Notas iniciais
Espero que gostem >o

– Er… Eu acho que aceito

Ela sorriu e puxou-me pelo braço para fora da sala agora vazia…

–Eu costumo fazer isto todos os anos… Quero dizer, apresentar a escola aos novatos mas sou demasiado preguiçosa por isso acabo sempre por só o fazer a um ou dois…- ela caminhava à minha frente sem sequer olhar para mim o que só me fazia ficar mais exasperada pois não conseguia perceber muito bem se aquilo era um aviso do género “foi um acaso teres sido tu, depois de isto só espero que te afastes” ou somente uma espécie de confissão mas que era possível desvendar uma continuação óbvia, algo assim: “mas eu pedi-te a ti pois pareces-te ser a mais simpática”… Não sabia mas não conseguia deixar de a imaginar com um olhar hostil deixando uma clara mensagem de “AFASTA-TE”… No entanto os meus pensamentos acabaram por desviar-se para um assunto diferente:

–Todos os anos? Tu já reprovaste?- eu tentei buscar o seu olhar mas ela continuava a andar apressadamente à minha frente e, apesar de provavelmente ser apenas produto da minha imaginação, parecia que quando eu andava mais depressa tentando alcança-la, ela acelerava também, tentando fugir.

–Umas 3 vezes- ela olhou para mim movendo apenas o pescoço e sorriu levemente, não parecia estar minimamente preocupada… Ia eu fazer um comentário (talvez maio maldoso, mesmo sem essa intenção) quando ela me empurrou para frente quase me fazendo cair e rindo em seguida. Supus termos chegado pois estavam um monte de rapazes e raparigas juntos debaixo de umas árvores à sombra, num canto meio escondido do amplo jardim e curiosamente bem tratado (ao contrário do edifício…) da escola.

–Esta é a- ela fez uma pausa para pensar, não me digam que já se esquecera do meu nome…- Besi, não é mesmo? — ela perguntou sem aguardar resposta- ela é nova na escola!

–Ela e todos os outros miúdos do 10º ano, bom, excepto tu, que já reprovas-te umas 4 vezes…- disse um miúdo que eu não conhecia, era bem mais alto que eu e encontrava-se pendurado num dos ramos de uma árvore… Tinhas uns cabelos castanho claro que, quando lhe batia o sol (raramente visto estar-mos à sombra) ficavam com uma doce aparência loira, tinha também uns olhos âmbar, muito bonitos.

–Também com esse tamanho e caráter ninguém te toma por maior idade!- disse o único rapaz da minha turma que se encontrava presente, Kishiro, ele estava deitado na relva, com a mochila a servir de almofada. Este comentário valeu-lhe um olhar irritado da Tora que apesar de parecer chateada depressa ignorou e continuou:

–Vocês entenderam o que eu quis dizer! Ela não é de cá! E Ren acho bem que melhores os teus modos porque caso te tenhas esquecido também tu és novo aqui!- eu queria dizer alguma coisa mas não me lembrava de nada então acabei por fazer o meu habitual papel de idiota tímida e responder fitando o chão:

–B-bom, na verdade eu moro a duas ruas de distância da escola e isto desde que me lembro por isso…- fiz uma pausa para respirar-envergonhada – tecnicamente eu “sou de cá”

–Nunca te vi por aqui!- replicou a Tora tentando forçadamente olhar-me nos olhos, mas era a minha vez de tentar fugir…

–B-bem, eu costumava andar num colégio privado, além disso raramente vinha para ruas como esta…

–Esta rua tem algum problema, é? Tens medo que te peguemos alguma doença? Fica a saber menina dos papás que pobreza não é doença!- ela olhou-me, desprezando-me, podia quase jurar que quase com nojo de mim… Não podia deixar que as pessoas me entendessem mal outra vez, larguei os meus modos tímidos e berrei tal como ela fizera comigo até agora.

–Não me lembro de alguma vez te ter julgado ou maltratado para tu falares assim comigo! Já olhas-te à tua volta? O que tem aqui? Uma escola, meia dúzia de casas e um enorme parque no centro! O que viria eu fazer aqui, ahn? O que viria eu fazer aqui sem amigos para visitar ou com quem estar? Eu não vinha para aqui por não ter amigos… Agora, deixa de ser egocêntrica, precipitada e temperamental, sim?- eu gritei esforçando-me por conter as lágrimas que teimavam em querer cair dos meus olhos e debitei o resto num rápido sussurro- Pensei que desta vez fosse ser diferente…- Já sabia o que se seguia e não queria que ninguém me visse a chorar por isso desatei a correr à maior das velocidades, mesmo que muito limitada por aquela saia estúpida… Sentei-me à porta da sala de aula onde não se encontrava ninguém e só aí me apercebi da porcaria que era a minha vida… A Yumi… A Yumi era tudo menos aquilo que eu via e no fundo eu sabia-o… Ela sempre tentara criar uma ilusão, fazer com que os outros acreditassem que ela era querida e simpática e a verdade é que eu sempre a ajudara, para não me magoar tentava trocar o rancor dela por melancolia, tentava acreditar que ela estava comigo porque gostava de mim… Mas não passava tudo de uma farsa! Ela só estava comigo porque não tinha mais ninguém, aproveitara-se da minha bondade e tentara virar todos os nossos antigos colegas de turma contra mim mas a aversão deles também se virou contra ela… Ela começou a ficar cada vez mais rancorosa como se a culpa daquilo tivesse sido minha… Ela nunca gostou de mim, à mínima oportunidade tentava mudar aquilo que eu era para além de ter vergonha de estar comigo e de, ao contrário daquilo que eu dizia a mim mesma, tentando iludir-me ela nunca me ajudara, nem sequer se preocupara em tentar… Bem pelo contrário… Ela tentava sempre meter-me em confusões…

Os meus pensamentos acabaram por ser interrompidos pela chegada da professora… Olhei para o meu relógio, ainda faltavam 3 minutos para o toque mas tal como na minha antiga escola os professores chegavam sempre antes do toque! Limpei as minhas lágrimas e apressei-me a levantar-me.

–Olá? O que estás aqui a fazer, porque não estás a brincar com os outros meninos?- era estranho a professora tratar-nos de um modo tão informal e de certa maneira tão infantil...

–E-eu não estou com muita vontade- respondi tentando esconder os meus olhos vermelhos- Mas acha que lhe posso pedir um favor?

–É claro!- exclamou com um sorriso- Espero poder ajudar!

–Acha que me pode mudar para uma mesa sozinha por favor?- a professora pareceu estranhar mas acabou por assentir em concordância e assim que abriu a porta apontou para um lugar no fundo da sala

–Acho que podes trocar de lugar com o Ayato!- disse-me, eu dirigi-me para o meu novo lugar.

Assim que os outros alunos começaram a chegar a professora falou com o tal de Ayato que não pareceu estar minimamente incomodado em mudar de lugar, ainda bem…

A aula passou lentamente e sem eu prestar atenção nenhuma, aliás, como a maioria dos meus colegas… Eu estava cheia de medo que a Tora viesse falar comigo… Não exactamente que viesse falar mas que me batesse ou algo assim por ser mal-educada, ainda mais sabendo que eu não tinha ninguém para me ajudar e que era demasiado envergonhada para fazer queixa… Apesar dos meus receios quando a aula acabou ela nem sequer olhou para mim o que me aliviou profundamente. Depois daquele dia eu só queria voltar para casa, SOZINHA! Por isso comecei a correr à frente de todos, tinha pernas compridas e velozes, ultrapassei-os a todos mas mesmo depois disso deixei-me continuar a voar, sem me preocupar com nada, nem mesmo com a minha saia que parecia levantar-se a atrás, só queria chegar a casa o mais depressa possível!

Assim que cheguei a casa e depois de verificar que estava vazia vesti uns calções e uma t-shirt branca e calcei as minhas sapatilhas descendo as escadas a correr.

Dirigi-me para as traseiras da casa e depois de ir buscar uma bola de basquete à garagem reparei num camião parado do outro lado da rua, perto de uma casa que segundo sei estava à venda desde o mês passado apesar de já lá não morar ninguém à pelo menos ano e meio, segundo consta os antigos donos eram emigrantes e por isso acabou por ficar meio abandonada… Será que já se estava a mudar alguém para lá? Bom, não sabia mas também não me importava...

Deixei-me ficar a jogar basquete nas traseiras até ser interrompida por alguém:

–Nada mal- um dos rapazinhos do grupo da Tora, acho que Len ou Ken, interrompera o meu jogo

–Posso saber o que estás a fazer aqui?

–O que estou a fazer aqui?- ele soltou uma risada- Eu moro aqui!

–Ah moras no passeio? Não me digas! És um sem-abrigo?!- disse eu ironicamente fazendo um falso ar de surpreendida- Acho melhor saíres daqui! Ainda me pegas a tua pobreza!

–Desculpa pelo que a Tora te disse, ela acaba sempre por tirar conclusões precipitadas- disse ele fazendo um sorriso triste

–E tu és o quê, o mensageiro dela? Fica a saber que os pombos correio são de outro tempo, estamos no século XXI!- ele tentava fazer um ar sério mas parecia não conseguir conter o riso- Bom, se não te importas tenho muito que fazer!

–A sério? Como o quê?- perguntou fazendo um ar curioso como se a minha vida lhe interessasse e pendurando-se na cerca à volta da minha casa.

–Bom, como arrumar o quarto e… ESPERA! O quarto, como é que me esqueci?!- eu desatei a correr subindo as escadas de maneira desajeitada. Esquecera-me do incidente de mais cedo… A Aiko devia estar quase a chegar, se ela descobrisse ia logo contar à mãe e de certeza que eu ia terminar de castigo por isso peguei naquela coisa mal cheirosa e atirei-a para dentro do balde do lixo mas aquilo fedia por isso dei um nó no saco e dirigi-me aos ecopontos que se encontravam ao fundo da rua, depois de atirar para o lixo normal voltei para casa, pronta a continuar o meu jogo mas para minha grande surpresa o Ren, ou lá como é que o nome do rapazinho ainda se encontrava à minha espera.

–Posso saber porque é que ainda não te foste embora?

–Ora, vim visitar a minha vizinha- respondeu com um sorriso

–Pois mas olha que já está na hora de saíres, eu tenho conversas muito sérias a ter com a minha mãe- aquilo era só uma desculpa até porque a minha mãe só chegava dentro de sete ou oito horas

–Como por exemplo?- ele continuava com aquele seu irritante sorriso irónico.

–Arranjar uma precetora!- respondi sem pensar mas até que não era má ideia… Apesar do olhar surpreendido e ligeiramente triste dele- Bom, tenho de ir! Afinal, o almoço não se prepara sozinho!

–Adeus!- ele sorriu, acenando como um tolo e continuou, num sussurro- Roxo com pintas pretas

Eu olhei para ele sem perceber nada mas ele apenas sorriu… Já estava a entrar em casa quando me lembrei e senti-me corar. Roxo com pintas pretas…