Hálito de Fogo
6 As asas da liberdade
Sabra ficou algum tempo analisando o tal Pomo de Ouro. Tentei fazer algumas perguntas, mas a única resposta que recebia era: “Só um minuto, Cadmo”.
Depois de tentar perguntar várias e várias vezes, eu desisti e resolvi me sentar em baixo de uma árvore que estava ali por perto. Peguei Ascalon e comecei a reparar mais em seu formato. Seu cabo era prateado e carregava na ponta inferior um rubi vermelho que era envolto por algo que parecia ouro, a lâmina era prateada e reluzente, e tinha um baixo relevo no meio que era preenchido pelo mesmo material que segurava o rubi. Ao longo da lamina era possível ver as gravuras estranhas que de alguma forma eu conseguia compreender: “Ascalon”.
Lembrei-me de quando salvei Sabra do dragão e Ascalon rompeu em chamas. Lembrei, também, do que Jorge havia me dito quando perguntei se Sabra esperava ter chances de sobreviver “Ela espera alguém muito idiota para enfrentar o dragão. Ou alguém muito valente”. Ao me lembra disso, comprovei o que pensava sobre a espada. Ela se tornava leve quando a coragem fluía em meu corpo e se tornava pesada quando o medo tomava conta de mim. E os outros Gladios? Como eles seriam?
Eu só sabia que ao total eles eram 7, que cada um deles era protegido por um guardião e que para encontrar Ícaro, o próximo guardião, eu devia seguir os pássaros. Mas esta era uma tarefa difícil, pois eu não havia encontrado nenhum pássaro ao longo do caminho.
– Sabra, nós precisamos ir. Eu preciso continuar procurando pelos pássaros. – Levantei, caminhei até Sabra e me agachei ao seu lado. – Descobriu alguma coisa?
– O livro contém uma parte no final que diz sobre alguns itens feitos pelo Bem como presentes aos humanos, veja só. – Ela pousou o polegar sobre uma foto de uma maçã dourada. — Acho que, por termos libertado a floresta do controle de Ládon, fomos recompensados. Aqui diz que o Pomo te dá uma habilidade que você precise, qualquer uma, mas diz que somente uma pessoa pode comê-lo. – Sabra parecia ansiosa, mesmo cansada e fraca seus olhos pareciam alegres.
– Pode comer. – Olhei para ela e arqueei as sobrancelhas. Ela me olhou surpresa e abriu um sorriso de orelha a orelha.
– Mas você venceu o dragão. Sem você eu estaria morta. – Ela estava sentada, mas suas pernas tremiam de ansiedade.
– Sem você eu não teria respondido a charada. – Estendi a mão até a árvore, peguei o Pomo e entreguei a Sabra. – Ele é seu.
Ela sorriu e beijou meu rosto. Parecia ter certo receio de comer a fruta, levou até sua boca e quando estava prestes a morder, a deixou cair. Suas mãos tremiam e ela me encarava, seus olhos estavam perdidos olhando de um lado para o outro enquanto tentavam segurar o pomo, porém ela finalmente o agarrou com as duas mãos, respirou fundo, e então abocanhou a fruta.
– Sente algo diferente?
– Tem gosto de tudo que eu gosto ao mesmo tempo, eu consigo sentir o gosto do suco que eu sempre bebia todas as manhãs com meu pai, o bolo que a moça da cozinha do casarão fazia para mim em todos os meus aniversários e eu sinto o gosto de mais alguma coisa, algo que eu não sei explicar. Nunca provei nada que tivesse esse gosto. – Ela disse de boca cheia. Depois que ela engoliu o primeiro bocado todas as suas feridas se fecharam, o cansaço parecia ter passado e o Pomo perdeu sua cor dourada e apodreceu. – Espere... eu posso escutar algo. Alguém está dizendo “Vamos asas, voem. Voem mais um pouco. Temos que encontrar o mestre”. E a voz vem dali!
Ela apontou para cima e então pudemos ver um pequeno ponto preto voando no céu. Era um pássaro. Sabra e eu começamos imediatamente a correr, pois não podíamos perder aquele pássaro de vista.
Após corrermos por algum tempo era impossível não perder o pássaro de vista, porque, para nossa sorte, havíamos encontrados bandos inteiros deles e Sabra dizia que podia entendê-los. Pelo o que parecia eles estavam carregando tudo que parecia de valor para o “Mestre”. Alguns pássaros tentaram pegar Ascalon de sua bainha, mas Sabra gritava para eles saírem de perto de nós e eles a obedeciam no exato momento que ela gritava.
Foi quando eu vi um enorme castelo construído em meio a um campo extenso e com uma construção de muros altos logo atrás, mas não estava completo e não era novo. Em certas partes, o muro estava esburacado e coberto por musgo. Ele estava rodeado por pássaros que entravam e saiam a todo o momento, e, no centro do castelo, havia uma torre alta sem telhado onde era possível se ver uma figura borrada que aparentava ser um homem. Era como se o castelo tivesse brotado ali de repente no meio do nada, majestoso e horripilante ao mesmo tempo, eu me sentia convidado a entrar, mas se eu olhasse por muito tempo, minhas pernas imploravam para correr para longe daquele lugar velho e abandonado.
Sabra e eu decidimos entrar no castelo, o que não foi muito difícil, pois os portões estavam completamente destruídos. Seguimos por um caminho de pedra que antes parecia ter um jardim cheio de flores, mas agora só era possível se ver plantas secas e sem vida. Mas logo eu descobri que nem tudo estava sem vida naquele jardim.
Havia algo que aparentava ser a entrada principal para o castelo, porém ela estava fechada por um amontoado de rochas grandes e pequenas. Algumas rochas pequenas rolaram e formaram uma espécie de pé, logo algumas rochas maiores e mais cumpridas se uniram formando pernas e assim seguiu até pedras de variados tamanhos formarem um ser de aspecto humano.
– Quem ousa adentrar os muros de Fugite? – Uma voz estrondosa correu meus ouvidos. O ser de pedra não tinha uma boca, mas eu sabia que o som vinha dele.
– Você é Ícaro? Eu sou Cadmo. – Tentei dar alguns passos em direção ao bicho de pedra, mas uma enorme rocha se levantou e veio em minha direção. Tentei me jogar para o lado, mas minha perna levou o golpe em cheio e então fui arremessado em direção ao muro que rodeava o castelo.
– Não diga o nome do mestre e não avance em direção ao castelo sem minha permissão. — O mundo a minha volta rodava. Eu havia batido a cabeça no muro e ela latejava. – Eu sou Scopulus, o guardião de pedra.
Sabra correu em minha direção, ela gritava desesperadamente, perguntava se eu estava bem. Na verdade, parecia que Sabra havia sido atingida pela pedra, pois ela gritava muito mais do que eu e estava furiosa com o guardião. Após o surto de loucura de Sabra, apoiei-me nela, porém a dor em minha perna e em minha cabeça ainda era grande.
– Eu sou Cadmo e está é Sabra. Nós estamos procurando por Íca... Pelo seu mestre.
– Vocês não podem pass... – De repente sete pequenas pedras caíram sobre a cabeça de Scopulos. Ele bufou, olhou para cima e então eu pude ver algo muito maior que um pássaro comum sobrevoando nossas cabeças, mas ainda não podia distinguir o que era. Scopulus se virou para o castelo e abriu um enorme buraco na parede de pedras. –Passem – ele disse com uma voz irritada enquanto eu e Sabra passávamos.
O interior do castelo era um lugar frio, úmido e o vento percorria todos os corredores de uma maneira que pareciam gritos. Gritos que queriam fugir e voar. Eu não podia ver o interior do castelo, pois não havia luz nenhuma lá dentro, mas eu sabia que algo estava lá dentro. Um bater de asas estrondoso passava ao nosso redor junto a uma risada baixa e maníaca.
– Cadmo, você está escutando também? – Sabra sussurrou em meu ouvido.
– Ouvir o que?
– As vozes... “O que eles estão fazendo aqui?” “Eles não deveriam ter entrado.” “Pobres coitados, não sabem o que os aguarda.” — Ela repetia as frases, porém eu só ouvia o vento e um bater de asas.
Seguimos o caminho em silêncio, mas a cada passo que eu dava o medo crescia e eu sentia Ascalon pesar em minha cintura. Então chegamos a uma escada que subia em espiral. Subi com cuidado para não tropeçar em nenhum degrau, mas era difícil subir às escuras.
– Cuidado com o buraco dois degraus a cima – Scopulus disse.
Eu esperava um buraco pequeno, que eu pudesse atravessar com um pequeno salto, mas aquele em que eu e Sabra caímos foi um buraco enorme, que tinha engolido uma quantidade de degraus o suficiente para nós dois passarmos juntos. Em meio à queda, o desespero bateu e Sabra se agarrou em meu braço. A queda foi escura e atormentadora, mas, por sorte, em meio aos meus gritos e aos de Sabra, algo nos agarrou. Ou melhor, alguém. Eu pude ouvir um bater de asas e uma ventania bagunçou meus cabelos brancos. Ao chegarmos a escada novamente pude ouvir a respiração afobada de Sabra que ainda estava agarrada em meu braço.
– Eu disse para tomarem cuidado. – Scopulus resmungou e nos mandou continuar o seguindo.
– Scopulus, foi você que nos agarrou? – Aquilo assombrou minha cabeça, como Scopulus, um ser de rocha poderia ter descido rapidamente para me agarrar junto a Sabra e ter subido?
– O Mestre realmente gosta de você Sr. Cadmo. Foi ele quem o salvou. Ele não costuma permitir que viajantes entrem os muros de Fugite, e ainda assim, o salvou. Você é um garoto de sorte.
E então chegamos ao topo da escada. Scopulus nos disse para parar e abriu uma espécie de alçapão pelo qual uma luz forte entrou e cegou meus olhos, já acostumados com a escuridão do castelo. Ao dar alguns passos para fora, meus olhos se acostumarem com a luz e eu pude finalmente pude ver um deles de perto. Pude ver um anjo.
Ele usava uma toga, tinha um queixo quadrado, olhos azuis, cabelos loiros, ondulados, e seu sorriso chegava até as orelhas, formando enormes covas em seu rosto. Mas o que mais impressionava eram suas asas majestosas. Elas davam duas vezes seu tamanho e batiam de uma forma estrondosa.
– Vejam só o que temos aqui, o garoto desastrado que tem o destino do mundo nas mãos e quase morre caindo em um buraco. – Ele revirou os olhos em sinal de desgosto.
– Você é Ícaro, não é? – Scopulus deu um passo em minha direção, mas Ícaro esticou o braço impedindo que ele prosseguisse.
– Sim, sou eu. E você deve ser Cadmo, o garoto escolhido para salvar o mundo e ser o novo Cavaleiro da Ressurreição. – Ele pousou à minha frente e suas asas de alguma forma entraram em suas costas. – É um prazer conhecê-lo. – Ele estendeu sua mão e me cumprimentou. – Você deve estar se perguntando como eu sei tanto sobre você e deve ter algumas perguntas também a fazer. – Ícaro conseguia deduzir tudo que eu pensava antes mesmo que eu dissesse alguma coisa.
– Bem, eu sei tanto sobre você porque eu sempre estive te seguindo, mesmo que ao longe. – Ele sorriu e mexeu a cabeça para trás como se estivesse apontando para suas asas que não se encontravam mais ali. – Mas agora vamos, faça quantas perguntas quiser.
– Eu nem sei por onde começar. – Por que de tudo aquilo? Por que eu havia sido escolhido? Tudo aquilo não era um sonho? Tudo aquilo era magia? Por que os dragões vieram ao nosso mundo? Porquês e mais porquês. – Por que e para que eu fui escolhido para... – Eu não sabia como chamar aquilo que estava acontecendo. Anjos, dragões, itens mágicos, tudo ao mesmo tempo. — ... para tudo isso?
– O por quê? Você nasceu em um momento de coragem, Cadmo. Seus pais fugiam da Morte, eles tiveram a coragem de enfrentá-la de igual para igual. Para que? Para existir o Bem. Deve existir o Mal, mas nós temos que nos esforçar ao máximo para que ele seja pequeno e facilmente combatido.
– Espere, você sabe algo sobre meus pais? O que aconteceu com eles? Aonde eles estão? – Eu comecei a suar frio. Se Ícaro pudesse me dizer algo sobre meus pais, eu poderia encontrá-los facilmente.
– Eu receio que eu saiba menos do que você espera. Eu apenas sei que eles morreram enquanto fugiam dos 7 pecados. Seu pai os atrasou enquanto sua mãe corria com você em seus primeiros momentos de vida, porém ela já havia se machucado muito e veio a falecer – Ícaro dizia com uma tristeza em sua voz. – Sinto muito.
Eu já presumia que eles haviam morrido, porém ouvir aquilo me deu a impressão que a minha alma havia sido ceifada. Eu queria poder dizer que fui forte e segui em frente, mas eu não consegui. Meus pais estavam mortos, eu não conseguiria segurar aquilo, então eu gritei e chorei, nada mais me importava naquele momento, Sabra, os Gladios, os guardiões, nem o destino do mundo.
– Cadmo, pare de chorar e seja forte. – Ícaro se abaixou e pousou sua mão sobre meu ombro.
– Ser forte? Eu perdi meus pais! Você não sabe o que é isso! Você não sabe o que é nunca ter visto o rosto deles! Você não faz ideia... – Dei um tapa na mão de Ícaro, tirando ela de cima do meu ombro. – Eu prometi que iria saber o que aconteceu com eles, mas agora que sei, eu perdi o sentido disso tudo. – Eu gritava em meio ao choro.
– Não, eu não sei, mas, por algum acaso, você sabe o desgosto de saber que decepcionou seu pai? Que ele te avisou pra não voar alto demais, você não ouviu e fez ele ver a morte do próprio filho? – Ícaro dizia aquilo colocando o dedo em meu peito a cada vez que terminava uma pergunta. – E se você prometeu descobrir o que aconteceu, ótimo! Cumpriu com a promessa. Agora prometa para você mesmo que não vai decepcionar Eleanor e Alessandro. Mostre a seus pais que você pode salvar o mundo.
– Eleanor e Alessandro ... – Esses eram os nomes dos meus pais. Eu realmente estava sendo um idiota, Ícaro só queria me ajudar e eu perdi a paciência. – Me desculpe. Eu prometo. – Ícaro sorriu e acenou com a cabeça. – Mas antes, eu queria fazer outra pergunta. Por que eu fiquei com o cabelo branco de repente e por que a cicatriz dos meus olhos não some como as outras?
– Sobre o seu cabelo, o poder de ser um Cavaleiro da Ressurreição acaba tirando algumas coisas de nós. No meu caso, eu perdi minha vida. Para sua sorte você apenas perdeu a cor de seus cabelos. Agora sobre a cicatriz, eu posso garantir que alguém muito importante para você fez isso, não? – Bane, ele era como um pai para mim e havia cortado meu rosto. – O nosso único ponto fraco Cadmo, é que nós não podemos nos defender de golpes das pessoas que amamos e as cicatrizes deixadas por elas, nos marca para sempre.
Ícaro puxou algumas caixas que estavam no topo da torre e pediu para que sentássemos e então ele começou a resumir a história toda.
“Muito tempo atrás, O Mal havia criado 7 selos para que eles espalhassem tudo que há de ruim pelo mundo, porém o Bem conseguiu impedir que isso acontecesse espalhando-os por Teran. O Mal conseguiu enviar 7 seres para localizar e recuperar os 7 Selos. Eles eram: Asmodeus, a luxúria; Belzebu, a gula; Mammon, a ganância; Belphegor, a preguiça; Azazel, a ira; Leviatã, a inveja e Lúcifer, o orgulho. Estes são os 7 príncipes do reino de baixo. Ao reunir os 7 selos, eles deveriam uni-los ao pergaminho da discórdia, assim libertando os 4 Cavaleiros do Apocalipse. Cada selo fazia uma coisa em especial. O primeiro libertava a Peste, o segundo libertava a Guerra, o terceiro a Fome e o quarto libertava a Morte. O quinto selo fazia com que todos os humanos vissem os males que correm pelo mundo inferior. O sexto libertava sinais, que seriam os dragões, anunciando a chegada do Mal ao nosso mundo e o sétimo selo libertava as 7 Trombetas, que são itens mágicos capazes de destruir tudo em um piscar de olhos. Eu e os outros seis cavaleiros fomos presos dentro de cada selo, para que quando as Trombetas fossem libertadas, nós pudéssemos dar tempo para que o Bem espalhasse-as pelo mundo. Cada trombeta tem um papel diferente. A primeira trombeta causa granizo e fogo que destroem muitas das plantas do mundo; A segunda das sete trombetas causa o que aparenta ser um meteoro atingindo os oceanos e causando a morte de grande parte da vida marinha; A terceira trombeta é parecida com a segunda, porém dessa vez ela atinge os lagos e rios do mundo, ao invés dos oceanos; A quarta das sete trombetas faz com que o Sol e a Lua a se escureçam; A quinta trombeta resulta em uma praga que ataca e torturam a humanidade; A sexta trombeta libera um exército demoníaco que devasta grande parte da humanidade e a sétima trombeta da poder total aos Cavaleiros do Apocalipse. Ela só pode ser tocada pelo ser mais puro vivo na Terra, que no caso seria você, Cadmo. Você deve estar se perguntando qual é o seu dever dentro dessa história maluca e sem sentido, mas você tem o principal papel dentro dela. É você quem deve dar liberdade ao mundo da tirania do apocalipse, enfrentando os 4 Cavaleiros e mandando todo o Mal para onde ele nunca devia ter saído.”
Eu nunca havia recebido tanta informação ao mesmo tempo. Era como se eu tivesse levado uma pancada na cabeça. Sabra estava aflita e andava de um lado para o outro perguntando a cada cinco minutos se eu estava bem. Eu não sabia se eu estava exatamente bem, mas eu estava animado com tudo aquilo. Parecia loucura, mas eu queria encontrar todos os Gladios e mostrar aos meus pais como eu posso ser forte, forte como eles foram a ponto de lutar com a própria Morte. Ícaro se aproximou depois de algum tempo e se sentou ao meu lado.
– Preparado para o desafio do guardião? – Ele me olhou profundamente nos olhos.
– Mas agora? Assim? De repente? Eu acabei de ouvir que o mundo está em minhas mãos e você quer me propor o desafio agora?
– Vamos logo Cadmo, o mundo gira, o vento sopra, e quanto mais você espera, mais o Mal brota. – Ele sorriu. – Seu pai sempre me dizia isso
– Você sabe como me deixar animado... Eu estou pronto. – O que seria daquela vez? O desafio de Jorge não havia sido muito bem um desafio, eu apenas tive que ter a coragem de pegar a espada.
Levantamos-nos juntos. Apenas naquele momento eu percebi que estávamos na torre mais alta do castelo. Cair daquele lugar seria uma morte horrível.
– Então, qual é o seu desafio? – Perguntei a Ícaro. Ele sorriu e levantou a mão direta estalando um dos dedos e gritou “Alae!”. Pude ver suas asas crescendo de volta em suas costas, porém eu senti algo diferente em mim. Era como se minhas costas estivessem mais pesadas. E a sensação aumentava cada vez mais, até o ponto em que eu comecei a andar para trás por não suportar o peso. No fim, perdi o equilíbrio. E então o azar bateu em minha porta e eu abri. Tropecei em meus próprios pés e despenquei da torre. A queda me pareceu algo demorado e eu pude ver Ícaro saltando do topo da torre e voando em minha direção o mais rápido que ele pode.
– Cadmo! Repita o que eu disse antes! Lembre-se o que eu gritei e repita! Repita com o sentimento de liberdade em seu coração!
Eu não conseguia me lembrar de mais nada e o chão estava cada vez mais próximo. Eu podia ouvir os gritos de Sabra. A queda confirmou a minha teoria que a torre era alta, a ponto de eu demorar alguns minutos para chegar até o chão, mas o que Ícaro havia gritado? Alau? Ala? Ale? E então a palavra voltou a minha cabeça.
– ALAE! — De repente, um pouco antes de eu chegar ao chão, senti algo se remexendo em minhas costas. Algo que fazia um barulho estrondoso a cada movimento, algo que me sustentou no ar e me fez voar. Algo que me tornou um anjo. Eu havia ganhado um par de asas.
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