado que ela ia ficar no meu apartamento por uns dias, mas será que dá pra esquecer isso? — olhou para a entrada da cozinha para checar se Henry não estava vindo e continuou – Até porque ela só me perturbou durante o meu áudio porque viu o quanto eu estava boba conversando com você, então tecnicamente a culpa é sua.
Regina bufou e revirou os olhos, mas nos lábios um sorriso se formou mesmo assim – Boa tentativa.
Logo Henry voltou e os três assistiram juntos alguns episódios de The big bang theory. Regina não sabia muito sobre a série, mas não pôde segurar o riso com algumas falas e cenas, diferente de Henry e Emma que riam de basicamente tudo.
Em algum momento entre os episódios ela sentiu a mão de Emma encostar na sua, delicadamente. Aproveitou que o filho estava distraído e a posição em que estava não permitia que ele visse muita coisa, e deixou que seus dedos entrelaçassem com os da loira.
— Muito bem, por hoje chega. — disse se levantando no fim da maratona – Já é quase meia noite e eu ainda tenho que conferir sua redação antes que esqueça.
— Mas… — ele até tentou mas conhecia bem aquele olhar de “não discuta comigo” que estava recebendo – Ok, eu vou… — pegou o caderno – Tchau, Emma.
— Tchau, garoto. — sorriu – Na próxima vez eu te mostro qual é o meu hobie, ok?
Ele assentiu e foi para as escadas.
— Eu já volto, fique à vontade… — mal disse isso e Emma só para provocar fez menção de colocar os pés ainda dentro das botas em cima do sofá – Não tão à vontade.
Emma riu e os dois subiram dando uma última olhada para a sala onde ela continuou vendo tv.
Enquanto Henry escovava os dentes Regina revisou a redação e guardou de volta onde estava.
— Está tudo certo ao meu ver, não esqueça de colocá-la na sua mochila.
— Eu sei, mãe… — deitou na cama e desbloqueou o celular – Vou só olhar uma coisa no grupo do…
— Nada disso. — cortou pegando o aparelho e colocando na mesinha ao lado – Está tarde.
— Amanhã é domingo. — insistiu.
— Sim, mas você sabe o que esses eletrônicos fazem com o sono.
— Tá bom… — suspirou olhando para o teto – Emma é legal. Meio atrapalhada e engraçada, mas legal.
— Acredito que sim. — riu – Mas é melhor eu descer antes que ela quebre algo, não acha? — passou a mão pelo cabelo dele – Boa noite.
— Boa noite.
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— O que está fazendo? — perguntou assim que voltou primeiro andar e viu Emma tirando o suéter, exibindo a regata branca que vestia por baixo.
— Me deu calor. — respondeu com a cabeça ainda presa na blusa, e quando enfim se livrou dela as ondas em seu cabelo ficaram ainda mais rebeldes – Já pensou besteira não foi?
— Não seja boba… — desligou a tv – Meu escritório tem um ótimo ar condicionado. Venha.
— Ah… Tem certeza? Porque se você quiser eu posso ir emb…
— Venha, Emma. — repetiu mais firme e sorriu para si mesma quando ouviu os passos apressados logo atrás.
O escritório como era de se esperar tinha um ar sério e profissional, com uma mesa de madeira escura no centro posicionada na frente da janela, e em cada lado nas paredes havia uma estante repleta de livros. A maioria sobre direito e os demais sobre literatura em geral.
Regina apertou um botão no controle remoto que estava em cima da mesa e o ar condicionado acoplado perto da porta começou a funcionar, refrescando o ambiente.
— Melhor? — perguntou para Emma.
— Sim, obrigada. — riu – Você devia usar avental mais vezes. — disse lembrando de como gostou de vê-la daquele jeito.
— Então agora que conheceu um pouco dos meus dotes culinários vai querer que eu cozinhe para você como uma escrava? — brincou fingindo indignação.
— Claro que não. Bom, sim mas não como escrava é só que aquela lasanha estava realmente… Ei espera, pára de confundir meu raciocínio!
— Você nunca precisou de mim para isso, querida.
Emma revirou os olhos e num movimento rápido prensou o corpo de Regina junto a mesa e calou-a com um beijo. Passou as mãos pelas coxas dela e ergueu-a até colocá-la sentada em cima do móvel. Arrancando um suspiro de surpresa.
— Eu ia dizer que você fica extremamente linda e sexy no papel de dona de casa. — a morena abriu a boca para discutir e foi engolida por outro beijo ainda mais faminto, e até tentou relutar mas se deu por vencida e agarrou Emma puxando-a contra si, fazendo seus corpos penderem juntos para trás e suas costas encostarem por completo na madeira da mesa. Alguns papéis foram amassados mas no momento ela não conseguiu se importar. Ainda mais quando sentiu a mão quente da loira serpentear por debaixo da saia que ela usava e tocá-la bem onde precisava.
— Eu quero você. — sussurrou.
— Feche a porta. — foi só o que ela disse e que Emma prontamente cumpriu e arfou ao voltar encontrá-la já com a camisa aberta.
Em um segundos já estavam se beijando novamente, o cabelo loiro virou uma bagunça de tanto que Regina aventurou os dedos por entre os fios.
Emma não queria perder tempo deixando-a descer da mesa para tirar a saia então puxou o tecido para cima até amontoa-lo ao redor da cintura. A calcinha de renda preta estava colada ao sexo da morena e quando Emma terminou de tirá-la sorriu para a umidade ali presente.
— Sei que seria melhor continuar com isso numa cama… — Regina começou olhando para baixo onde Emma estava ajoelhada plantando beijos em suas pernas – Mas eu ainda não… Ah! — exclamou ao sentir os lábios quentes no alto de sua vagina, só uma provocação.
— Tudo bem, aqui está ótimo. Ou melhor… — separou mais as coxas morenas expondo-a mais diante de si e amando a visão – Vai ficar.
Emma não sabia como aquela vontade toda tinha chegado, e tão rápido, mas levou em consideração que a morena não tinha tentado pará-la como da última vez, então ela também queria que acontecesse.
Logo a boca dela cobriu o sexo de Regina com vontade fazendo-a imediatamente empurrar o corpo pra frente e agarrar o cabelo loiro, se entregando ao prazer. Quando a língua atingiu um ponto especial e ela ficou ainda mais molhada liberou uma das mãos para tapar a própria boca e abafar os gemidos.
Emma subiu as mãos pela barriga de Regina até alcançar os seios e puxar o sutiã para baixo, massageou-os com vontade e atiçou os mamilos até ficarem duros.
Continuou chupando e olhou para cima com sua melhor cara safada, Regina rosnou quando seus olhos se encontraram e mordeu a própria mão ao sentir o orgasmo se aproximar.
— Emma… — gemeu – Oh Emma…
Emma ganhou mais confiança e introduziu dois dedos para dentro facilmente e não precisou mais do que algumas estocadas para senti-la vir em seus dedos e língua.
Quando os espasmos diminuíram Emma ficou em pé e beijou-a, ainda com a mão no mesmo lugar para aproveitar até o último segundo, e só retirou quando Regina segurou seu pulso. Ela estava sensível.
— Não tem lasanha ou sorvete que ganhe desse gosto. — disse beijando o pescoço da morena e sentindo-a a rir em seu ombro.
— Obrigada?
— Sim, foi um elogio… — sorriu olhando-a com cuidado – E a história dessa cicatriz? Quando eu vou saber? — perguntou passando o polegar lentamente pela marca.
— Não há nenhuma grande história, se é isso que você está esperando.
— Grande ou pequena, só me conta. — pediu.
— Eu tinha dez anos… — começou a falar, fazendo carinho na perna de Emma com o pé sem sequer perceber – Estava brincando com meu gato quando um cachorro apareceu e… Bem, eu fui pega no meio.
— Você teve um gato?
— Foi nisso que você prestou atenção?
— Não, é só que… Eu não te imaginava como do tipo que gosta de animais.
— E imaginava o que? Que eu fosse do tipo que os come no café da manhã? — ironizou.
Emma bufou e revirou os olhos.
— Depois eu que sou boba, mas enfim… Que bom que acabou tudo bem.
— Sim, mas no dia em questão parecia ser o fim do mundo… — sorriu nostálgica com a lembrança – Minha mãe entrou em desespero quando eu apareci em casa com todo aquele sangue, foi um corte pequeno mas profundo, então demorou para estancar. Ela me levou às pressas no hospital mais próximo e eu levei dois pontos.
— Doeu?
— Depois sim, mas na hora por causa da adrenalina eu não senti nada. Quando meu pai chegou do trabalho de noite e soube o que tinha acontecido ele… — parou sentindo-se exposta de repente mas ao ver como Emma parecia sinceramente interessada em suas palavras, ela buscou continuar – Ele quis me levar para tomar sorvete mas eu só conseguia pensar no meu gato que com a confusão havia desaparecido, então nós saímos para procurá-lo juntos. Ele estava numa praça dois quarteirões à frente, assustado mas intacto, e nós o trouxemos para casa.
— Seu pai deve ter sido uma grande pessoa. — Regina assentiu e Emma notou como falar sobre o homem mexia com ela e resolveu voltar para a parte mais leve do assunto – Como era o nome do seu gato?
— Mustache. — sorriu lembrando do bichinho – Devo ter uma foto dele em algum lugar, se quiser depois posso…
— Eu vou adorar ver. — interrompeu – Mas agora quero me concentrar só nessa gata aqui na minha frente.
— Não comece com esses apelidos ou eu… — perdeu a fala pois Emma impulsionou o corpo para frente e encostou a costura dura da calça em sua vagina ainda exposta.
— Ou o que? — provocou – O que você vai fazer, majestade?
Em resposta ela puxou-a pela cintura e novamente estavam se beijando, mas quando Emma começou a fazer mais pressão Regina interrompeu o beijo.
— Eu adoraria fazer você pagar por essa ousadia toda que gosta de demonstrar, mas…
— Está tarde, eu sei. — suspirou se afastando.
Pegou a calcinha esquecida quase caindo da mesa e entregou para Regina, que vestiu e desceu.
Emma entrou no banheiro em que tinha lavado as mãos e fez o mesmo, terminando de se arrumar olhando no espelho, constatando a bagunça que as mãos de Regina haviam feito.
Ao sair encontrou a morena já recomposta, esperando por ela.
— Vai me dizer que você acorda cedo em pleno domingo? — perguntou.
— Não como nos outros dias, mas sim. Gosto de dormir, não hibernar… Mas não foi por isso que eu interrompi o que estávamos fazendo. Só…
— Não precisa explicar, eu entendo. Foi progresso bastante por uma noite. — sorriu – Abre a porta pra mim?
Regina assentiu e elas foram até a saída, Emma parou brevemente para pegar seu suéter de cima do sofá.
— Não vai vestir? — Regina perguntou ao saírem no corredor.
— Ainda estou com calor.
— Sim, mas lá fora está ventando e você com esses braços… — se perdeu por um instante nos músculos – Descobertos.
— Vou ficar bem, se estiver frio eu visto de novo e meu carro é bem quentinho. Agora sem querer pressionar nem nada, mas é que minha amiga Mary anda insistindo pra te conhecer… — olhou com expectativa para Regina que suspirou e balançou a cabeça.
— Sim, Tinker tem feito o mesmo… — disse olhando para longe por um momento – Podemos organizar algo para… Essa semana, talvez.
— Sério? Achei que você… Bom, tudo bem. — sorriu – Ela provavelmente vai liberar a agenda dela assim que souber que você topou não importa qual dia for, então é melhor você me avisar quando puder. — Regina assentiu e elas se olharam por alguns segundos até que Emma voltou a tocá-la prendendo seu corpo contra a parede – Você está mesmo bem com isso?
— Não fique tão surpresa… — passou os braços em volta do pescoço do Emma – Como você mesma tanto diz, não é um pedido de casamento.
— Quem diria… — riu – Ela ouve o que eu falo.
— Quando não é nenhuma… — foi interrompida por um selinho que durou mais que o convencional, mas por isso ela não reclamaria, é claro.
— É melhor eu ir antes que fique ainda mais difícil. — Emma disse.
Então as duas caminharam até o elevador e a loira apertou o botão, enquanto dobrava melhor seu suéter e o encaixava na curva do braço para que não caísse.
— Dirija com as janelas fechadas, está tarde.
— Preocupada com a minha segurança, Senhorita Mills? — provocou ganhando apenas um olhar sério – Ok, fica tranquila que eu sei me cuidar. Policial, lembra? — apontou para si mesma.
— Sim, mas não indestrutível, lembra? — rebateu.
Emma não retrucou porque na verdade estava gostando da preocupação de Regina com ela. O elevador chegou e as portas abriram, ela olhou para a morena e deu um passo para dentro impedindo que fechasse.
— Obrigada por hoje, Henry é um ótimo menino.
— Aparentemente ele gostou de você também.
Aquilo a fez abrir um sorriso grande, num misto de alívio e felicidade.
Pelo visto não tinha estragado nada.
“Por enquanto.”
— Vou deixar pra comemorar isso no carro onde você não possa ver e tirar uma com a minha cara. Com licença… — antes que Regina pudesse abrir a boca para zombar dizendo que ela havia acabado de entregar o que ia fazer, Emma a beijou uma última vez e entrou completamente no elevador – Vou te dar o domingo de folga da minha pessoa, mas de noite dou sinal de vida. Adorei o jantar, principalmente a sobremesa. — sorriu.
As portas fecharam antes que Regina pudesse reagir, não que fosse impedir Emma de procurá-la ou algo do tipo, mas também não queria ficar sem ter a última palavra.
Mas era isso o que a loira vinha fazendo com ela desde que se conheceram, não era? Deixando-a paralisada, sem fala e… Outra coisa que já não era mais nenhuma novidade: ela a deixava feliz.
Sim, definitivamente a entrada de Emma em sua vida não havia sido em vão.
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