I Just Wanna Stop
16 Despedidas
Notas iniciais
Pov. do Klaus
Girei mais uma vez a adaga de modo displicente entre os dedos. Encontrava-me de pé na sala da antiga casa do governador esperando pelos traidores. Havia passado a noite no casarão, como faria de agora em diante. Afinal aquele lugar finalmente tinha voltado a me pertencer. Depois do desenrolar dos acontecimentos de ontem, era impossível não me sentir atormentado. Tanto pela traição dos meus irmãos quanto por Alexandra. As lembranças dela se debatendo nos braços de Rebekah, chorando e implorando por minha causa, e sua reação completamente inesperada de me abraçar no final de tudo, não saía da minha cabeça. Fazê-la se esquecer de tudo que tinha testemunhado na noite anterior me pareceu o jeito mais fácil de preservá-la e também a solução mais cômoda para mim.
O som de passos se aproximando me fez interromper meus pensamentos. Não precisei me virar para saber que se tratava da minha desleal irmã. Além do seu inconfundível cheiro, podia sentir seu medo pairando no ar.
— Elijah chegou e só existe uma adaga. Qual de nós será punido hoje? – Perguntou sem rodeios.
— Pensei em um jogo: Uni... Duni... Tê. – Respondi ainda de costas.
Antes que Rebekah pudesse reagir, usei minha super velocidade e a agarrei pelo pescoço, me mantendo atrás dela com a adaga bem próxima do seu rosto.
— Você me traiu. Minha própria irmã. – Afirmei aumentando meu aperto em torno dela.
— Niklaus, não se atreva. – Ouvi a voz de Elijah atrás de mim. Agora a reunião familiar estava completa. Soltei Rebekah e virei para ele, apontando a adaga em sua direção.
— Talvez devesse ser você, irmão. – Falei. – Roubando meu filho com essa atitude carinhosa com Hayley. – Completei ainda com a adaga erguida.
— Não tem nada a ver com Hayley. – Discordou ele.
— Tem tudo a ver com ela! – Rebati. – Desde que ela chegou, ela lhe adora. E agora meu filho, meu sangue, vai crescer e chamar você de pai. – Acusei sentindo as lágrimas acumularem-se em meus olhos.
— Então é disso que se trata? Mais uma vez você está preocupado em ser abandonado? – Indagou Rebekah a essa altura já próxima de Elijah. Não respondi. – O passado não lhe ensinou nada? Nós não te abandonamos, Nik. Você nos afasta. – Concluiu. Abaixei a adaga nesse momento.
— É mesmo? E o que eu tenho feito além de ajudar? Eu me curvei a você, irmão. Para compensar por empalá-lo. Pelo bem maior de nosso plano em recuperar nosso lar. Veja o outro lado, irmã. Enquanto repete o mesmo ciclo com Marcel, apaixonando-se de novo pelo homem errado. Enquanto ele controla o império que construímos. E que ele roubou! – Desabafei sem conseguir impedir algumas lágrimas teimosas de molharem meu rosto. – Agora não peço desculpas pelas coisas que fiz. Mas no momento em que poderiam ter escolhido ficar ao meu lado, acreditar em mim. Acreditar que minhas intenções com meu filho eram puras. Vocês escolheram ficar contra mim. Uniram-se com meus inimigos. – Prossegui ficando frente a frente com Elijah.
Ele me encarava em silêncio com os braços cruzados e uma expressão séria no rosto enquanto Rebekah, um pouco mais afastada, mantinha uma postura cautelosa.
— Eu queria o nosso lar de volta. E agora eu o tenho. E vou morar lá. E vocês dois... Podem ficar aqui juntos... Apodrecendo. – Prossegui entregando a adaga a Elijah e caminhando para porta, porém antes que eu a alcançasse, a voz dele me fez parar.
— O que você fez com a Lexi? – Questionou me fazendo virar novamente para encará-lo.
Sua preocupação com Alexandra me surpreendendo e, de certa forma, me incomodando ao mesmo tempo.
— Ela está maravilhosamente bem, se é o que quer saber. Não que isso seja da sua conta. – Respondi ríspido o fitando e lançando um olhar a Rebekah antes de sair. Caminhei em passos rápidos até a varanda e ao chegar lá, encontrei Hayley sentada na escada. – Você vem comigo, lobinha. – Ordenei ao passar por ela. De jeito nenhum eu a deixaria ali.
— Por que faria isso? – Desafiou-me sem se mexer.
— Porque o bebê que você carrega é a única coisa que me interessa. Você pode até resistir, mas vai perder. – Assegurei andando até meu carro. – Como perderá aqueles que tentarem impedi-la de entrar no carro. – Ameacei abrindo a porta do carona para ela. Ambos sabíamos que eu me referia aos meus irmãos.
Depois de olhar para a porta da mansão e ponderar por alguns instantes, Hayley se pôs de pé e veio até mim, me obedecendo.
(...)
Algumas hora depois do meu acerto de contas com meus irmãos, ofereci um jantar à Marcel e seus vampiros. Precisava conquistar o respeito deles, afinal um rei não era nada sem seus súditos. Admito que não seria uma tarefa fácil, todavia não era impossível. Um agrado aqui, outro ali... Como por exemplo, permitir uma caça aos lobisomens no Bayou para tranquiliza-los sobre o terrível rumor de que eu pretendia usar o meu filho para gerar híbridos. Afinal, mesmo que esse boato infame fosse verdadeiro, como eu poderia criar híbridos se não houvesse mais lobisomens?
Quem não gostou nada da ideia foi Hayley. Ela acreditava que os lobos do Bayou podiam ser os parentes que ela tinha procurado vida inteira. E apesar da desaprovação dela, me mantive firme em minha decisão. Minha prioridade era sua segurança, a segurança do nosso filho, para ser mais preciso. E era isso que eu estava garantindo ao tentar deixar claro para os vampiros que nem ela e nem a criança representavam uma ameaça.
Não falei com Alexandra o dia inteiro. Além da ocupação com minhas novas obrigações, eu havia recusado às suas ligações deliberadamente. Depois do nosso último encontro, não estava com presença de espírito o suficiente para vê-la ou sequer ouvir sua voz. Além disso, eu não queria envolve-la no que estava acontecendo. Era extremamente desaconselhável expor alguém como ela a presença dos instáveis vampiros criados por Marcel. Por alguma razão desconhecida, e a meu ver irritante, a segurança da adorável adolescente se tornava cada vez mais relevante para mim.
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No dia seguinte, chamei Cami para mais uma das nossas sessões de datilografia. A presença dela, de certa forma, me era reconfortante. Depois do Festival de Música, nossos pequenos encontros haviam continuado. Evidentemente eu não citava Lexi na presença dela e vice-versa. Lexi sabia bem mais do que Cami e com base no que eu tinha observado em raras ocasiões sobre a relação das duas, era certo que tanto ela quanto Cami não aprovariam o envolvimento uma da outra comigo por questões óbvias de proteção.
— Então, mordi Elijah e o deixei no Bayou com meu veneno híbrido nele. Ele mereceu por fazer acusações tão perversas sobre mim. – Narrei andando de um lado para o outro enquanto Cami digitava. – E depois... – Interrompi minha fala ao notar que ela havia parado.
A observei por um instante. A loira olhava fixamente para frente, aparentemente perdida em alguma linha de raciocínio.
— Está escrevendo isso? – Indaguei atraindo sua atenção.
— Para ser clara, se o Quarter agora é seu, por que ainda precisa de mim? – Perguntou.
— Minhas memórias. Mil anos de história não se escreverão sozinhos. – Respondi de imediato. Antes que ela pudesse rebater, Marcel apareceu.
— Cami, o que faz aqui? – Disse surpreso. A loira se pôs de pé.
— É o que eu quero saber. – Retrucou olhando para mim e cruzando os braços.
— Está tudo bem, ela sabe. – Me referi a Marcel, que também cruzou os braços sobre o peito ao me encarar.
— Ela sabe? – Retorquiu irônico.
— Que são vampiros? – Intrometeu-se Cami. – Não se preocupe. Esqueço quando vou embora. Assim estou ocupada demais preocupada se estou louca, para perceber que sou espiã de um ego maníaco imortal. – Explicou intercalando seu olhar entre mim e ele, usando um tom sarcástico.
— A hipnotizou para sair comigo, não é? – Acusou-me Marcel. Mantive-me impassível. – Pensei que gostasse de mim. – Virou-se para Cami.
— Eu também. – Respondeu ela de modo ameno.
— Que fique claro que eu só te fiz dar uma chance a ele. Tudo o que sentiu por ele foi de verdade. – Me manifestei fazendo um clima embaraçoso pairar no ambiente. – E fiquem sabendo, esse momento constrangedor que estamos tendo é verdadeiro. – Acrescentei divertido.
— Acha que é tão esperto não é? Hipnotizando a pobre e ingênua garçonete. – Enfrentou-me Cami entregando-me um papel logo em seguida. – Olhe o que eu encontrei. Eu mesma, não a sua terapeuta hipnotizada.
— Na verdade, prefiro escritora dedicada. – A corrigi enquanto analisava uma foto minha e de Marcel tirada em 1919 no teatro municipal.
— Acha que isso é engraçado? Confundir minha cabeça? – Confrontou irritada. – Minha sanidade não é uma piada. – Afirmou séria.
— Não, love. Não acho que seja. – Concordei virando-me em sua direção. Segurei sua nuca, obrigando ela a olhar para mim. – Você nunca encontrou isso. Não se lembrará de nada sobre vampiros quando sair daqui. Entendeu? – Ditei a compelindo. Ela assentiu com a cabeça e eu a liberei. – Acho que já basta por hoje. Pode ir.
Levemente desorientada, Cami pegou sua bolsa sobre o sofá e partiu, deixando-me a sós com Marcel. Acomodei-me no sofá e ele fez o mesmo em uma poltrona de frente para mim. Havia acabado o momento de distração. Agora estava na hora dos negócios.
— Eles não estão felizes com a nova situação. – Prosseguiu ele referindo-se a facção dos humanos, responsável pela manutenção do equilíbrio da cidade.
— Que azar o deles. – Fiz pouco caso ainda observando a foto que Cami tinha achado.
— É problema seu agora, mas quer saber como construí isso tudo? Política. – Insistiu atraindo minha atenção. – Um pouco de diplomacia ajuda, principalmente com os humanos. – Aconselhou.
— Entendido. – Falei sem realmente dar importância ao assunto. – Não pensava nessa noite em anos... 1919, o teatro antes do incêndio. Isso foi o fim de uma era. – Comentei indicando a foto.
Marcel limitou-se a me encarar. Coloquei o papel sobre a mesa de centro, me concentrando.
— Agora, por novos começos, tem algumas coisas que eu preciso confessar. – Prossegui levantando e indo em direção a um móvel com bebidas. – Mas por onde começar? Thierry nunca foi desleal a você. Eu armei para ele, para achar meu irmão. Ele é seu amigo, consequentemente, ele poderá voltar. Fica ao seu critério. – Revelei enquanto servia duas doses de uísque. Não precisava estar de frente para Marcel para imaginar sua expressão. – A parte da Cami você já soube, e tem o jovem Joshua. O hipnotizei desde o começo. Mas acho que já sabia, já que ele me levou para sua armadilha. – Continuei voltando para o sofá e entregando um dos copos para Marcel.
— Posso ter dado informações erradas para ele. – Comentou.
Dei de ombros. Sabia que ele estava tentando salvar a pele de Josh, entretanto a traição do estabanado vampiro não fazia parte da minha lista de prioridades.
— E tem a Davina. Ela é uma arma poderosa. No momento, gostaria de tê-la por perto. Acho que ela devia morar aqui com a gente. – Toquei no assunto que muito me interessava.
— Ela não quer sair do sótão. Já tentei muda-la de lugar. – Retorquiu Marcel.
— É, sobre isso, sua bruxinha é uma atriz e tanto. Ela fez um acordo com Elijah enquanto ele estava lá. Fez você deixa-la lá, pelos feitiços da minha mãe. – Contei atento a expressão dele.
— Bom saber. Só isso? – Indagou com forçada indiferença.
— Acredito que sim. – Respondi dando um dos meus típicos sorrisos.
— Agradeço a honestidade. – Disse. Não senti sinceridade em suas palavras. Dei de ombros novamente. – A reunião é em uma hora. – Informou deixando o copo sobre a mesa de centro, saindo em seguida.
Terminei minha dose de uísque e depois o segui. O encontro com os líderes da Facção aconteceria na igreja e eu obviamente aproveitaria a oportunidade para fazer uma visita a Davina.
(...)
Embora o dia ainda estivesse longe de acabar, já tinha tido reviravoltas o suficiente para uma semana inteira. Depois de uma mordaz conversa com Davina, na qual eu deixei claro que ela não tinha outra opção a não ser ir para o casarão, e uma estressante reunião com os desaforados e inúteis líderes da Facção, fui espairecer com Marcel em um dos bares frequentados somente por vampiros.
Apesar do descontentamento de Marcel com a minha falta de diplomacia, tudo ia bem até eu receber um telefonema da Facção e os vidros do bar irem pelos ares. Por mais ridículo que pudesse parecer, eu tinha acabado de ser atacado por um grupo de humanos insolentes. Tanto eu quanto Marcel escapamos ilesos, contudo eu não podia dizer o mesmo dos demais vampiros. Eles não possuíam anéis do dia e por isso acabaram carbonizados. Marcel ficou furioso e aproveitei a situação para recuperar nossa antiga camaradagem. Seus modos falsos e calculados já estavam começando a me irritar.
Evidentemente, nos vingamos da maldita Facção. Matamos todos os líderes, com exceção do padre Kieran. Ele ainda poderia ser bem útil e como Marcel suspeitamente havia me lembrado, ele era tio de Cami. Satisfeito por ter me livrado de mais um problema, retornei ao casarão e tive uma conversa franca com Marcel. Apesar de tudo, eu ainda o considerava. Mais até do que eu gostaria. Queria ele verdadeiramente ao meu lado, como nos velhos tempos.
Mais tarde, o grupo de caça chefiado por Diego retornou frustrado por terem fracassado em sua missão por causa de Elijah e Rebekah. Não tive alternativa a não ser ir até a antiga casa do governador questionar com que direito eles interferiam nas minhas ordens, porém tive uma grande surpresa. Segundo eles, os lobisomens que eu havia mandado matar pertenciam à linhagem do meu verdadeiro pai. Não deixei que percebessem, mas essa notícia me abalou. Em mil anos eu nunca tive nada referente ao meu pai biológico e apesar de ignorar meus sentimentos com relação a isso por tanto tempo, não consegui conter minha curiosidade. Deixei a casa do governador e fui ao encontro da única pessoa que podia me ajudar no momento.
(...)
A noite em New Orleans, a despeito do meu humor, estava agradável. As ruas como sempre estavam abarrotadas de gente. Cheguei à igreja e encontrei o padre Kieran de costas para entrada, acendendo algumas velas.
— Ótimo. Está acordado. Preciso pedir um favor. – Disse anunciando minha presença, caminhando até ele.
— Estou rezando para os mortos. – Respondeu sem virar. – Peço para que eles cessem os favores para o rei.
— Vai gostar desse. Envolve pessoas necessitadas que precisam de proteção. – Afirmei bem próximo a ele.
— E posso perguntar de quem eles precisam de proteção? – Indagou ainda de costas.
— De mim. Recentemente ordenei um massacre de um grupo de vagabundos no Bayou. Talvez eu tenha me precipitado. O problema é que se os vampiros descobrirem que eu os protejo, não vai pegar bem. – Contei. Depois de ponderar por algum tempo, o padre assentiu.
— Acho que posso providenciar algo. – Falou me fazendo sorrir satisfeito. – Sob uma condição. – Acrescentou. Meu sorriso morreu instantaneamente.
Pela primeira desde que eu havia chegado o padre Kieran finalmente virou-se para mim.
— Pelo próprio bem dela, acredito que seja hora de minha sobrinha ir embora. – Disse ele. Fiquei em silêncio.
Eu mesmo havia sugerido que ele convencesse Cami a deixar a cidade, para, como ele mesmo disse, o bem dela. No entanto, havia um pequeno detalhe que até então eu não tinha pensado. Se Cami fosse embora, Lexi também iria.
Antes que pudesse absorver a ideia, um cheiro doce e terrivelmente familiar chegou até mim, me fazendo sair das vistas do padre na minha velocidade vampírica. Subi na pequena sacada acima da porta da igreja bem a tempo de ver uma figura loira e conhecida entrando.
— Lexi? – Chamou o padre Kieran andando até ela. Ele parecia tão surpreso quanto eu por vê-la ali.
— Como vai, padre? – Ela o cumprimentou com um sorriso, o abraçando em seguida. Mesmo parecendo surpreendido com o gesto, o padre retribuiu ao abraço.
Porque ela era sempre tão amável com todos?
— Eu vou bem. E você? A última vez que eu a vi, ainda era uma menina. – Comentou ele ao se afastar.
— Não faz tanto tempo assim. – Discordou Lexi sorrindo.
— Tem razão. – Concordou o padre também sorrindo. – O que a traz aqui? Não esperava vê-la. – Emendou com curiosidade.
— Cami me disse que o senhor estava de volta. Resolvi visita-lo e também pedir alguns conselhos. – Contou Lexi aparentemente embaraçada.
— Que tipo de conselho? – Perguntou o padre enquanto indicava um dos bancos.
— É sobre um cara. – Disse ela enquanto sentava. Bufei e revirei os olhos imaginando se tratar do tal “Steve”.
— Trata-se de um conselho amoroso então? – Presumiu o padre, chegando à mesma conclusão que eu, sentando-se ao lado dela.
— Não. Para ser sincera, eu não sei definir exatamente o que existe entre mim e ele, mas posso garantir que não há nada de romântico entre nós dois. Está mais para uma... Amizade, talvez. – Explicou. Franzi o cenho em confusão.
Será que ela estava falando de mim?
— Amizade, talvez? Por acaso esse rapaz gosta de você e o sentimento não é recíproco? – Questionou o padre me fazendo prestar ainda mais atenção na conversa. Lexi negou com a cabeça.
— Não é nada disso. Nós nos conhecemos de uma maneira bastante inusitada e fomos nos aproximando aos poucos. Eu o considero um amigo, mas não sei se ele sente o mesmo com relação a mim. – Confidenciou mexendo no cabelo. – É complicado. Eu só quero ajuda-lo, porém ele não confia em mim o suficiente para isso. – Completou. Nesse momento tive certeza de que ela se referia mesmo a mim.
— Algumas pessoas tem mais dificuldade do que outras em se abrir e provavelmente esse rapaz é uma delas. Agora o que eu te pergunto é: Você acha que vale a pena insistir ou acha melhor deixar para lá? Porque por mais que nossas intensões sejam boas, não podemos ajudar quem não quer ser ajudado. Entretanto, até os corações mais sombrios podem ser iluminados por um gesto de carinho e um sorriso sincero. – Aconselhou o padre.
Observei a reação dela. Lexi levou algum tempo refletindo sobre o que tinha ouvido. Quando voltou a encarar o padre, seus olhos estavam repletos de empolgação.
— O senhor está certo. Eu ouvi em algum lugar, uma vez, que quando não conseguimos algo é porque não tentamos o suficiente. – Falou entusiasmada.
— É assim que se fala. – Apoiou Kieran.
— Obrigada pelos conselhos, padre. Já está meio tarde e tenho que chegar em casa antes de Cami. Prometo visita-lo mais vezes. – Agradeceu pondo-se de pé.
— Não fiz mais que a minha obrigação. Vá com Deus e sinta-se a vontade para me procurar sempre que precisar. – Kieran respondeu.
— Mais uma vez obrigada. Até mais. – Lexi despediu-se com um beijo na bochecha, novamente pegando o padre de surpresa com a sua espontaneidade.
— Até mais, Lexi. – Disse ele depois que a garota já se encontrava na saída da igreja.
Depois que Lexi saiu, o padre levantou e foi em direção ao altar. Aproveitei sua distração para me retirar sem ser notado. Mal coloquei meus pés na rua e senti meu celular vibrar em meu bolso. Peguei o aparelho e vi o nome de Lexi piscar na tela. Fiquei paralisado encarando o celular enquanto ele tocava, incapaz de atendê-lo.
Depois do quinto toque ele parou de chamar. Apertei a tecla send bem a tempo de ouvir o recado que ela tinha deixado na caixa postal.
“Klaus, sou eu... Lexi. Essa deve ser vigésima vez que eu te ligo, mas eu realmente preciso saber como você está. Desculpe o incomodo e por favor, me ligue assim que ouvir esse recado ou algum dos anteriores... Tanto faz... Apenas me dê notícias.”
Desliguei o celular e comecei a andar, sem saber exatamente para onde ir. Desde o dia em que nos conhecemos eu havia notado algo de especial em Lexi, mas em nenhum momento me passou pela cabeça que me envolveria tanto com ela. Seu jeito afetuoso e sincero me impressionava, ao mesmo passo em que me assustava. Ela conquistava as pessoas naturalmente e antes que não tivesse mais volta, eu não podia deixar que ela fizesse o mesmo comigo.
Lexi era boa demais, gentil demais e consequentemente vulnerável demais. Uma fraqueza que podia ser facilmente explorada por qualquer inimigo. E tudo o que eu não precisava no momento era de um ponto fraco e muito menos permitir que alguém como ela se tornasse um. Seria melhor para nós dois que ela fosse embora com Cami. Tanto para sua segurança quanto para minha. Mais por covardia do que por altruísmo da minha parte, eu precisava afastar Lexi de mim. E foi com esse pensamento em mente que fui para a casa de Cami. Queria resolver esse problema o quanto antes.
Poucos minutos depois, eu já me encontrava em frente à sacada do quarto de Cami. Não perdi tempo e pulei para sacada, me deparando com o quarto vazio. Apurei minha audição e segui para sala. Encontrei Cami sentada no sofá com um gravador em mãos, ouvindo a conversa que tínhamos tido mais cedo. Eu era obrigado a admitir. Ela realmente era muito esperta.
— Você é obstinada. E eu adoro isso. – Falei atraindo sua atenção. Cami assustou-se com minha aparição repentina, levantando-se imediatamente.
— Klaus, não pode continuar... – Começou, porém a interrompi.
— Mas procura por verdades que não quer encontrar. É melhor os monstros ficarem na ficção. É hora de ir embora daqui, Cami. Pelo seu próprio bem. – Anunciei me aproximando um pouco. Ela me encarou antes responder.
— Você é um covarde. Não se trata de mim. Você me manteve aqui por semanas só para que qualquer um visse quem você é de verdade e agora que eu finalmente vi... Deixa você apavorado não é? – Me enfrentou.
— Se realmente me conhecesse, isso a partiria ao meu meio. – Afirmei. Eu sinceramente esperava que as coisas com Lexi fossem ser mais fáceis.
— Então me mostre. – Desafiou se aproximando de mim.
Virei-me para o lado oposto ao dela, porém ela segurou meu braço. Por instinto, avancei contra ela, a segurando também. Só que nesse contato, acabei deixando que ela visse memórias da minha primeira transformação e também do ritual que prendeu meu lado lobisomem. Soltei Cami meio desnorteado. Ela também ficou abalada com as visões que teve.
— Meu Deus. Ninguém deveria passar por coisas desse tipo. – Sussurrou compadecida aproximando-se novamente.
— O conhecimento que você tem desse mundo vai acabar te matando. E eu não posso permitir isso. – Respondi.
Apesar de estar falando com Cami, só pensava em Alexandra. Tudo o que eu tinha dito até agora também se aplicava perfeitamente a ela. Segurei o rosto de Cami com uma das mãos.
— Deixe New Orleans. Esqueça tudo... Que descobriu hoje. Esqueça-me. Não tem motivos para ficar aqui. – Ditei a compelindo.
— Não tenho motivos para ficar. – Repetiu ela mecanicamente. Me afastei.
Ouvi passos no corredor e logo Lexi apareceu na sala vestida com um pijama curto dos Ursinhos Carinhosos e com o cabelo molhado. Provavelmente ela tinha acabado de sair do banho.
— Cami? Eu ouvi vozes e... – Dizia, mas se interrompeu ao se dar conta da minha presença. – Klaus?! – Exclamou extremamente surpresa.
Permaneci parado onde estava enquanto ela caminhava até mim. Sua expressão feliz mudou assim que pousou seus olhos em Cami.
— O que faz aqui? – Indagou olhando de Cami para mim com apreensão. Não respondi, apenas comecei a me aproximar. Lexi fitou Cami mais uma vez e seu rosto foi tomado por desespero. – Não... Por favor, Klaus... – Implorava recuando cada vez mais. Ela pareceu descobrir o que eu tinha ido fazer lá.
— Vai ser melhor assim. – Assegurei tanto para mim mesmo quanto para ela. Lexi balançou a cabeça em negação. Seus olhos já cheios de lágrimas.
— Não. – Pediu novamente, porém a ignorei. Parei a sua frente, obrigando ela a olhar para mim.
— Quero que deixe a cidade. Quero que se esqueça de tudo o que viveu aqui e de todas as pessoas que conheceu. Você irá embora com Cami para nunca mais voltar. – A hipnotizei. – Estamos entendidos? – Perguntei. Lexi fez que sim com a cabeça.
Sentindo-me estranhamente vazio e solitário, me afastei dela. Fiquei por um tempo a encarando, aceitando o fato de que nunca mais a veria. Antes que me arrependesse da minha decisão, dei as costas a Alexandra, me despedindo dela para sempre.

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