Notas iniciais
Espero que gostem!

Pov. da Lexi

Eu observava o movimento na rua pela vitrine da cafeteria do Joe. Já estava lá há algum tempo, mas não me importava. Aquele era um dos meus lugares favoritos desde que me mudei. O ambiente charmoso e tranquilo me conquistou logo de cara. Beberiquei meu cappuccino enquanto pensava na vida.

Completaria três meses que eu estava em New Orleans. Meus pais, David e Megan McCartney, morreram em um acidente de carro quando eu tinha doze anos. Sem parentes vivos minha guarda foi dada a Cami, melhor amiga da minha mãe na época. Desde então ela é responsável por mim e o mais próximo que eu tenho de uma família. Alguns meses atrás, quando recebeu a notícia sobre a morte do seu irmão gêmeo, Sean, Cami resolveu vir para cá e eu a acompanhei.

Não podia me queixar da minha vida aqui. A cidade era simplesmente encantadora e tinha um ar misterioso e sobrenatural que me fascinava. Contudo desde que cheguei, coisas mais estranhas do que de costume estavam acontecendo comigo. Digamos que eu não era uma garota comum de dezessete anos, eu possuía alguns “dons” especiais. Eu podia ver o passado das pessoas, animais, lugares e objetos através do contato físico. As visões aconteciam como uma experiência fora do corpo, como uma memória superficial ou uma visão na forma astral. Além disso, ainda tinham as premunições que geralmente vinham em forma de sonhos ou intuições imediatas.

A única pessoa que sabia sobre as minhas habilidades era Cami. A princípio ela não acreditou, mas depois que eu provei que falava a verdade, ela passou a acreditar. Cami também me aconselhou a não contar isso para mais ninguém e é obvio que eu obedeci, afinal não queria ser apontada como uma aberração de circo e muito menos ser usada como uma espécie de advinha paranormal.

O fato era que desde que cheguei à cidade eu sonhava com um homem desconhecido. Eu já havia feito vários desenhos do seu rosto com a intenção de tentar interpretar o que significava, mas até hoje não obtive sucesso. A única coisa que eu sabia era que se ele realmente existisse e eu chegasse a conhecê-lo, ele mudaria minha vida.

— Lexi? – Chamou-me Steve interrompendo meus pensamentos.

— Sim? – Perguntei voltando minha atenção para ele.

— Está tudo bem? Você parecia distante. – Observou enquanto me encarava. Sorri para ele.

— Não se preocupe, estava apenas pensando na vida. – Respondi dando de ombros. – E a propósito, poderia trazer a conta? Acho que já ocupei por muito tempo a mesa.

— Nem brinque com isso. Se Joe a ouve falando assim é capaz de me demitir só de pensar que eu incomodei você. – Falou. Ri do comentário e ele fez o mesmo. – Já volto. – Informou antes de sair.

Steve era um dos garçons da cafeteria. Eu ia tanto lá que já era conhecida de todos, inclusive do dono. Joseph, mais conhecido como Joe, era um senhor de meia idade, viúvo e que conseguiu vencer sozinho na vida. Eu sabia tanto sobre ele porque na ocasião em que nos conhecemos acabei tocando sem querer em sua mão e vi seu passado. Meus dons são involuntários, eu não tenho controle sobre eles. Quando toco em algo a história daquilo surge em minha mente mesmo que eu não queira, entretanto as memórias só duram o tempo exato do contato com minhas mãos. Então, a partir desse dia, ficamos muito amigos. Ele me tratava como uma filha e sempre conversava comigo quando estava no estabelecimento, o que não aconteceu hoje.

Steve também era legal, mas eu sabia que ele tinha um interesse amoroso por mim e apesar dele ser bonito, não lhe dava uma chance por saber do seu histórico de galinha. Outra vez salva pelos meus talentos.

­– Aqui está. ­– Anunciou Steve entregando-me a conta.

Abri minha bolsa e peguei a carteira tirando o dinheiro e entregando a ele.

— Obrigada. – Agradeci levantando.

— Eu que agradeço. E volte sempre. – Respondeu. Senti malícia em sua voz, mas ignorei.

— É claro. Mande lembranças ao Joe por mim. – Falei enquanto saía. Acenei para os outros funcionários no caminho e deixei a cafeteira ganhado às ruas.



(...)

Fazia algum tempo que eu andava. Cami estava trabalhando e eu não tinha nada para fazer. Concluí o último ano do ensino médio antes de me mudar e agora tinha tempo livre de sobra, uma vez que ainda não tinha decidido para qual faculdade iria. A única coisa de que tinha certeza é que me formaria na área de Humanas, mais precisamente em História. Era apaixonada por essa matéria e tudo relacionada a ela me interessava. Ao contrário de mim, Cami era bastante ocupada. Ela trabalhava como bartender no Rosseau’s e estudava psicologia. A herança que meus pais me deixaram, e que legalmente era administrada por Cami, era grande o suficiente para nos manter por muitos anos sem nenhuma preocupação. Eu sempre tentava lembrá-la disso, mas Cami era muito certinha e por isso preferia ter seu próprio dinheiro.

Sem nada em mente, peguei o bloco de desenho que sempre levava comigo e um lápis. Os tirei da bolsa e sentei em um banco. Comecei a rabiscar o rosto que tanto me atormentava. Quando terminei, contemplei o desenho.

— Por que eu sempre acordo antes de descobrir o seu nome? – Questionei encarando o papel.

Com um suspiro, virei a página e comecei outro desenho. Dessa vez era uma flor de lis. Estava aí outra coisa que me impressionava. Aquela flor também não saía da minha cabeça e eu tinha certeza de que também significava algo importante.

Distrai-me completamente quando um desfile tomou conta da rua em que eu estava. Desfiles eram muito comuns na cidade e todos eles representavam um show à parte. Ao som do jazz, muitos turistas incorporavam animados à parada. Admirei o espetáculo por alguns minutos e recolhi minhas coisas para ir embora, mas acabei trombando em alguém no caminho.

— Hey! – Protestei olhando para meus pertences no chão.

A batida tinha derrubado minha bolsa, que para o meu azar estava aberta. Lembra aquela história de que quando se está na escola o estojo sempre cai aberto? Então. Era bem isso.

— Sinto muito, sweetie. – Respondeu o estranho com um lindo sotaque enquanto abaixava para me ajudar. Olhei em sua direção de cara fechada, mas depois só faltei ter um infarto. Era ele. O homem dos meus sonhos, literalmente.

Fiquei o encarando em choque pelo que me pareceu uma eternidade. Eu estava completamente sem ação. Tinha esperado tanto para conhecê-lo, mas agora que o via em minha frente não sabia o que fazer. O desconhecido também me encarava. Ele pareceu me avaliar e pela sua expressão pude perceber que gostou do que viu. Enquanto ele me observava com um meio sorriso, eu só faltava ter um troço. Ele era ainda mais lindo pessoalmente.

O homem dos meus sonhos abriu a boca para dizer alguma coisa, mas foi interrompido por um rapaz moreno que se aproximou de nós.

— O que está fazendo aí? – Perguntou olhando para ele e em seguida pra mim. O rapaz me lançou um sorriso interessado e depois voltou sua atenção ao outro. – Vamos, Marcel está esperando. – Disse por fim tirando-me completamente do transe.

Terminei de pegar minhas coisas, as joguei de qualquer jeito na bolsa e saí dali o mais rápido possível me misturando a multidão.

Nem eu mesma entendi minha reação, mas meu sexto sentido me alertava de que talvez finalmente encontra-lo não tenha sido a melhor coisa que poderia me acontecer. E se tinha algo em que eu confiava no mundo era nas minhas intuições.

Pov. do Klaus

Minha cabeça fervilhava com tantas informações. Em menos de 48 horas minha vida havia dado uma grande guinada. Para começar eu estava de volta a New Orleans, cidade que eu ajudei a construir e jurei nunca mais voltar após um terrível episodio com meu pai, o famigerado Mikael. Para completar descobrir que Marcel, o vampiro a quem eu tinha criado como um filho, estava vivo e se autodenominava o rei da cidade. E ainda, como se não bastasse, recebi a feliz notícia de que seria pai. Eu ainda não conseguira absorver nem metade disso tudo.

Fui atraído para cidade por uma bruxa, Jane-Anne Devarux, no entanto a mesma morreu antes que pudesse explicar o que queria comigo. Sem alternativas, busquei por outra Devarux para resolver meu problema e achei ninguém menos que Sophie, irmã da falecida. As bruxas queriam minha ajuda para derrubar Marcel e para me pressionar a aceitar a proposta usaram Hayley, uma lobisomem com quem eu havia passado uma única noite e que milagrosamente esperava um filho meu. Em princípio nem acreditei, até porque vampiros não podem procriar, todavia eu era um Híbrido. Metade vampiro e metade lobisomem, o que fazia de tudo uma verdade incontestável e assustadora. Mesmo assim, não aceitei de imediato a proposta. Afinal eu sou Klaus Mikaelson e não permitiria que me manipulassem com o que quer que fosse.

Estava convicto da minha decisão. Por mim as bruxas podiam ter matado tanto Hayley quanto a criança, mas meu irmão mais velho e bom samaritano, Elijah, me fez voltar atrás. Ele tinha certeza de que essa criança seria minha redenção e que através dela teríamos uma família de novo. Eu sinceramente achava isso uma grande fantasia dele, no entanto o que eu queria de verdade era retomar minha cidade e recuperar o que Marcel havia roubado de mim. Eu queria ser rei e todo rei precisa de um herdeiro. E foi justamente esse pensamento que me fez acatar o conselho do meu irmão.

Agora cá estava eu, em um desfile com Marcel e seus vampiros, dando segmento ao plano. Eu aceitei fazer um acordo com as bruxas, mas obviamente eu as ajudaria somente no que me fosse conveniente. Enquanto Elijah se ocupava com Hayley, eu cuidava de Marcel.

O desfile era bem ao estilo de New Orleans e os turistas e moradores observavam extasiados. Fazia tanto tempo que eu não vinha aqui que quase tinha me esquecido de como gostava desse lugar. Tudo era tão cheio de história, arte e cultura que quase chegava a ser mágico. Acabei me distraindo e sem querer esbarrei em alguém.

— Hey! – Reclamou uma voz melodiosa, parecendo irritada.

Eu havia trombado com uma garota e o impacto fez com que sua bolsa aberta caísse no chão derrubando suas coisas.

— Sinto muito, sweetie. – Falei em um tom sedutor enquanto agachava para ajuda-la.

A menina olhou em minha direção com uma expressão impaciente que logo se desfez. Seu estresse pareceu dar lugar a mais pura surpresa enquanto me encarava. Não entendi sua reação afinal nunca a tinha visto, no entanto não pude deixar de observá-la. A garota não devia ter mais do que 17 anos. Seus olhos azuis fitavam-me levemente arregalados. Seu rosto era de uma beleza delicada e marcante, entretanto o que mais me chamou atenção foi sua boca. Os lábios cheios e bem definidos estavam entreabertos pelo aparente choque. Não consegui evitar um meio sorriso. A garota que eu tinha à minha frente era indiscutivelmente bonita.

Quando finalmente me decidi a puxar algum assunto com ela, Diego, um dos homens de confiança de Marcel, apareceu interrompendo-me.

— O que está fazendo aí? – Indagou me olhando. Segurei o impulso de revirar os olhos. Sua insolência para comigo me irritava profundamente. Não respondi e ele finalmente notou que eu estava acompanhado. Depois de avaliar a garota, Diego pareceu gostar do que viu e sorriu em sua direção de forma maliciosa. – Vamos, Marcel está esperando. – Disse voltando sua atenção novamente para mim.

Como se tivesse acordado de um devaneio, a menina recolheu seus pertences e os jogou na bolsa saindo apressadamente. Em poucos minutos a perdi de vista em meio ao aglomerado de pessoas.

Intrigado e curioso com seu comportamento, dispensei Diego e levantei com o que aparentava ser um caderno de desenho em mãos. A menina foi embora tão rápido que nem deu por falta do objeto. Abri o caderno. Logo no verso da capa estava escrito com uma caligrafia impecável:

Pertencente à Alexandra McCartney

Sorri satisfeito. Então seu nome era Alexandra. Um nome imponente e bonito, bem como a dona. Comecei a folhear o caderno, que como eu suspeitava, estava cheio de desenhos. Eu era obrigado a admitir, ela realmente tinha talento. O bloco de desenho era um pouco grosso e ao chegar no meio dele parei completamente surpreendido. Havia um retrato meu. Fiquei alguns segundos encarando o papel. Eu tinha certeza de que nunca tinha visto aquela garota antes, jamais esqueceria aquele rosto. Passei para próxima folha e me surpreendi mais ainda. O desenho que encontrei agora era de uma flor de lis, o que representava um dos símbolos da minha família.

Fechei o caderno e encarei sua capa. Quem era aquela garota? E qual seu interesse comigo? Pensei enquanto voltava para multidão. Tinha marcado de encontrar Marcel em um bar, mas que se dane. No momento a única pessoa que eu queria encontrar era Alexandra McCartney e descobrir o quanto ela sabia sobre mim.

Notas finais
Comentem! Beijos