Hybrids

29 O verdadeiro Suk



Era véspera de Natal, e o pequeno Suk estava animado para descobrir quais presentes ganharia naquele ano. Acima de qualquer brinquedo ou surpresa, porém, havia o desejo de que sua mãe passasse o Natal ao lado deles. Sonhava em vê-la sentada à mesa, sorrindo, comendo junto da família, brincando e abrindo presentes como antes. Queria que aquele Natal fosse diferente. Já não suportava vê-la tão fraca e confinada à cama por causa da doença.

Seu pai, Kwan Jun, mais conhecido como Doutor Kwan, era um cientista brilhante, embora também carregasse um lado sombrio e obsessivo. Depois que sua esposa adoeceu, Jun mergulhou ainda mais fundo em suas pesquisas e acreditou ter encontrado uma solução. Em teoria, seria possível criar seres humanos muito mais resistentes combinando DNA humano com DNA animal. Seus estudos apontavam que híbridos poderiam possuir maior inteligência, força física aprimorada e sentidos extraordinariamente desenvolvidos, herdando características específicas de diferentes espécies. Mas havia um problema, para provar que sua teoria funcionava, ele precisava de cobaias.

Suk estava sentado na poltrona ao lado da cama de sua mãe. Tinha apenas dez anos e lia um livro para ela. Sua leitura ainda era um pouco atrapalhada em alguns trechos, mas isso não importava. Sua mãe sorria com carinho ao ouvir a voz do filho, apreciando cada palavra.

A porta se abriu com um estrondo, fazendo Suk e sua mãe se assustarem. Jun parou no batente, observando os dois com um sorriso que tinha algo de perturbador.

Suk não entendia o pai. Depois que sua mãe adoeceu, ele parecia ter se transformado em outra pessoa. Estava sempre ocupado, quase nunca conversava com eles e passava a maior parte do tempo trancado no laboratório, onde fazia até mesmo suas refeições.

Era uma família extremamente rica, tanto pela fortuna construída por Jun quanto pelo patrimônio da esposa. Suk cresceu sem nunca precisar de nada material e era tratado como um verdadeiro príncipe. Ainda assim, faltava justamente aquilo que mais desejava: uma família feliz e unida.

— Deixe-o em paz — pediu a mãe de Suk, já imaginando o que o marido pretendia fazer.

— Ele precisa ver do que a ciência é capaz — respondeu Jun, os olhos brilhando com uma inquietante expressão de obsessão.

Suk correu para os braços da mãe e a abraçou com toda a força que seus pequenos braços permitiam, tentando protegê-la sem nem entender direito o que estava acontecendo.

— Apenas deixe-o em paz, por favor... Pode fazer o que quiser comigo, mas não quero que o meu pequeno Suk sofra.

— Ele não vai sofrer. Vai crescer e evoluir sua forma de pensar. Suk é uma criança tola — respondeu Jun, aproximando-se enquanto finalmente revelava a seringa que segurava na mão.

— Não... por favor… pelo menos não faça isso na frente dele — implorou a mulher. Ao perceber que o marido já não parecia agir com racionalidade, voltou sua atenção para o filho e o encarou com seriedade. — Meu doce Suk, a mamãe te ama e sempre vai te amar. Seja um menino bondoso e se torne um homem bom. Ajude as pessoas, seja feliz, encontre alguém para amar e construa uma família bonita... Você tá me entendendo?

— Mamãe... — chamou Suk, com a voz embargada pelo choro.

— Suk, você me entendeu?

— Sim, mamãe...

— Então eu preciso que você corra. Fuja daqui. Não olhe para trás e não deixe seu pai te pegar. Está me entendendo?

— Não, mamãe... — As lágrimas começaram a escorrer pelo rosto do menino. — Eu vou ficar com a senhora e vou te proteger.

Jun bateu palmas lentamente e soltou uma risada carregada de sarcasmo.

— Está vendo? É exatamente disso que estou falando. Suk é uma criança tola, dominada pelos próprios sentimentos. São eles que levam as pessoas à ruína. São eles que impedem alguém de pensar com clareza e alcançar seus objetivos.

Jun avançou e agarrou o braço do filho. Sua esposa tentou impedi-lo, mas estava fraca demais para fazer qualquer coisa.

Suk se debateu desesperadamente. Como resposta, recebeu um soco violento no rosto. Por alguns segundos, não ouviu mais nada além de um zumbido agudo. Sua visão ficou turva e o mundo pareceu girar ao seu redor. Arremessado ao chão, permaneceu desnorteado, tentando entender o que havia acontecido. Com dificuldade, apoiou as mãos no piso e tentou se levantar. Precisava impedir o pai.

Jun estava debruçado sobre a esposa. Suk viu quando ele aplicou a injeção em seu braço. Não sabia o que havia naquela seringa, mas tinha certeza de que não podia ser algo bom.

— Mamãe...

Suk tentou se levantar, erguendo as pequenas mãos na direção dela, esforçando-se para alcançá-la. Mas já era tarde. Fosse lá o que fosse, Jun já havia injetado a substância. O sorriso largo estampado em seu rosto fez um calafrio percorrer o corpo de Suk. Sentado ao lado da esposa, Jun apenas a observava.

A mãe de Suk começou a tossir. Parecia estar engasgando com alguma coisa. Jun não fez absolutamente nada para ajudá-la. Apenas assistia enquanto ela lutava para respirar, como se estivesse observando um experimento qualquer. Suk chorava desesperado, frustrado por suas pernas se recusarem a obedecê-lo.

As tosses se tornaram mais violentas até que ela vomitou sangue. Algumas gotas atingiram o rosto de Jun quando ela voltou a tossir, mas ele apenas pegou um lenço e limpou a pele com tranquilidade. Aos poucos, a aflição foi diminuindo junto com as tosses. Ela virou o rosto na direção do filho e, com a voz fraca e entrecortada, conseguiu sussurrar um último "eu te amo". Seus olhos permaneceram abertos, fixos em Suk, mesmo depois que a vida abandonou seu corpo.

Suk ficou imóvel. Não conseguia se mexer. Não conseguia acreditar no que acabara de acontecer. Nem mesmo as lágrimas vinham mais. Sua respiração saía falhada, como se algo estivesse esmagando seu peito. Era como se seu coração tivesse parado junto com o dela. Permaneceu ali, encarando os olhos sem vida da mãe, incapaz de desviar o olhar.

— É... parece que eu falhei com a minha primeira cobaia — comentou Jun em tom casual. — Sem problemas. Tenho outras cobaias.

O doutor voltou sua atenção para Suk. O menino se encolheu imediatamente. Sabia que precisava correr. Aquele havia sido o último pedido de sua mãe. Mas seu corpo não respondia. O medo era tão grande que ele sequer conseguia se levantar.

Jun se aproximou, agarrou o filho pelo pulso e o puxou sem qualquer cuidado. Suk tentou se soltar, mas recebeu outro soco violento no rosto. A dor explodiu em sua cabeça e, segundos depois, tudo ficou escuro.

Suk acordou em uma sala branca, deitado sobre uma maca. Sem levantar a cabeça do travesseiro, olhou ao redor e percebeu que havia outras macas espalhadas pelo ambiente. Várias crianças estavam deitadas nelas e, assim como ele, encontravam-se amarradas. Suk tentou mover as mãos, mas as correias que o prendiam eram firmes demais.

O terror tomou conta dele. Seu corpo tremia de medo, pois conhecia o próprio pai e sabia do que ele era capaz. Tinha certeza de que nada de bom aconteceria naquele lugar. Desesperado, começou a gritar por socorro. No entanto, ninguém apareceu. Nem mesmo as outras crianças despertaram com seus gritos.

Sua cabeça latejava intensamente e os pelos de seu corpo se arrepiaram, como se seus instintos estivessem alertando sobre um perigo iminente. Foi então que a porta se abriu e Jun entrou na sala. Vestia seu habitual jaleco branco, que trazia bordado no bolso a palavra “Doctor”.

— Parece que você foi o único a acordar — disse Jun, sorrindo para o filho.

Ele caminhou entre as macas, observando uma a uma e verificando que as outras crianças estavam de fato mortas.

— Cadê a minha mãe? — perguntou Suk, com a voz fraca e trêmula.

— Sua mãe? — Jun o encarou por um instante. — Ah, sim... ela morreu porque era fraca.

— Onde ela tá? O que você fez com ela? — Sua voz misturava tristeza, revolta e ódio.

— Já faz três meses que ela morreu — respondeu Jun com naturalidade. — Então imagino que esteja debaixo da terra, já que fui eu quem a enterrou.

Suk fechou os punhos com força. Queria acreditar que tudo aquilo era apenas um pesadelo horrível, mas a realidade era muito pior do que qualquer sonho ruim.

— O que você fez comigo? — perguntou Suk com a voz carregada de ódio.

Jun se aproximou e sorriu com orgulho ao observar o segundo par de orelhas que agora surgia no alto da cabeça do filho.

— Eu te aperfeiçoei. Você é o primeiro experimento que deu certo. Finalmente eu consegui!

Suk soltou um grunhido que misturava raiva, dor e desespero. Tentava se libertar a qualquer custo, puxando as amarras até seus pulsos arderem. Sentia algo crescendo dentro de si, uma fúria avassaladora que parecia consumir cada parte do seu corpo. Seu coração disparou em um ritmo assustador, tão acelerado que ele acreditava que fosse explodir dentro do peito.

Seus dedos começaram a latejar de dor e sua gengiva queimava intensamente. Suk não entendia o que estava acontecendo, mas sentia que seu corpo estava mudando.

O sangue escorreu de sua boca quando seus dentes começaram a crescer e assumir um formato pontiagudo. Suas unhas se alongaram gradualmente, transformando-se em garras afiadas. Cada alteração era acompanhada por uma nova onda de dor. Seus olhos ficaram sensíveis à luz, ardendo diante da claridade do ambiente, enquanto suas íris adquiriam lentamente um tom amarelado.

Suk se debatia com violência, tentando se soltar. Já não conseguia pensar com clareza. A dor, o medo e a raiva haviam tomado conta de tudo. Jun, por outro lado, observava a cena gargalhando de felicidade, fascinado pelo sucesso de sua criação. Sabia que, se o filho conseguisse se libertar, provavelmente arrancaria sua jugular sem hesitar. Ainda assim, permanecia tranquilo, confiante nas amarras que o mantinham preso. Mas por precaução, preferindo não abusar da sorte, pegou uma seringa, aplicou um sedativo e observou enquanto Suk perdia a consciência mais uma vez.

… Dias atuais …

Dak o encarava com puro ódio. Embora já desconfiasse de Suk há muito tempo, nunca havia conseguido uma prova concreta contra ele. O que mais o revoltava era ter permitido que sentimentos surgissem no meio daquela investigação. Odiava admitir, mas havia desejado que Suk fosse inocente. Desde o início sabia que estava ali a trabalho e que sua missão, como agente infiltrado, era observá-lo de perto. Afinal, Suk era apenas um suspeito. Nem mesmo seu superior tinha certeza absoluta de que ele possuía alguma ligação com o misterioso cientista conhecido apenas pelo codinome “Doctor”.

Dak acabou se apaixonando por ele. No começo, tentou convencer a si mesmo de que tudo não passava de um grande mal-entendido. Não conseguia acreditar que o doce e gentil Suk pudesse ser cúmplice de um assassino sádico. Se ele fosse inocente, Dak estava disposto a ajudá-lo e protegê-lo. Mas seus planos desmoronaram quando recebeu novos relatórios de seu chefe. As informações apontavam que Suk realmente poderia estar envolvido no caso dos híbridos, e não da forma que Taehyung acreditava. Não como alguém tentando ajudar as vítimas, mas possivelmente como alguém diretamente ligado à organização.

Dak odiava ter se apaixonado por alguém assim. Alguém que, aos seus olhos, não possuía coração nem remorso. Também o irritava profundamente o fato de ninguém mais parecer enxergar aquilo. Nem mesmo Taehyung, que convivia com Suk há tantos anos, havia percebido os sinais que para Dak pareciam cada vez mais evidentes.

— Quando eu sair daqui, vou colocar você atrás das grades, seu desgraçado. — As palavras de Dak saíram baixas e carregadas de ódio.

Suk apenas sorriu e fez um gesto para os guardas. Em seguida, ordenou que prendessem Dak à cadeira. Quando a porta da cela foi aberta, ele entrou com calma. Dak se debateu imediatamente, tentando se libertar, mas seus braços estavam firmemente imobilizados.

— E como exatamente pretende fazer isso? — perguntou Suk, ainda sorrindo.

— Eu vou provar quem você realmente é! — Dak praticamente rosnou de raiva. — Você é o Doctor! Está por trás de tudo isso!

Suk soltou uma risada divertida.

— Tecnicamente, eu não sou o Doctor. Você deveria ter feito uma investigação melhor. Eu sou o filho dele e... bem... digamos que ele não era exatamente um bom pai. — O sorriso permaneceu em seus lábios, mas seu olhar adquiriu uma frieza perturbadora. — Então ele recebeu exatamente o que merecia.

— Você... é filho dele? — Apesar da raiva que sentia, a curiosidade de Dak falou mais alto.

Suk soltou um suspiro cansado.

— Estou entediado, então acho que posso contar toda a verdade. Não é como se você fosse sair daqui mesmo. Mas antes...

Com movimentos tranquilos, ele levou as mãos aos cabelos. Retirou algumas presilhas escondidas entre os fios escuros, revelando um par de orelhas felinas arredondadas e de pelagem negra. Em seguida, removeu as lentes de contato que usava, expondo a verdadeira cor de seus olhos, um amarelo intenso e vibrante.

Dak o encarou em absoluto choque. Jamais havia sequer cogitado a possibilidade de Suk ser um híbrido.

— V-você... — A surpresa foi tão grande que as palavras morreram em sua garganta.

— Prazer em conhecê-lo de verdade. Meu nome é Kwan Suk. Sou filho de um cientista louco que me transformou em um híbrido. E, para ser mais exato, fui o primeiro experimento bem-sucedido de todos.

Suk puxou uma cadeira e se sentou diante dele.

— Agora sim podemos conversar.

Notas finais
Suk é uma panterinha 👀 por isso o santo do Yoon não bateu com o dele. Felinos né 🤷‍♀️