Okay, isso é demais. Solto uma risada.

– Você tá brincando, certo? Eu? Líder? Você só pode estar brincando.

– Porque é tão difícil de acreditar?

– Não é difícil, é impossível. Eu não posso ser uma Líder, eu nem sei como ser uma Líder.

– É melhor não se surpreender tanto. Não estou brincando, você fez mesmo isso. Você é capaz, sempre foi. E eu sempre acreditei em você. — Ele diz e logo acrescenta. — Todos nós acreditamos.

Minha cabeça está fervilhando no momento. É muita informação pra processar e eu não cheguei nem na metade. Nathan parece perceber isso e coloca a mão em meu ombro.

– Vamos com calma, certo? Não vou despejar tudo em cima de você. Você precisa de um tempo pra pensar. Por enquanto vamos parar por aqui.

Ele faz menção de se levantar, mas eu o impeço.

– Minha mente. Ela foi apagada. — Ele assente. — Eu vou recuperá-la algum dia?

Ele respira fundo e relaxa no banco novamente.

– Como eu disse, nossa Sede foi atacada. Nós tínhamos maneiras de reverter isso lá, mas tudo ficou lá com o ataque. — Ele faz uma pausa. — Mas estamos tentando entrar lá novamente. Não para recuperar a Sede ainda, mas pelo menos para pegarmos o Soro.

Aquela palavra me atinge. Eu não sei o que significa.

– O que é o Soro? — Pergunto.

Ele suspira novamente e percebo que não são boas notícias.

– Quando aplicamos o Soro a pessoa entra em coma por algum tempo, e quando acorda as lembranças vão voltando, aos poucos.

– Quanto tempo? — Ele está adiando a resposta, o que não pode ser boa coisa.

Ele hesita antes de responder.

– Duas semanas. — Me surpreendo. — Mas não faremos isso se não quiser. — Ele se apressa em dizer.

– Não... Quer dizer, sim... — Faço uma pausa para organizar meus pensamentos. — Vou fazer isso. Quando eles recuperarem o Soro vou fazer isso. Eu preciso.

Ele sorri e se levanta novamente.

– Vou te deixar sozinha agora. Avisarei à Helena que está aqui.

Eu assinto e ele se vira para ir embora.

– Nathan? — Chamo. Ele olha para mim. — Não lembro de ninguém e as únicas pessoas em quem confio são você, Helena e Max, então... — Ele me interrompe.

– Eu vou estar por aí. Não vai se livrar de mim tão cedo.

Ele se vira e desaparece pela porta.

◄►

Helena demorou mais do que eu esperava. Estava quase descendo as escadas novamente indo à sua procura, mas quando tal pensamento me ocorreu ela apareceu na porta. Ela levanta a mão num aceno tímido.

– Oi... — Caminha até mim e para ao meu lado, apoiando os braços na grade de proteção, como eu.

– É confuso, sabe? — Digo depois de algum tempo de silêncio. Ela apenas assente. — Tudo isso. Todas essas pessoas. — Mais silêncio. — É verdade? O que Nathan disse?

Ela apenas me encara, confusa.

– Sobre eu ser a Líder? — Ela assente.

– É, sim. — Ela faz uma pausa. — Deveria ser eu. — Diz por fim.

Por um momento fico confusa, então entendo.

– Não diga isso.

– Deveria, America. Você comanda esse lugar. Sem você estamos completamente perdidos. Seria mais simples, se fosse eu.

– Eu não sei nada sobre esse lugar, mas se eu sou a Líder, era a mim que eles queriam destruir, não você.

Ela olha por algum tempo para o horizonte, pensativa. Eu a encaro. Não sei nada sobre essa garota. Quanto tempo ou quão bem a conheço. Mas ela parece, de algum modo, familiar. Como se a conhecesse a anos, mas mesmo assim sem conseguir lembrar.

– Eles vão conseguir o Soro. — Ela diz por fim. — Estão bem dedicados á isso... Um grupo sairá em duas horas. Max liderará.

Olho para ela, confusa.

– Duas horas? Não acha que deveriam esperar algum tempo? Nós acabamos de sair de lá. E se eles estiverem nos esperando?

– Não estarão. Eles perderam muitos homens, estarão se recuperando.

– E se não conseguirmos?

– Então tentaremos de novo amanhã e depois, até obtermos êxito. Ninguém vai desistir de você.

Ainda é muito para processar. Todas aquelas pessoas arriscando a vida por mim. Eu não posso suportar. Então um pensamento me ocorre.

– Eu posso falar com Max? Ainda não tive a oportunidade de conversar com ele.

Ela assente e se afasta da grade. Faz um sinal para que eu a siga e me guia pelas escadas, fazendo o caminho de volta. Quando descemos todas as escadas ela me leva a um corredor que termina em um elevador. Não entendo porquê descer todas as escadas para simplesmente subí-las novamente.

Quando entramos no elevador ela aperta um botão com as letras EA. As portas fecham e começamos a descer.

– Pensei que não tivesse nenhum andar abaixo desse.

– E não tem. — Ela sorri.

Depois de apenas alguns segundos as portas se abrem e revelam um espaço menor que os outros andares. Apenas com uma grande sala em frente.

Max estava sentado atrás de uma mesa, olhando alguns papéis.

Helena empurra uma das grandes portas de vidro e coloca a cabeça para dentro.

– Alguém quer conversar com você.

Max levanta a cabeça faz sinal para que eu me aproxime. Helena abre a porta um pouco mais, para que eu possa passar e assim que entro ela a fecha novamente e sai, entrando no elevador.

– Espero que não se importe que eu esteja em sua sala. — Ele diz.

– Minha? — Pergunto confusa, olhando em volta. Ele assente e faz sinal para que eu olhe o lugar.

Vou até uma parede que contém fotos e as observo. Reconheço algumas, com Helena, Nathan e Max. Em uma delas estamos nós quatro, em uma praia. Max veste apenas uma camiseta e uma bermuda. Olhando para ele agora, não consigo imaginá-lo assim, todo sério com seu terno. Helena e eu estamos de biquíni e Nathan está ao meu lado, vestido como Max. Vejo algumas outras fotos, mas não consigo identificar outras pessoas. Dou mais uma olhada e meus olhos param em uma foto de duas crianças. Uma garota e um garoto. Aponto para ela.

– Quem são? — Pergunto.

– Você e seu irmão.

Sua resposta me atinge em cheio. Até agora não havia pensado em uma família. Irmãos, mãe, pai...

– E onde ele está? Posso falar com ele?

Ele se levanta e caminha até mim, parando ao meu lado.

– Olhe para a foto. — Ele diz e eu obedeço. Ele aponta para a garota. — Olhos verdes, cabelo castanho... Com quem ela se parece?

– Comigo. — Respondo no ato.

– Certo, e o garoto? Os mesmos olhos, mesmo cabelo, apenas alguns anos mais velho, esse sorriso encantador... — Ele ri. O som de sua risada é agradável. — Com quem ele se parece?

Olho para ele e percebo. Sei quem ele é, como um flashback do passado. Então digo:

– Com você.

Ele sorri novamente e me abraça. Eu retribuo.

– Senti tanto a sua falta, irmãzinha.