Hybrids
3 Little Fox

Yoongi e Jimin observavam em silêncio o novo experimento, que dormia profundamente. Havia algo intrigante nele, algo que fazia os dois se aproximarem com cautela, mas também com uma pitada de curiosidade.
— O que ele é? — perguntou Jimin, inclinando a cabeça como sempre fazia quando estava curioso.
O menino parecia ter a mesma idade deles, talvez um pouco mais velho. Era mais alto e mais magro, com a pele muito branca, cílios longos e lábios naturalmente rosados. Mas o que mais chamava atenção eram suas orelhinhas, não pontudas como as de Yoongi, nem arredondadas como as de Jimin. Eram finas e elegantes, cobertas por pelos ruivos, assim como seu cabelo. Na ponta delas, tons de preto se misturavam ao laranja, criando um contraste marcante. Ele era diferente. Totalmente diferente.
Yoongi se aproximou, analisando com atenção.
— Na ficha tá escrito que ele é um híbrido de raposa — disse, admirado com a cor viva dos cabelos do novo colega.
— Uma raposa? — Jimin franziu o cenho. — O que é isso?
— Depois eu te explico direito — respondeu Yoongi, já esperando esse tipo de pergunta. — Mas as raposas são da mesma família dos cachorros... tipo um primo distante.
Sem cerimônia, Yoongi cutucou a bochecha do menino ruivo, que nem se mexeu, ainda entregue ao sono induzido.
Jimin abriu a boca num “oh!” e seus olhos se iluminaram.
— Ahhhh! Então ele é um cachorro que não é um cachorro! Ele é um cachorro raposa!
Yoongi soltou uma risada nasalada, balançando a cabeça.
— Isso não faz sentido nenhum, mas... é, mais ou menos isso. O nome dele é Jung Hoseok, e ele tem quatorze anos. Um ano mais novo que você — disse Yoongi, ainda observando o novo híbrido dormindo profundamente.
— Mais um amiguinho pra mim! — Jimin exclamou, com o rabo balançando de leve, animado.
Yoongi franziu o cenho.
— Mais um? Você tem outro? — perguntou com desdém, já imaginando a resposta.
— Sim, você — respondeu Jimin, com a maior naturalidade do mundo, o sorriso doce estampado no rosto.
Yoongi revirou os olhos.
— Que seja... — murmurou, virando de costas. — Vamos, precisamos ir antes que percebam que saímos. Logo o Ferrugem vai acordar.
— Ferrugem — Jimin deu uma gargalhada alta, cobrindo a boca.
Yoongi lançou um olhar impaciente.
— Tá rindo de quê, pulguento? — disse, mas em vez de se afastar, estendeu a mão e segurou a de Jimin. Não admitiria nem sob tortura, mas havia algo de reconfortante naquele toque. A mão de Jimin era pequena, quente, macia e gostosamente gordinha. Yoongi gostava de segurá-la.
— Vem, vamos logo. Teremos aula de coreano daqui a pouco — completou, puxando o garoto com ele pelos corredores silenciosos, como se fosse só mais um dia normal de aulas numa escola comum.
…
No dia seguinte, Yoongi e Jimin voltaram ao quarto de Hoseok. Diferente do deles, em que seus próprios quartos ficavam lado a lado, o de Hoseok era isolado, no fim do corredor. Mas isso não era um problema, Yoongi já havia decorado a senha de acesso.
Entrou primeiro, sorrateiro e silencioso como um gato deveria ser. Os passos eram leves, quase imperceptíveis, e seus olhos atentos analisavam cada canto do quarto.
Tudo ia bem, até Jimin, logo atrás, bater a porta sem querer. O som ecoou alto pelo corredor, como um trovão.
— Seu vira-lata idiota! — Yoongi esbravejou, se virando com raiva. — Dá pra fazer silêncio?!
— Foi sem querer, Yoonie... — Jimin choramingou, cabisbaixo — Eu vou ficar quietinho agora.
Yoongi suspirou fundo, contendo o impulso de gritar mais. Virou-se novamente para Hoseok, que ainda dormia, alheio ao caos momentâneo.
Caminhou até a cama com passos cuidadosos e se inclinou, observando o novo híbrido de perto.
— Acho que ele deve estar quase acordando — disse em voz baixa, analisando os mínimos detalhes de sua expressão.
Jimin se aproximou, abaixando-se ao lado de Yoongi.
— Como você sabe? — sussurrou, curioso.
— Não sei... imagino — Yoongi deu de ombros. — A respiração dele parece diferente.
Jimin assentiu, concentrado, e estendeu a mão devagar, tocando uma mecha dos cabelos de Hoseok. A cor era tão intensa, tão viva, que parecia brilhar sob a luz fraca do quarto. Jimin ficou encantado.
Se dependesse dele, passaria horas apenas mexendo naquele cabelo alaranjado. Era como se estivesse tocando fogo sem se queimar. Yoongi cruzou os braços, observando Jimin.
— Você vai acabar acordando ele assim — murmurou, mas sua voz soava carinhosa.
Naquele instante, os três estavam reunidos pela primeira vez — um gato desconfiado, um cachorro carente e, uma pequena raposa prestes a abrir os olhos para um mundo que não fazia ideia do que lhe aguardava.
— Quero que ele acorde logo — murmurou Jimin, ainda acariciando distraidamente os cabelos de Hoseok.
— Não sabemos se ele vai conseguir — respondeu Yoongi, sério. — Precisamos esperar. Mas, pelo que eu ouvi, ele está indo bem. Se já trouxeram ele pro quarto, é porque realmente vai conseguir.
Nesse instante, um murmúrio fraco escapou dos lábios de Hoseok.
Os dois se afastaram num pulo. O rabo de Yoongi se eriçou por completo, e Jimin explodiu em gargalhadas. Parecia que o gato tinha levado um choque.
— Que susto! — Yoongi exclamou com a mão no peito, ofegante.
Mas, apesar do susto, voltou rapidamente até a cama. Hoseok contorcia levemente o rosto, franzindo o cenho, até que finalmente abriu os olhos, lentos, pesados, como se estivessem despertando de um sono muito profundo.
— Ele tá acordando, Yoon! — Jimin pulava de empolgação, com os olhos brilhando.
— Dá pra parar com isso, vira-lata? Fica quieto, vai assustar o Ferrugem — Yoongi resmungou, embora seus olhos também brilhassem discretamente.
— Pare com esses apelidos! Eu sou o Jimin, e ele é o Hoseok! — retrucou Jimin, emburrado, cruzando os braços e fazendo bico.
Hoseok abriu os olhos lentamente, primeiro olhou para Yoongi, depois para Jimin. Não virou a cabeça, apenas os seguiu com o olhar, como se estivesse tentando entender quem eram aquelas figuras tão diferentes... e ainda assim tão familiares.
Os dois sabiam exatamente o que ele estava sentindo. Aquele primeiro despertar era o mais difícil. Um quarto branco, dois estranhos com orelhas e rabos felpudos. Até mesmo seu próprio corpo não parecia totalmente seu. Nenhuma lembrança, nenhuma explicação.
— Olá — disse Yoongi, com um tom calmo e direto — Sou Yoongi, e esse aqui é o Jimin. Somos, por assim dizer, seus irmãos.
Hoseok piscou devagar, tentando absorver o que ouvia.
— Meus irmãos? — repetiu, a voz rouca, se esforçando para se acostumar com as palavras que ainda soavam estranhas na boca.
— Ele fala! — exclamou Jimin, os olhos arregalados, olhando para Yoongi como se fosse um milagre.
— E por que eu não falaria? — Hoseok franziu o cenho, surpreso com a reação dos dois.
Com cuidado, Yoongi o ajudou a se sentar na cama, apoiando suas costas.
— Porque quando a gente acorda… não conseguimos falar — explicou Jimin, sério. — A gente esquece até isso. É como se… voltássemos a ser bebês.
Yoongi arqueou as sobrancelhas, visivelmente incomodado com a comparação. Ele odiava ser associado a qualquer coisa fofa ou frágil.
— Quando acordamos do quê? — perguntou Hoseok, levando a mão à cabeça. Uma dor leve e uma tontura o atingiram, fazendo-o fechar os olhos por um segundo.
— É isso que vou te explicar agora — disse Yoongi, se aproximando mais, com o semblante sério. — Antes que eles percebam que você acordou.
Ele olhou brevemente para a porta, garantindo que ainda estavam seguros.
— Não sei por que você acordou assim, já falando, já entendendo — continuou. — Mas isso é raro, quase impossível. Então preste atenção.
Yoongi respirou fundo.
— Vou te contar tudo o que descobri nesses últimos meses. Sobre o que somos. Sobre esse lugar. E sobre o que estão fazendo com a gente.
Hoseok assentiu lentamente, ainda tentando entender tudo. E, naquele momento, com o coração acelerado e os olhos atentos, ele ouviu sua nova vida começar — pelas palavras de um gato mal-humorado e de um cachorrinho carente.
Yoongi contou tudo. Sem omitir os detalhes mais sombrios, sem suavizar as verdades. Falou sobre os experimentos, sobre a modificação genética, sobre os testes, as fichas, os planos de venda no submundo. Disse o que sabia, e também o que imaginava. Hoseok ouvia em silêncio, mas a expressão de nojo em seu rosto falava por si só.
A cada nova informação, ele fechava ainda mais a cara. A simples ideia de ser criado para servir aos desejos sádicos de humanos o enojava.
Mas algo em Hoseok era diferente.
Enquanto Yoongi falava, Hoseok processava tudo de forma rápida, precisa, como se sua mente corresse à frente das palavras. Ele imaginava possibilidades, traçava conexões, e até mesmo começava a formular hipóteses e equações mentais para preencher as lacunas que Yoongi deixava.
Yoongi e Jimin eram inteligentes, com alta capacidade de aprendizado. Mas Hoseok era além. Sua inteligência já beirava o extraordinário.
— Preciso que me leve à sua fonte de informação — disse Hoseok, arrumando os cabelos com naturalidade, como se estivesse prestes a resolver uma simples equação.
— Computadores? — perguntou Yoongi, já sabendo a resposta.
— Isso. Creio que consigo mais respostas se procurar diretamente lá.
Yoongi não perdeu tempo. Levou Hoseok pelos corredores escondidos até a sala onde costumava fuçar nos computadores. Mostrou rapidamente como acessar os arquivos e como fazer buscas, mas Hoseok pegou tudo com facilidade impressionante.
Logo o ruivo já estava digitando com precisão, abrindo pastas, navegando entre janelas, seus olhos correndo pelas telas com uma velocidade inacreditável. Ele lia como se já soubesse o conteúdo.
Yoongi observava em silêncio, encostado na parede, de braços cruzados.
— Isso é... assustador — murmurou, vendo Hoseok devorar páginas e páginas de informação como se estivesse lendo histórias infantis.
O mais novo dos três estava completamente focado. Ali, diante da tela iluminada, uma nova parte do plano começava a nascer. Porque Hoseok não queria apenas entender o que eram. Ele queria descobrir como sair dali.
— Hum... então eles são cientistas — começou Hoseok, o tom carregado de sarcasmo enquanto observava a tela do computador — Estão criando uma nova forma de vida, que somos nós, para sermos submissos como animais domésticos, moldados pra obedecer e servir... vendidos como brinquedos vivos.
Ele soltou uma risada baixa, maliciosa.
— Mas... algo não estava nos planos deles.
— Algo? — perguntou Yoongi, curioso, se aproximando mais da mesa.
— Nascemos com discernimento. Nossa lógica é incrível — respondeu Hoseok, com os olhos brilhando de ideias. Mas, ao virar-se e ver Jimin tentando pegar o próprio rabo, completou: — É... nem todos nós.
— Jimin é um idiota, não ligue — disse Yoongi, sem qualquer cerimônia.
— Que? — perguntou Jimin, distraído, ainda girando em círculos tentando alcançar o que era literalmente parte do próprio corpo.
Foi então que Hoseok pegou uma caneta de luz em cima da mesa e a apontou para a parede. No mesmo instante, Yoongi deu um salto instintivo, tentando agarrar o feixe.
O ruivo gargalhou alto.
— Não só o Jimin — disse, claramente se divertindo.
Yoongi se recompôs, pigarreando e ajeitando a roupa com dignidade ferida.
— Foi só um... infeliz gatilho mental — murmurou, tentando disfarçar.
— Gatinho mental? — repetiu Jimin, confuso, agora entretido com o rabo alaranjado de Hoseok, que se movia de leve.
— Gatilho, Jimin. Gatilho mental — Yoongi revirou os olhos. — Esquece. Vamos ao que interessa.
— Deve estar pensando o mesmo que eu — disse Hoseok, voltando ao tom sério.
— Imagino que sim — respondeu Yoongi, os dois trocando um olhar carregado de entendimento.
Então, surpreendentemente, foi Jimin quem falou:
— Sair daqui?
Os dois o encararam por um segundo, surpresos.
— Isso mesmo, Jimin. Bom menino — disse Hoseok, sorrindo enquanto passava a mão carinhosamente na cabeça de Jimin, que imediatamente ficou todo feliz, abanando o rabo com entusiasmo.
— Precisamos realmente sair daqui — completou Hoseok, com a voz firme.
E naquele momento, pela primeira vez, os três estavam completamente alinhados. O plano ainda era incerto, mas a decisão estava tomada. Eles iam fugir. Ou pelo menos, tentar.
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