Notas iniciais
Estou a adorar fazer esta fic, mas acho que a vou pausar até que alguem a acompanhe :v

"Eu cometi todos os erros"

Sia-Alive

—Então o que escolhes?

A pergunta continua suspença no ar. Aquele olhar com que ele me olhava estava a incomodar-me. Como assim ficar presa para ele, caso ele me contasse o que tinha passado até agora?

Ele suspirou. Fiquei pensativa. Era óbvio que eu queria saber o que ele tinha passado, mas seria boa ideia? Afinal eu não o conhecia tão bem como julgava. Eu queria muito saber, mas tinha medo. Tinha medo da sua história, do seu passado e do meu envolvimento nisso. Podia ser Top Secret e eu não poderia saber nunca. Passei a mão pelo rosto, em forma de “Que se lixe”. Respirei fundo e caminhei até ele. Encarei nos seus olhos, eu tremia por dentro, mas precisava ser valente. Tinha que me manter firme e encará-lo. Eu queria muito saber no fim de contas.

—Eu quero saber.

Falei decidida. Engoli em seco. Ele suspirou e colocou os óculos de novo no rosto.

—É uma história complicada e a tua opinião, seja ela qual for, irá mudar. Eu cometi bastantes pecados no passado. Esses pecados ainda me perseguem até hoje. Como podes ver.

Apontou para a perna machucada. Eu assenti com a cabeça. Sentei-me em cima da pequena mesa que tinha no meio da sala, de frente para ele. Estava decidida a ouvir tudo o que ele me contasse. E eu iria aceitar esse passado e carregá-lo comigo, se tivesse que ser. Por quê? Nem a minha própria pessoa sabia, eu apenas queria. Ele tinha algo que mexia comigo e eu queria saber o que era. Então quanto mais informação tivesse, melhor.

Ele passou as mãos pelo cabelo, deixando-me ver a sua testa. Era um pouco larga, sem rugas. Lisa e um pouco morena, tal como o resto do seu corpo.

—Depois do que te vou contar, não te vou largar o pé. Porque isso iria meter-me em problemas caso acabes por contar a alguém.

Assenti com a cabeça mais uma vez. Os meus pés estavam a ficar frios em contato com o chão gelado. Cruzei os braços em volta do corpo e era a hora de ficar a ouvir a pequena, grande “história”.

Ele começou a falar.

— 1990, nasci em Califórnia. O meu nome é Nathan Phils. Nome incomum né? – Sorriu de canto sarcástico. – Nasci eu e o meu irmão gêmeo. Thomas.

Pasmei um pouco. Irmão gêmeo? Nunca iria suspeitar.

—Ele nasceu com uma doença rara, então chegou aos nossos Oito anos ele ficou paraplégico. O meu pai sempre me culpou, de alguma forma, porque enquanto estávamos na barriga da minha mãe parece que eu “comi” nutriente a mais, deixando o estado do meu irmão frágil.

Ele pareceu-me abalado, ao contar a história da vida dele. Fechou os olhos por uns segundos, e voltou a abri-los, mais sério que anteriormente.

—Eu matei o meu irmão.

O tempo parou. Os meus olhos arregalaram-se e as minhas mãos perderam a força. Deixei-as cair ao lado do meu corpo. Matou? Como tinha matado o próprio irmão? Ele olhou-me e desviou os olhos para o chão. Parecia bastante arrependido e triste pelo que acabara de contar.

—Após o meu irmão ficar paraplégico, o meu pai desabou. Começou a beber, cada vez mais. Tornou-se agressivo. Todo o dinheiro que entrava em casa ele gastava em póker, em jogos, em mulheres. Começou então a drogar-se. Chegava a casa perdido, com aquele hálito horrível.

Falou com a boca cerrada, tinha as mãos a tremer de leve, de raiva.

—Começou a agredir verbalmente a minha mãe, até que começou a bater-lhe. Ouvia ela todos os dias a chorar, desesperada. Então, a minha mãe não bastava para o meu pai, então ele virou-se a mim. Batia-me diariamente. Insultava-me. Queria matar-me, literalmente.

A minha mente absorvia cada palavra falada naquela pequena divisão. O sol começava a despertar por detrás das imensas nuvens. Estava a amanhecer. E a minha alma estava a partir-se aos poucos, enquanto a dele, já estava totalmente partida, quebrada em pedaços imensos.

—Então num dia, ele virou-se a mim, do nada. Perto das escadas da rua, eu empurrava a cadeira de rodas do meu irmão até a saída. E o meu pai, simplesmente empurrou-me, levando junto, a cadeira e o meu irmão. Caímos os dois pelas escadas. Eu como estava são consegui aparar a queda antes de me encontrar com o chão...

Não terminou a frase. Estava a custar-me a engolir aquilo tudo. Ele tinha passado por muito.

—O meu irmão, Thomas partiu o pescoço na queda. Morreu ali, naquele sitio.

Nathan, que ate agora não sabia o seu nome, apertou a cana do nariz, junto dos olhos. Parecia estar a forçar não chorar. Manter-se focado.

—Aos meus 11 anos, a minha mãe entrou em depressão. Acabou por se suicidar.

Levei as mãos à boca, assustada e perplexa. Ele ficou sozinho, apenas com o pai, que o queria ver morto.

—Deves imaginar então que sofri bastante. Depois da morte da minha mãe, o meu pai mudou radicalmente, para pior. Culpava-me de tudo. Apelidou-me de centopeia “és o pior dos bichos, que ficam nas sombras, mordem e fogem, causando dores enormes”, segundo palavras dele.

Riu-se irônico, apertou a testa com o polegar e o indicador. Queria acabar aquela conversa o mais rápido possível, e eu conseguia entende-lo. Contar uma coisa daquelas a uma estranha, devia ser do pior.

—Num dia, ele tentou matar-me por acidente. Chegou bêbedo a casa, com a garrafa já partida, tropeçou e caiu por cima de mim. Fiquei com cicatrizes nas costas por causa dessa maldita garrafa. –Falou com raiva desta vez. Ele parecia odiar-se a si mesmo. – Mas foi esse acidente que me salvou. No hospital, a policia foi chamada. Acusaram o meu pai de maus tratos. De violência a um menor, violência doméstica. O meu pai foi preso e eu fui levado para um orfanato onde estive até aos 18.

Encostou as costas ao sofá, olhando para o teto, que agora era manchado pela cor laranja, do sol que nascia. A luz que entrava, fazia os olhos dele brilhar, aquela figura à minha frente, era realmente muito linda.

—Quando sai do orfanato, soube que o meu pai tinha sido solto, que tentou mudar a vida dele. E eu fiz o mesmo, arranjei um emprego, fiz bom dinheiro. Conheci várias pessoas, meti-me com pessoas erradas, que até agora me perseguem.

—Qual o emprego? – Falei quase em sussurro, tinha a voz rouca e estava nervosa ainda, embora ele estivesse calmo e não me mostrasse agressivo, por enquanto.

—Acompanhante de luxo. Tu sabes né? Ganha-se bem e é um trabalho fácil. Ir a festas, satisfazer mulheres, do que mais poderia precisar?

Ele realmente parecia gostar do que fazia, ou fez, embora eu não apreciasse muito esse tipo de trabalhos, mas agora, naquele momento, a minha opinião era irrelevante. Era um detalhe dos mínimos.

—Num desses trabalhos, meti-me com a mulher da pessoa errada. De um traficante. Então ele jurou que iria me matar. Então, fui despedido. O patrão não queria suportar tais comportamentos então pôs-me na rua. Passado uns meses, perdi a casa, por falta de pagamento de aluguer. Então tive que vir para a rua. Vivi nas ruas durante 1 ano, mais coisa menos coisa. Sempre pensei no meu passado, na merda que fiz, e ainda fazia. Até que decidi dar um final à minha vida. Decidi que a minha existência era insignificante no mundo.

Parou de falar. Uma grande pausa. Apenas se ouvia a sua respiração. Calmamente. O seu peito a mexer ao ritmo de cada inspiração dada.

—Até ser salvo por ti. Uma miúda patética. Que se acha melhor que os outros. E que por mero acaso, naquele dia decidiu mudar o rumo da sua caminhada até casa. –falou isto apontando o indicador a mim, raivoso.

—Mas tenho que admitir que te ver naquele dia no hospital me enfureceu. Eu sinceramente odeio-te. Mas algo despertou a minha atenção, o teu bilhete, que mesmo depois de te ameaçar teimaste em deixar comigo. Claro que o rasguei. Mas decidi arriscar e vir procurar-te.

Ele pôs-se de pé e caminhou para a minha frente. Ficou parado encarando-me. Aqueles olhos cinza olhavam diretamente para os meus. O fraco calor do sol que amanhecera batia-nos no rosto.

—O resto tu já sabes...

Deu-me uma pequena palmada no topo da cabeça, encaminhando-se de seguida para a porta.

—Tu não tiveste culpa do que aconteceu ao teu irmão. Foi um acidente.

Falei sem pensar, tinha falado demais. Ele olhou-me, desta vez, furioso.

—Não foi um acidente. Eu próprio empurrei a cadeira. Surpresa?

Ele falou sem um pingo de ironia, sem um pouco de censura, sem um pouco de compaixão. Ele estava sério quando falou aquilo.

—Se ao menos eu fosse morrer, não iria sozinho, assim o meu pai poderia culpar-se para sempre. Mas na altura da queda, fui medroso e aparei-a. Então, sim eu fui culpado pela morte do meu irmão. Sou mesmo uma centopeia, está até agora marcado no meu corpo esse bicho.

Ele levantou a camisola. Nas suas costas, uma enorme centopeia estava tatuada. Em detalhes vermelha. Aquilo era assustador, mas eu achei tão belo, tão puro. Parecia uma maldição, que ele teria que carregar para o resto da sua vida, querendo ou não. E ele próprio sentia-se assim, como a centopeia. Ele tapou a tatuagem, voltou-se para a porta e abriu-a.

—E a conversa de eu ter emprego, era mentira. Aquele fato que eu tinha, roubei de uma loja. Apanharam-me e por isso andei a fugir até agora.

Sorriu de lado. Ele era tão confuso. Ele não trazia sarilhos, ele era o próprio sarilho em si. Era detestável. Um ser maldoso. Arrogante e sem sentimentos. Frio. Mas o meu coração conseguiu sentir pena dele.

Notas finais
Espero que tenham gostado :3 Bjos *