– Como assim "algo errado"? — Helena perguntou num tom de voz assustado.

– Zac... Ele não responde. Algo está errado.

As perguntas fervilham em minha mente e eu não consigo me deter.

– Quem é Zac? Você também pode fazer isso?

Ele sorri, por um breve momento.

– Todos nós podemos.

Todos nós quem? Quero perguntar, mas concluo que temos problemas maiores que minha curiosidade, sejam eles quais forem.

De repente um dos carros á nossa frente para abruptamente e o homem ao volante para num susto, fazendo-me ir de encontro ao encosto do bando da frente.

Esfrego minha testa com a mão enquanto tento entender o que está acontecendo. Os outros carros também param e um homem vestido exatamente como nosso próprio motorista desce do primeiro carro a parar. Ele caminha até a janela da frente e apoia os cotovelos na porta.

– Nós agradecemos pelo que fizeram lá atrás. — Então ele olha para o banco traseiro e aponta para mim. — Agora eu quero a garota.

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Helena aperta minha mão tão forte que dói, mas estou tão assustada que me vejo apertando a dela também.

– Vamos lá, a garota não vale nada. Não vai querer... Isso. — Ele diz apontando para mim.

O fuzilo com o olhar, mas sei que está fazendo isso para me proteger. Não me deixar ser levada por quem quer que sejam esses caras.

– Ah, qual é. Você pode fazer isso do jeito fácil e me entregar a garota por livre e espontânea vontade ou você pode resistir e nós o matamos. A escolha é sua.

Vejo sua mão ir de encontro à barra da calça. Noto um volume que não havia visto antes. Ele levanta um pouco a camisa, revelando um brilho prateado.

– Acho que vamos ter que brigar, então. — Ele diz, puxando a arma e apontando para o homem parado á porta.

Ele sorri de um jeito sarcástico.

– Péssima escolha, meu amigo.

Então se afasta e faz um sinal para os outros carros. Mais homens de preto descem portando armas. Talvez uns sete ou oito. O pânico me domina e Helena aperta minha mão cada vez mais forte.

O homem à nossa frente parece extremamente calmo e eu noto que não sei seu nome. Ele salvou minha vida uma vez e eu posso morrer sem nem saber seu nome. Afasto tal pensamento da minha mente e me concentro nos homens lá fora. Eles parecem determinados.

– O que vamos fazer? — Helena pergunta pela primeira vez e percebo o quanto senti falta da sua voz. De algum modo, ela me tranquiliza.

Nosso motorista continua com os olhos fixos à nossa frente.

– Nós vamos fugir. — Antes que pudéssemos falar alguma coisa ele pisa no acelerador com toda a força e dá meia volta numa velocidade surpreendente. — Abaixem-se! — Ele grita e nós obedecemos.

Logo vêm os tiros e o pânico me domina. Um deles acerta o vidro traseiro e passa zunindo ao lado do meu ouvido. Me encolho o máximo que posso e aperto os olhos com toda a força. O carro dispara rua afora e logo os outros começam a nos seguir. Ele vira as esquinas com uma rapidez surpreendente e os outros lutam para conseguir nos acompanhar. Os tiros se reiniciam, mas parecem mais decididos a assustar do que machucar. Seja lá para o que eles me querem, eles me querem viva.

Depois do que parece ser uma eternidade os tiros cessam e eu me obrigo a levantar a cabeça. Quando abro os olhos, vejo que Helena está fazendo o mesmo. Por um momento seus olhos encontram os meus e eu percebo que ela está tão apavorada quando eu. Olho para trás e percebo que a quantidade de carros diminuiu consideravelmente. Alguns ainda ao longe parados em frente a muros, com a dianteira destruída. Me preocupo com o número ainda grande de carros nos seguindo e me preocupo ainda mais quando começamos a perder velocidade quando o homem ao volante diz, como se lesse meus pensamentos:

– Conseguimos despistar todos. Esses vieram conosco.

Uma onda de alívio me atinge em cheio e a possibilidade de estar a salvo me domina.

– Porquê? — Pergunto e ele parece confuso, então esclareço. — Porquê arriscar suas vidas por mim? Vocês poderiam ter simplesmente me entregado a eles.

Ele sorri novamente e me pergunto como pode fazer aquilo com tanta facilidade.

– Você entenderá.

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Depois de muito tempo ele conduz o carro até um beco escuro, então um por um, os outros carros vão parando atrás de nós. Me preocupo de ter confiado nas pessoas erradas, então Helena segura minha mão novamente. Aquele gesto, de algum modo, me trás confiança e eu a sigo por entre uma porta improvisada com tábuas velhas.

Lá dentro, não consigo ver nada, apenas com a iluminação do sol passando por uma fresta da madeira. Avisto uma luzinha vermelha em algum lugar á frente. Sinto todos pararem à minha volta e paro também, antes de esbarrar em alguém. Ouço bipes, a mente ainda confusa e a pequena luzinha vermelha some, dando lugar a uma luz verde e uma porta se abre.

Meus olhos ardem, depois de ficar algum tempo no escuro, mas logo se adaptam à claridade. Avisto uma grande movimentação do lado de dentro. O prédio, aparentemente abandonado do lado de fora, mas completamente diferente em seu interior. Todo pintado de branco e com vidros em toda parte. Até onde eu podia ver, tinha no mínimo cinco andares, todos com computadores e pessoas bem vestidas circulando pelo local.

– Bem-vinda à Sede... Ou uma parte dela. — Diz o homem que me conduziu até lá.

Os outros se dispersam, deixando-me a sós com ele e Helena.

– Sei que deve ter muitas perguntas, mas preciso conversar com Helena à respeito do que aconteceu lá. Acho que deve conversar com Nathan. Ele vai te explicar tudo.

Estremeço de pensar em me separar dele ou de Helena, os únicos em que eu posso realmente confiar, mas assinto um pouco relutante e eles se viram para partir.

– Espere. — Digo e eles se voltam novamente para mim. — Qual o seu nome? — Aponto para o homem.

– Max.

– Obrigada... Max. — Digo.

Ele sorri antes de se perder em meio às outras pessoas.

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Um garoto de provavelmente uns 17 anos se aproxima com um sorriso. Ele abre os braços, mas se detém antes de terminar o gesto. Uma tristeza repentina me domina, eu realmente estava precisando de um abraço.

Me repreendo quando ele estica a mão para mim e eu a aperto. Fora um pensamento idiota.

– Sou Nathan. Você já sabe disso, mas não se lembra, não é? — Balanço a cabeça. Ele é mais alto que eu, talvez uns dez centímetros. Seus olhos são escuros, assim como seu cabelo. Ele sorri e eu sinto vontade de sorrir também. Ele é bonito. Sem dúvidas é bonito. — Venha, eu vou te mostrar o lugar. — Ele diz interrompendo meus pensamentos.

Seguimos por um dos longos corredores até uma escada no final. Ele faz menção para que eu suba primeiro e eu não discuto.

Subimos mais algumas escadas até chegarmos a um andar diferente dos outros. Mais baixo e com uma portinha num canto. Ele aponta para ela e eu a abro, revelando o telhado do prédio. Ele me guia até um banco no exterior e se senta. Eu o imito.

– Nós costumávamos vir aqui todas as noites antes de... Você sabe.

Ser capturada, penso. Mas ao invés de dizer isso eu o faço uma pergunta.

– Éramos amigos? — Ele olha pra mim por algum tempo antes de responder.

– É, éramos amigos. — Ele sorri. Então prossegue com o assunto pelo qual realmente estávamos ali. — Nossa sede principal costumava ser no prédio onde você estava. Isto é, antes de eles invadirem e nos colocarem para fora. Muitas pessoas morreram no ataque, foram perdas para ambos os lados. Mas conseguimos escapar e nos instalar aqui, mais um esconderijo que uma Sede, como pôde ver lá na frente. O plano é reconquistar a Sede original.

Enfim ele para e eu vejo a oportunidade para fazer as perguntas que tanto me incomodam. Eu as despejo antes mesmo de poder me conter.

– Quem são eles? Porque estão atrás de nós? Porque eles queriam me levar? Quem somos "nós", afinal?

Ele ri.

– Ei, calma. Uma coisa de cada vez... Eles querem nos destruir porque acham que assim vão conseguir destruir todos os nossos iguais.

– Iguais? — O interrompo.

"Telepatas."

Diz ele em minha mente.

Levo um susto, levantando do banco instantaneamente. Ele ri divertidamente.

– Desculpe, ainda não me acostumei com isso. — Digo sentando novamente. — Quer dizer que todos aqui conseguem fazer isso?

– Sim, todos. Mas ninguém consegue fazer isso com todo mundo. Apenas se você... Conhece a pessoa de um jeito... Diferente. Como você e Helena. Amigas a muito tempo.

– E você.

– O que? — Ele pergunta, confuso.

– Você. — Repito. — Você pode se comunicar comigo.

– Ah... Sim. Nos conhecemos a algum tempo também. Não tanto quanto Helena, mas um bom tempo. — Ele faz uma pausa, depois continua. — Enfim, eles a pegaram porque você é a responsável.

– Responsável? — Indago, confusa.

– Sim. Você é a responsável por isso. Você construiu esse lugar. Você encontrou todas essas pessoas. Você é a Líder.