O tempo foi passando e as ligações de Kiori foram ficando cada vez mais esporádicas. Nós conversávamos menos, ela nunca tinha tempo, eu também não ficava muito atrás. Mas nada conseguiu minimizar o amor que eu sentia por ela. Quanto mais meus amigos me apresentavam garotas, mais eu me dava conta de que nenhuma delas jamais chegaria aos pés dela. Eu até tentei sair com algumas, mas cada vez que eu fechava os olhos eu desejava abri-los e ver Kiori ali ao invés daquela garota que eu nem lembrava o nome e que ficava tagarelando sobre qualquer coisa que não era do meu interesse.

E foi naquela tarde insuportavelmente quente, quase dois anos depois que eu deixei Mie, que eu recebi aquela ligação.

— Alô?

— Yuu?

— Kiori?

— Oi, Yuu! Quanto tempo! Tudo bem com você?

— Tudo ótimo. E com você?

— Também. Como vai a banda?

— Legal. E a faculdade?

— Eu tô indo pros Estados Unidos fazer o último ano lá.

— Ah... – engoli em seco – Você... conseguiu a bolsa?

— Consegui. – diferente de mim ela soava animada.

— Que bom. Boa sorte. Fico... feliz por você. – “Fico o caramba! Ficaria se você tivesse aqui do meu lado”, de novo, era o que eu queria ter dito.

— Obrigada.

— E quando você vai?

— Na semana que vem.

— Nossa, tão cedo?

— É que a outra menina que ia no meu lugar teve um problema de última hora e aí eu preenchi a vaga.

— Ah, claro.

— Eu liguei pra... me despedir de você. Quer dizer, não que eu não vá voltar, mas eu vou poder ligar ainda menos enquanto estiver lá.

— Eu entendo.

— Quando eu voltar nós teremos mais tempo pra nos ver. Vou tirar umas férias e vou pra Tokyo passar um tempo com você, combinado?

— Combinado.

— Legal. – a falta de naturalidade nas palavras me incomodava mais que tudo no mundo.

— Então tá.

— Tá, boa sorte e boa viagem.

— Obrigada. Se cuida viu?

— Você também.

— Tchau.

— É... Tchau. – um nó do tamanho de uma bola de beisebol trancava a minha garganta.

Caí sentado no sofá, sem saber no que pensar, sem querer abrir os olhos para a realidade que estava gritando na minha cara: ela ia embora. Simples assim. O peso das coisas que não foram ditas caiu como nunca sobre os meus ombros. Ela disse que voltaria, mas não era certo. Meu lado pessimista e dramático me dizia que ela não voltaria, mas no fundo de algum lugar no meu peito eu ainda tinha esperança. Por outro lado eu queria achar que seria mais fácil esquecer se ela estivesse a um oceano de distância.

Eu resolvi que ia me desligar disso e me concentrar na banda ao máximo. E foi o que eu fiz. Não faltei a um ensaio, sempre fui aquele que insistia por mais uma hora, dei o melhor de mim e mais um pouco. E deu resultado, nós arranjamos um baterista novo e banda começou a se sair melhor do que nunca. Arranjamos uma gravadora, começamos a tocar em lugares maiores, tudo corria da melhor maneira possível.

Mas do lado de dentro as coisas não eram tão fáceis assim. O tempo passou, e mesmo sem noticias de Kiori, meus pensamentos continuavam sendo invadidos por imagens, lembranças, sorrisos e palavras. Eu continuava a aprisionar todo o meu sentimento como um garoto do colegial. Não que ainda me restasse muita esperança de uma chance de dizer a ela tudo que gostaria de dizer, mas eu era um tolo apaixonado, no fundo eu ainda tinha uma faísca de esperança. Eu usava a banda como desculpa para me fechar no meu próprio universo e fingir que eu realmente era feliz de alguma forma. Mas a saudade me atormentava cada vez que uma brisa morna tocava meu rosto trazendo consigo aquele cheiro doce dos cabelos dela. Eu fingia me divertir, fingia que tudo estava bem, mas nada estava completo sem ela ali. Mesmo que fosse sua simples presença, já serviria para preencher aquele buraco no meu peito. Assombravam-me os motivos que eu supunha pelos quais ela não dera mais noticias. Talvez tivesse se casado e esquecido do velho amigo. Amigo. Eu era tão patético ao ponto de sentir pena de mim mesmo por nunca ter sido mais do que o amigo. E agora ela tinha sua própria vida, talvez até filhos, e eu ainda me alimentava daquele amor de colegial. Dez anos se passaram e eu sequer fui capaz de tirar a foto dela da gaveta do meu criado mudo, não fui capaz de me livrar do hábito de olhar para aquela foto todas as noites como se pudesse mergulhar no papel e reviver tudo aquilo.