Notas iniciais
Mais um capitulo.

"És a minha salvação"

Skillet- Salvation

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O dia amanhecia lentamente. Eu apenas olhava para a sua silhueta junto da porta, prestes a sair. Ferido e talvez desnutrido a minha cabeça dizia que ele sair de minha casa era um erro.

—Nathan.. Porque não ficas? Só por hoje. Tenho ai comida, uma máquina de lavar roupa. Se quiseres tomar um duche enquanto eu não estou.

Ele olhou-me desconfiado, mas acabou por se afastar lentamente da porta, sentando-se de volta no sofá.

—Acho que vou aceitar. Faz tempo que não durmo em algo confortável. Assim também tomo um bom banho.

Eu sorri um pouco satisfeita. Ajudar alguém fazia-me sentir viva e com algum propósito na vida. Reparei então que estava a fazerem-se horas de ir trabalhar. E eu não tinha dormido quase nada na noite passada. Ia ser um longo dia.

—Fica à vontade. Eu tenho de ir trabalhar volto mais logo. Vou me arranjar agora.

Ele acenou afirmativamente com a cabeça. Estava cansado e não tardava para adormecer. Sorri de canto.

Caminhei de volta ao meu quarto e preparei a roupa em cima da cama. Escolhi uma calça de ganga escura. Uma camisa branca e o blazer preto. Um pouco formal. Mas era bom moderar o visual às vezes.

Peguei na toalha que tinha atrás da porta da casa de banho e preparei um banho rápido. Despi a camisola de noite, a roupa interior e banhei-me na água. Os pensamentos desta madrugada iam aos poucos descendo. Escoando... Como a água ia pelo ralo, eles iam junto a ela. Queria ter a mente limpa, para não me atrapalhar o meu desempenho no emprego.

Trabalhar como secretária era tudo o que me restava. Era a única coisa a que me podia agarrar de verdade. Então queria fazer de tudo para não perder esse pequeno sonho.

Sai da casa de banho e vesti-me no quarto. Depois de pronta, voltei à cozinha. Preparei o meu pequeno-almoço. Ah sim, para mim e para o meu “hóspede”. Fiz umas torradas e café quente.

A cozinha tinha vista para a sala, eram apenas separadas por um balcão de mármore, com um tampo em madeira escura. Por detrás do balcão vi que ele estava adormecido no sofá. Aproximei-me dele com cuidado. Talvez fosse a primeira e única oportunidade de o ver a dormir, e em minha opinião, ele parecia um anjo. Estava calmo. Os óculos um pouco descaídos do olhar dele. Tinha pestanas longas que se destacavam quando os olhos estavam fechados. Naquele momento só se ouvia a sua respiração. Suave e delicada. Tinha o pescoço magro, onde se notava os ossos e as clavículas. Dava certo charme.

Decidi acordá-lo para comer. Ele tinha a tarde toda para dormir se quisesse, então era mais essencial que ele comesse agora.

—Ei. Acorda. Fiz o pequeno-almoço. – Falei abanando o seu ombro delicadamente.

Ele abriu os olhos, preguiçosamente e espreguiçou-se. Bocejou, ajeitou os óculos de novo no sitio, e então caminhou para a cozinha. Sentou-se num dos bancos altos, junto ao balcão. Pegou numa torrada e levou-a à boca.

Mastigou com calma, quase de olhos fechados a apreciar o sabor da manteiga a correr pelas suas papilas gustativas.

—Meu deus. Já não comia torradas à tanto tempo. –Falou de boca cheia. Deu-me uma enorme vontade de rir. Parecia um velho a falar.

—Tenho mais se quiseres. O pão está no armário, basta procurares.

Bebi o café à pressa, peguei numa das torradas e caminhei até à porta.

—Mais logo eu volto. Fica à vontade, como a casa fosse tua. Se fores sair, tem uma chave dentro da gaveta, ao lado da televisão. Podes ficar com ela, para depois voltares.

Ele comia com vontade, parecia que não me escutava. Levantou a mão em forma de “eu entendi, obrigado”.

Deixei o apartamento e desci as escadas a pressa. As escadas tinham algumas gotas de sangue, provavelmente do individuo que estava instalado na minha casa agora. Suspirei fundo ao chegar à rua. Caminhei até à paragem de autocarro, esperando que ele viesse.

Estava tudo realmente calmo, o que era de se estranhar àquela hora. O meu instinto apitava dentro de mim. Então, senti uma mão forte apertar o meu ombro. Soltei um gemido de dor.

—Isso magoa! – Falei ao encarar a pessoa que acabara de me incomodar.

Era alto, não tanto quanto o Nathan, mas ainda assim mais alto que eu. Um pouco gordo e careca. Não tinha cara de muitos amigos. Estava com um fato e gravata, pretos. Atrás dele estava acompanhado outro homem, de cabelo preto raspado. Um pouco mais baixo e magro. E atrás dele uma bela mulher. Loira, alta e esguia. Tinha umas pernas invejosas e peitos grandes. Carregava maquiagem a mais, em minha opinião.

O homem careca falou.

—A vive neste prédio? – apontou com o seu dedo gordo para o prédio onde eu acabava de ter saído.

—Sim vivo. Qual o problema? – Queria parecer confiante, mas a minha voz falhou e acabou por se acobardar.

—Não encontrou ninguém suspeito ontem à noite? – Falou novamente. Parecia sério demais para o meu gosto, e pelo aspeto, andavam à procura de uma certa pessoa que eu conhecia.

—Não. – Desviei o olhar.

—Tem a certeza? Ele chama-se Nathan. É alto e muito lindo. Olhos cinza e usa óculos. Qualquer pessoa que o vê não se esquece daquela cara.

Desta vez quem falou foi a mulher. A voz dela era fina e refinada. Era gente de alta classe. E tudo o que vinha deles, era perigoso para mim. Odiava meter-me com eles. Porque caso fizéssemos algo que não lhes agradasse, iriam nos perseguir para o resto da vida.

—Já falei que não. Passei a noite a dormir que nem um anjinho na minha humilde cama. Agora com todo o respeito, tenho que ir trabalhar.

Devia ter medido as palavras antes de falá-las. Se tivesse admitido tudo, o meu futuro teria sido bem melhor.

Já tinha virado costas quando a mulher me agarrou pelo braço e me obrigou a encara-la.

—O mais engraçado é que temos provas que vocês são conhecidos sabia?

Engoli em seco. Provas como? Eles sabiam do meu envolvimento com ele, através de que?

—Que provas?

—Soubemos que ele foi envolvido numa briga de rua, e quando abordamos o hospital, um médico falou-nos que tinha sido você que o encontrou e ajudou. E que tinha até dado a sua morada para ele, o que nos levou aqui.

A voz dela começava a irritar-me.

—Quem são vocês? E o que querem do Nathan ou de mim? –Estava nervosa já com esta conversa. O meu autocarro já tinha passado e eu já estava atrasada para o trabalho.

—Digamos que o Nathan trabalhou para nós no passado, e agora por causa desse fedelho temos uns problemas à perna. Queríamos que ele voltasse para trabalhar, mas sempre que o encontramos ele consegue fugir do assunto e acaba por nunca aparecer.

Empresa? Era o antigo trabalho do Nathan. Acompanhante de luxo, que ele supostamente foi forçado a desistir? Não fazia sentido para mim.

Sacudi com brusquidão o braço da loira e afastei-me alguns passos atrás.

—Se querem falar com ele, força. Mas não me metam no meio das vossas confusões.

O homem careca enervou-se e agarrou-me pelas bochechas apertando-me o queixo.

—Apenas queremos saber dele! E se não falas a bem, vens conosco e ele será obrigado a vir também.

Agarrou-me com força no braço e encaminhou-me para dentro de um BMW preto. Estava assustada e a minha mente só conseguia culpar uma pessoa por tudo aquilo. Ele tinha-me avisado, que depois de saber as coisas dele, não poderia escapar. Mas não bastaram apenas umas horas para as coisas se complicarem.

O carro arrancou a grande velocidade e vi o meu prédio afastar-se.

Ia sentada no banco de trás, ao lado do homem que era magro. Ele parecia ser o mais decente daqueles todos. A loira ia sentada no lugar do passageiro. Era arrogante e metida. De nariz empinado, achava-se superior a nós, trabalhadores. E sinceramente talvez fosse.

O careca era assustador. Era ele que ia a conduzir. Parecia conhecer todas as ruas de cor e salteado, fazia as manobras rapidamente. Não demoraram 20 minutos. O carro parou.

Saíram todos, obrigando-me a mim a sair também. Estávamos em frente a um casarão.

Um grande jardim, com a relva aparada. Um portão enorme dourado (Não devia ser ouro). As paredes brancas como perola, davam à casa um ar luxuoso e impenetrável. Devia ter uns 3 andares.

Entramos pelo portão dourado. Na entrada a porta grande foi aberta pela loira, que tinha uma chave.

A casa por dentro era ainda mais luxuosa. Coberta de quadros e tapetes valiosos. Artefatos antigos. E o cheiro era delicado e muito suave. Talvez um pouco enjoativo se ficasse muito tempo ali fechado.

O careca caminhava apressado na frente.

Íamos por um corredor longo, com várias portas quer de um lado, quer do outro. E uma porta grande na frente. Foi nessa que entramos de seguida.

A porta enorme dava entrada para um salão, que parecia de jantar. Tinha uma mesa comprida, que cabia no mínimo 15 pessoas. No fundo do salão tinha uma lareira aberta, com um tapete vermelho estendido no chão, na sua frente, e dois cadeirões em pele castanha.

Era tudo muito luxuoso para a minha cabeça.

A loira sentou-se num desses cadeirões, enquanto os outros dois ficaram sentados na mesa, sussurrando e rindo de coisas que só eles sabiam.

Aquele tempo de espera pareceu uma eternidade. Não havia um relógio na sala e as minhas pernas já doíam de estar em pé no mesmo sitio e na mesma posição. Queria sentar-me, mas não o ia fazer sem autorização da “princesa” ou dos brutamontes.

Passados alguns minutos a porta grande abriu-se de novo. Desta vez entrou um homem.

Era magro, de cabelo castanho claro, quase loiro. Olhos castanhos escuros. Era novo, talvez perto de uns 30 ou já feitos. Era elegante e alto. Tinha o corpo bem composto e, em minha opinião, transmitia desconfiança. Olhou para mim com desdém. Como uma estranha, o que eu na realidade era. Sentou-se no outro cadeirão, ao lado da loira e beijou-a nos lábios.

Fiz uma careta mentalmente, de desagrado.

Depois de se separarem o homem olhou para mim finalmente. Levantou-se e caminhou até mim.

—Quem é ela?

A voz do homem fez eco no salão. Era grossa e nada sensual. Pelo menos, aos meus ouvidos, não era agradável. Era um pouco rouca, talvez fumasse?

—Ela é a nova namorada do Nathan. – O outro rapaz magro que antes não tinha falado, fez-se ouvir agora. E da pior maneira.

—Esperem entenderam mal. Eu não sou namorada nem nada disso a ele. Apenas nos conhecemos no mero acaso...

Deixei a frase no ar ao ver que o rapaz de cabelo quase loiro tinha pedido aos outros para saírem e deixarem-nos a sós. Todos saíram.

O salão ficou em silêncio. Ele fez-me sinal para me sentar num dos cadeirões, onde eu me sentei confortavelmente. Levou a mão ao bolso tirando um maço de tabaco e um isqueiro. Levou um dos cigarros à boca e acendeu-o.

—Fumas?

Falou apontando o maço para mim. Recusei.

—Não, eu não fumo.

Ele encostou as costas no sofá, tragando um grande “gole” de fumo, para segundos depois o libertar no ar. Esfregou a cara com a palma da mão e encarou-me.

—Tu e eu vamos ter uma conversa séria. Sobre o Nathan.

Notas finais
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