I Wont Go Home Without You
2 Capítulo 2
E aí ela saía com outros caras, e eu como o amigo fiel, sanava suas dúvidas quanto ao universo masculino, me sentindo um idiota, claro. Exatamente como acontecia agora:
— Já fazem cinco dias, Yuu. Acho que ele não vai mais ligar. O que você faria no lugar dele?
“Teria ligado há muito tempo e falado o quanto você é linda e então eu teria corrido até aqui, te tomado nos braços e te beijado como se essa fosse a ultima coisa a se fazer antes de morrer” era isso que eu queria ter falado, claro.
— Ah, ele deve ter achado bem estranho o fato de você morar com um cara. – foi o que eu disse ao invés.
— Nem todos os homens entendem que uma mulher e um homem podem morar debaixo do mesmo teto e não ser nada além de amigos.
— Tem razão. – “nada além de amigos”, essa doeu.
— Que droga! – bufou, cruzando os braços.
— Quer que eu fale com ele? – Meu Deus, o que é que eu tava dizendo?!
— Não precisa. Mas se vocês se conhecessem, mesmo que acidentalmente, ele veria que não há nada entre nós e que não há com o que se preocupar.
— Talvez. – sorri sem graça, escondendo a pontada no peito que me atingiu com aquelas palavras.
— Ah, desculpa, Yuu. Eu fiquei tagarelando sobre mim o tempo todo. – e tocou meu ombro – Você parece preocupado, aconteceu alguma coisa?
— Eu... Eu tomei uma decisão, Kiori. – pelo menos isso eu precisava contar pra ela – Eu vou largar a faculdade.
— Vai mesmo? Yuu... Eu entendo que você goste de música e tudo mais, mas você sabe o quanto é difícil ser bem sucedido nessa indústria. Você não acha mais sensato esperar até o fim da faculdade?
— Não. Eu não quero desperdiçar o dinheiro dos meus pais. Além do mais eu recebi uma proposta ótima de uma banda, mas...
— Mas o que?
— Eu vou ter que deixar Mie.
— Deixar Mie? – ela me olhou confusa.
— Eu vou pra Tokyo, Kiori.
— Tokyo, mas... E eu? Quer dizer, e o nosso apartamento? – os olhos dela se encheram de lágrimas e eu me dei conta de que seria melhor me afastar dela. Se ela não pudesse me dar o amor que uma mulher dá a um homem, eu não queria amor nenhum. Não queria mais ser o “só amigo”, o “quase irmão”.
— Você pode arranjar outra pessoa pra dividir o apartamento. Uma menina dessa vez, vai te poupar de vários problemas não acha? – eu sorri, tentando evitar que aquela lágrima escorresse pelo rosto dela – E Tokyo não é longe daqui. Ainda podemos nos ver. Não se preocupe, eu não vou te esquecer.
E ela não fazia idéia do quanto aquelas palavras realmente significavam pra mim.
— Contanto que te faça feliz, Yuu, por mim tudo bem. – ela sorriu e a lágrima salgada atingiu seus lábios.
— Obrigado, Kiori. – sorri tristemente e a abracei o mais apertado que pude.
Algumas semanas depois lá estávamos nós na estação, nos engasgando com despedidas, o mundo caindo à minha volta em forma de neve, e eu tentando ao máximo me convencer de que aquela era sim a decisão mais sensata.
— Vou sentir sua falta, Yuu. – ela soluçou e apertou as mangas do casaco entre os dedos.
Se eu fosse louco o suficiente eu a pediria para vir comigo.
— Também vou sentir sua falta. – e então ela afundou o rosto no meu peito, molhando minha camiseta com suas lágrimas. – Não seja tão dramática, Kiori. Não é como se eu fosse me mudar pro outro lado do planeta. A gente ainda vai se ver.
— Promete? – e me olhou com os olhos cobertos de lágrimas.
— Prometo. – e eu temia não estar sendo tão sincero quanto gostaria.
As portas dos vagões se abriram e eu a deixei para trás, com uma promessa que eu não tinha certeza se seria sensato cumprir. Eu tinha que me desprender daquilo de alguma forma, daquela esperança que me consumia aos poucos, daquele sentimento perdido, daquele sofrimento em vão. Tinha que deixá-la no passado e lamentar que tudo fora apenas lembrança.
Eu realmente cheguei a achar que conseguiria me livrar daquele sentimento depois que chegasse em Tokyo. Só achei. Não era tão fácil quanto eu pensava. Por mais que a banda estivesse indo bem, por mais que eu estivesse realizando tudo que pretendia, não havia saída. Eu simplesmente não conseguia não pensar nela quando deitava a cabeça no travesseiro à noite. E tudo piorava com as ligações animadas dela. Ouvir sua voz fazia minhas mãos suarem e meu coração esquentar de tal forma que eu me perdia até nas frases mais simples. Ela até tentou arranjar um jeito de vir me ver em Tokyo, mas a faculdade lhe tomava muito tempo, e eu sempre acabava arranjando uma desculpa para não ir até Mie.
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