Hybrids

28 Verdades



Taehyung e Mingi passaram a semana inteira observando Jungkook com atenção. No entanto, quanto mais o observavam, mais difícil ficava encaixá-lo no papel de espião.

Jungkook vivia em função de Jimin. Cuidava dele o tempo todo, acompanhava cada exame, cada refeição e cada mudança de humor. O amor que demonstrava parecia genuíno. Ainda assim, eles se recusavam a baixar a guarda apenas por causa de momentos fofos ou demonstrações de afeto.

Enquanto Taehyung observava o comportamento de Jungkook, Mingi investigava seu passado, e encontrou tudo. Cada detalhe da vida dele batia perfeitamente com o que havia contado. A escola onde estudou, a faculdade de enfermagem, os antigos colegas, os lugares por onde passou, os familiares, os empregos anteriores. Mingi chegou até a encontrar um antigo canal no YouTube onde Jungkook publicava vídeos de gameplay de jogos.

Não havia lacunas. Nenhum nome falso. Nenhum endereço suspeito. Nenhuma movimentação estranha. Era como se sua vida inteira estivesse exposta diante deles. Por isso, ao final da investigação, Jungkook foi oficialmente riscado da lista de suspeitos.

— Então só nos resta um nome... — disse Mingi, fechando uma das pastas sobre a mesa.

Ele ergueu os olhos para Taehyung.

— Sim — respondeu Taehyung, girando distraidamente uma caneta entre os dedos, hábito que surgia sempre que estava pensando demais. — Dak-ho.

— Tem muita coisa incompleta sobre ele — comentou Mingi antes de tomar um gole de café. — Na verdade, quanto mais eu procuro, menos encontro.

— Como assim?

— Ele praticamente não existe fora do trabalho. Não tem redes sociais, não publica nada, não aparece em lugar nenhum. É um homem extremamente reservado.

Mingi abriu um dos arquivos em seu notebook.

— E isso, por si só, não significa nada... mas torna tudo muito mais difícil.

Taehyung observou a tela, sentindo um incômodo crescer dentro dele. Diferente de Jungkook, cuja vida parecia um livro aberto, Dak-ho era um conjunto de páginas arrancadas. E isso o tornava ainda mais suspeito.

— Eu sempre achei que ele fosse apenas um advogado — comentou Taehyung, ainda analisando os documentos espalhados sobre a mesa.

— É o que consta na ficha dele — respondeu Mingi. — Mas tem um detalhe que me incomoda.

— Qual?

Mingi girou o notebook na direção dele e apontou para uma linha do relatório.

— Houve um período em que ele simplesmente desapareceu.

Taehyung franziu a testa.

— Desapareceu?

— Sim. Não existe registro dele em lugar nenhum durante esse tempo. Nenhum emprego, nenhuma movimentação bancária, nenhuma compra com cartão, nenhum contrato, nada. É como se ele tivesse deixado de existir por alguns anos.

— Isso é... estranho — admitiu Taehyung.

— Muito estranho. E extremamente suspeito. Pessoas normais deixam rastros. Todo mundo deixa. Mas o Dak não deixou absolutamente nada. — Mingi apoiou os cotovelos na mesa. — Eu acredito que foi nesse período que ele esteve envolvido com a corporação.

— Você realmente acha isso?

— Acho. Já vivi sob identidades falsas diversas vezes. Sei como esse tipo de coisa funciona. Às vezes existem falhas nos registros. Outras vezes a pessoa passa tanto tempo vivendo uma mentira que começa até a esquecer detalhes da própria vida verdadeira.

Taehyung ficou pensativo.

— Nunca percebi nada tão absurdo assim... — admitiu. — Pra falar a verdade, eu sempre achei que ele não fosse um advogado tão brilhante quanto as pessoas diziam. Quer dizer, ele é bom, mas muitas vezes eu conseguia desmontar os argumentos dele com facilidade. — Ele soltou um suspiro. — Mas também não sei o quanto isso vale. Sempre tivemos uma rivalidade enorme. É difícil separar fatos do quanto eu simplesmente não gosto dele.

Mingi assentiu.

— Eu entendo. Mas olhando apenas para as evidências... tudo aponta para ele. — Ele tomou mais um gole do café já quase frio. — No momento, Dak-ho é o nosso principal suspeito.

Taehyung abaixou o olhar para os papéis sobre a mesa. Não estava pensando na investigação, estava pensando em Suk.

— Preciso conversar com meu amigo — disse por fim. — Se isso for verdade, não quero que descubra por outra pessoa. — A preocupação em sua voz era evidente. — Vai ser difícil demais para ele ouvir isso. Mesmo depois de tudo... ele ainda ama o Dak.

— Está tudo bem, Tae? — Suk perguntou, percebendo a expressão preocupada do amigo.

— De certa forma, sim... mas precisamos conversar, Suk.

O sorriso leve que Suk carregava desapareceu imediatamente.

— Ok... pode falar.

Ele se sentou na poltrona do escritório, ficando atento. Mingi havia acabado de sair dali para se juntar a Hoseok no quarto. Desde o incidente em Londres, ele parecia estar aproveitando cada segundo da preocupação exagerada do namorado. O ferimento no braço não tinha sido grave, mas isso não impedia Hoseok de tratá-lo como um paciente em estado crítico.

Taehyung observou a porta se fechar antes de voltar sua atenção para Suk. Soltou um longo suspiro e se sentou à sua frente, segurando delicadamente sua mão.

— Você precisa ser forte, amigo.

Suk sentiu um aperto imediato no peito.

— Tae... você tá me assustando. O que aconteceu?

— Antes de qualquer coisa, eu preciso te perguntar algo. E quero que seja completamente sincero comigo.

— Tudo bem. Eu prometo.

Taehyung assentiu.

— Suk... você ainda sente alguma coisa pelo Dak?

A pergunta atingiu em cheio.

Suk abaixou o olhar para as próprias mãos. Só ouvir aquele nome já fazia seu peito doer. As lembranças das palavras cruéis que ouviu ainda estavam vivas, mas, por mais que tentasse, seus sentimentos não tinham desaparecido.

Depois de alguns segundos em silêncio, ele respirou fundo.

— Eu prometi que seria sincero... então vou ser. — Ergueu os olhos para Taehyung. — Eu amo ele. Amo como nunca amei ninguém na minha vida. Amo tanto que ainda dói aqui dentro. — Levou a mão ao peito. — Eu tento esquecer. Juro que tento. Mas, do nada, o rosto dele aparece na minha cabeça. O sorriso dele... que eu tive tão poucas chances de ver. A voz dele... — Suk fechou os olhos por um instante. — Tudo volta.

Ele suspirou profundamente. Falar daqueles sentimentos era doloroso demais. Taehyung sentiu o coração apertar ao vê-lo daquela forma.

— Eu odeio te ver sofrendo assim e não poder fazer nada.

Suk abriu um pequeno sorriso triste.

— E eu odeio que você se culpe por não poder resolver tudo. — Ele apertou a mão de Taehyung. — Você é o melhor amigo que alguém poderia ter. Você esteve comigo em todos os momentos. Me ouviu, me apoiou, me animou quando eu achei que não conseguiria continuar.

Seus olhos se encheram de gratidão.

— Eu não sei o que faria sem você, Tae. — Com carinho, ele levou a mão livre ao rosto do amigo. — Eu escolhi a pessoa certa para ser meu melhor amigo.

Taehyung sorriu, emocionado, e levou a mão de Suk até os lábios, depositando um beijo gentil sobre ela. Mas, por dentro, sentia um peso enorme. Porque a parte difícil daquela conversa ainda nem tinha começado.

— Só quero que você fique bem, Suk. E... preciso te contar uma coisa.

— Tae, por favor, você tá me matando desse jeito. Fala logo.

Taehyung fechou os olhos por um instante, reunindo coragem.

— Tudo bem. — Respirou fundo. — Nós temos fortes motivos pra acreditar que o Dak pode ser um espião.

— O QUÊ? — Suk se levantou tão rápido que quase derrubou a poltrona. — Não! Isso deve ser um engano. Espião? Do que você está falando?

— Suk, calma. Senta e me escuta. Foi por isso que eu pedi pra você ser forte.

As pernas de Suk pareciam não sustentá-lo direito. Mesmo assim, voltou a se sentar.

— Continua... por favor. — Sua voz saiu fraca e trêmula.

Com cuidado, Taehyung contou tudo o que ele e Mingi haviam descoberto. Falou sobre as lacunas no histórico de Dak, o período em que ele simplesmente desapareceu dos registros, os comportamentos suspeitos, as falhas constantes nas investigações e todas as razões que os levaram a desconfiar dele.

Suk ouviu cada palavra em silêncio. À medida que a explicação avançava, seus olhos se enchiam de lágrimas.

— É por isso que acreditamos que ele possa estar envolvido com a corporação — concluiu Taehyung.

Suk permaneceu imóvel por alguns segundos.

— Isso... isso não pode ser verdade.

Levou uma das mãos ao peito, como se pudesse conter a dor que se espalhava ali dentro. A sensação era de traição.

De repente, várias lembranças voltaram à sua mente. Os cafés que Dak lhe trouxe. Os poucos sorrisos que arrancou dele. Os pequenos momentos de gentileza que guardava com tanto carinho. Mas, pela primeira vez, uma dúvida cruel surgiu. E se nada daquilo tivesse sido real?

— Então... ele me usou? — Sua voz falhou. — Todo esse tempo... ele só estava me usando?

— Suk...

Taehyung não encontrou palavras. Apenas o puxou para um abraço. Foi o suficiente para que Suk desmoronasse. As lágrimas começaram a cair sem controle. Seu corpo tremia entre soluços tão fortes que às vezes o faziam tossir. Era um choro profundo e doloroso, daqueles que pareciam arrancar algo de dentro da alma.

Taehyung o abraçou mais forte. Odiava vê-lo daquele jeito. Mas precisava que ele soubesse a verdade. Precisava protegê-lo caso Dak-ho tentasse se aproximar novamente.

Enquanto acariciava seus cabelos, várias lembranças passaram pela mente de Taehyung. As reuniões, os olhares frios de Dak, a forma como ele observava Suk. Antes, Taehyung achava que era apenas antipatia. Agora não tinha mais tanta certeza. Sentia que havia desprezo ali e algumas vezes, até mesmo ódio.

E, olhando para trás, tudo começava a se encaixar. Dak-ho chegou em suas vidas de repente, alegando ter se mudado para a cidade. Não tinha passado conhecido, não tinha vida social, não tinha praticamente nenhum registro. Era como se tivesse começado a existir apenas quando apareceu diante deles.

Taehyung apertou os punhos. Se Dak-ho realmente estivesse envolvido com aquela organização, ele encontraria provas. E, quando encontrasse, não permitiria que ele chegasse perto de nenhum deles novamente.

Era uma tranquila manhã de domingo. Como fazia quase todos os dias, Dak-ho saiu cedo para sua corrida matinal. O ar fresco ajudava a organizar os pensamentos e aliviar a tensão constante que carregava nos ombros.

Depois do exercício, passou em sua cafeteria favorita e pediu o café de sempre. Cumprimentou a atendente com um aceno discreto, pegou o copo ainda quente e seguiu para o estacionamento.

Precisava voltar para casa. Alguns relatórios pendentes o aguardavam e ele pretendia terminar tudo antes do fim do dia.

Entrou no carro, acomodou o café no suporte e ligou o motor. O ronco suave preencheu o interior do veículo. Enquanto ajustava a posição da marcha, sentiu uma picada repentina no pescoço.

Sua testa se franziu. Levou a mão até o local da picada, totalmente confuso. Mas não teve tempo de reagir. Uma sensação estranha percorreu seu corpo. Sua visão ficou turva, os músculos perderam a força e o mundo pareceu girar ao seu redor.

Dak-ho tentou se virar para descobrir o que havia acontecido, mas seus movimentos ficaram lentos. Segundos depois, sua consciência desapareceu por completo. Seu corpo tombou para frente, desacordado sobre o volante.

Os olhos de Dak-ho arderam ao se abrirem. Por alguns segundos, tudo o que enxergou foi um borrão esbranquiçado. Piscou várias vezes, tentando se acostumar à claridade fraca do ambiente. A luz era pouca, mas ainda assim parecia agressiva para quem acabara de recuperar a consciência.

Levou uma das mãos à cabeça e se sentou lentamente. A memória dos últimos acontecimentos voltou aos poucos. Seu olhar percorreu o lugar, era uma cela. As paredes eram simples e frias. Havia uma cama estreita com lençóis brancos, uma escrivaninha encostada em um dos cantos e um pequeno guarda-roupa. A única porta existente estava entreaberta e levava a um banheiro.

O que mais chamava atenção, porém, era a frente do cômodo. Não havia parede, havia grades grossas de ferro. Do outro lado, uma sala que lembrava uma recepção ou sala de espera mergulhava na escuridão. As luzes estavam apagadas e o silêncio era tão absoluto que parecia sufocante.

Dak-ho se levantou devagar. Foi então que percebeu que não estava sozinho. No escuro, um pequeno ponto avermelhado brilhava, era um cigarro aceso, alguém estava sentado ali o observando.

— Quem está aí? — a voz de Dak-ho saiu rouca. Então seus olhos se estreitaram. — É você, não é?

Ele caminhou até as grades e segurou os ferros com força.

A figura permaneceu imóvel por alguns segundos, depois se levantou. O som dos passos ecoou pelo ambiente vazio. À medida que se aproximava, a luz da cela começou a iluminar seu rosto. E, no instante em que o reconheceu, Dak-ho sentiu o corpo inteiro se enrijecer.

— DESGRAÇADO! — rugiu, agarrando as grades. — EU VOU MATAR VOCÊ!

O metal vibrou sob seus punhos.

— Eu sabia! Eu sabia que era você esse tempo todo!

A pessoa parou do outro lado da cela, tragou lentamente o cigarro e soltou a fumaça no ar. Um sorriso pequeno e cruel, surgiu em seus lábios.

— No fim das contas... — disse Suk com um tom calmo, observando a fúria de Dak-ho — você é o menos idiota de todos eles.

Notas finais
Quando eu digo pra não julgar as aparências...