Hálito de Fogo

5 O talismã da coragem


Notas iniciais
Peço desculpas pela demora para a publicação deste capítulo, eu sempre demoro um pouco, mas dessa vez demorei mais que o previsto, peço desculpas por isso.

“A lenda dos sete anjos:

O Mal caminhava por Teran, o nosso mundo, semeando a discórdia por onde passava, então semeou um de seus frutos em uma grande cidade. Um dragão de pele impenetrável e hálito mortal instaurou o medo nos corações de todos que habitavam ali. Ele exigia, de semana em semana, que a cidade satisfizesse suas vontades, e muitas vezes ele pedia garotas para devorar.

Os anos foram passando, o ouro e as garotas da cidade foram acabando e então chegou o dia mais temido por todos: a única garota que restava era Sabra, a filha do rei, que havia proposto que quem matasse a fera poderia pedir qualquer coisa que estivesse ao seu alcance. Muitos tentaram e todos morreram.

Alguns dias antes de Sabra ser mandada para a caverna do dragão, um homem que trajava armadura e levava consigo apenas uma espada apareceu na vila. Quando soube da história do dragão, subiu a montanha e presenciou a grandeza do monstro. Sua pele era feita de aço puro e seu hálito de fogo era algo imbatível, mas, como tudo neste mundo, o dragão tinha uma fraqueza. Suas asas não eram cobertas de aço, pois não poderia voar desta forma, então o sábio cavaleiro desferiu um golpe em sua asa, transformando-o em pó e assim ganhando um pedido do rei.

Assim surgiu o primeiro anjo.”

Sabra pediu para dormir um pouco e continuar a história outro dia. Eu estava morrendo de vontade de ouvir mais sobre o tal livro, mas ela havia acabado de perder seu pai e eu não queria exigir muito mais dela, então guardei o livro dentro da mochila e dormi também, pois teríamos que voltar para buscar seu pai quando o Sol raiasse.

Naquela noite eu sonhei com Jorge. Estávamos correndo por um corredor estreito enquanto um homem encapuzado nos perseguia. Sua túnica era preta, velha e cheia de rasgos, seus olhos eram amarelados e ele corria com um sorriso macabro em seu rosto. De repente, Jorge parou e me mandou seguir caminho. Eu tentei parar de correr, mas minhas pernas não me obedeciam, então a única coisa que eu pude fazer foi assistir a Jorge lutar. Um leão saltou sobre minha cabeça e parou ao lado de Jorge. Ele rugiu, paralisando por alguns segundos a figura encapuzada, que rapidamente se reestabeleceu e os atacou. Eu tentei gritar, mas minha voz não saia. Então, um lobo surgiu ao meu lado e caminhou junto a mim, até que alcancei uma luz fraca.

– Cadmo, acorde. Acorde. – Sabra me chacoalhava bruscamente. – Vamos voltar para a vila, por favor.

Levantei-me, passei as mãos pelos olhos, ajeitei Ascalon e então caminhamos em silêncio até a vila. Sabra suspirava enquanto caminhávamos, seus olhos se moviam de um lado para o outro tentando encontrar os altos muros que eram facilmente vistos a distância, mas eles não encontravam nada.

Quando finalmente chegamos, Sabra desabou e se pôs a chorar. Da vila onde ela vivia um dia atrás, só se via o pó. Casas estavam aos pedaços, algumas ainda pegavam fogo e era possível ver muitos corpos em meio às ruas. Caminhamos até onde o corpo de pai de Sabra estava. De seu corpo restavam poucas partes, o resto havia sido consumido pelo fogo e virou cinzas. Sabra se ajoelhou e gritou. Gritou alto o suficiente para espantar alguns corvos que estavam pousados sobre corpos.

– Sabra, não vamos conseguir enterra...

– Cale a boca Cadmo... Apenas me deixe aqui... Pode ir aonde quer que tenha que ir, eu vou ficar aqui... – Ela pousou sua cabeça sobre as cinzas de Alexandre.

– Mas Sabra... – Pousei a mão sobre seu ombro.

– Suma da minha frente! – Ela se virou bruscamente e gritou. Seus olhos estavam vermelhos de tanto chorar, seu rosto estava cheio de cinzas.

– Eu só quero ajudar. – Ela empurrou a mão que coloquei sobre seu ombro e ficou em pé. Sabra nunca havia agido daquela maneira comigo e não aparentava ficar daquele jeito constantemente. No pouco tempo que tinha passado junto a ela, pude perceber que era uma menina doce e calma, mas perder seu pai fizera tudo mudar.

– Você quer me ajudar? Traga minha mãe de volta, traga meu pai de volta, traga minha vila de volta! – ela dizia colocando o dedo indicador em meu tórax toda vez que terminava uma frase. – Agora você vai pegar suas coisas e vai sumir da minha frente.

Realmente aquilo era mais do que eu esperava de Sabra. Ela parecia, além carregar além de angustia pela perda do pai, carregar também ódio. Ódio por não ter feito nada. Eu nunca havia esperado algo do gênero vindo dela e estava começando a perder a paciência.

– Eu não vou largar você aqui sozinha – eu disse, a segurando pelo braço.

– Me solta, idiota! – Com a mão livre ela me acertou um tapa muito mais forte do que eu esperava que ela pudesse dar em meu rosto.

Eu poderia ter revidado mil vezes mais forte ou ter dado as costas para ela e seguido meu caminho, mas eu precisava ter paciência. Ela precisava de mim agora. Eu havia prometido que iria protegê-la e não iria quebrar aquela promessa, então eu respirei fundo e a abracei. Ela tentou me empurrar a princípio, mas depois de um tempo ela me abraçou de volta e se pôs a chorar. Depois de um tempo começamos a caminhar em direção ao casarão. Ao longo do caminho, era possível ver casas e mais casas e o sentimento de remorso crescia dentro de mim. Se eu tivesse lutado, quem sabe tudo não estaria bem? Quem sabe Alexandre, Jorge e até mesmo Petrus não estivessem vivos? Não, eu não conseguiria vencer Lúcifer. Nem Petrus, sendo um lorde, conseguiu. Eu não teria chance alguma.

Olhei para minhas mãos. E se eu tivesse conseguido liberar aquela força extraordinária que usei para vencer o dragão? Será que aquilo era ser o Coração Flamejante que Jorge dizia? Eu precisava aprender a controlar aquela força, mas aquele não era o momento para pensar nisso.

Chegamos ao casarão, corri sobre os escombros que restavam e procurei por minha mochila.

– O que você está procurando, Cadmo? – Sabra perguntou, se aproximando.

– Minha mochila. Quando eu acordei em sua casa ela estava do lado da cama. – Joguei alguns pedaços de madeira para o lado fazendo algum esforço e Sabra começou a me ajudar a procurar.

– Achei! – Ela segurou a alça da mochila e tentou levantá-la. – O que tem de tão pesado aqui? – Ela abriu a fivela e o ovo de dragão ficou exposto. – Mas, o que é isso?!

– Longa história, mas, resumindo... Eu tenho um ovo de dragão. – Peguei a mochila de suas mãos e a coloquei nas costas.

– Mas isso é perigoso. Você realmente acha que quando esse ovo chocar o dragão que nascer vai sair e te chamar de papai?

– Não, mas eu não poderia deixar ele abandonado. Iriam matá-lo se o encontrassem.

Sabra tentou contestar a ideia de levar um ovo de dragão, mas, depois de um tempo, desistiu de me convencer. Caminhamos para fora da vila e, quando Sabra passou pelo portão destruído, se virou pela última vez para sua cidade. Ela inclinou o corpo em sinal de reverência e seguiu em minha direção.

Expliquei para Sabra o que Jorge havia me dito sobre seguir os pássaros e ela achou a ideia meio sem sentido, mas depois de ver um homem se tornar cinzas douradas e subir aos céus, concordamos que nada poderia ser mais estranho. Estávamos completamente errados.

Tentamos encontrar alguns pássaros, mas nenhum aparecia. Caminhamos horas e mais horas por uma estrada até encontrarmos uma floresta com árvores altas, então decidimos entrar e ver se encontrávamos alguma coisa.

O som da floresta era algo perturbador. O vento soprava e era possível ouvir o barulho de vários animais, menos pássaros. Quanto mais adentrávamos a floresta, mais escura ela ficava. A cada passo nosso, a tensão aumentava com o barulho das folhas secas. E então Sabra segurou meu braço e eu vi o medo que ela estava sentindo, quando, de repente, um trovão rasgou os céus. Não podia ver as nuvens, mas sabia que uma tempestade estava a caminho.

Estava prestes a dizer a Sabra para darmos meia volta quando foi possível escutar passos apressados a nossa volta.

– Fique perto de mim – disse a Sabra e saquei Ascalon, então ela apertou meu braço mais forte ainda. E, de repente, ele apareceu. Um inofensivo e indefeso esquilo. Olhei para Sabra e ela começou a gargalhar e então eu comecei a gargalhar junto, mas isso não durou muito tempo.

A chuva começou a cair e eu pude ouvir um rugido vindo de algum lugar da floresta. Então eu o avistei. Um dragão diferente de tudo que eu já tinha visto e ouvido falar. Suas patas eram feitas de árvores grossas e escuras, sobre seu corpo estava uma casca de madeira coberta de musgo, sua cauda era feita de um emaranhado de cipós, pelo seu corpo cresciam folhas e espinhos, suas asas pareciam duas folhas de árvores enormes, mas o que mais impressionava eram seus olhos verdes.

– Quem vocês pensam que são para adentrar ao labirinto de troncos? – O dragão disse enquanto caminhava. Sua voz era diferente da voz do último dragão. Ela passava certo tom de astúcia e conhecimento.

– Nos perdoe, não sabíamos que não podíamos entrar, mas já estamos de saída. – Comecei a dar passos para trás empurrando Sabra, que tremia ao meu lado.

– Com quem você está falando? – Ela sussurrou para mim.

– Com o dragão – sussurrei de volta.

– Você conversa com dragões? – Ela perguntou, enquanto fazia uma cara de espanto.

– Sim, eu descobri isso quando enfrentei o dragão da montanha.

– Calem-se humanos! – O dragão rugiu e um emaranhado de cipós amarrou a mim e a Sabra. – Você realmente acha que pode adentrar a minha floresta, assustar os meus animais e aprisionar um de minha espécie com você sem ser punido, humano tolo?

– Como você sabe do ovo? – O ovo estava em minhas costas, não tinha como ele ter visto. Era impossível. Virei o máximo que consegui para olhar para Sabra, ela parecia perplexa com a situação.

– Por favor, senhor dragão, nos deixe ir, não nos devore – ela implorou.

– Oh, vejo que temos uma donzela aqui. — Ele aproximou sua cabeça de Sabra. – E uma donzela muito educada por sinal, diferente de seu amigo que apenas sabe maltratar seres indefesos. Para a sorte de vocês eu passei 16 anos de minha vida comendo folhas e não vou parar agora. Infelizmente a floresta é um ser muito bom e não me permite matar qualquer viajante que passe por aqui, mas, caso vocês não sobrevivam ao desafio, eu terei uma bela desculpa para matá-los. E, caso vocês sobrevivam ao desafio, além de receber a liberdade, um de vocês receberá um dom. – Os cipós nos arremessaram ao chão, eu consegui aliviar a queda. Sabra, ao contrário, foi de encontro ao chão, mas parecia estar bem.

– Já que você tecnicamente nos deu uma chance para sairmos vivos, acho que podemos nos apresentar. Eu sou Cadmo Agápio e essa é Sabra... Eu não sei seu nome completo.

– Sabra Promissio.

– Eu sou Ládon, vindo de Arcádia, filho de Oceano e Tétis. O desafio exige que vocês mostrem que além de corajosos, são fortes e astutos também, então aqui vai a primeira parte do desafio: Que criatura pela manhã tem quatro pés, ao meio-dia tem dois, e à tarde tem três?

Que tipo de pergunta era aquela? Nenhuma criatura pela manhã quatro pés, ao meio-dia tem dois e à tarde tem três, aquilo era algo impossível.

– O que ele disse Cadmo?

– Nós temos que cumprir um desafio caso queiramos sair da floresta, o desafio é dividido em duas partes, a primeira parte é uma pergunta. Que criatura pela manhã tem quatro pés, ao meio-dia tem dois, e à tarde tem três?

– Essa é fácil, um humano. – Sabra respondeu com um sorriso maroto no rosto. – Quando bebê ele engatinha sobre as mãos e os pés, quando adulto anda sobre duas pernas e quando velho usa um cajado para caminhar. – Ela olhou para mim e arqueou as sobrancelhas. – Meu pai me perguntou isso quando pequena.

O dragão rosnou como se quisesse que errássemos.

– Agora a segunda parte do desafio. – Mesmo que dragões não sorrissem, ele aparentava ter um sorriso maligno nos lábios. – Vocês devem derrubar a maior árvore da floresta.

– Então, Cadmo, o que ele disse? – Sabra disse enquanto caminhava em minha direção.

– Ah, esse parece ser um desafio consideravelmente fácil, ele apenas quer que derrubemos a maior árvore da floresta. Então Ládon, onde está a maior árvore da floresta?

– Ela está bem na sua frente, eu sou a maior árvore da floresta. – Ele rodou o corpo para nos acertar com a cauda, mas coloquei o braço sobre as costas de Sabra e a puxei para o chão junto a mim.

– Corra Sabra! Corra! – Gritei para Sabra, mas ela balançou o rosto fazendo sinal negativo. – Você só vai me atrasar no meio da luta. – Nos levantamos, porém a cauda de Ládon voltava em nossa direção, então fiz o mesmo movimento que antes. – Sem contar que você não aguentaria nem um golpe dele. – Com uma face assustada, ela fez um gesto que sim com a cabeça e começou a correr, mas o galho de uma árvore se esticou e a prendeu.

Saquei Ascalon. Aquela era realmente uma luta injusta. Ládon tinha a floresta toda a sua disposição e eu tinha uma espada e minha mochila. Mas espere, minha mochila! Guardei Ascalon na bainha, coloquei a bolsa em frente ao corpo e peguei a caixa de fósforos que havia dentro dela. Haviam apenas três fósforos lá dentro, então pulei para trás de uma árvore e acendi o primeiro, mas rapidamente Ládon tentou me abocanhar e o fósforo apagou. A tentativa de acender o segundo não foi muito melhor. Eu tentei acendê-lo enquanto corria, porém a chuva e o vento o apagaram. Então sobrava apenas mais um palito e eu precisava conseguir acendê-lo ou teria que enfrentar o dragão em completa desvantagem.

Eu precisava de um milagre ou de uma loucura e, é claro, sendo quem eu sou, escolhi a loucura. Dei o máximo que pude de mim e me distanciei bastante de Ládon, me virei para ele e fiz a coisa que qualquer pessoa com o mínimo de juízo faria: corri em sua direção. Quando estava próximo à sua cabeça, deitei meu corpo e deslizei pelo chão. Girei meu corpo para desviar da boca de Ládon, que tentou me abocanhar e me levantei quando estava em baixo dele. Ele tentou me pisotear, mas apenas conseguiu derrubar alguns pedaços de madeiras que estavam presos a sua perna. Acendi o fósforo e, com sucesso, passei o fogo para vários pedaços de madeira que estavam no chão, joguei a caixa no chão e vi o maldito dragão da floresta queimar.

– Como ousa fazer isso, garoto idiota! – Ládon era puro ódio e revolta.

– Você primeiro disse que curtia apenas plantas e agora tenta nos matar? – Gritei enquanto corria para fugir do fogo de Ládon.

– Eu não quero devorar você e sua amiga, quero apenas derramar seu sangue sobre a minha floresta. – Ele rugiu e tentou me pisotear mais algumas vezes enquanto seu corpo pegava fogo. A chuva começava a apagar o fogo, porém eu já havia ganhado vantagem, pois Ládon estava muito ferido. – Falando em sua amiga... – Eu pude ouvir os gritos de Sabra e quando me virei para poder vê-la, percebi que o braço da árvore que a agarrara a pressionava mais e mais.

Saquei Ascalon e comecei a correr novamente, porém em meio às chamas era difícil me aproximar da árvore.

O desespero e o medo cresciam dentro de mim, Ascalon parecia ficar mais pesada a cada passo que eu dava e o desespero crescia junto, pois Ládon me perseguia. Quanto mais eu corria, mais Sabra gritava, mais meu medo aumentava e mais Ládon se aproximava. Foi quando eu entendi o que Jorge me dissera na primeira vez que nos vimos. Ele me disse que apenas alguém digno poderia manusear a espada, o medo só atrapalhava o manuseio da mesma. Um coração flamejante precisava ser corajoso.

Ao invés de pensar que estava fugindo de Ládon eu deveria pensar que estava correndo para salvar Sabra, então foi o que fiz. Corri o máximo que pude, sem me importar com as chamas. Em alguns momentos elas queimavam minhas roupas e minha pele, mas após passar por elas cerca de cinco vezes as chamas deixaram de doer e começaram a fazer parte de mim. Meu corpo voltou a se rodear pelas chamas da coragem e finalmente alcancei Sabra, que já estava quase sem consciência. Cortei o galho que a prendia e a deixei no chão, quando percebi que ela poderia ficar bem sozinha.

– Ei, seu dragão idiota. Você pode ser um lagartão velho, sábio e forte, mas você é Mal e o Mal sempre perde – disse enquanto me virava. – Sabe qual palavra sempre vence o Mal?

– Bem? – Ládon disse em meio ao o que pareciam ser risos.

– Resposta errada. A palavra que sempre vence o Mal é... – Comecei a correr e fiz o mesmo movimento da última vez, deslizei por de baixo de Ládon. – ASCALON! – Ládon urrou de dor e rasguei seu corpo com Ascalon desde seu pescoço até sua cauda. Quando parei de deslizar, mais uma vez Ascalon mostrou seu poder de transformar seres de alma suja em pedra.

Ao caminharmos para fora do labirinto dos troncos, avistamos uma árvore diferente das outras. Ela era pequena, de folhas avermelhadas, tronco cinza e havia um pequeno fruto, um fruto dourado.

– Me dê o livro. – Sabra, que estava apoiada em meu ombro, sussurrou ao meu ouvido. Sua voz estava fraca e cansada. Então tirei o livro da bolsa e entreguei a ela que folheou algumas páginas e pousou a mão sobre uma figura que mostrava exatamente o fruto da pequena árvore. – Não pode ser... É o pomo de ouro.