Jimin despertou lentamente, sua mente envolta em um nevoeiro denso. Tudo parecia confuso, desconectado. Ele não sabia onde estava, quem era, nem o que estava acontecendo. Apenas sentia o frio do ambiente. O cheiro estéril do lugar. O peso de vários olhares sobre ele.

Ao redor, médicos anotavam informações em pranchetas, observando-o como se ele fosse um experimento, de certa forma, era exatamente isso que ele era.

O pânico começou a se instalar. Ele tentou se mover, mas algo o impedia. Seus pulsos e tornozelos estavam presos à cama. Seu coração acelerou, e sua respiração ficou pesada. Quem eram aquelas pessoas? O que queriam dele?

Os médicos não pareciam se importar com seu medo. Com frieza mecânica, lhe deram água, trocaram seus medicamentos e continuaram suas anotações. Nenhuma palavra de conforto, nenhuma explicação. Apenas a rotina habitual de quem já havia feito aquilo inúmeras vezes.

Então, sem qualquer aviso, saíram, deixando-o sozinho no quarto. Pelo menos, dessa vez, sem as amarras.

Jimin se sentou na cama, seus olhos percorrendo o ambiente ao seu redor. O quarto era branco e frio. Todos os móveis seguiam o mesmo tom monocromático, como se tentassem apagar qualquer vestígio de identidade daquele espaço. Não havia janelas, apenas duas portas: uma que levava ao banheiro e outra, por onde os médicos haviam saído momentos antes.

Seu olhar vagou até a parede de vidro à sua frente. Do outro lado, havia outro quarto, idêntico ao seu. Mas o que realmente chamou sua atenção foi o garoto que dormia tranquilamente na cama. Ele parecia ter a mesma idade que Jimin, estava deitado de lado, com as mãos apoiando a cabeça e a respiração calma.

Foi então que Jimin notou algo. Ele piscou, confuso, inclinando levemente a cabeça para confirmar o que via. Orelhas. E um rabo. Mas não eram como os dele.

As orelhas do outro garoto eram altas e pontudas, com pelos pretos que combinavam com seu cabelo, e seu rabo era longo, cheio e peludo, quase como um espanador. Já as orelhas de Jimin eram menores, arredondadas, os pelos curtos e dourados como mel, assim como seu cabelo e seus olhos. Seu rabo também era fino, sem o volume exagerado do outro.

Jimin observou seu reflexo por um longo momento, assimilando cada detalhe. Ele era diferente dos homens que o examinavam, isso já estava claro. Mas também percebeu algo ainda mais intrigante: ao mesmo tempo que se assemelhava ao garoto que dormia no outro quarto, também era diferente dele.

Talvez fossem de espécies diferentes?

Essa ideia o perturbou. Ele entendia, instintivamente, que não eram humanos como os médicos que entravam e saíam de seu quarto. Mas se não eram humanos, o que eram?

O que Jimin ainda não sabia era que ele e o garoto ao lado eram híbridos, experimentos genéticos que fundiam humanos a animais. O menino deitado na outra sala era um cruzamento com um gato. Já Jimin, era parte cachorro.

Jimin se levantou com dificuldade. Suas pernas tremiam, como se estivessem enferrujadas pelo tempo que passou deitado. Precisou se apoiar na cama para não cair, respirando fundo antes de tentar de novo. Quando finalmente conseguiu se equilibrar nos próprios pés, caminhou lentamente até a parede de vidro.

Colocou as mãos contra o vidro frio e bateu fracamente, apenas o suficiente para chamar atenção. O garoto do outro lado era o único que se parecia com ele. O único que talvez pudesse responder às perguntas que cresciam em sua mente.

Tentou falar. Mas nada saiu. Por alguma razão, as palavras não vinham. Sua boca se movia, sua garganta vibrava, mas tudo o que conseguia produzir eram sons desconexos, sem sentido.

Do outro lado, Yoongi abriu os olhos lentamente. Encarou Jimin por alguns segundos, sem demonstrar nenhuma reação. Ele já o conhecia. Sabia exatamente quem era.

Jimin era o segundo experimento bem-sucedido. Yoongi vinha acompanhando secretamente seu caso sempre que conseguia se esgueirar pelos corredores, coletando informações sem que ninguém percebesse. Mas, naquele momento, não estava com disposição para interações.

Sem dizer uma palavra, simplesmente se virou de costas, ignorando Jimin, e fechou os olhos novamente. Jimin permaneceu ali, com as mãos contra o vidro, sentindo uma frustração desconhecida crescer dentro de si. Estava sozinho. Mesmo quando havia alguém exatamente como ele.

Jimin começou a choramingar baixinho, os sons saindo involuntariamente, semelhantes aos de um filhote buscando conforto. Ele queria a atenção do garoto do outro lado do vidro, o único que era minimamente parecido com ele.

Yoongi bufou, irritado.

Era óbvio que aquele garoto não o deixaria em paz até que ele fizesse algo.

Com um suspiro resignado, ele se levantou, sentindo a preguiça pesar sobre seu corpo. Já sabia que Jimin havia acabado de despertar, que estava assustado e confuso. Sabia também que seu raciocínio ainda estava lento, entorpecido pelas drogas que ainda circulavam em seu organismo. Mas, mesmo assim, não queria ser babá de ninguém.

Com passos arrastados, Yoongi se sentou de frente para a parede de vidro, encarando Jimin. Por um instante, não disse nada, apenas o observou. Então, ergueu a mão e pressionou a palma contra o vidro, deixando um pequeno sorriso surgir no canto dos lábios.

Jimin congelou por um segundo, surpreso. Então, seu rosto se iluminou com um sorriso enorme e singelo, cheio de inocência. Com os olhos brilhando, ele repetiu o gesto, pressionando sua palma contra o vidro, sobre a de Yoongi.

Naquele momento, mesmo separados, não estavam mais sozinhos.

O pequeno Jimin balbuciava sons desconexos, tentando falar, tentando expressar o que sentia, mas as palavras simplesmente não vinham. A frustração estava estampada em seu rosto.

Yoongi, que observava tudo com atenção, ergueu a mão e fez um sinal para ele pegar algo que estava sobre o móvel ao lado da cama. Jimin franziu o cenho, mas entendeu a indicação e se levantou para pegar o objeto.

Era um livro infantil.

Jimin o segurou com curiosidade e voltou a se sentar diante do vidro, encarando Yoongi em busca de respostas. Ele não sabia o que era aquele objeto, mas se Yoongi o havia indicado, devia ser importante.

Yoongi fez um novo sinal, incentivando-o a abrir o livro.

Com dedos hesitantes, Jimin virou a capa e começou a folhear. Seus olhos brilharam ao encontrar as ilustrações coloridas, absorvendo cada detalhe com uma curiosidade infantil. Então, parou em uma página específica e apontou animado para a imagem.

Era um gatinho.

Ele sorriu e fez um gesto indicando que aquele gatinho se parecia com Yoongi.

Do outro lado do vidro, Yoongi arqueou uma sobrancelha, mas logo sorriu, balançando a cabeça em concordância.

Jimin continuou folheando, cada vez mais entretido. De repente, seus olhos se arregalaram ao encontrar outra ilustração, um cachorrinho de pelagem dourada, da mesma cor que seus cabelos e seu rabo. Ele apontou para si mesmo, depois para a imagem, e balbuciou algo empolgado, como se estivesse afirmando: "Esse sou eu!"

Yoongi observou a cena por um momento, surpreso. Sem perceber, sorriu.

Jimin era fofo. Ridiculamente fofo. Sua expressão entusiasmada, seus gestos animados, tudo nele exalava uma energia inocente e adorável.

Percebendo que estava sorrindo feito um bobo, Yoongi rapidamente disfarçou, recompondo-se com seu típico ar indiferente. Como um felino orgulhoso, jamais admitiria que havia achado aquele filhote de cachorro fofinho.

…

Durante aquele mês, os médicos continuaram a conduzir testes com Jimin, monitorando sua saúde, que, para a alegria deles, estava perfeita. Além disso, realizavam avaliações lógicas para medir sua memória e aprendizado, além de aulas intensivas para ajudá-lo a recuperar a fala e a comunicação.

Assim como Yoongi, Jimin aprendia tudo com uma rapidez impressionante. Seu cérebro parecia absorver conhecimento sem esforço, como se estivesse programado para isso. O problema? Jimin era ingênuo.

Diferente de Yoongi, que desde o início desconfiava de tudo e de todos, Jimin sorria para os médicos e enfermeiros como se fossem sua família. Aceitava os toques gentis, retribuía gestos de carinho e balançava o rabo sempre que alguém o tratava com um mínimo de atenção.

Yoongi assistia a tudo do outro quarto, cada cena fazendo sua raiva crescer.

Como Jimin não percebia? Como ele ainda não entendia que aquelas pessoas não estavam ali para cuidar dele, mas para estudá-lo? Que cada palavra dita, cada expressão de afeto que recebia era apenas mais um dado registrado em suas pranchetas?

Yoongi queria gritar para ele abrir os olhos. Mas, em vez disso, ria. Um riso seco, amargo, carregado de raiva. Aquele filhote de cachorro idiota achava que estava cercado de amor. Mas, mais cedo ou mais tarde, ele descobriria a verdade.

Jimin era um ano mais novo que Yoongi, com apenas quinze anos. Assim como ele, tinha uma estatura baixa e uma estrutura magra, o que os fazia parecer ainda mais frágeis do que realmente eram. Como todos os outros experimentos, era órfão, ninguém sentiria sua falta no mundo lá fora. Era por isso que estava ali. Porque, para aqueles cientistas, ele não passava de mais um número em uma experiência secreta.

Os médicos, sempre curiosos para analisar o comportamento dos híbridos, decidiram dar o próximo passo. Queriam ver como os dois interagiriam, então moveram a cama de Jimin para o quarto de Yoongi.

Quando Yoongi voltou de uma longa e exaustiva tarde de testes físicos, a visão do novo móvel fez seu sangue ferver.

"Isso só pode ser brincadeira."

Ele definitivamente não queria dividir o quarto com Jimin. Até aquele momento, nunca havia trocado uma única palavra com ele, e assim estava ótimo. Jimin era só uma presença do outro lado do vidro, um filhote ingênuo e irritantemente animado. Yoongi preferia que continuasse assim.

Com um suspiro cansado, sentou-se na cama, tentando ignorar a situação. Mas não teve tempo nem de processar o que estava acontecendo. A porta se abriu abruptamente, e um borrão loiro e eufórico atravessou o quarto em um salto.

Antes que pudesse reagir, Jimin aterrissou diretamente sobre ele, envolvendo-o em um abraço apertado, abanando o rabo como se aquele fosse o melhor dia de sua vida.

Foi nesse momento que Yoongi teve uma epifania muito clara. Ele odiava cachorros.

— Me solta, inferno! — disse Yoongi empurrando Jimin.

— Yoongi! — Jimin continuava tentando abraçá-lo — Eu sempre quis te abraçar e falar de perto com você!

— Mas eu não, então me solta!

— Não vou te soltar! — Jimin o apertava mais ainda. Yoongi já estava com preguiça de lutar, então apenas se deixou ser abraçado, mas sem retribuir.

— Pronto? Já abraçou bastante? Agora me solta — resmungou Yoongi, empurrando Jimin com firmeza. Ele odiava toques físicos. E abraços? Ainda pior.

Jimin, no entanto, não pareceu se incomodar. Apenas se afastou, ainda animado, sentando-se na cama com pulinhos empolgados.

— Eles disseram que vamos poder dormir juntos! Isso é perfeito!

Yoongi fechou os olhos por um segundo, tentando reunir paciência.

— Não, não é. Prefiro dormir sozinho. E, além disso, eles só estão fazendo isso para nos estudar.

Jimin inclinou a cabeça para o lado, piscando confuso.

— Nos estudar? Por que?

Yoongi sentiu a irritação subir.

— Você ainda não entendeu onde estamos?

— Claro! — Jimin sorriu. — É o nosso lar.

Yoongi encarou o garoto, incrédulo. Ele não podia estar falando sério.

— Não, não é — disse, o tom exasperado. — Isso aqui não é o nosso lar, Jimin. Fomos trazidos para cá à força e transformados nisso. Somos experimentos híbridos, uma fusão entre humanos e animais.

Jimin franziu o cenho.

— Híbridos?

O olhar dele era tão puro, tão desinformado, que Yoongi sentiu uma pontada de frustração. O pobre cachorrinho não sabia nada.

Ele suspirou pesadamente. Aquela seria uma longa noite.

— Escuta aqui, vira-lata pulguento. Eu vou te ensinar tudo o que sei e como sobreviver nesse lugar. Depois disso, me esqueça. Não somos amigos. Fui claro?

Jimin apenas assentiu, sem entender muito bem, mas sem questionar. Pegou sua coberta e se enrolou nela, os olhos grandes e brilhantes fixos em Yoongi, esperando ansiosamente por sua primeira lição.

Notas finais
Yoongi, tu pare com isso! Trate bem o nosso doguinho, senão não ganha whiskas!