I Do Remember
8 Capítulo 8 - Is More Than Destination
Notas iniciais
Já estava escurecendo quando Julian parou na porta da minha casa. Eu reconheci o carro de Paul e quando olhei pelas janelas da minha casa, percebi que pela quantidade de luzes acesas, Mary também já estava em casa. Eu obriguei Julian a comprar várias balas para disfarçar o cheiro de cigarro, apesar de pensar que Mary não ficaria não preocupada assim, já que ela mesma deveria ter feito isso quando tinha a minha idade.
– Eu acho que é aqui que a gente se despede – eu digo a Julian.
– Parece que sim, estrelinha.
– Não me chame assim – eu resmunguei.
Eu me preparei para sair da caminhonete, quando Julian pronuncia o meu nome de modo sério.
– Você não estava bem hoje de manhã – lembrou ele. – Você sabe que eu me preocupo com você, então quero que me diga o que aconteceu. Mas se não quiser...
– É o Paul.
Julian suspirou pesadamente.
– O que ele fez dessa vez? – ele quis saber.
Eu engoli em seco. Eu não quero dizer nas minhas palavras o que tinha acontecido. Só de me lembrar do olhar de Paul para mim, eu já sentia nojo de mim mesma e queria vomitar. Mas era o meu melhor amigo que estava ali, na minha frente. Eu podia confiar nele, não podia?
– Ele me tocou – eu disse simplesmente.
Julian levantou o olhar para mim.
– Por que você não conta para a Mary? – Sua voz estava neutra. – Esse cara não pode mais se aproveitar de você assim. Ele não tem esse direito!
Eu relaxei.
– Eu sei – respondi. – Mas ela não vai acreditar e essa é a única casa que eu tenho. Além do mais, eu não me sinto bem falando sobre isso.
– Tudo bem. Mas se precisar de qualquer coisa, me liga. A qualquer hora, ok?
Eu assenti e sai da caminhonete. Caminhei pacientemente até a minha casa, olhando para trás pela última para ver Julian me observando e me esperando entrar.
Logo que entrei, o choro de Oliver invadiu os meus ouvidos. Minha primeira atitude foi tampar os ouvidos, mas eu sabia que isso só incomodaria mais a Mary, que estava sentada no sofá, tentando conter o choro do bebê. Eu não vi Paul, e agradeci muito por isso.
Me sentei ao lado dela.
– O que o bebê chorão mais fofo do mundo tem dessa vez? – eu perguntei de modo carinhoso, mas pude ver uma careta no rosto de Mary.
– Eu tive a confirmação hoje – disse ela. – Ollie está com leucemia.
Eu me detive.
– O que acontece agora?
– Ele está com Leucemia Linfocítica Aguda – respondeu Mary. – Ollie vai ter que fazer quimioterapia. Ele só tem três anos e já tem uma dosagem grande de remédios para tomar.
– Eu espero que ele fique bem.
– É claro que sim – ela concordou. – Eu preciso conversar com Paul sobre isso. Pode ficar com ele? Acho que talvez, você consiga acalmá-lo.
Eu concordei, mesmo sabendo que eu era a última pessoa para cuidar de uma criança. Mary colocou Oliver no meu colo e subiu escada acima atrás de Paul. O choro de Ollie havia diminuído um pouco, mas ele ainda soluçava entre as lágrimas que escorriam. Eu queria ter perguntado a Mary se ele sentia dores ou se só estava chorando porque sabia de seu estado ruim.
– Ei, Ollie – eu disse. – Vamos lá. Chorar não é a melhor opção, certo? Pense na sua mãe. Toda vez que você chora, ela chora também.
Oliver passou as mãos nos olhos.
– Mamãe – ele repetiu. – Eu quero a mamãe.
– Ela foi conversar com o seu pai, logo, logo ela está de volta – eu o tranquilizei. – Ele se aquietou no meu colo. – Você sente dores?
Ollie apontou para a boca, e logo depois para a garganta.
– Queima – ele disse. – Eu não gosto disso.
– Já falou sobre isso com a Mary?
Ele balançou a cabeça de cima para baixo.
– Vai melhorar, eu prometo.
Ouvi os passos pesados da escada. Paul desceu apressado, tirando Oliver dos meus braços. Ele o olhou nos olhos, estupefato e nervoso. Depois, lançou um olhar raivoso para mim, como se perguntasse: ‘’o que você está fazendo com o meu filho?’’. Ele abraçou o Ollie, sendo observando por Mary e por mim.
Quando eu olhei para a Mary, eu vi dor e orgulho nos olhos dela. Dor por causa de Oliver e orgulho por ter tido um marido que nem Paul. Será que ela sentiria orgulho dele se soubesse o verdadeiro canalha que ele era? Era nessas horas que eu sentia vontade de ter estado naquele acidente junto com os meus pais.
– Eu vou sair do meu trabalho – revelou Mary. – Vou dar minha atenção total para o Ollie.
Paul concordou rapidamente.
– Claro, claro – disse ele. – Vou trazer mais trabalhos para casa. Quero ficar o tempo todo perto de vocês.
Aquela cena emocionante de família não me convenceu, mas causou algo em mim. Oliver estava doente e precisava de toda a atenção, mas o que aconteceria comigo se Paul passasse mais tempo em casa? Ele continuaria a regularizar os meus horários de chegar em casa e sem dúvidas, não demoraria muito para que Mary concordasse com ele. Eu me senti uma egoísta de estar pensando em mim nesse momento, mas eu não conseguia pensar em outra coisa, a não ser no quanto a minha vida ia de mal a pior.
– Eu vou para o meu quarto – eu disse, tentando parecer mal o suficiente com a situação para me lembrar de que por causa de Oliver, eu teria que ser mais forte e relutante em relação a Paul.
Afinal de contas, Ollie e Mary eram as únicas pessoas que eu podia chamar de família no momento.
***
Eu olhei no relógio do meu celular. Já passava da meia-noite, mas eu não conseguia pregar os olhos. Naquela noite, minha imaginação passava da fantasia e terror. Eu imaginava ouvir os gritos de Mary através da porta, de que Oliver tinha piorado. Eu imaginava que os meus pais passassem pela aquela porta e me dissessem que eu nunca mais teria que conviver com o Paul. E no pior, eu imaginava Paul entrando no meu corpo e me lançando aquele olhar nojento que só ele tinha.
Estava me sentindo tão solitária que até senti uma lágrima brotando nos meus olhos.
Então eu me lembrei de Julian. Era meu amigo, então ele entenderia que eu estivesse ligando tão tarde da noite, afinal de contas, ele tinha dito para que eu ligasse.
Disquei o número dele.
– Você está bem? – Foi a primeira coisa que ele disse.
– Você disse para eu ligar se eu precisasse de alguma coisa e eu estou precisando – disse a ele. – Será que você pode ficar até tarde da noite me ouvindo falar dos meus problemas?
– Bem – eu o imaginei coçando o cabelo do modo como ele fazia sempre que tinha alguma oposição. – Nós só temos um problema, Rose. Eu perdi o carregador do meu celular e a bateria está no fim.
– Bem, mas eu quero conversar com você ouvindo sua voz – retruquei.
– Então só temos uma única opção – ele disse. – Me espere ok?
E então ele desligou o telefone.
Novamente, eu me senti sozinha e pior do que antes. O primeiro pensamento que passou pela minha cabeça foi que Julian havia desistido de falar comigo e me deixado sozinha com os meus problemas. Mas então, eu ouvi o barulho daquela caminhonete velha e quase pulei ao pensar no que ele tinha acabado de fazer.
Eu abri a janela, observando aquele cara maluco saindo de lá e tentando passar despercebido pelo escuro. Ele veio até a minha janela, inclinando a cabeça para o lado quando fixei os meus olhos nele.
– Vai me convidar para entrar ou não?
– Isso é sério? – eu questionei.
Julian olhou de um lado para o outro, e depois para mim.
– Bem, eu acho que sim.
Se Mary ou Paul ouvissem o barulho da porta de entrada se abrindo, eu provavelmente teria uma noite pior do que a que estava tendo. Como a janela não tinha grades, eu só consegui pensar em uma única coisa.
– Você consegue entrar por aqui?
Julian sorriu sarcasticamente.
– Eu sou um prodígio nesse assunto.
Habilmente, Julian subiu a janela do meu quarto. Quando ele pulou para dentro, eu duramente o repreendi por ser tão idiota e fazer mais barulho do que o que precisava. Ele deu de ombros, procurando pelo quarto alguma luz. Quando ele finalmente encontrou, acendeu.
– Eu ainda me lembro da última vez que vim aqui – disse ele, nostálgico. – Faz tanto tempo.
– Parece que sim.
Julian olhou para mim e depois para o meu corpo. Eu não estava mais com o pijama horroroso que Paul havia me dado, mas sim com uma blusa enorme que ia até a metade das minhas coxas e só. Novamente, eu tinha cometido um grande erro, mas tentei parecer inabalável.
– Se você for dormir aqui, já aviso que vai ter que ser no chão.
Julian se deitou na cama, enquanto eu ainda continuava de pé.
– Eu vim até para te ouvir e te consolar e você me trata assim?
Eu me aproximei da cama, me sentando na beirada. Aquela situação era ridícula, pois eu que deveria estar deitada e ele sentado. No entanto, afastei esse pensamento da minha cabeça e contei toda a história do Ollie para Julian. Ele ouviu atentamente, até que desviei o assunto para o Paul e o quanto lamentava ter que vê-lo mais do que o normal.
– Pelo menos isso tem um lado bom – ele observou.
– Lado bom? – eu quase gritei. – Oliver está doente e eu tenho que passar mais tempo olhando para a cara do Paul e vendo-o tentando me controlar.
– Calma, calma. – Ele se sentou. – A parte boa é que eu estou aqui, depois de tanto tempo.
Eu fiz careta para ele.
– Como se você não vivesse em quartos de garotas.
Julian se aproximou de mim. Ele colocou uma mecha de cabelo atrás da minha orelha, me olhando de um jeito que ninguém nunca me olhou. Eu senti o calor subindo através de mim, e uma vontade imensa de abraçá-lo me subiu a cabeça. E eu sabia que o jeito que eu queria era muito mais do alguns amigos se abraçariam. Eu queria tudo naquele momento com ele, me sentindo completamente confusa com o que eu queria. Eu voltei a me convencer de que Julian era apenas meu amigo e nada mais.
Mas eu soube naquele momento que eu sempre estive errada. Eu estava apaixonada por ele, e ao mesmo tempo em que eu detestava isso, eu amava, da mesma maneira como eu me sentia em relação a ele e ao que ele causava em mim.
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