I Do Remember

9 Capítulo 9 - Is Too Much To Bear


Enquanto o dia provavelmente deveria estar nascendo lá fora, eu me peguei me lembrando do momento em que eu vi o Julian, pela primeira vez, de uma forma diferente. Naquela noite, eu finalmente reconheci que sem ele, minha vida teria sido muito pior. Eu me lembrava de que logo depois que eu percebi isso, Julian começou a contar histórias de quando ele era criança, histórias que eu não tinha ouvido e eu estava me segurando para não rir alto demais. O problema era que ele acabou dormindo na minha cama, e como eu não ia ser a tapada de dormir no chão, acabei dividindo minha cama com ele. Se ele percebeu alguma coisa, não falou, pois no dia seguinte, eu havia acordado primeiro do que ele. No entanto, quando ele percebeu que tinha dormido na cama, a primeira reação dele foi de que eu tinha sido tapada de dormir no chão, no meu próprio quarto e deixar a minha própria cama para ele. Lembro-me ainda que achei que ele tinha encarado aquilo como um ato de caridade.

Como de costume de qualquer ser humano, eu acabei pegando no sono. Quando o Michael apareceu na ‘’minha cela’’, me entregando o delicioso café da manhã – pão, leite e maçã – eu percebi meus olhos pesados e me amaldiçoei por ter demorado tanto a dormir. Para finalizar, Michael disse que assim que eu terminasse de comer, eu deveria me apressar para encontrar a Rachel.

Pelo visto, ela ainda não tinha desistido de mim.

Até que meus pensamentos viajaram ao além. Se ela sabia sobre o Julian, provavelmente sabia que ele tinha vindo aqui ontem. Será que eles conversaram sobre mim ou nem se falaram? Será que ele tinha finalmente desistido de mim?

Bem, eu desejava que sim. Desejava que ele me esquecesse e que fosse feliz sem mim. Mas ainda sim, uma parte de mim desejava que não. E uma outra que crescia ainda mais me fazia querer sair daqui e me jogar nos braços dele. Nós poderíamos ser felizes agora. Sem Paul...

Só que minha vida sem Paul, significa sem Mary, e sem Oliver. Eu sabia que ia viver atormentada com isso, e não queria isso para a vida de Julian, também. Eu não o queria me vigiando, esperando que eu não fizesse nem uma besteira ou que tomasse os mesmos rumos que eles. E apesar de nunca ter sido muito fã de me sacrificar para o bem dos outros, eu sabia que não podia desejar outra coisa ao Julian, além disso.

O café da manhã desceu queimando pelo meu estômago. Ao mesmo tempo em que meu estômago insistia em rejeitar qualquer tipo de comida, ele insistia que queria receber qualquer tipo de alimento. Mesmo hesitando, eu acabei dando uma passada do banheiro.

Depois de três fortes batidas na porta, o Michael finalmente apareceu, pronto para me escoltar até da Dra. Rachel Waters. Em minha opinião, ela deveria estar mais preocupada em prestar homenagens à filha dela do que se preocupar com a minha ridícula história de adolescente. Ou deveria estar preocupada em esconder aquela cicatriz horrorosa na orelha dela. Se ela fizesse isso, eu tinha certeza de que ela não iria se lembrar tanto do acidente sempre que olhasse para ela. Nem precisaria de maquiagem, apesar de eu desconfiar que Rachel não fosse muito de maquiagem ou coisa assim.

Quando eu cheguei à sala, Rachel lia atentamente alguns papéis na enorme pasta dela. Assim que ela percebeu minha presença, acenou para que eu me sentasse em frente a ela.

– Eu soube que aprontou ontem – disse ela, com um leve tom de censura em sua voz. – Pensei que estávamos fazendo algum progresso.

– Bom dia para você também.

Rachel me olhou por cima dos óculos.

– Talvez você devesse desejar isso para os enfermeiros que cuidaram da paciente que você traumatizou – falou ela. – Pelo o que me informaram, ela resistiu a muitos calmantes, antes de finalmente dar algum período de paz para os pobres.

– Eu acho que eles vão me deixar na Solitária por mais tempo, então – eu disse, sem nenhum tipo de culpa. – Imagina se eles vão querer passar por isso de novo.

O suspiro de Rachel foi longo.

– Não me trate como uma idiota – ela censurou. – Por que fez isso, Rose?

Eu relaxei os ombros, deixando qualquer tipo de tensão sair de dentro de mim. Agora, eu tinha duas opções: ou Rachel realmente não sabia de nada ou ela estava me testando. Bom, o que me restava era testar a paciência dela também.

– Eu só queria brincar com o pobre do urso de pelúcia – retruquei inocentemente. – Eles nunca me deram brinquedos aqui!

– Realmente, eles não dão – concordou Rachel. – São as famílias que trazem esses presentes.

Fiquei quieta na cadeira.

– É mesmo. Eu não tenho família. Mais um motivo para eu ter pegado o urso dela.

– E qual é o motivo de estapeá-la com ele?

– Fiquei com medo de que ela tentasse pegar de volta – respondi. – Então, eu quis mostrar que eu mandava ali era eu. Mas ela reagiu, e que sem saiu mal foi eu.

Rachel me encarou seriamente dessa vez.

– Sabe por que você não tem família, Rose? – ela perguntou. Rachel me encarou com uma expressão neutra no rosto, mas ao olhar bem no fundo dos olhos dela, eu percebi que ela agia como se tivesse alguma carta na manga. – Porque eles estão mortos. E sabe de quem é a culpa? É sua culpa – ela disse, apontando um dedo acusatório para mim. – Paul, Mary e Oliver se foram e você permaneceu sozinha aqui. Assim como seus pais se foram. Qualquer pessoa que olhar para você, Rose, vai ver apenas uma menina solitária, que foi deixada sozinha no mundo, sem parentes ou amigos. Ninguém no seu colégio se lembra mais de você. Todos que demonstraram qualquer preocupação, já se esqueceram de que você existe. E aquele garoto, o Julian? Ele... – ela riu de escárnio – Bem, ele está cheio de garotas atrás dele, e você foi só mais uma para ele.

Eu bati os punhos na mesa, chocada com que ela acabara de dizer. As lágrimas desciam dos meus olhos, e eu nem tentei pará-las. No fundo, eu sabia que essa era a verdade, mas não queria que ninguém me dissesse isso. Porque se me dissessem isso, era como se fosse real tudo o que estava acontecendo. E eu não queria acreditar nisso, nem por um segundo.

E Julian... Eu não duvidava que depois de ontem, ele tivesse saído com alguma garota. Teria sido com a Stacy? Não, eu não podia pensar nisso, não! Ele ainda estava lá, esperando por mim, rezando dia e noite para que eu saísse desse trauma. Mas e se não estivesse?

– Quem é você para me julgar? – eu indaguei, apontando um dedo para Rachel. – Você perdeu sua filha e está sozinha! O seu único consolo é ouvir histórias entediantes de pacientes malucos porque não sabe como fazer para superar, mas eu tenho uma notícia para você: VOCÊ NUNCA VAI SUPERAR! Qualquer coisa, qualquer pensamento vai sempre te levar a ela, porque ela foi a única pessoa que você nunca desistiu de amar. E nunca vai desistir.

Os olhos arregalados de Rachel foram se suavizando com o fim das minhas palavras. Eu sabia que ela não esperava por isso, e cheguei a me arrepender por ter falado sobre a filha dela.

– A culpa foi minha – Rachel falou, tirando os óculos. – Ela tinha dez anos. Estava me perguntando qual era o melhor vestido para colocar na boneca dela. Ela sempre gostou de bonecas. – Rachel olhou para mim, sorrindo fracamente. – Eu já fiz isso com alguns pacientes. Falar o que eles pensam é o jeito mais fácil de tirar de dentro deles essa angústia que os consome. Houve vezes em que eles me atacaram. Mas nunca fizeram minhas palavras se voltarem contra mim.

Lentamente, eu me sentei. Rachel parecia disposta a falar mais.

– Eu tenho experiência – ela me explicou. – Sei que você me esconde algo. E sei que quer ir até o fim do poço porque se sente culpada por algo, e principalmente, porque se sente sozinha.

– Eu sinto que isso nunca vai passar – desabafei. – Por mim, eu passaria os restos dos meus dias aqui, vivendo a base de remédios e sedativos. Eu não tenho mais nada. Paul me fez perder tudo.

– Qual a pior memória que você tem daquela noite? – Rachel perguntou com cuidado.

Engoli em seco. Ver Mary e Oliver mortos não era nada comparado a maneira em que eles foram mortos. Eu não podia me lembrar disso agora. Não queria. Mas sempre vinha e demorava a ir embora.

E quando Paul tentou matar o Julian...

– É tudo ruim – resolvi responder. – Não me faça lembrar disso agora.

Rachel mudou de posição em sua cadeira.

– Tudo bem, tudo bem – ela fez um sinal de rendição com as duas mãos. – Agora, me conte. O que mais aconteceu entre você e o Julian?