I got you
2 Voo
Na fila para entrar no avião peguei nossas passagens e dei uma última olhada para ter certeza de que estava tudo certo. Na fila ao lado, um casal de velhinhos esperava a vez deles. Observei os dois por alguns segundos imaginando se um dia Ian e eu chegaríamos a esse ponto.
Passamos pela inspeção e quando peguei nossas passagens notei que iríamos sentar separados, estranho, eu podia jurar que nossos lugares eram outro.
— Ian. — Chamei enquanto ele entrava no avião. — Nossos lugares estão diferentes, vamos sentar separados.
— Impossível, eu mesmo comprei as passagens. — Ele respondeu, pegando as passagens da minha mão e conferindo.
Fomos até a aeromoça que estava parada perto de um carrinho com bebidas e mantinha um grande sorriso no rosto.
— Com licença. — Ian falou mostrando nossas passagens para ela. — Nossos lugares fora trocados. Estávamos marcados nas cadeiras B e C 1.
Ela gentilmente pegou nossas passagens e pediu para que fossemos com ela. No que seria nosso lugar havia um casal com uma criança sentada no colo da moça.
— Senhor. — A aeromoça falou olhando para o Ian. — Houve uma troca de assentos para poder acomodar uma família.
Olhei para o casal de bolivianos que agora nos encaravam sem entender muito bem o que estava acontecendo. A menininha, que não parecia ter mais de dois anos, se aconchegou no colo da mãe e segurou na mão do pai. Ela provavelmente estava com medo de voar e queria estar com os pais.
Ian discutia com a aeromoça sobre o absurdo que era o que haviam feito sem falar com ele. O rapaz que estava sentado se levantou e começou a pedir desculpas. As pessoas que já estavam sentadas nos encaravam, vendo Ian levantar o tom da voz.
— Esta todo bien. — Falei usando todo o espanhol que aprendi ouvindo músicas. — Puedes quedarte con tu familia.
— O que? — Ian perguntou.
O homem me agradeceu e se sentou ao lado da esposa puxando a menininha para o seu colo. Sorri para eles e me virei para ficar de frente para o Ian.
— Eu disse que ele poderia ficar com a família. Não é justo separarmos uma menina dos pais, ainda mais quando ela está com medo. — Apoiei minha mão no rosto de Ian para tranquiliza-lo. — Você senta onde deveria e eu vou para o outro lugar. E por favor, não arruma briga.
Não deixei ele me responder, apenas ajeitei minha mochila no ombro e fui sentar onde o papel na minha mão estava marcando. Assento A 16, pelo menos seria na janela. Antes de ir me sentar observei a menina do café sentada na cadeira ao lado da minha. Chequei meu papel e o número do assento só para ter certeza.
Acenei com a cabeça e sorri sem graça para ela, que entendeu meu gesto como um "com licença". O banco na frente dos nossos estavam deitados para trás, o que deixou um espaço apertado para que eu pudesse passar, mesmo com ela se sentando de lado para que eu pudesse passar. Estava de frente para ela mas olhando para o teto do avião.
— Droga de poltrona! — O homem no assento da frente reclamou, enquanto abaixava a cadeira com tanta força que acabou me empurrando, me fazendo cair no colo da menina.
Nossos olhos se encontraram, meu rosto estava bem perto do dela. Um calor tomou conta de mim. Seus olhos num tom castanho bem claro, quase mel, me encaravam assustada.
— Me desculpa! — Falei, levantando e me jogando na cadeira que seria a minha.
— Sem problemas. — Ela respondeu enquanto se ajeitava.
Me encolhi, apoiando minha cabeça na janela e vendo as últimas pessoas subirem no avião. Que vergonha! Primeiro empurrei ela na fila do café e agora caio em seu colo. Aparentemente sou um perigo, mas é um pouco reconfortante ter caído no colo de uma menina e não de um homem.
Fiquei imóvel o máximo que pude, até a luz de aviso para por o cinto apitar. Precisei sentar ereta e prender o cinto conforme a aeromoça fazia a demonstração na nossa frente. Nunca tive medo de avião, mas a decolagem era o que mais me dava um frio na barriga. Quando as instruções terminara, ouvi as turbinas do avião serem ligadas e logo segurei os apoios de braço com toda a minha força. Fechei os olhos e respirei fundo.
Enquanto o avião decolava, podia jurar que ouvi uma risadinha da menina sentada ao meu lado, mas estava muito concentrada e com vergonha para abrir os olhos e encara-la. Foram só questão de segundos para estarmos a cima das nuvens. Mais relaxada agora, me arrisquei a ver a linda vista que havia do lado de fora da janela.
Seria um voo de quatro horas, mais que de pressa peguei meu celular a abri minha lista do Spotify. Enquanto ajeitava meu fone de ouvido notei que todas as playlists só tinham músicas que o Ian gostava, todas eletrônicas, do tipo sem letra alguma, apenas a batida. Mas parando para pensar, não lembro quando foi a última vez que eu parei para ouvir as músicas que gosto, geralmente ouvimos o que ele gosta.
Coloquei meus fones e me ajeitei no banco, afundando na doce letra e ritmo do The Smiths — There is a light that never goes out.
.
Com uma hora de voo duas aeromoças começaram as passar com o carrinho de bebidas, o que me deixou muito feliz. Minha garganta estava seca, mas eu não tinha coragem de levantar ou de chamar qualquer uma delas aqui. O seguro era ficar na minha poltrona e não me mexer.
— Aceitam alguma bebida? — A moça de cabelos vermelhos, preso em um coque e uma maquiagem impecável perguntou.
— Água, por favor. — Respondi.
— O mesmo. — A menina ao meu lado falou.
Notei que a aeromoça encheu meu copo numa velocidade muito maior do que o da menina ao lado. O sorriso que era gentil para mim, era malicioso para a menina que alguns minutos atrás eu estava sentada no colo. Não consegui ver se ela correspondeu ao sorriso nada discreto da aeromoça, apenas bebi minha água o mais rápido que pude e voltei a me concentrar em meus pensamentos.
— Tem medo de avião? — Mesmo usando os fones pude ouvir uma voz baixa vindo do meu lado direito.
Tirei o fone e virei o rosto para poder responder. Caramba, ela é realmente bonita.
— Medo, não. Só não me sinto muito confortável com a decolagem e o pouso.
— Não gosta de sentir frio na barriga? — Ela perguntou, mas agora estava olhando para a poltrona da frente.
— Só não estou acostumada. — Respondi. Sentia que deveria me desculpar de novo por quase ter machucado ela duas vezes hoje, mas achei melhor ficar quieta.
— Liz. — Ela falou esticando a mão pra mim. — Me chamo Liz.
— Alice. — Respondi enquanto segurava sua mão.
Seria muito louco da minha parte dizer que senti uma leve onda de eletricidade quando nossas mãos se tocaram?
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