I Do Remember
7 Capítulo 7 - A Long Night
Notas iniciais
– É o que dizem – Rachel segurou uma risada. – Cigarro é o melhor remédio para o esquecimento.
Fiz uma careta para ela. Como aquela mulher, que havia sofrido uma grande perda, estava fazendo piada com o meu sofrimento? Bem, ela ainda não sabia do meu enorme sofrimento e eu nem estava disposta a contar nada sobre isso. Quem sabe a história drástica e horrível que eu tive com o Julian faz com que ela me deixe em paz?
– Dizem também que funciona para uma vida amarga – retruquei. – Por que não usa, Rachel?
Ela suspirou profundamente.
– Quando eu tinha a sua idade, Rose, eu tive os meus problemas. E sabe o que eu aprendi com eles? Que sempre existe uma solução. – Ela pausou e até cheguei a pensar que ela sorriria para mim, mas manteve uma expressão séria no rosto. – Você é um problema. Quer dizer que existe uma solução para você.
– Eu não sou um problema – eu neguei, balançando a cabeça. – Você está aqui porque quer. Eu não chamei e nunca chamaria. Eu vou falar qualquer coisa e você ainda vai insistir que eu sou louca, por isso eu os matei. Eu não quero você aqui e eu não quero mais falar sobre nada. Já posso ir embora?
Eu não me importava se Rachel entendia ou não. Só me importava o fato de que eu não podia mais falar sobre aquilo. Não só por causa de Julian, mas principalmente, por causa de Mary. Como explicar a uma desconhecida que você a amava o suficiente para permitir tão ato? Rachel nunca entendia os meus atos, do mesmo jeito que eu demorei a entender e a aceitar tudo o que eu fiz e tudo o que aconteceu. Nunca pensei no fato de ser culpada, mas se naquela noite, se eu estivesse naquele carro, as coisas seriam diferentes. Diferentes para todo mundo.
– Pode. – A resposta dela me surpreendeu. – Eu vou chamar o enfermeiro.
Rachel se levantou da cadeira e passou pela porta. Segundos depois ela entrou, seguida pelo Michael Big Black, do mesmo jeito que eu me lembrava: alto, gordo e feio. O susto foi iminente.
– Esse durou mais tempo que os outros, Retardada – zombou ele, se aproximando de mim e me pegando pelo braço. – Qual sua palavra final, doutora?
Rachel franziu o cenho pelo ato do Michael e pelo nome que ele me chamou. Oh, uma revolucionária!
– Voltarei amanhã – disse ela, por fim. – Fique pronta, Rose. Conversaremos mais amanhã.
Eu arquei as sobrancelhas, sem esconder nenhuma surpresa. Olhei para Michael e percebi que ele estava tão surpreso quanto eu. Não respondi as palavras dele e deixei que Michael me levasse para fora. Observando bem, ele era umas duas cabeças mais alto do que eu, o que resultava em mais de dois metros de altura. Como alguém como ele poderia ser enfermeiro? Como alguém como ele trabalhava nesse lugar? Ele podia ser um gângster. Combina muito mais.
Quando estávamos prestes a passar pela porta que levava para a Solitária, ele parou.
– O quê? – perguntei, inclinando minha cabeça para trás, a ponto de vê-lo.
– Você se comportou hoje – disse ele, sincero. – Se comportou ontem e anteontem. – Ele se virou e começar a me arrastar pelo caminho que fizemos minutos atrás. – Vai voltar para o quarto com os outros. Vai poder ficar ao ar livre e brincar com os seus amigos.
– Não, não! – eu protestei. – Eu não me comportei. Eu xinguei a vaca da Rachel, ela é uma puta desgraçada! Você é um gordo feio e babão, fede a carne podre e é um idiota! Me leva de volta, seu canalha!
– Esse é o seu jeito de ir parar na Solitária, de novo? Vai precisar melhorar isso, Rose.
Rose. Era a primeira vez desde que eu o conheci que ele me chamou pelo nome. Sempre desconfiei que ele nunca soubesse de verdade o meu nome e de novo, no mesmo dia, eu me surpreendi. Hoje seria um dia longo. E como o meu azar só crescia, a noite seria pior ainda.
***
Tive que tampar o meu olho várias vezes e demorou um pouco para que eu me acostumasse com o sol. Tinha me esquecido de como era viver abaixo do sol, com um ar puro e uma paisagem mais bonita. Um vento fraco atingiu o meu pescoço e eu me estremeci um pouco.
As lembranças daquele dia com Julian me vieram pela cabeça. Senti lágrimas quentes brotando nos meus olhos, mas as sequei antes mesmo que pudessem cair. Não podia negar que sentia falta daquilo. Tinha sido tão difícil dizer não para todas as visitas dele, mas tinha que continuar daquele jeito. Ele poderia se envolver mais profundamente com a Stacy ou com qualquer outra garota. Continuaria com a sua camionete velha e invés de se preocupar com a melhor amiga em um manicômio, se preocuparia com a roupa que usaria no dia seguinte.
– Olá, moça bonita.
Uma mulher mais velha, com um urso de pelúcia nos braços e cabelo todo bagunçado se aproximou de mim. Ela se sentou ao meu lado no chão e começou a brincar com o ursinho. Pensei em falar qualquer coisa, mas não tinha o que falar. Ela era mais louca do que eu, o que significava não saber como conversar com ela.
– Olha o moço bonito – ela disse, balançando o rosto de um lado para o outro e depois, fixando seus olhos no ursinho. Ela começou a balançar os braços dele e soltava risinhos de vez em quando. Ela estava falando do urso, é claro. O urso era o moço bonito.
Desviei o olhar da mulher e então eu entendi o que ela estava dizendo. Há quilômetros de distância, um garoto alto, com uma blusa preta de mangas longas dobradas até o cotovelo. As mãos estavam nos bolsos, a cabeça inclinada o suficiente para estar apoiada na parede. Ele parecia leve e... feliz.
Demorou até que eu desviasse o olhar e percebesse meu grande erro. Ele estava ali! Há quanto tempo ele estava me observando? Será que fazia muito tempo?
Só tinha um jeito de eu escapar rápido o suficiente para que ele não se aproximasse de mim.
Arranquei o urso da mulher e comecei a estapeá-la com ele. Ela começou a gritar e revidou alguns tapas e devo admitir que alguns doeram. Ela gritou tão alto, que não demorou muito para eu ver o Michael Big Black correndo na minha direção e me levantando pela cintura, me colocando por cima do ombro dele e me levando novamente para a Solitária. Eu consegui olhar para trás pela última vez e o vi decepcionado. De um jeito que eu nunca tinha visto antes.
***
Os lençóis tinham sido trocados. O quarto cheirava melhor, mas não era o suficiente para se dizer agradável. Depois de importunar o enfermeiro de guarda por muito tempo, ele finalmente havia me dito as horas. Eram 1h00min da manhã. Rachel havia chegado depois da dez da manhã. Ficamos conversamos por uma hora. Fique sedada por mais de doze horas.
O que será que ele havia pensado? E por que estava me importando?
Eu tinha que esquecer e apenas isso.
Me revirei na cama por horas, pensando, pensando, gritando, mexendo no cabelo, batendo na parede, andando de um lado para o outro. Noite longa, morte lenta. Tudo aquilo estava acabando comigo e não importava o que eu fizesse, não conseguia fechar os meus olhos e dormir. Implorei para que me sedassem de novo, mas disseram que poderia ser perigoso. Gritei tanto que fiquei sem voz, e nem assim me sedaram.
O pior era que eu só conseguia sentir culpa pelo o meu ato inconsequente.
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