— Sem chances! — Falei rindo. — Pablo Alborán não copia o Aejandro Sanz.

— Copia sim! Por isso as músicas dele são boas. — Liz respondeu enquanto passava sua playlist do Spotify para eu ver.

Já tínhamos voado cerca de três horas, mas nem percebi o tempo passar. Liz era realmente uma menina legal, passamos um bom tempo falando sobre filmes, livros e música. Nunca tinha conhecido alguém que gostasse das mesmas músicas que eu.

— E então. — Liz falou. — Como você ainda está viva e sem arranhões?

Podia sentir minhas bochechas ficarem vermelhas e um calor subiu pelo meu corpo enquanto lembrava de como cai eu seu colo no início do voo.

— É segredo. Se eu contar, terei que te matar. — Fazer piada com a situação foi a melhor solução para a minha vergonha.

— Ah, isso não seria muito difícil. — Nós duas caímos na risada. Exageramos um pouco no tom porquê uma senhora sentada a nossa diagonal nos olhou feio.

Sentada e com a cabeça encostada no banco, pude ver Ian se aproximando de nós novamente. Já era a quarta vez que ele vinha para saber como eu estava e se não estava sentada com algum cara babaca.

— Olá de novo, senhoritas. — Ian falou enquanto apoiava os braços no maleiro, exibindo seus músculos em boa forma.

— Oi, querido. — Respondi, enquanto Liz apenas deu um sorrisinho e abaixou a cabeça para olhar o celular. — Como está sendo a sua viagem?

— Uma bosta! Que aflição ouvir as pessoas conversarem e não entender nada. Se fosse inglês eu me sentiria mais a vontade, agora espanhol é muito estranho de ouvir.

— Sabe que você vai ter que aprender né? — Respondi.

— Sei. Ainda bem que tenho a melhor professora do mundo. — Ian esticou a mão e acariciou meu rosto antes de sair e voltar para o seu lugar.

Essa é uma das coisas que nós não temos em comum. Eu amo aprender sobre novas culturas, novos idiomas, mas o Ian detesta. O que é bem irônico, já que ele irá estudar isso.

— Você sabe espanhol? — Liz perguntou agora olhando pra mim.

É engraçado como o visual dela, desde o cabelo curto e raspado, ao estilo de roupa remetem a uma figura masculina. Mas quando ela fala é como se a feminilidade existisse ali. Seu tom de voz é baixo e doce, mesmo tendo uma voz um pouco grossa e os traços de seu rosto são tão delicados.

Os olhos castanhos claros perfeitamente arredondados, o maxilar bem desenhado e marcado, uma boca com traços finos e delicados. O cabelo preto tem uma parte maior na frente, que as vezes fica caindo em seu campo de visão.

— Sei. Sempre gostei de aprender novos idiomas e eu tinha bastante tempo livre. — Tempo livre porquê eu não tinha amigos, mas essa parte ela não precisava saber.

A essa altura da viagem Liz e eu estávamos dividindo o mesmo fone de ouvido. Nossa viagem já estava acabando e terminaríamos ela ao som de Alejandro Sanz e Camila Cabello — Mi persona favorita.

Fazia muito tempo que eu não tinha uma conversa de verdade com alguma garota. Meu circulo social é basicamente um bando de meninos que faziam parte do time de futebol que o Ian era capitão. As meninas que faziam parte raramente ficavam por mais de dois meses. Se eu não estivesse com o Ian e seus amigos, estava em casa ouvindo música e estudando. As meninas da minha escola não se interessavam por mim, basicamente me viam como a namorada do capitão.

E olha que eu nunca me encaixei naquele padrão de filmes adolescentes. Não sou alta, loira e de olhos claros. Bom, os olhos claros eu tenho. Mas meu corpo passa bem longe de ser como o das líderes de torcida. Tenho curvas e uns bons pneus sobrando, mas aprendi a gosta de cada pedacinho meu. Até meus cachos que insistem em ter vida própria as vezes.

.

Quando o avião começou a pousar, agarrei novamente os apoios de braço e respirei fundo. O frio na barriga veio e eu sorri, era bom sentir. Liz se levantou e saiu na frente. Ela esticou o corpo para pegar a mochila dela no maleiro e gentilmente pegou a minha e me entregou. Agradeci a fomos juntas até o final do avião.

— Você vai ficar onde? — Perguntei.

— Nos apartamentos da faculdade, os da rua sete.

— Eu também! — Falei contente. — Podemos nos encontrar então.

— Claro. — Ela respondeu sorrindo e descendo as escadas para sair do avião.

No final da escada Ian estava me esperando.

— Ele é tipo um guarda costas? — Liz perguntou olhando para o Ian.

— Não. — Respondi rindo. — Ele só é protetor, já me acostumei.

Finalmente pisando em novo solo, nos aproximamos de Ian, que logo passou o braço pelos meus ombros, me abraçando.

— A gente se vê por aí, Alice. — Liz falou enquanto acenava e se afastava de nós.

— A gente se vê! — Respondi um pouco alto para que ela me ouvisse.

— Seu voo foi bom? — Ian perguntou enquanto íamos pegar as nossas malas.

— Foi sim! Acho que finalmente fiz uma amizade. — E u realmente estava empolgada com a ideia de ter uma amiga. Nós iriamos em festas juntas, cinema, conversaríamos e até quem sabe faríamos uma viagem.

— Só toma cuidado. Não acho que meninas como você deveriam andar com meninas como ela.

Não entendi o que ele quis dizer, mas senti como se eu estivesse dançando e alguém desligasse a música. Achei melhor não questionar, se teve algo que aprendi nesses três, quase quatro anos de relacionamento, é que Ian não gosta de ser contrariado.

Alguns minutos dentro de um ônibus fretado pela faculdade e já estávamos no condomínio onde moraríamos pelos próximos anos. As ruas são divididas por números, do um ao sete. Em cada rua tem aproximadamente oito prédios , quatro ao lado direito e quatro ao lado esquerdo, com doze andares cada.

Ao final de cada rua tem um caminho que leva direto a um prédio da faculdade, passando por um jardim repleto de flores, árvores e bancos. A faculdade tem cerca de quatro prédios e embora ela seja pública, nosso apartamento não são.

O ponto de ônibus era na rua cinco, logo descemos do ônibus um grupo de meninos com o blusão da faculdade veio correndo em direção ao Ian. Eram cerca de cinco meninos, todos vindos da nossa antiga escola. Pegaram o Ian no colo e o levantaram, como se tivessem acabado de ganhar um jogo importante.

— Tá certo galera, me coloquem no chão. Preciso me despedir da minha garota. — Ian falou.

— Oi, rapazes. — Cumprimentei todos ao mesmo tempo.

— Oi, Ali! — Se tivessem ensaiado não teria dado tão certo.

— Peguem as malas dele e levem para a rua sete. — Não tive nem tempo de contestar a ordem de Ian. Em segundos minhas malas haviam sumido e os rapazes também.

Ian entrelaçou os dedos nos meus e subimos a rua juntos. Por mais que eu estivesse ansiosa para a minha nova vida, tinha medo de fazer isso sem ele. Sempre estamos juntos, não importa a ocasião, muitas vezes ouvi pessoas dizerem que éramos quase uma pessoa só.

Em frente ao meu novo prédio, Ian me segurou para cintura e me beijou. Um beijo de tirar o fôlego e me fazer suspirar.

— Desse jeito não vou te deixar ir. — Sussurrei ainda com nossos lábios colados.

Ian apenas sorriu e voltou a me beijar. Mas logo o clima foi cortado, um "uuuuh" tomou conta do meu momento de despedida.

Fiquei olhando Ian e os meninos indo embora, até perde-los de vista. Coloquei todas as minhas malas dentro do elevador e apertei o número sete.

Rua sete, andar sete, apartamento setenta e sete. Pelo visto eu teria um novo número da sorte.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.